quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Cerejeiras em flor

    hoje à noite avistei sobre a folha de papel 
o dragão em celuloide da infância 
escuro como o interior polposo das cerejas 
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos... 


dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens 
podia beber a umidade aérea do musgo 
derramar sangue nos dedos magoados 
foi há muito tempo 
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever 
o mundo reduzia-se a um berlinde 
e as mãos eram pequenas 
desvendavam os noturnos segredos dos pinhais 



não quero mais perceber as palavras nem os corpos 
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras 
prossigo caminho com estes ossos cor de malva 
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono 
desta obra que fica por construir... o receio 
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei 
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar 



ficou-me esta mão com sua sombra de terra 
sobre o papel branco... como é louca esta mão 
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas 


Al Berto,"'O Medo'"   


Prelúdio Monocromático

Rêmiges ao invéns de pétalas
Vontade de ser flamingo
Learn to fly
Talante do Tálamo
Um pouco de amatol para a ignição
Agnição do vazio 
Agonia está ocorrendo dentro do planejado
Tudo para manter as aparências
Exigência tácita do exício
Premeditado para premir
Premissas de algo
Premunir-se do fracasso
Premura que empurra para o abismo
Lugar sem Lufar
O caos é contra a energia eólica
Se fosse cráton
Iria ter um motivo 
Pretexto para o texto.

                   Ednei P. Rodrigues

Glossário:
amatol- Explosivo composto de nitrato de amônio e trinitrotolueno.
Agnição-conhecer
exício-perdição,ruína,morte.
cráton-São unidades geológicas bastante antigas, tendo se mantido relativamente estáveis por no mínimo 500 milhões de anos. Por estabilidade entende-se que estes se mantiveram preservados e foram pouco afetados por processos tectônicos de separação e amalgamação de continentes ao longo da história geológica do planeta.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%A1ton 


    O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A outra face



    Cantarei versos de pedras.

Não quero palavras débeis
para falar do combate.
Só peço palavras duras,
uma linguagem que queime.

Pretendo a verdade pura:
a faca que dilacere,
o tiro que nos perfure,
o raio que nos arrase.

Prefiro o punhal ou foice
às palavras arredias.
Não darei a outra face.

Lara de Lemos, 'Inventário do Medo'



Pareidolia

Septo Aldrin respira o ládano
O estéril aspira o almíscar
Insisto na mesma ideia 
Algo ínsito no vazio
Tenho uma vaga ideia disso
Como se fosse uma continuação
A extensão do achaque 
Quando era para terminar na primeira estrofe
Faltou o astronauta para fincar o lábaro 
Quebrar o etmóide
Esternutação involuntária
Capítulo como capídulo
Poesia sem fim
O vade-mécum não passa pelo cécum 
Pupin na pupila
Pupa com aposirma
Vontade de ser mariposa
Estar em Cidônia
Pujar a Dalaca Tapuja.

                                 Ednei P.Rodrigues

Glossário:

Aldrin&Pupin crateras da Lua.
almíscar-é o nome dado originalmente a um perfume obtido a partir de uma substância do forte odor secretada por uma glândula do cervo-almiscarado de outros animais e também de algumas plantas de odor similar.
etmóide-osso do nariz.
aposirma-Ulceração superficial da pele.
Cidônia-é uma região em Marte. Localiza-se no hemisfério norte do planeta numa zona de transição entre a região sul densamente povoada de crateras e as planícies relativamente homogêneas ao norte.
Dalaca Tapuja: é uma espécie de mariposa da família das Hepialidae. Espécie típica da Colômbia.
Capídulo-Espécie de vestuário, com que os Romanos cobriam a cabeça.
cécum-Forma alatinada de ceco(A primeira parte e a mais grossa do intestino grosso, na qual se abre o intestino delgado).


Tecido

O texto tem sua face 
de avesso na superfície: 
é dia e noite, sintaxe 
do que se pensa, ou se disse. 


Tudo no texto é disfarce, 
ritual de voz e artifício, 
como se tudo falasse 
por si mesmo, na planície. 



Seja por dentro ou por fora, 
seja de lado ou durante, 
o texto é sempre demora: 



o descompasso da escrita 
e da leitura no grande 
intervalo dos sentidos. 


Gilberto Mendonça 

sábado, 15 de julho de 2017

Anagramas Ambíguos



Corpo de Ambiguidade

    posso e não posso ir-me noite fora 
    nestes pilares do medo desta dor 
- é quando os dedos ferem (não se tocam) 
    é quando hesito e coro 

é quando vou não vou neste mergulho 
    em seco a imergir em pobre chão 
   de caos e flor e vinho e confusão 

é quando sem chorar me escondo e choro. 

João Rui de Sousa


Etologia

Abada de devaneios
Animal acidental
Malina Maligna 
Para se afogar
Talvez Vikings
Chifres contidos
Estro como servo do cervo
Evocar o acervo de metáforas
O nervo frênico continua intacto
Ganho um galho 
Quando penso em Pinheiros
Vontade de ser árvore
Mácula de Marula 
A mórula do râmulo 
A breve tórula
Quando quebrou a rótula
Raízes se fincam no vazio
No tronco o diafragma inala a arsina
Ansiar por algo
Angústia em Angu.

                                      Ednei P.Rodrigues                     

Glossário:
Abada-Porção contida na aba suspensa pelas mãos: Abada de flores.
Abada é um animal mítico semelhante a um unicórnio.
malina-maré alta
A marula ou canhoeiro (Sclerocarya birrea) (skleros dura, karya noz - referência à semente) é uma árvore de tamanho mediano, originária do bioma das savanas da África oriental.
tórula-fungos imperfeitos escuros.
 A arsina ou hidreto de arsênio ( AsH3 ) é um composto inorgânico gasoso na temperatura ambiente, é inflamável e altamente tóxico[2] constituído de hidrogênio e arsênio.
Rótula-osso arredondado, móvel, situado um pouco acima da articulação do fêmur com a tíbia, na face anterior do joelho.
Angu é uma cratera do planeta Marte.


Desejos Vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

Florbela Espanca, "Livro de Mágoas"

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ocupação Irregular


Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada... 


Olho a roupa no chão: que tempestade! 

Há restos de ternura pelo meio, 

como vultos perdidos na cidade 

onde uma tempestade sobreveio... 



Começas a vestir-te, lentamente, 

e é ternura também que vou vestindo, 

para enfrentar lá fora aquela gente 

que da nossa ternura anda sorrindo... 



Mas ninguém sonha a pressa com que nós 

a despimos assim que estamos sós! 


David Mourão-Ferreira,"Infinito Pessoal"


Espaço Mínimo

Trem descarrilou sobre varal
O Imprevisto é necessário
Abuso do Desvio Abrupto 
Deflexão Deflora o vergel
O Verbo que verga é o verdugo
Esse dialeto éolico
A opinião do galerno
Cetim esvoaçante laça a nuvem marruá
O deleite do délavé quando leveda o vazio
Retalho de seda ata o artelho
Colcha para a concha
Vênus veste o veludo
Saruel abraça o vazio
Um sonho não cabe no soneto
A ectrima da métrica
Cabe no bolso, lobos 
No casaco do cassaco
Toda algidez na algibeira
Alfarja para o aljofre na aljafra
Fáretra para a letra que penetra pela uretra
Aljava como jazigo do epílogo.

Glossário:

vergel-pomar

galerno-vento brando

marruá-boi bravo
délave-Tecido cuja cor manchada imita um tecido desbotado
Saruel-calça
Alfarja-vaso de pedra
aljofre-gota de orvalho
aljafra-bolso
Fáretra-o mesmo que aljava(bolso)
Inocência


De um lado, a veste; o corpo, do outro lado,
Límpido, nu, intacto, sem defesa...
Mitológico rosto debruçado
Na noite que, por ele, fica acesa!

Se traz os lábios húmidos e lassos
É que a paixão sem mácula ainda o cega
E tatuou na curva de alvos braços
As sete letras da palavra: entrega.

Acre perfume o dessa flor agreste.
Álcool azul o desse verde vinho.
De um lado o corpo; do outro lado, a veste
Como luar deitado no caminho...

Em frente há um pinheiro cismador.
O rio corre, vagaroso ao fundo.
Na estrada ninguém passa... Ai! tanto amor
Sem culpa!
                      Ai! dos Poetas deste mundo!

Pedro Homem de Mello, "O Rapaz da Camisola Verde"

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Litolatria


   
 Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo 
tronco ou ramo na incógnita floresta... 
Onda, espumei, quebrando-me na aresta 
Do granito, antiquíssimo inimigo... 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
O, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paúl, glauco pascigo... 

Hoje sou homem, e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade... 

Interrogo o infinito e às vezes choro... 
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade. 

Antero de Quental,"Sonetos"



Ambiguidades   

Monumento erguido para a inércia
Homenagem ao hornfel
Como um hormônio que estimula o vazio
Preito ao Ptério
Quando era para ser
Aliteração com H
Ruptura do que penso 
A rupia do fêmur
O ágamo sem volúpia
Quando tudo é rupestre
Prisão de Prásio
Topestesia com o Topázio
Alanhar a Allanita
Tirei o extrato do banco
E vi o âmago da pedra
Eixos do seixo
O êxtase com o estase
Adamar o Adamelito
Seu biotipo de biotita fascina.

                                       Ednei P.Rodrigues

Glossário:
hornfel:Rocha de metamorfismo de contato com aspecto de 
chifre (horn)
Ptério:Parte do crânio, geralmente em forma de H
ágamo:O mesmo que assexuado
prásio:Prásio ou prase é uma variedade quartzo idêntica ao jaspe, mas apresentando 
uma cor verde.
Topestesia:Med Faculdade de localizar as
sensações
Alanhar:abrir lanhos,esfaquear ,dilacerar
Allanita:é um mineral da classe 9 (silicatos)=pedra 
adamelito:Rocha magmática
biotita:ou biotite é um mineral comum da classe dos silicatos=pedra


    Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa, "Volante Verde"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Surrealismo erótico



Entreabertas as pernas, e pousada
de leve, sobre os ombros, a cabeça,
parecias às vezes, derramada
no fundo, mais espessa.

    E eras líquida: vias, através
de tua própria sombra transparente
a luminosidade dos teus pés,
alados. Porque ausente.

    Jamais dizias nada. Sempre tinhas
entre os lábios, a voz silenciosa
dos que voltam. Onda após onda, vinhas
(e vens) misteriosa.

    Desde a profundidade, do mar. Brusco
nas suas reações, onde o mar falta
sob as ondas, aí, aí te busco —
e és, como as ondas, alta.

    Quando olho o horizonte: quando tudo
se dissolve em si mesmo e, onda após
onda, me calo. Vejo, e estou mudo.
O mar na tua voz.

    Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar,
que tudo era horizonte.


Octávio Mora,"'Terra Imóvel"'


Onanismo

As válvulas da vulva levam ao creampie que crepita
Tudo precisa de uma engrenagem para funcionar
Fica vulnerável quando tira a luva e sente
O vulto da vulva no catre
O crépido da alopecia
A Xerotribia para pruir o prumo
Vaga deixa de massagear o masseter
Para massagear o massapê
A anastalse com o roçar
A marola amoral murcha a alma
Diluir-se no Dilúvio
Maré traz a concha como uma onça que ruge
Um Mar para o marzapo singrar
Lençol freático cobre a frega
O umbigo concóide com piercing de pérola
Anfitrite moderna modera
A Agonia da Alópia com o hímen que se rompe com a vaga
Após um pássaro ser sugado por uma das turbinas de um avião. 

                                                  Ednei P.Rodrigues


Glossário:

crépido:cuja textura é ondulada
Alopecia:é a redução parcial ou total de pelos ou cabelos em uma determinada 
área de pele.

Xerotribia:Fricção seca, que se faz com a mão

masseter:é um músculo de grande espessura, quadrilátero, que se estende do 
arco zigomático à face lateral do ramo da mandíbula.
Massapê:Terra argilosa
Concóide:Que tem a forma de uma concha
Anfitrite: Deusa do mar na mitologia grega
Alópia:concha



 À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!
Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.
O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...
E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
_ Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
_ Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos... 


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

sábado, 29 de abril de 2017

Mais do Mesmo


Corpo

quantas cidades 
te percorrem passo a passo 
antes de entrar nos mil lares 
que te aguardam 
é mesmo preciso usar sapatos 
porque não gastar na pedra 
uma pele que se lixa longe do 
tacto 
dentro do ônibus os dias 
viajam sentados 
em meio a ombros colados 
túneis esgoto bichos 
sorvetes coxas anúncios 
uma criança um adulto 
modelam a cidade 
na areia 
longe 

perto do coração onde 
uma cabeça gira o 
mundo 
correndo na grama a sombra 
de quantos assistem sentados 
enquanto das traves pende 
o corpo de um de todos 
enforcado 
enquanto as orelhas ouvem 
ouvem 
e não gritam 
há um fora dentro da gente 
e fora da gente um dentro 
demonstrativos pronomes 
o tempo o mundo as pessoas 
o olho 

Francisco Alvim, "Sol dos Cegos"'


Depurando o pendurado

Sob um céu de camurça
Descalça ela caminha sob o Outono
Onipotência da onixe
Sem emplastro
Cal no calcanhar e o tarso esparso
Ainda existe cimento 
Árvores ubíquas no oblíquo 
Para o profícuo estro 
O descaso sem gança
Procrastina o Outono
A berne está na cerne
Hiberne o ímpeto
Comum ainhum para a inércia
Colgar o Coliquante
Açobar o baraço que ata 
Sogar a pressa
Desate só o disparate
O curto-circuito é o insight
O blecaute e a penumbra da numbra no abajur
Antecipam o eclipse
O leiaute com esmalte,anuncia a lei seca
Vontade de ser Tanami
O malte com metal.

                                                Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Onixe-
Inflamação da pele em torno das unhas dos pés, que se manifesta por escoriações, úlceras ou fístulas, provocada por uma infecção por bactérias ou uma micose. (Chama-se vulgarmente unha encravada.).
emplastro-
Remédio para uso externo que, quando exposto ao sol, se adapta à pele.
berne-É uma infecção produzida por um estágio larval, tipo de doença conhecida da mosca Dermatobia hominis, popularmente conhecida no Brasil como mosca-varejeira, que infecta diversos animais, principalmente bovinos
gança-O mesmo que alimpadura(limpeza)
Ainhum-Moléstia, peculiar à raça negra, que se caracteriza pela queda espontânea de dedos do pé
Sogar-prender com soga(corda)
Tanami-É um deserto localizado na porção norte da Austrália, no Território do Norte. Possui um terreno rochoso com pequnas colinas. O deserto é descrito como um dos lugares mais inóspitos áridos da Terra, sendo considerado por alguns como descrições infindáveis.


No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos. 

Fernando Pessoa / Ricardo Reis

terça-feira, 11 de abril de 2017

Anagramas Outonais


   O outono vem vindo, chegam melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas; as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.


Eugénio de Andrade, "'O Outro Nome da Terra"'

  Adilson Santos, Natureza morta com cajus e bule azul

Outono eruptivo

Como pálpebra da árvore
A caruma sobre a gluma
Faz a taxidermia,quando forra o cimento
Não temos só a imponente Araucária
Um pouco de ledice nos dias pares
E o cajueiro invoca castanha
O orvalho é lágrima da pétala
Não estamos em época de chuvas
Ócio do Rócio 
Algum dendrófobo antecipa o Outono
Suposto Agosto exposto
Topiária para parir Paris
Ou algo bucólico 
A torre Eiffel é algo erétil
Todo desgaste com o desbaste
Aflorar com o alforra
Nanja laranja no lúrido
Não vão conseguir tisnar a poesia
Tem o bule azul com magma 
Que ela pega com luvas de camurça
Como se fosse deter a erupção
Anti Antisana
Editaram a Diatrema
Osorno como adorno 
 De outro outono abléfaro.

                             Ednei P.Rodrigues

Glossário:

Topiária-arte de podar plantas em formas ornamentais. Consiste na prática 
da jardinagem que consiste em dar formas artísticas às plantas mediante corte.

desbaste-Operação agrícola para eliminar os rebentos em excesso.Ação de cortar, de tornar menos basto, espesso ou grosso(poda).
alforra-É o nome de uma doença, provocada por fungos, que ataca cereais 
cultivados, causando o escurecimento dos grãos e tornando-os com sabor ruim.
                  Nanja-Advérbio antigo e popular para negar ou dizer que algo já é o suficiente.(nunca)
Antisana-Vulcão da Cordilheira dos Andes localizado no Equador. Atinge 
os 5704 metros de altitude. A sua última erupção ocorreu em 1801-1802.
Diatrema-É uma chaminé vulcânica, em geral preenchida por brechas vulcânicas, formada por vulcanismo explosivo ou por ejecção de materiais a alta velocidade, que liga a região de origem do magma expelido à superfície.
Osorno-O vulcão Osorno é um vulcão ativo do tipo estratovulcão situado entre as províncias de Osorno e Llanquihue, na Região de Los Lagos, Chile.


Paris


Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens


O Sena foge
levando o gosto da posse.

Sergio Milliet

quinta-feira, 30 de março de 2017

Van Gogh


O Auto-Retrato


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!


Mário Quintana, in 'Apontamentos de História Sobrenatural'



os comedores de batata 1885


Anagramas edíveis

Exceto o oomiceto ábdito
O tábido no verso 
Alternar a alternaira para algo benéfico
A Natureza morta emerge
Amerge a megera com sua libido 
Reagem à solidão
Duelo com o edulo
O vesco do escoiço
A escorva como alimento da estrofe
Um pouco de amido
Liamento com o estro
A orelha em Lahore
Para se ouvir o petardo
O tonal do tritonal
O estribo não percebe
Silêncio ensurdecedor
Paracusia rugia
Leonina de maneira não linear
Oxímoros para o seu bel-prazer
A retórica que entorpece
Parei com esses paradoxos. 

                                                                                     Ednei P.Rodrigues
Glossário:

oomiceto-fungo responsável pela destruição de plantação de batatas
alternaira- praga nas batatas conhecida como pinta preta ou alternaira é causada pelos fungos Alternaria solani
Lahore(anagrama:orelha)também conhecida como Laore,é a capital e a mais populosa cidade da província do Panjabe, no Paquistão
tritonal:Tritonal é a mistura de 80% TNT e 20% de pó de alumínio , usado em vários tipos de armas.

   Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
  

sábado, 18 de março de 2017

Lugares onde nunca estive



 O ar da tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro do teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora - rui por dentro.
Reverbera no escuro o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.

Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios, 
femininos.

A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.


Elefante (Francisco Alvim - 1938)


Obelisco do Elefante_Roma,Itália


Matutino

A noite persiste
Sonhos no balcão da padaria
E o pesadelo de estar perdido na Pradaria 
Inclua lucina em seu awake
O sarcito de Minerveo,sem oscitar
Anexa Ganesha no verso
Para a poesia ficar mais leve
Sendo comprovadamente vetores de pólen
Sem precisar explicar muito
Explica a plica
Refém do refego
Nada precisa ser refeito
Pássaro a se apossar da xícara
Rémiges ao invês de café
Algo apossarco para as mazelas do mazagran
Pise no pires sem ires à lugar nenhum
Estátua Estável de equilíbrio constante
Mesmo quando tudo tende para a vertigem
Aquela detentora de tudo.

                                                         Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Minerveo:Obelisco do Elefante (em italiano: Obelisco della Minerva ou Pulcino della Minerva), chamado também de Minerveo, é uma escultura projetada pelo artista italiano Gian Lorenzo Bernini localizada em Roma, Itália. O elefante foi provavelmente executado por seu assistente Ercole Ferrata e o obelisco é um antigo monumento egípcio encontrado no claustro do convento dominicano nas imediações.
Mazagran:bebida fria de café adoçado que teve origem na Argélia.



   Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
             Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
             Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
             Coração de ninguém. 


                        Fernando Pessoa,"Cancioneiro"