quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Desejos Vãos




Paisagem


Desejei-te pinheiro à beira-mar 
para fixar o teu perfil exato. 
Desejei-te encerrada num retrato 
para poder-te contemplar. 
Desejei que tu fosses sombra e folhas 
no limite sereno dessa praia. 
E desejei: «Que nada me distraia 
dos horizontes que tu olhas!» 
Mas frágil e humano grão de areia 
não me detive à tua sombra esguia. 
(Insatisfeito, um corpo rodopia 
na solidão que te rodeia.) 


David Mourão-Ferreira, "A Secreta Viagem"




Anne Leek 


Vontade de ser poldra
Ulna análogo Ulmo
Ancôneo como âncora
Vontade de ser pirâmide 
Amplexo com o fêmur
Abráquia que abrange o abrasante
Amparo para o Ampato
Sipe do Siple
Acepipe do urente
Sundo de Sundoro
Semeou o Semeru Seminu
Meralgia com o afago à Merapi
Socompa à socapa para o sicoma
Tudo isso,não evita a erupção 
Tíbia para enganar a solidão
Simular afeto na simptose
Fíbula burla a inércia
Usar a sura para estugar o estupor.


                                 Ednei P.Rodrigues


Glossário:
Poldra-polvo ainda pequeno
Ulna- osso medial do antebraço
Ulmo-aparência comum de algumas árvores 
ancôneo-osso triangular pertencente ao cotovelo
abraquia-Ausência congênita dos braços
Ampato- é um vulcão que se localiza no sul do Peru
sipe-grupo de parentesco baseado na linha materna ou paterna
Siple-é um vulcão  potencialmente ativo na Antártida.
Sundoro- vulcão
Semeru- vulcão na ilha de Java na província de Java Oriental
Merapi- Vulcão localizado na ilha indonésia de Java. 
Socompa- Vulcão situado na fronteira noroeste da Argentina .
simptose-debilidade ou enfraquecimento do corpo, de uma das suas partes ou de um órgão.
sura-panturrilha


    no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

Vasco Graça Moura, "Antologia dos Sessenta Anos"

sábado, 23 de setembro de 2017

Mais do Mesmo


A tarada num carro


Eu não minto
Eu invento
E se tomo vinho tinto
Logo me esquento!
Quando sinto,
Eu tento.
Percorro o labirinto,
Busco o vento.
Arranco o teu cinto,
Deixo-te sedento
Aí vejo o teu pinto
E sento!

                                                         Ana C. Pozza



Continuação


Encontra conforto no erétil
Análogo ao Manaslu
Idêntico ao ctenídio
A evolução foi ser híbrido
Faz a erepsina
Diástase de dia
Diástole de noite
Verter à Vertência
Nem tudo sai pelo vertedouro
Vértebras&lágrimas versus o vertical
Seu parentesco com colima
Deixa que se colida
Não se importa com a cólica
Era colendo até certo ponto
A coleorrexia foi cortesia
Demonstra que tudo foi intenso
Veeme do veemente
Assumo a culpa
Mesmo consensual tem excesso.

                           Ednei P.Rodrigues                           

Glossário:

Manaslu:(também conhecido como Kutang) é a oitava montanha mais alta do mundo. Está localizada na cordilheira do Himalaia. Seu nome deriva da palavra Manasa, que em sânscrito significa a montanha do espírito.
ctenídio:
Órgão branquial primitivo de um molusco, que se assemelha a um pente ou pena; tem uma haste principal com lamelas laterais e se desenvolveu do lado interno
erepsina:
Diástase do intestino delgado
Diástase:
Enzima encontrada em sementes em germinação e em certas secreções e tecidos animais.
Diástole:
Movimento de dilatação do coração e das artérias.
Vertência:
Decurso do tempo.
Colima:
O vulcão de Colima é o mais ativo dos vulcões mexicanos, com mais de 40 erupções registadas desde 1576 Situa-se no complexo vulcânico de Colima do qual faz também parte o Nevado de Colima. O seu ponto mais elevado encontra-se a 3850 metros de altitude.
colendo: 
Venerável, respeitável.
coleorrexia:
Rotura da vagina.
Veeme:
Espécie de tribunal secreto que existia na Alemanha, na Idade Média.



Vertentes


As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo

António Ramos Rosa 

sábado, 2 de setembro de 2017

Surrealismo erótico


Panteísmo



Tarde de brasa a arder, sol de verão 
Cingindo, voluptuoso, o horizonte... 
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão 
Dum verso triunfal de Anacreonte! 



Vejo-me asa no ar, erva no chão, 
Oiço-me gota de água a rir, na fonte, 
E a curva altiva e dura do Marão 
É o meu corpo transformado em monte! 



E de bruços na terra penso e cismo 
Que, neste meu ardente panteísmo 
Nos meus sentidos postos e absortos 



Nas coisas luminosas deste mundo, 
A minha alma é o túmulo profundo 
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos! 


Florbela Espanca, "Charneca em Flor"

 Flor Raflésia

Libração da Libido em equilíbrio instável

P/Luciana do Valle

Cartografia do Êxtase

Do ranine ao cérvix
Ampola sem Pálamo
Vontade de ser Fênix
A utopia cabe no tálamo
Enlevo coevo
Há coexistência com o cofator
A ptialina de Arion
Devagar,não quero atalhos
Muitos são os percalços até o peritônio
A varapa da patela 
Musala de Musa
Saliva delineava delírios
Uma dialogia diagonal para o cálamo
Rafe da Raflésia
Loxodromia no Lomedro
Quando o itinerário é ité
Trajeto que trajo como Tilma
Vontade de ser cacto
Para sua acufagia.

                             Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Ranine-As veias linguais começam no dorso, lados e superfície inferior da língua, e, passando por trás junto do trajeto da artéria lingual, termina na veia jugular interna.
A veia comitante do nervo hipoglosso (veia 'ranine'), um ramo de tamanho considerável, começa abaixo da ponta da língua, e pode se unir à veia lingual; geralmente, entretanto, ela passa por trás do hioglosso, e se une à comum da face.
cérvix-(cérvice ou colo do útero) é a porção inferior e estreita do útero, quando ele se une com a porção final superior da vagina.
Ampola-Partindo do ovário para o útero, a tuba uterina é subdividida em quatro partes: infundíbulo, ampola, istmo e porção uterina (na parede do útero).
Pálamo-Membrana existente entre os dedos de algumas aves, répteis e mamíferos.
Tálamo-leito conjugal
ptialina-A Amilase Salivar (ou ptialina) é uma enzima da saliva que, em pH neutro ou ligeiramente alcalino, digere parcialmente o amido e converte-o em maltose. É na boca, com a ptialina da saliva, que começa a digestão química dos polissacarídeos ingeridos.
Arion- é um género de gastrópode da família Arionidae(lesma).
peritônio:Membrana serosa que reveste a cavidade do abdômen (peritônio parietal) e os órgãos que nele se encontram (peritônio visceral).
Mussala-é a mais alta montanha da Bulgária e de toda a península Balcânica, atingindo no topo os 2925 m (9.596 ft). Faz parte da cordilheira Rila.
varapa-o mesmo que escalada.
Rafe-Linha ou crista de junção de duas partes homólogas.
Loxodromia-Linha de navegação, que corta todos os meridianos, sob o mesmo ângulo, e que, nas cartas marítimas, é representada por uma linha reta.
Curva, traçada na superfície de uma esfera, cortando todos os meridianos, sob o mesmo ângulo.
Lomedro-A parte da coxa, que fica por cima do joelho.
ité-Que não tem sabor; insípido. 2 Adstringente (fruta).
tilma-é um tecido tradicionalmente indígena dos povos pré-colombianos de pouca qualidade feito a partir do cacto agave maguey.


    Todos os caminhos me servem.
Em todos serei o ébrio
cabeceando nas esquinas.
Uma rua deserta e o hálito
das pessoas que se escondem,
uma rua deserta e um rafeiro
por companheiro.

Ó mar que me sacode os cabelos
que mulher alguma beijou,
lágrimas que os meus olhos vertem
no suor dos lagares,
que uma onda vos misture
e vos leve a morrer
numa praia ignorada.


Fernando Namora, "Mar de Sargaços"  

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Cerejeiras em flor

    hoje à noite avistei sobre a folha de papel 
o dragão em celuloide da infância 
escuro como o interior polposo das cerejas 
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos... 


dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens 
podia beber a umidade aérea do musgo 
derramar sangue nos dedos magoados 
foi há muito tempo 
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever 
o mundo reduzia-se a um berlinde 
e as mãos eram pequenas 
desvendavam os noturnos segredos dos pinhais 



não quero mais perceber as palavras nem os corpos 
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras 
prossigo caminho com estes ossos cor de malva 
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono 
desta obra que fica por construir... o receio 
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei 
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar 



ficou-me esta mão com sua sombra de terra 
sobre o papel branco... como é louca esta mão 
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas 


Al Berto,"'O Medo'"   


Prelúdio Monocromático

Rêmiges ao invéns de pétalas
Vontade de ser flamingo
Learn to fly
Talante do Tálamo
Um pouco de amatol para a ignição
Agnição do vazio 
Agonia está ocorrendo dentro do planejado
Tudo para manter as aparências
Exigência tácita do exício
Premeditado para premir
Premissas de algo
Premunir-se do fracasso
Premura que empurra para o abismo
Lugar sem Lufar
O caos é contra a energia eólica
Se fosse cráton
Iria ter um motivo 
Pretexto para o texto.

                   Ednei P. Rodrigues

Glossário:
amatol- Explosivo composto de nitrato de amônio e trinitrotolueno.
Agnição-conhecer
exício-perdição,ruína,morte.
cráton-São unidades geológicas bastante antigas, tendo se mantido relativamente estáveis por no mínimo 500 milhões de anos. Por estabilidade entende-se que estes se mantiveram preservados e foram pouco afetados por processos tectônicos de separação e amalgamação de continentes ao longo da história geológica do planeta.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%A1ton 


    O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A outra face



    Cantarei versos de pedras.

Não quero palavras débeis
para falar do combate.
Só peço palavras duras,
uma linguagem que queime.

Pretendo a verdade pura:
a faca que dilacere,
o tiro que nos perfure,
o raio que nos arrase.

Prefiro o punhal ou foice
às palavras arredias.
Não darei a outra face.

Lara de Lemos, 'Inventário do Medo'



Pareidolia

Septo Aldrin respira o ládano
O estéril aspira o almíscar
Insisto na mesma ideia 
Algo ínsito no vazio
Tenho uma vaga ideia disso
Como se fosse uma continuação
A extensão do achaque 
Quando era para terminar na primeira estrofe
Faltou o astronauta para fincar o lábaro 
Quebrar o etmóide
Esternutação involuntária
Capítulo como capídulo
Poesia sem fim
O vade-mécum não passa pelo cécum 
Pupin na pupila
Pupa com aposirma
Vontade de ser mariposa
Estar em Cidônia
Pujar a Dalaca Tapuja.

                                 Ednei P.Rodrigues

Glossário:

Aldrin&Pupin crateras da Lua.
almíscar-é o nome dado originalmente a um perfume obtido a partir de uma substância do forte odor secretada por uma glândula do cervo-almiscarado de outros animais e também de algumas plantas de odor similar.
etmóide-osso do nariz.
aposirma-Ulceração superficial da pele.
Cidônia-é uma região em Marte. Localiza-se no hemisfério norte do planeta numa zona de transição entre a região sul densamente povoada de crateras e as planícies relativamente homogêneas ao norte.
Dalaca Tapuja: é uma espécie de mariposa da família das Hepialidae. Espécie típica da Colômbia.
Capídulo-Espécie de vestuário, com que os Romanos cobriam a cabeça.
cécum-Forma alatinada de ceco(A primeira parte e a mais grossa do intestino grosso, na qual se abre o intestino delgado).


Tecido

O texto tem sua face 
de avesso na superfície: 
é dia e noite, sintaxe 
do que se pensa, ou se disse. 


Tudo no texto é disfarce, 
ritual de voz e artifício, 
como se tudo falasse 
por si mesmo, na planície. 



Seja por dentro ou por fora, 
seja de lado ou durante, 
o texto é sempre demora: 



o descompasso da escrita 
e da leitura no grande 
intervalo dos sentidos. 


Gilberto Mendonça 

sábado, 15 de julho de 2017

Anagramas Ambíguos



Corpo de Ambiguidade

    posso e não posso ir-me noite fora 
    nestes pilares do medo desta dor 
- é quando os dedos ferem (não se tocam) 
    é quando hesito e coro 

é quando vou não vou neste mergulho 
    em seco a imergir em pobre chão 
   de caos e flor e vinho e confusão 

é quando sem chorar me escondo e choro. 

João Rui de Sousa


Etologia

Abada de devaneios
Animal acidental
Malina Maligna 
Para se afogar
Talvez Vikings
Chifres contidos
Estro como servo do cervo
Evocar o acervo de metáforas
O nervo frênico continua intacto
Ganho um galho 
Quando penso em Pinheiros
Vontade de ser árvore
Mácula de Marula 
A mórula do râmulo 
A breve tórula
Quando quebrou a rótula
Raízes se fincam no vazio
No tronco o diafragma inala a arsina
Ansiar por algo
Angústia em Angu.

                                      Ednei P.Rodrigues                     

Glossário:
Abada-Porção contida na aba suspensa pelas mãos: Abada de flores.
Abada é um animal mítico semelhante a um unicórnio.
malina-maré alta
A marula ou canhoeiro (Sclerocarya birrea) (skleros dura, karya noz - referência à semente) é uma árvore de tamanho mediano, originária do bioma das savanas da África oriental.
tórula-fungos imperfeitos escuros.
 A arsina ou hidreto de arsênio ( AsH3 ) é um composto inorgânico gasoso na temperatura ambiente, é inflamável e altamente tóxico[2] constituído de hidrogênio e arsênio.
Rótula-osso arredondado, móvel, situado um pouco acima da articulação do fêmur com a tíbia, na face anterior do joelho.
Angu é uma cratera do planeta Marte.


Desejos Vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

Florbela Espanca, "Livro de Mágoas"

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ocupação Irregular


Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada... 


Olho a roupa no chão: que tempestade! 

Há restos de ternura pelo meio, 

como vultos perdidos na cidade 

onde uma tempestade sobreveio... 



Começas a vestir-te, lentamente, 

e é ternura também que vou vestindo, 

para enfrentar lá fora aquela gente 

que da nossa ternura anda sorrindo... 



Mas ninguém sonha a pressa com que nós 

a despimos assim que estamos sós! 


David Mourão-Ferreira,"Infinito Pessoal"


Espaço Mínimo

Trem descarrilou sobre varal
O Imprevisto é necessário
Abuso do Desvio Abrupto 
Deflexão Deflora o vergel
O Verbo que verga é o verdugo
Esse dialeto éolico
A opinião do galerno
Cetim esvoaçante laça a nuvem marruá
O deleite do délavé quando leveda o vazio
Retalho de seda ata o artelho
Colcha para a concha
Vênus veste o veludo
Saruel abraça o vazio
Um sonho não cabe no soneto
A ectrima da métrica
Cabe no bolso, lobos 
No casaco do cassaco
Toda algidez na algibeira
Alfarja para o aljofre na aljafra
Fáretra para a letra que penetra pela uretra
Aljava como jazigo do epílogo.

Glossário:

vergel-pomar

galerno-vento brando

marruá-boi bravo
délave-Tecido cuja cor manchada imita um tecido desbotado
Saruel-calça
Alfarja-vaso de pedra
aljofre-gota de orvalho
aljafra-bolso
Fáretra-o mesmo que aljava(bolso)
Inocência


De um lado, a veste; o corpo, do outro lado,
Límpido, nu, intacto, sem defesa...
Mitológico rosto debruçado
Na noite que, por ele, fica acesa!

Se traz os lábios húmidos e lassos
É que a paixão sem mácula ainda o cega
E tatuou na curva de alvos braços
As sete letras da palavra: entrega.

Acre perfume o dessa flor agreste.
Álcool azul o desse verde vinho.
De um lado o corpo; do outro lado, a veste
Como luar deitado no caminho...

Em frente há um pinheiro cismador.
O rio corre, vagaroso ao fundo.
Na estrada ninguém passa... Ai! tanto amor
Sem culpa!
                      Ai! dos Poetas deste mundo!

Pedro Homem de Mello, "O Rapaz da Camisola Verde"

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Litolatria


   
 Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo 
tronco ou ramo na incógnita floresta... 
Onda, espumei, quebrando-me na aresta 
Do granito, antiquíssimo inimigo... 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
O, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paúl, glauco pascigo... 

Hoje sou homem, e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade... 

Interrogo o infinito e às vezes choro... 
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade. 

Antero de Quental,"Sonetos"



Ambiguidades   

Monumento erguido para a inércia
Homenagem ao hornfel
Como um hormônio que estimula o vazio
Preito ao Ptério
Quando era para ser
Aliteração com H
Ruptura do que penso 
A rupia do fêmur
O ágamo sem volúpia
Quando tudo é rupestre
Prisão de Prásio
Topestesia com o Topázio
Alanhar a Allanita
Tirei o extrato do banco
E vi o âmago da pedra
Eixos do seixo
O êxtase com o estase
Adamar o Adamelito
Seu biotipo de biotita fascina.

                                       Ednei P.Rodrigues

Glossário:
hornfel:Rocha de metamorfismo de contato com aspecto de 
chifre (horn)
Ptério:Parte do crânio, geralmente em forma de H
ágamo:O mesmo que assexuado
prásio:Prásio ou prase é uma variedade quartzo idêntica ao jaspe, mas apresentando 
uma cor verde.
Topestesia:Med Faculdade de localizar as
sensações
Alanhar:abrir lanhos,esfaquear ,dilacerar
Allanita:é um mineral da classe 9 (silicatos)=pedra 
adamelito:Rocha magmática
biotita:ou biotite é um mineral comum da classe dos silicatos=pedra


    Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa, "Volante Verde"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Surrealismo erótico



Entreabertas as pernas, e pousada
de leve, sobre os ombros, a cabeça,
parecias às vezes, derramada
no fundo, mais espessa.

    E eras líquida: vias, através
de tua própria sombra transparente
a luminosidade dos teus pés,
alados. Porque ausente.

    Jamais dizias nada. Sempre tinhas
entre os lábios, a voz silenciosa
dos que voltam. Onda após onda, vinhas
(e vens) misteriosa.

    Desde a profundidade, do mar. Brusco
nas suas reações, onde o mar falta
sob as ondas, aí, aí te busco —
e és, como as ondas, alta.

    Quando olho o horizonte: quando tudo
se dissolve em si mesmo e, onda após
onda, me calo. Vejo, e estou mudo.
O mar na tua voz.

    Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar,
que tudo era horizonte.


Octávio Mora,"'Terra Imóvel"'


Onanismo

As válvulas da vulva levam ao creampie que crepita
Tudo precisa de uma engrenagem para funcionar
Fica vulnerável quando tira a luva e sente
O vulto da vulva no catre
O crépido da alopecia
A Xerotribia para pruir o prumo
Vaga deixa de massagear o masseter
Para massagear o massapê
A anastalse com o roçar
A marola amoral murcha a alma
Diluir-se no Dilúvio
Maré traz a concha como uma onça que ruge
Um Mar para o marzapo singrar
Lençol freático cobre a frega
O umbigo concóide com piercing de pérola
Anfitrite moderna modera
A Agonia da Alópia com o hímen que se rompe com a vaga
Após um pássaro ser sugado por uma das turbinas de um avião. 

                                                  Ednei P.Rodrigues


Glossário:

crépido:cuja textura é ondulada
Alopecia:é a redução parcial ou total de pelos ou cabelos em uma determinada 
área de pele.

Xerotribia:Fricção seca, que se faz com a mão

masseter:é um músculo de grande espessura, quadrilátero, que se estende do 
arco zigomático à face lateral do ramo da mandíbula.
Massapê:Terra argilosa
Concóide:Que tem a forma de uma concha
Anfitrite: Deusa do mar na mitologia grega
Alópia:concha



 À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!
Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.
O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...
E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
_ Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
_ Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos... 


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'