sábado, 15 de julho de 2017

Anagramas Ambíguos



Corpo de Ambiguidade

    posso e não posso ir-me noite fora 
    nestes pilares do medo desta dor 
- é quando os dedos ferem (não se tocam) 
    é quando hesito e coro 

é quando vou não vou neste mergulho 
    em seco a imergir em pobre chão 
   de caos e flor e vinho e confusão 

é quando sem chorar me escondo e choro. 

João Rui de Sousa


Etologia

Abada de devaneios
Animal acidental
Malina Maligna 
Para se afogar
Talvez Vikings
Chifres contidos
Estro como servo do cervo
Evocar o acervo de metáforas
O nervo frênico continua intacto
Ganho um galho 
Quando penso em Pinheiros
Vontade de ser árvore
Mácula de Marula 
A mórula do râmulo 
A breve tórula
Quando quebrou a rótula
Raízes se fincam no vazio
No tronco o diafragma inala a arsina
Ansiar por algo
Angústia em Angu.

                                      Ednei P.Rodrigues                     

Glossário:
Abada-Porção contida na aba suspensa pelas mãos: Abada de flores.
Abada é um animal mítico semelhante a um unicórnio.
malina-maré alta
A marula ou canhoeiro (Sclerocarya birrea) (skleros dura, karya noz - referência à semente) é uma árvore de tamanho mediano, originária do bioma das savanas da África oriental.
tórula-fungos imperfeitos escuros.
 A arsina ou hidreto de arsênio ( AsH3 ) é um composto inorgânico gasoso na temperatura ambiente, é inflamável e altamente tóxico[2] constituído de hidrogênio e arsênio.
Rótula-osso arredondado, móvel, situado um pouco acima da articulação do fêmur com a tíbia, na face anterior do joelho.
Angu é uma cratera do planeta Marte.


Desejos Vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

Florbela Espanca, "Livro de Mágoas"

terça-feira, 4 de julho de 2017

Lugares Incomuns


Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada... 


Olho a roupa no chão: que tempestade! 

Há restos de ternura pelo meio, 

como vultos perdidos na cidade 
onde uma tempestade sobreveio... 



Começas a vestir-te, lentamente, 

e é ternura também que vou vestindo, 

para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo... 



Mas ninguém sonha a pressa com que nós 

a despimos assim que estamos sós! 


David Mourão-Ferreira,"Infinito Pessoal"


Espaço Mínimo

Trem descarrilou sobre varal
O Imprevisto é necessário
Abuso do Desvio Abrupto 
Deflexão Deflora o vergel
O Verbo que verga é o verdugo
Esse dialeto éolico
A opinião do galerno
Cetim esvoaçante laça a nuvem marruá
O deleite do délavé quando leveda o vazio
Retalho de seda ata o artelho
Colcha para a concha
Vênus veste o veludo
Saruel abraça o vazio
Um sonho não cabe no soneto
A ectrima da métrica
Cabe no bolso, lobos 
No casaco do cassaco
Toda algidez na algibeira
Alfarja para o aljofre na aljafra
Fáretra para a letra que penetra pela uretra
Aljava como jazigo do epílogo.

Glossário:

vergel-pomar

galerno-vento brando
marruá-boi bravo
délave-Tecido cuja cor manchada imita um tecido desbotado
Saruel-calça
Alfarja-vaso de pedra
aljofre-gota de orvalho
aljafra-bolso
Fáretra-o mesmo que aljava(bolso)
Inocência


De um lado, a veste; o corpo, do outro lado,
Límpido, nu, intacto, sem defesa...
Mitológico rosto debruçado
Na noite que, por ele, fica acesa!

Se traz os lábios húmidos e lassos
É que a paixão sem mácula ainda o cega
E tatuou na curva de alvos braços
As sete letras da palavra: entrega.

Acre perfume o dessa flor agreste.
Álcool azul o desse verde vinho.
De um lado o corpo; do outro lado, a veste
Como luar deitado no caminho...

Em frente há um pinheiro cismador.
O rio corre, vagaroso ao fundo.
Na estrada ninguém passa... Ai! tanto amor
Sem culpa!
                      Ai! dos Poetas deste mundo!

Pedro Homem de Mello, "O Rapaz da Camisola Verde"