quarta-feira, 4 de julho de 2018

Surrealismo erótico

Da Condição Humana


Todos sofremos. 
O mesmo ferro oculto 
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta 
O mesmo sal nos queima os olhos vivos. 
Em todos dorme 
A humanidade que nos foi imposta. 
Onde nos encontramos, divergimos. 
É por sermos iguais que nos esquecemos 
Que foi do mesmo sangue, 
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
Ary dos Santos, "liturgia do Sangue"





Merchandising erótico abstruso


Não existe amor 
A solidão interrompeu o pajero
A polução polui o ambiente
Conspurca a prunela
Prudência no que está por vir 
O pruído do puído é a urtiga
A intriga que abriga o âmago
A mágoa profunda
O magnum faz adoxografia a inércia
E o tiro que saiu pela culatra 
Não acerta as magnólias
E o epidídimo orna o corpo egro
O que eu ergo é estéril
O dídimo é impossível
Nada é mais lídimo
Preciso de um dínamo
Para terminar esta poesia
Vão mesmo dinamitar tudo ao redor?
Um pouco de áscua na ascona.

                                                                                Ednei P.Rodrigues


Glossário:
Pajero:palavra em espanhol que significa masturbação
prunela:planta medicinal também conhecida como auto-cura
magnum:osso grande do crânio,marca de arma
Adoxografia:Arte de escrever muito bem sobre assuntos banais.Enaltecimento desmerecido sobre algo ou alguém; elogio imerecido.
epidídimo:pequeno ducto que coleta e armazena os espermatozóides produzidos pelo testículo; localiza-se atrás do testículo, no saco escrotal, e desemboca na base do ducto deferente
dídimo:Que cresce aos pares. Que se divide em dois lados.
lídimo:légitimo
Áscua:Brasa, carvão ardente.
ascona:O Ascona foi um modelo de automóvel porte médio da Opel. Em Portugal era vendido como 1604 devido à semelhança entre Ascona e um palavrão.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Anagramas marítimos


                                     
    O Mar agita-se, como um alucinado:
A sua espuma aflui, baba da sua Dor...
Posto o escafandro, com um passo cadenciado,
Desce ao fundo do Oceano algum mergulhador.

Dá-lhe um aspecto estranho a campânula imensa:
Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:
Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença
Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!

E em vão as ondas se lhe enroscam à cabeça:
Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,
Com suprema altivez, com ironias calmas:

Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,
Sem nos deixarmos absorver por esse Mar
— Pois a Arte é, para nós, o escafandro das Almas!


Alberto de Oliveira,"Bíblia do Sonho"


poesia escrita após assistir ao filme o Lado escuro do coração(el lado oscuro del corazón)de 1992



Fibrilação

Tentei te salvar do último naufrágio
Mas você estava tão sedenta 
Esponja absorve todo Mar
Cessou o célibe de Celebes
Agir como Riga
Sou como um gari para a assepsia
Draga como darga
Laptev não cabe no laptop
Teve um lapso de tempo
É ninguém percebeu
Drainar sem draiva 
O grabato com vontade de ser barco
E o coração conquiforme 
Escuta o Escuso
Não precisa de estetoscópio
A latência do latejo
O estrado não suporta a solidão
Não precisa se preocupar a maré está baixa
Quando tudo estiver puído,puitar
A âncora pode ser seu pudor
E todo o seu medo medível
Faz o medley pra ser Eunica
Nice dream with Eunice
O apóstrofe não era importante.

                                                      Ednei P.Rodrigues

Glossário:
célibe-O mesmo que celibato
Celebes-O mar de Celebes é um mar no Oceano Pacífico. É limitado a sul pela ilha de
Celebes, a oeste pela ilha de Bornéu,
Riga-O golfo de Riga fica situado entre a Letónia e a Estónia, na costa oriental do mar Báltico, com 160 km de norte a sul, 96 km de largura, profundidade baixa e pouca salinidade.
darga-O mesmo que adarga(escudo)
Laptev:O mar de Laptev (em russo: мо́ре Ла́птевых) é um mar marginal do oceano Ártico, ao norte da Ásia, entre a península de Taimyr, Severnaya Zemlya e as ilhas da Nova Sibéria.
conquiforme-Que tem forma de uma concha
drainar-praticar a drainagem(drenar)
draiva-uma das velas á ré (náutica/barco) 
Eunica-espécie de Borboleta.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Lugares onde nunca estive


Mudança 

Deportei de mim
a palavra rosa.
Demoli do rosto
a dor do morto.
Descolei o papel em branco
num escuro crânio.
Desertei o passo,
sombra do pássaro.
Deixei a aurora,
agora só resta uma hora.
Desfiz para permanecer
juntos o eclipse e o amanhecer.

Mário Alex Rosa


Telúrico

Tire uma rosa do jardim
É provocará um sismo em Burkina Fasso
Abalo em Bali
Mossa em Mossa
Tremor em Temoe
A ducha influência a tempestade
O rio Ducin
Deixa a solidão dúctil
Melhor conter a lenha na lareira
Se não quiser ocasionar a erupção do Lanin
Princípio da ação e reação
Quis arriscar uma arritmia
Todo arrivismo é valido
Agora que eu também faço parte do abstrato
Dessa Natureza-Morta
Único prejuízo,arrizo
O frêmito cessou
Agora podemos arar a alma
Absence Of Fear.

                  Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Burquina Fasso, ou simplesmente Burquina é um país africano limitado a oeste e a norte pelo Mali, a leste pelo Níger, e a sul pelo Benim, pelo Togo, por Gana e pela Costa do Marfim. Sua capital é a cidade de Uagadugu.
Mossa-Mossa é uma comuna italiana da região do Friuli-Venezia
Mossa2Marca proveniente de choque ou pressão
Temoe É uma das ilhas do arquipélago de Tuamotu-Gambier,pertence ao Taiti
O rio Ducin é um rio da Romênia,afluente do Nera 
Lanin é um vulcão em forma de cone  na fronteira entre a Argentina eo Chile.




sábado, 12 de maio de 2018

Plágio de mim mesmo





Litólatra


Só as pedras da rua da matriz me entendem
Ando taciturno ultimamente
Freia um táxi em minha frente
O chofer e a freira não percebem
O chofre por causa do chope
Caio mas logo levanto
Antes elas ouviram meu pranto
Insultos se misturam com singultos do golpe
Claudicante clássico
Desistiram do murmuré sem medula
Com minha clavícula
Casulo para o impudico
Casual encontro glabro
Com o poste obliterado
Deixo a sarjeta sem agrado
Ciumenta do descalabro
Regresso ao ponto de partida
Algo clarifica o mastro
Meu quarto
A ferida
Talvez o giroflex da polícia
Faço polichinelo na cozinha
Chamo a atenção da vizinha
Acostumada com a anestesia
No chão do quarto
Erguia-se uma coluna de livros ordinários
Sublevar um bulevar é mesmo necessário
No último ato
Deito com um paralelepípedo
Reclamou de minhas vibrissas
Ainda atiça
Quase empedro.


                                       Ednei P. Rodrigues

Inspiração trágica



http://gazetanews.com/predio-de-24-andares-desaba-apos-incendio-no-centro-de-sp/

Litólatra

Não culpe a pedra 
Se ela tivesse asas,não estaria ali
Não chute a pedra 
Ninguém merece tal vilipêndio
Repara que o céu se abriu
É nuvens servem de conforto
O índigo profligou o gris
Não adianta exigir refrigério do urbano
Agora que tudo é refringente
Vamos refrondar nosso catre
E sonhar com Aglaias
Bosquejar um bosque
Sem se importar com a catrefa
A tarefa de sobreviver está ficando cada vez mais difícil
Sem poesia nada faz sentido 
Por isso aceito doações de metáforas
Fico te devendo um devaneio,disse um passante 
Não rejeito a rímula que veio por engano no lugar da rima
Vontade de ser Rimbaud
A poesia não precisa disso para existir.


                                              Ednei P.Rodrigues


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Anagramas urbanos



A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?

                                    Fernando Pessoa


Descrição de imagem


Parcimônia

Sob o viaduto ela descansa
Vontade de ser mendiga
Diga algo sobre ontem à noite
Que não seja clichê
Fizeram fogueira aqui,estava frio
Combustão espontânea 
Viver de migalhas
Veste a metáfora que te adorna
Riam da rima pobre com ar 
Irmã da solidão
Difícil respirar na poluição
Um pouco de humanidade com rim
Eram só restos da marmita,feijão
Despe sem bespe 
A respe da raspa  
Não precisa disso
Já tens minha retina
O que eu vi em você
Algo de bom,trouxe paz.

                                   Ednei P.Rodrigues

sábado, 21 de abril de 2018

Ilusão de óptica


Duplo


Olho-me adentro sem cessar e no silêncio
e na penumbra de mim mesmo não me exprimo
nesse mim que se esconde e se retrai no vago
espaço de urna célula e vai construindo
outro mim de mim, disposto em gêmeos compassos,
e não aparece ao olho, ao espelho, à imagem
casualmente em máscara, fechado à curio-
sidade de meus olhos lacerados, cegos
de tanta luz enganosa, nem se derrama
sobre a superfície polida e indiferente,
enquanto cresce em mim a presença de estranho
ser não eu, de irrevelada e própria pessoa,
que domina esse meu corpo, casca de angústia
e contradições simétricas envolventes,
e me explora e me assimila; mas sou eu só
a me percorrer e nele me vejo e sinto,
como de dois corpos iguais matéria viva,
e me faço e refaço e me desfaço sempre
e recomeço e junto a mim eu mesmo, gêmeo,
nada acabo e tudo abandono, dividido
entre mim e mim na batalha interminável...


Fernando Py, 'Vozes do Corpo'


Só se for 

Olhando assim de longe 
Parece algo valgo
E não adianta culpar a inércia
Depois do conluio 
O inóculo da solidão 

Olhando assim de perto 
Assemelhável ao ímpeto 
Sim,teve assédio com o nistagmo
Algo ciliforme se forma 
Outra floresta para desbravar 
Mas depois de tantos anos de solidão
Nem foi percebido 
É uma asserção

Assim que descobriram o motivo
Foi preciso reduzir a assimetria
Conteúdo assimilável com a solidão 
Não assina no final
Anônimo para a Anopsia
Ainda falta muito para o fim do ano
Ainda falta muito para ser algo
A Heautognose
Ainda falta muito para ti ver
Uma hebdômada secular.

                                                      Ednei P.Rodrigues

terça-feira, 10 de abril de 2018

Ileologia_Poesia sem fim_Vontade de ser livro

Codicilo

Alberto Pucheu


Emito gritos de socorro, acaricio cabeças pendidas, festejo a entrada da primavera e pereço na calçada mais próxima.
A balbúrdia nos ouvidos da cidade,
a paisagem nas pernas dos caminhos,
o acontecimento que, à minha revelia, me incrementa,
rearranjam os meandros de meu corpo. Despenco, a cada dia, de mim mesmo, renasço do outro lado das alturas: muito mais oceano do que braços, mais trânsito do que pele, mais ruídos do que cérebro. Não tenho por lugar
turísticos belvederes, mas o emaranhado das ruas populosas
e recantos por onde encontro o esquecimento.
Sinto o cheiro espesso da gasolina escorregando por entre as veias, sinto seu gosto no copo do qual beberei, sinto o ritmo derrapante das inquietudes.
Como a leitora cobrindo com esparadrapo frases de um livro,
como um homem amontoado no meio da multidão,

sigo, arrastado pela força que leva as aves a emigrarem1.

E não desiste, a sede: como o mar, imorredoura.

P.S. - Alguém que não foi nada na vida me disse que tudo valeu a pena. 

1Verso de Fernando Ferreira de Loanda, em Kuala Lumpur.


Codicilo

Vísceras expostas
Em frente a sua casa 
Não se esquecerá de mim!
O solear para a soledade
Columela para o silêncio
Na soleira a soldra
Soldar o dorsal com a aduela
A espoliação do espôndilo
Não justifica o solecismo de tudo
Corrija a cornija com orgia
Sob o alpendre o pâncreas 
O íleon na sarjeta
Vontade de ser ilha
Apostema no poste
Como pôster no seu armário
O prosterno
Tudo que foi postergado
Deixo para a posteridade
Postres para a solidão.

                                   Ednei P.Rodrigues

P.S-Continuação da poesia A angústia da relevância