sábado, 19 de dezembro de 2015

1º Microconto Poético


 APAGEM TODAS AS VELAS,ANTES QUE ELAS QUEIMEM TUDO.
 





Entre os teus lábios
Eugénio de Andrade

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha. 
 
 

Operação Rescaldo
Ednei Pereira Rodrigues

Vários tons de laranja
Cenoura amassada no livro
Legume incólume à tragédia
A pureza do purê purgante
Tudo é cibalho para o falho
A escrita que crepita
Não repita o parasita
O plural do pural
A coersão do coelho pelo coerente
Enxengar pela orelha
Tudo parelha a grelha
Tapiz de tapiti exorna o vazio
No purgatório encontrei o estro
Deparei-me com você 
O pecado ecado no silêncio
Quando clama a flama
A combustão espontânea faz o esponto do rifle
Temporada de caça aberta ao caçapo
No ardil refil do que penso
Débil fértil redundância
Quando a redoma não resiste ao redor.
 
Glossário: 
 
incólume:ileso,intacto ,sem ferimentos
cibalho:alimento
pural:carvão pulverizado
Tapiz:tapete
exorna:enfeite 
refil:conteúdo descartável,que pode ser substituído
Tapiti&caçapo:coelhos

 
 
Pergunta-me

Mia Couto"Raiz de Orvalho"

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Inspiração Trágica

      

MAR DE LAMA
André Vallias

não basta ser metáfora:
o nosso mar de lama
tem que virar catástrofe
para adensar a trama
do sórdido espetáculo
o que a mina embalsama
nessas barragens lôbregas
agora se esparrama
por léguas e quilômetros
e mórbido amalgama
em um cimento hórrido
o que já teve a fama
de ser muito bucólico
cenário tão terrífico
com destruição que inflama
o coração mais frígido,
no entanto, não conclama
o Estado a ser mais rígido
na atuação do Ibama,
como estaria implícito
que nada, o Estado chama
de excêntrico e esquisito
quem cumpre a lei e ama
a natureza; explícito,
nos diz que a dinheirama
que o dono tão solícito
nas eleições derrama
não o faz menos crítico



Irreversível
Ednei Pereira Rodrigues

Parca carpa na praça
Tâmbi para o Tambaqui
Patinga patível no pátio
Quando o pático é normal
Pescador à piançar a piapara
A tibiez da tílapia sem lápide
O estupro do esturjão não foi consensual
Pureza punível do punaru
O estupor que ainda se ouve
Anecúmeno cemitério de minério
Alma de lama incorpora o incomum
Vai para o limbo alevino
Não podia ser leviano
Incompto de taipa que se forma
Véiculo no ímpeto do teto
Estuque estúrdio do estruído 
Carro para roçar o vazio
Arrostar o arro de arroio
Logo de lodo logra o loquaz.



Glossário:
Tâmbi:luto,cerimônia religiosa
tambaqui,patinga,piapara,tílapia,esturjão,punaru=peixes
patível:que se pode sofrer,tolerável
piançar:desejar algo
Anecúmeno:área inabitável
incompto:sem adorno ,feito sem a rte
estúrdio:incomum
estrúido:destruído
arro:lama




MATÉRIA INERTE
André Vallias

o diretor solerte
garante ao jornalista:
“é só matéria inerte,
não apresenta risco”
contudo se converte
de súbito na morte
e rápido liquida
toda espécie de vida
agora o povo exclama
com ódio, vendo a lama
mortífera: “acabou-se
pra sempre o rio Doce”
e como não bastasse
o feito, ela ameaça
ainda causar dano
maior lá no oceano

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Anagramas Kafkianos

 Soneto das Metamorfoses
Carlos Pena Filho,Livro Geral

A Edmundo Morais

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

Estátua Franz Kafka
Ela fica no quarteirão judeu e representa duas de suas obras. O homem sem cabeça aparece no conto “Descrição de uma Luta” (Description of a Struggle) e, no pé da estátua, há essa base ovalada e alguns desenhos no chão que remetem à uma barata, tal qual em “Metamorfose” (Metamorphosis).
E quem está sentado nos ombros do outro, de chapéu, é o próprio Franz Kafka.


Sevandija
Ednei Pereira Rodrigues

 Isidora hoje estou irisado
Por causa desse estranho castanho
Tacanho desejo do tácito
Tento disfarçar com o bege que protege a prótese
A ocisão do ocre
Armazenei noites em tonéis de ebano
Anebo nesta ooteca sem biblioteca
Zigoto no esgoto como antídoto do escroto
Inseto Isento de insensatez
O frágil quita a quitina
Antecipa as antenas para captar seus desejos
Sem intimidade no bueiro como budoar
Tudo dissoluto no duto
Soluto que se soltou de preceitos
O esputo como fruto deste luto
Atributo de um minuto enxuto
Todo este alor do ralo significa algo
Difícil denotar o adentro sem detonar ao redor
É dor que redobro sem sentir o vazio.


 Glossário:
irisado: adj. Diz-se do que possui ou foi colorido com as cores do arco-íris.
Que possui ou apresenta as cores do arco-íris; cujos reflexos são coloridos: vidro irisado.
tacanho:pequeno,baixo
ocisão:morte
anebo:aquele que não atingiu a puberdade
ooteca: A maioria das baratas é ovípara (põe ovos) e seus ovos são envoltos e protegidos pela ooteca (envoltório constituído de membrana coriácea, onde os ovos contam com ambiente favorável), cujo formato, tamanho e número de ovos presentes variam conforme a espécie.
quitina: proteína que constitui a unha e o exoesqueleto de alguns insetos(um bom exemplo é a barata).
ou seja é a proteína que constitui o esqueleto da barata, o nosso e constituído de cálcio.

budoar: quarto de vestir




Identidade
Mia Couto,Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

sábado, 31 de outubro de 2015

Marítimo

  
JOGOS DE SOMBRAS 
Hermes Floro de Araújo

Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar...

esculturas submersas no Mar de Caribe

tem um mar calmo
nos meus sapatos
com sola de borracha
afundo os pés cansados
enquanto caminho no fundo
das avenidas
de uma cidade submersa
Carlos Assis




 Atlântida
Ednei Pereira Rodrigues

Onda dona do nado
Só é permitido à voga da vogal no Volga
A chefia ríspida do Chenab
A peçonha do Pechora provoca a paresia
Severo Sepik me separa da sereia
A pungência do Pungá como um punhal
Faz a desidratação atravês do dácrio
Desfaz o Accona aconchegante que criei
Veneziana dispensa os calanques e derruba as gôndolas
Aclama um dilúvio dilacerante
Aderiria a diarréia se não fosse o abjeto
Néctico em bolha da ebulição
Deixo minha caspa no Mar Cáspio
A saliente saliva emerge à tona
O supérfluo na superfície do suplício
O suspeito suor suficiente do Tejo
O mediterrâneo mede a medula
O Vístula vistoso atravês da fístula
A essência do Essequibo transborda os poros
A ruptura com o Rupununi deixa-me único
O Escodra que escorre deságua no vazio.


 Glossário:
Volga:O rio Volga, é, com os seus 3688 km, o mais longo rio da Europa, e também o maior do continente em caudal e na área de bacia hidrográfica.
Chenab:  rio Chenab é um longo rio que percorre o subcontinente Indiano, sendo um dos cinco grandes cursos de água que fluem pelo Panjabe, no noroeste da Índia e nordeste do Paquistão.
Pechora: O rio Pechora é um rio do noroeste da Rússia. 
Sepik: Rio Sepik é um rio do nordeste da Nova Guiné com cerca de 1.120 km.
Pungá: O lago Pungá é um lago brasileiro que banha o
estado do Amazonas, e banha o município de Juruácarece 
Vístula:O Vístula é o mais longo rio da Polônia. Tem 1.047 km e sua bacia hidrográfica banha cerca de 192 mil km², ou quase dois terços da superfície da Polônia.
Essequibo: O rio Essequibo é um curso d'água guianense que nasce nas serra Acaraí, fronteira com o Brasil.
Rupununi: Rupununi é uma região na Guiana, América do Sul, constituída por savanas, na sua maior parte, e por floresta tropical. A região é cortada pelo Rio Rupununi.
Escodra:Escodra, é o maior lago dos Bálcãs, localizado na fronteira Albânia-Montenegro.
dácrio:lágrima
Accona: O Deserto Accona é uma área semi-árida, na Toscana, Itália, no
centro da chamada Creta Senesi, perto da comuna de Asciano.
calanques:Um calanque é um acidente geográfico encontrado no Mar Mediterrâneo, que se apresenta sob a forma de uma angra, enseada ou baía com lados escarpados, composta por estratos de calcário, dolomita ou outros minerais carbonatos. Wikipédia
 
 
 
O Dilúvio
Eugénio de Castro, in 'Saudades do Céu'


Há muitos dias já, há já bem longas noites
que o estalar dos vulcões e o atroar das torrentes
ribombam com furor, quais rábidos açoites,
ao crebro rutilar dos coriscos ardentes.

Pradarias, vergéis, hortos, vinhedos, matos,
tudo desapar'ceu ao rude desabar
das constantes, hostis, raivosas cataratas,
que fizeram da Terra um grande e torvo mar.

À flor do torvo mar, verde como as gangrenas,
onde homens e leões bóiam agonizantes,
imprecando com fúria e angústia, erguem-se apenas,
quais monstros colossais, as montanhas gigantes.

É aí que, ululando, os homens como as feras
refugiar-se vão em trágicos cardumes,
O mar sobe, o mar cresce. e os homens e as panteras,
crianças e reptis caminham para os cumes.

Os fortes, sem haver piedade que os sujeite,
arremessam ao chão pobres velhos cansados.
e as mães largam. cruéis, os filhinhos de leite,
que os que seguem depois pisam, alucinados.

Um sinistro pavor; crescente e sufocante,
desnorteia, asfixia a turba pertinaz:
ouvem-se urros de dor, e os que vão adiante
lançam pedras brutais aos que ficam pra trás.

Raivoso, o touro estripa os míseros humanos
que o estorvam, ao correr em fuga desnorteada,
e pelo ar tenebroso as águias e os milhanos
fogem, com vivo horror, daquela estropeada.

Cresce a treva infernal nos cavos horizontes;
o oceano sobe e muge em raivas cavernosas,
e as ondas, a trepar pelos visos dos montes,
fazem de cada vez cem vítimas chorosas!

Os negros vagalhões, nos bosques mais cimeiros.
silvam e marram já, em golpes iracundos;
resplendem raios mil em rútilos chuveiros,
e os corvos, a grasnar, desolham moribundos.

Blasfémias, maldições elevam-se à porfia;
fustigado plo raio, aumenta o furacão;
cada ruga do mar acusa uma agonia,
cada bolha, ao estalar, solta uma imprecação.

Cresce no mar, sobe o mar... e traga, rudemente.
da mais alta montanha o píncaro nevado.
e um tremendo trovão aplaude a vaga arlente,
que envolve, ao despenhar-se, o último condenado.

Cresce o mar, sobe o mar, que já topeta os céus:
e, levada plo fero e desabrido norte,
sua espuma, a ferver, molha o rosto de Deus,
que lhe encontra um sabor nauseabundo de morte...

Cresce o mar, sobe o mar... Cada vaga é uma torre!
No céu, o próprio Deus melancólico pasma...
E, pelos vagalhões acastelados, corre
a Arca de Noé, qual navio-fantasma...

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Ser Serôdio

Conclusão a sucata 
 Fernando Pessoa

Conclusão a sucata !... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...

A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...

Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou ?

Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...
foto de Carlos Eduardo Savasini Ferreira http:carlossavasini.blogspot.com


Mínimo Mínio
Ednei Pereira Rodrigues

A ferrugem adianta o Outono
Deixa tudo monocromático
Deixo oxidar as oxítonas sem oxigênio
Quando a cidade faz a sua ecdise
A sucata como sôfrego pespego
Tudo pela sucessível inércia
Sem motor para impor rumor
O capô faz complô com a morte e resiste
A congoxa da congosta em mais um congestionamento
O aziúme que abre a chaga da azinhaga
A centelha da quelha frenética
Lanha o lânguido Landau na ladeira
O monza moído no topo da montanha de ferro
Belina como beliche para um sonho bélico
A seda do sedan não disfarça os séculos
Ainda existe um pouco de suavidade
O corrossivo serve de tugúrio para mendigos
Não resolve o problema de habitação
Alguns ainda preferem o papelão por mais conforto
Ser característico caracol,quando a aparência pouco importa.

Glossário:
ecdise:Ato de soltar ou perder o tegumento, como no caso de certos insetos, a pele nas serpentes, a pelagem em certos mamíferos e a plumagem entre as aves; muda. Antôn: êndise.
pespego: O que embaraça ou causa incômodo; estorvo.
congoxa:Angústia
congosta:rua estreita e comprida
 azinhaga:caminho estreito
quelha:rua estreita
lanha:(lanhar)machucar,ferir
tugúrio:casa velha


O Homem de Ferro
Marcos Prado

Êxtase sob dureza!
Voltemos à idade do ferro!
Ferro! Sobre ferro!
Não haverá terra pra suportar o que peso!

Morte lenta a quem enferruja!
Abelhas dentro da armadura!
Merece chumbo a cultura!
Um homem se conhece pelo tamanho da ferradura!

Não haverá mais remédios!
Os belos serão os bélicos!
Elmos no lugar de cérebros!
O ferro-velho tomará os cemitérios!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Lua inspiradora


Ao Luar
 Augusto dos Anjos

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


Selênico
Ednei Pereira Rodrigues

Desabrocha uma Magnólia em Maginus
Antlia protetora dos antílopes
Investe sua pungência contra esse magnetismo
A ponta bisturi afronta o obscuro
Antlia florífaga rompe o ázigo
Draco rasga o darto sem anestesia
Magarefe que faz a arefação
O sangue que escorre da jugular de Hermite
Outra cirurgia de Hérnia inguinal
Outro transplante de baço para o baldo
Aríete deixa Aristarchus árido
Aquele para petardar Petavius
O método de meter meteoro como sodomia
Pode ser hermético até certo ponto
Quando a solidão deixa de ser Hetera
Não reparo na sua Herpes
Toda languidez de Langrenus na lapela
E o cruor no saguão como saguate
O sacrifício da pucela para saciar algum sáfaro
Seleciona a safena de Seleucos para a transfusão
Vendelinus vendível no tráfico
Albardar Albategnius sem culpa
A simonia de sua simples simpatia
Quando já estou simpléctico à você
Morena Moretus aumenta essa morfina
Entravado nessa dor doravante.
 
 
 
Glossário:
Maginus,Hermite,Aristarchus,Petavius,Langrenus,Seleucos
Vendelinus,Albategnius, Moretus= Crateras lunares
Antila,Draco:estrela de uma constelação do hemisfério celestial sul
ázigo:veia
magarefe:Abatedor de gado; homem que, nos matadouros, mata e esfola as reses.Fig. Mau cirurgião.
arefação: Dessecação das substâncias que vão ser reduzidas a pó.
Hetera: mulher dissoluta; prostituta elegante e de aparência muito distinta.
cruor:sangue
saguate:presente
Albardar:oprimir 
simpléctico:Que está entrelaçado com outro corpo. 
 
 
Desabrocha uma Magnólia em Maginus
 
 
 Sangria
Mario Cezar

A noite vagueia
sobre a veia
aberta em dores.

E quando as flores se
perdem no verão
uma bruta sangria de
insônia
habita a amargura dos olhos.

Em cada recanto
escuro dos quintais
cruza histórias de
homens exilados.

Homens que espiam
a dor degolar as primeiras
madrugadas
e depois devoram a mais
profunda solidão do século.
 
 
Antlia protetora dos antílopes
 
 
 Ar Livre
Edmundo Bettencourt, "Antologia Poética"

Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
        

sábado, 19 de setembro de 2015

Palavras ao vento


 
 Vento
Cecília Meireles
in Mar Absoluto


O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.



filme inspirador:A boneca inflável
 

A Boneca inflável
Ednei Pereira Rodrigues

Sensível à minha aiquemofilia
A sua gibosidade com o ghibli para blindar
O xaroco para te xaquear aquém o desejo
Vítima da estrela cadente
Refém da Refega que te repreende
Renasce do resíduo da resistência 
Sua anemofilia deixa-me eólico
Ensina-me a levitar na borda com o Bóreas
Flutuar nas nuvens com o Alísio
A hipoplasia ofegante do incerto
Depois que te ergui com o Chergui
Revezo seu recheio com o Cierzo
Ganho só seu desprezo
Harmonia com o Harmatã que te completa
Sua Mioclonia com o Minuano
A mistura com o Mistral para a perfeita simetria
Palpável com o pampero de amparo
Fiel ao mínimo Samiel que sana a sua amielia
Simum é sinal de sua sinuosidade
A simples sinergia da sílaba
Que a sisudez do siroco não percebe.


Glossário:
 aiquemofilia:Prazer ou excitação sexual derivada do uso de agulhas ou objetos perfurantes.
ghibli,xaroco,Refega,Bóreas,Alísio,Chergui,Cierzo,Harmatã,Mistral, Samiel,pampero,Simum,Siroco=VENTOS
anemofilia:Modo de polinização por intermédio do vento.
hipoplasia:Patologia Insuficiência de desenvolvimento de um tecido ou de um órgão.
  Mioclonia:Contração muscular involuntária.




NOTURNO
Augusto dos Anjos
Eu e outras poesias, 1920


Chove. Lá fora os lampiões escuros
Semelham monjas a morrer... Os ventos,
Desencadeados, vão bater, violentos,
De encontro ás torres e de encontro aos muros.

Saio de casa. Os passos mal seguros
Trêmulo movo, mas meus movimentos
Susto, diante do vulto dos conventos,
Negro, ameaçando os séculos futuros!

De São Francisco no plangente bronze
Em badaladas compassadas onze
Horas soaram... Surge agora a Lua.

E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos
Enquanto a chuva cai nos cemitérios
E o vento apaga os lampiões da rua!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MITOLOGIA GREGA




A medusa de fogo
Cassiano Ricardo 1895 - 1974

A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.

A simples caída da bolha
D'água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque — de tão rubra —
Poderá te acordar.

E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?

Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.

E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!




A Vingança da Pedra
Ednei Pereira Rodrigues

Perônio Persente o Perverso Perseu
Perpétuo perpianho estranho
Micela Micante de Micenas
Meu Niilismo para o seu Materialismo
Apetece pela planície de Cistene
Ofereço-lhe uma Cisterna
Não aceita uma eclusa como escusa
Nem minha Urolitíase por sua litolatria
Réprobo de noma por sua nolição de nonadas
Precito a ser puteal de pústula pusilânime
Sem alforria da alforreca
Ofensa aos Ofídios,meu cafuné fúnebre de ofito
Carícia de Carrara incomoda quando queria o orgasmo 
Estrênuo quartzo enfrenta o estrepe da Urutu
Ingênuo gabro contra a sisudez da sistruro
Franja de Naja feri como navalha
Naga nagaica como nagalho não te sufoca 
Trunfa de ibioca adorna sua alopecia
Mucronado Topete de Muçurana contunde
Sucuri como se fosse um bisturi machuca
Arcara ao carcará a responsabilidade de seus atos.

Glossário:

Perseu algumas vezes grafado como Perseus (em grego moderno: Περσέας), é um dos mais célebres personagens da mitologia grega, heróisemideus conhecido por ser fundador da míticacidade-estado de Micenas, irmão de Hércules e patrono tanto da Casa Real de Perseu como da Dinastia Persênica, tendo sido ancestral, segunda a mitologia, dos imperadores da Pérsia. Famoso por ter decapitado a górgona Medusa, monstro que transformava em pedra qualquer um que olhasse em seus olhos.[Nota 1] Como um semideus, Perseu era filho de Zeus, que sob a forma de uma chuva de ouro, introduziu-se na torre de bronze e engravidou sua mãe, a mortal Dânae[Nota 2] , filha de Acrísio, rei de Argos. https://pt.wikipedia.org/wiki/Perseu
perpianho,gabro:pedra
Micela:Cada uma das partículas que se encontram em suspensão nas soluções coloidais, vivas ou inertes, formadas por agregados de moléculas.
eclusa:Obra de alvenaria que, munida de comportas, forma uma câmara destinada a tornar navegável um curso de água.
Urolitíase:pedra no rim
litolaria:culto a pedra
Réprobo,precito:condenado
noma: gangrena na boca
nolição:negação
nonadas:bagatelas
puteal:muro de pedra
alforreca:medusa
ofito: mármore verde com manchas amarelas, que tem aspecto de pele de cobra.
carrara:mármore branco
urutu,sistruru,naga,ibioca,muçurana:cobras
nagaica :chicote
nagalho:lenço de pescoço
trunfa: Cabelo abundante e desgrenhado.
mucronado:tudo aquilo que termina em ponta aguda e afiada.
  
"Perseus Turning Phineus and his followers to Stone" por Luca Giordano - http://www.uwm.edu/Course/mythology/0800/1429.jpg. Licenciado sob Domínio público, via Wikimedia Commons - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Perseus_Turning_Phineus_and_his_followers_to_Stone.jpg#/media/File:Perseus_Turning_Phineus_and_his_followers_to_Stone.jpg


MEDUSA

SYLVIA PLATH
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo (do livro Ariel, a sair pela Verus Editora)


Longe dessa península de bocais pétreos,
Olhos revirados por varetas brancas,
Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,
Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,
Lente de piedades,
Seus parasitas
Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,
Empurrando como corações,
Estigmas vermelhos bem no centro,
Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.
Arrastando seus cabelos de Jesus.
Escapei, me pergunto?
Minha mente sopra até você
Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,
Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.
Em todo caso, você está sempre ali,
Respiração trêmula no fim da minha linha,
Curva d’água pulando
Em meu caniço, ofuscante e agradecida,
Tocando e sugando.
Não chamei você.
Não chamei você mesmo.
No entanto, no entanto
Você veio a vapor em minha direção,
Obesa e vermelha, uma placenta
Paralisando amantes impetuososos.
Luz de naja
Espremendo o hálito das rubras campânulas
Da fúcsia. Sem poder respirar,
Morta e sem dinheiro,
Superexposta, como num raio-x.
Quem você pensa que é?
Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?
Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,
Garrafa aonde vivo,
Vaticano espectral.
O sal quente me mata de enjôo.
Imaturos como eunucos, seus desejos
Sibilam para meus pecados.
Fora, fora, coleante tentáculo!
Não há mais nada entre nós.


O silêncio da Medusa 
Renata Bomfim

A pedra retribui o carinho

do olhar.
Os lábios fixos ocultam
um jogo erótico.
Medusa sorri.


A dureza dissimulada
do homem de carrara,
denuncia o gozo contido,
de um coração que pulsa
apenas na intenção.


O organismo complexo e fértil
torna-se acessível:
heras brotam de suas narinas.


O jardim da caluniada Medusa
guarda
exemplares singulares:
seu tesouro!
seu orgulho!


Machos exemplares,
rijos como o amor
que lhe dedicam.


Incompreendida, só,
mal vista e mal dita,
Medusa guarda silêncio,
já não necessita das palavras:


A pedra é consolo e guarita.

sábado, 15 de agosto de 2015

Protesto Surreal

                                                                              
                                                                              

ARENGA

Affonso Romano

félix fúria foice e martelo
cidadão como um cão
danado da vida
porque a vida
está custando
os olhos da cara
porque a vida está cara
como uma joia
porque a vida está
pela hora da morte
repito (eu: vocês)
félix fúria foice e martelo
farto até os bagos
de barriga vazia
promessa não enche barriga
félix feixe de vida
farto da fúria do lucro
feito foice
martela
teu ouvido
chegou a hora
chegou a hora
agora

 Ganância desmedida
Ednei Pereira Rodrigues

Adianta a adiafa considerável do larápio para apiloar o parálio
A propina quita o propileu de seu alcácer
Corrupto corruscuba tem imunidade em Cuba
A cafurna do cafunje é proeminente
Onde se prolifera meliantes do progresso
Cobiçável cobocó do gabiru janota
Que o caboclo apiança em seu prândio
Esmola de sêmola não sustenta sua família
Urumbeva vendível à endívia, ao endível
Caburé comuta o voto por comua
Cabrobó alborca o pleito por alborque
Bacharel oferece a albrecha para preencher uma brecha do estômago
O sufrágio em rágios aumenta o contágio
Impor Imposto ao Impulso
Tributo ao tripúdio moderado
Escrutínio sem escrúpulos com escruncho
O escroto do escroque serve de escudo
Desgoverno da Górgone
Estupidez que estua
 Bruaca para Brunir a Bruma
Gornope como Gorjeta 
Gólgota sem uma Gota. 
Glossário: 
adiafa:gorjeta
apiloar:amassar
Parálio:próximo ao Mar
propileu: Pórtico monumental na entrada de um templo grego
alcácer:palácio
corruscuba:esperto,hábil
cafurna:esconderijo
cafunje:ladrão
cobocó: tipo de queijo
gabiru:rato
janota:bem vestido
apinça:desejar
prândio:refeição 
sêmola:arroz
urumbeva,caburé&cabrobo:caipira
endívia:verdura
endível:tudo o que se pode comer
alborca:alborcar,trocar
alborque:refeição
albrecha:pêssego
rágios:moscas
escruncho:roubo
Górgone,medusa:
gornope:trago de bebida alcoolica
Mulher horrenda, perversa, repulsiva, por alusão às três fúrias mitológicas Esteno, Euríale e Medusa, mulheres que tinham serpentes por cabelos e que transformavam em pedra aqueles que as encaravam.
Golgota: Lugar onde se sofre implacavelmente.


Protesto

 Walmir Ayala, 'O Edifício e o Verbo'

Não é no teu corpo que se imola
para a ceia dos meus sentidos
a vítima núbil, a áurea mola
que cinge o amor recente aos idos.

         Mas é também no teu corpo que corre
         o sangue que o meu sangue socorre.

Não é no teu corpo que se ergue
a guerra fria dos meus nervos.

nem nasceram tuas transparências
para a cegueira dos meus dedos.

         Mas é também no teu corpo insano
         que perscruto meu desconforto humano.

Não é no teu corpo, nos teus olhos
de fauno, que colho as minhas ditas,
nem o jasmim de tua boca flore
para a visão que me solicita.

         Mas é também no teu corpo único
         que o amor à forma do Amor reúno.

Não é no teu corpo que concentro
minha sede (esta sede ferina
que morre de seu farto alimento
e vive de quanto se elimina)

         Mas é também teu corpo a medida
         destas águas sobre a minha ferida.

Não é no teu corpo, mas é tanto
no teu corpo meu último refúgio,
que amoroso e em pânico me insurjo
contra a fonte que és: júbilo e pranto.

         Mas é também no teu corpo o tudo
         da solidão em que me aclaro e escudo.

         Em teu corpo, canal que brande e acalma
         minha alma, este pássaro árduo e mudo
         na estranha migração da tua alma.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Aliteração Inspiradora



Sonho de um monista
Augusto dos Anjos

 Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo
Viajávamos, com uma ânsia sibarita,
Por toda a pró-dinâmica infinita,
Na consciência de um zoófito tranqüilo.

A verdade espantosa de Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus - essa mônada esquisita -
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,

Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!




Anatomia para principiantes
Ednei Pereira Rodrigues



Esquálido Esqueleto Esquecido na Esquina da Saudade

Esquivoso à claridade

Disfarçava o banzo

Ombrear-se com o breu

Pousa uma fênix na espádua

Perpétua Tábua

Grabato para o gracejo das gralhas

Costela Labirintiforme

Armadilha para pássaros

Dedilho seu dédalo para deduzir o vazio

Falta uma vértebra para a Verve

Espôndilo como Espólio

Esplêndido Esplênico

Sua decomposição que debela

Putrefação na Puberdade

Quebrar o jejum com o austro

Anormal Anorexia

Faltou as grades para deter a grafia

Catre para atrelar

A extração do cateter revelou o infinito

Aliviar o fardo à farelo.



Inexorável 
Cruz e Souza

Ó meu Amor,que já morreste,

Ó meu Amor,que morta estás!

Lá nessa cova a que desceste,

Ó meu Amor,que já morreste,

Ah! nunca mais florescerás?!

Ao teu esquálido esqueleto,

Que tinha outrora de uma flor

A graça e o encanto do amuleto;

Ao teu esquálido esqueleto

Não voltará novo esplendor?!

E ah!o teu crânio sem cabelos

Sinistro,seco,estéril,nu...(Belas madeixas dos teus zelos!)

E ah! o teu crânio sem cabelos

Há de ficar como estás tu?!

O teu nariz de asa redonda,

De linhas límpidas,sutis

Oh!há de ser na lama hedionda

O teu nariz de asa redonda

Comido pelos vermes vis?!

Dos teus dois olhos-dois encantos

-De tudo,enfim,maravilhar,

Sacrário augsto dos teus prantos,

Os teus dois olhos-dois encantos

Em dois buracos vão ficar?!

A tua boca perfumosa,

O céu do néctar sensual,

Tão casta,fresca e luminosa,

A tua boca perfumosa

Vai ter o cancro sepulcral?!

As tuas mãos de nívea seda,

De veias cândidas e azuis

Vão se estinguir na noite treda

As tuas mãos de nívea seda,

Lá nesses lúgubres pauis?!

As tuas tentadoras pomas

Cheias de um magníficoelixir,

De quentes,cálidos aromas,

As tuas tentadoras pomas

Ah!nunca mais hão de florir?!

A essência virgem da beleza,

O gesto,o andar,o sol da voz

Que iluminava de pureza,

A essência virgem da beleza,

Tudo acabou no horror atroz?!

Na funda treva dessa cova,

Na inexorável podridão

Já te apagaste,Estrela nova,

Na funda treva dessa cova,

Na negra transfiguração!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Onde estão os vagalumes?



Máquina breve
 Cecília Meireles
 
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.


Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

  


O voo da esmeralda
Ednei Pereira Rodrigues

Líbero o berilo da falange
Anilha cintila no pálamo
Cara de cariáster para cariátide
Cadência da essência
Flora perdeu seu Farol
Por isso aumentaram os naufrágios
Aspecto patesco da maresia para esmaiar
Viver sob a ilusão sintética do neon
Um escuro impuro que revela o reverso
Faço reverência para o revérbero
Quando a pupila se acostuma com o escuro
Disfarço o garço da garça,muito branco
Tons para Tonsar a Ovelha
A Tonsura de Saturno
Badana contra o níveo
O façalvo fareja o obscuro
Tingir o que tine da afrasia da frase
Brilho intenso do áscio
A cisão em qualquer coisa que não vejo
Procuro o rútilo dentro do Fifó
Quebro o holofote como protesto.


  Glossário:
berilo:esmeralda
pálamo:Membrana existente entre os dedos de algumas aves.
cariáster:estrela
cariátide:estátua feminina
patesco:marinheiro inexperiente
badana:ovelha negra
façalvo:nariz branco
Fifó:lampião 


 
Estrela perigosa
  Clarice Lispector

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar. 



 A Noite É Muito Escura
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa 

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

quinta-feira, 9 de julho de 2015

DECERTO DESERTOS



Tempo
Miguel Torga

 Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!



Ampulheta Quebrada
Ednei Pereira Rodrigues

Serve como relicário
Guarda o banzo
Tudo é reciclável
Até o ausente recíproco
Não é mais oco,repleto de ideias
Atacama atado em meu tálamo
Esse paramo sem ramo
Como um bálsamo
Saara iátrico
Onde não singra o iate
Sangra o disparete
Asclépio do Asco
Galeno tens o antídoto desse veneno
Que entra goela abaixo
Gobi como óbice
Namibe que me anime
Toda aniquilação do anil
Só com uma rajada do Rajastão
Minha tara por Thar
Tapeia essa tapera como tapete
Tardígrado para acolitar a cáfila
Na colina a acolia
Toda argila que me acolhe .


Glossário:

banzo:tristeza
tálamo: leito
iátrico:curar
Asclépio:médico
Gobi:O Deserto de Gobi é um extenso deserto situado na região norte da República Popular da China e região sul da Mongólia. A palavra Gobi significa deserto, em mongol. Wikipédia
Namibe:O Deserto do Namibe é um vasto deserto que vai da costa sul da Namíbia até a costa sudoeste de Angola e faz parte do Namib-Naukluft National Park, a maior reserva de caça de África. Wikipédia
Rajastão: O deserto de Rajastão, no noroeste da Índia.
Thar:O deserto do Thar ou Grande Deserto Indiano é uma extensa região de deserto arenoso situada na região noroeste da Índia e região oriental do Paquistão. Wikipédia



ELOGIO DA MEMÓRIA
José Paulo Paes

O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem. 

sábado, 27 de junho de 2015

Mais do Mesmo



Notícia Poética:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/06/1639604-cemiterio-no-jardim-angela-recebe-esculturas-e-vira-espaco-de-lazer.shtml




 Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde
sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa

 Niilismo
Ednei Pereira Rodrigues
 
Deixa a eixa ser sua madeixa
Peruca de eruca até a nuca
Não se queixa por não ter o eixe
Recuso os recuos do escuro
O peixe também não viu o feixe
Ainda tem o queixo
Quando tudo está fora do eixo
Seu cabedal cabe no cabide
O crepe envolto da prece
Sobre a estrepe
O arbim no jardim se enrola entre as flores
Riqueza com a queza que viceja
O pluto do plural de tudo que se multiplica
O potosi do sopito são os sonhos
Divícia vicia sem ciar
Recuar por causa da cruera
O curare não cura a curva
A culpa do cuíra alípede
Descansa a ansa da ânsia
O repouso para repor o perro.
 
   Glossário:
Eixa&eruca:ervas
eixe:interj Exclamação usada pelos boiadeiros para estimular animais tocados.
cabedal: Acumulação de coisas de valor; capital; bens; riqueza; dinheiro.
crepe&arbim:Fita ou tecido negro que se usa em sinal de luto.
Queza:arbusto
Pluto,potosi&Divícia:riqueza
ciar:remar em sentido contrário
cruera:doença
curare:veneno
cuíra:Impaciência
perro:teimosia


Morte é só vida de trás pra frente

Lou Albergaria, poeta, autora de O Cogumelo que nasceu na bosta profana, que trago aqui todas terças-feiras e que escreve, diariamente no StriPalavras

 Se pensas ver a morte
Como te enganas.
Os olhos nos enganam
Ainda mais
Quando só sabemos olhar
Com razão.
O real muitas vezes é apenas ficção
Uma realidade criada
Por algum espelho
Côncavo ou convexo
Na retina da alma
A imagem se faz trocada
Invertida,
Por isso, transfigura e assombra.
Tantas cores vivas
Não ornamentam a morte.
É só a vida que pulsa
Vibra, agita
Nutre de seiva
Flores, insetos
Beijos…
Um jardim de delícias!
Cismaram, entretanto, colocar um espelho
Bem à nossa frente
E estamos vendo ao contrário.
Só isso.
Não te exasperes, amável amigo,
vou retirar o espelho
Para que possas me ver melhor.