sábado, 29 de abril de 2017

Mais do Mesmo


Corpo

quantas cidades 
te percorrem passo a passo 
antes de entrar nos mil lares 
que te aguardam 
é mesmo preciso usar sapatos 
porque não gastar na pedra 
uma pele que se lixa longe do 
tacto 
dentro do ônibus os dias 
viajam sentados 
em meio a ombros colados 
túneis esgoto bichos 
sorvetes coxas anúncios 
uma criança um adulto 
modelam a cidade 
na areia 
longe 

perto do coração onde 
uma cabeça gira o 
mundo 
correndo na grama a sombra 
de quantos assistem sentados 
enquanto das traves pende 
o corpo de um de todos 
enforcado 
enquanto as orelhas ouvem 
ouvem 
e não gritam 
há um fora dentro da gente 
e fora da gente um dentro 
demonstrativos pronomes 
o tempo o mundo as pessoas 
o olho 

Francisco Alvim, "Sol dos Cegos"'


Depurando o pendurado

Sob um céu de camurça
Descalça ela caminha sob o Outono
Onipotência da onixe
Sem emplastro
Cal no calcanhar e o tarso esparso
Ainda existe cimento 
Árvores ubíquas no oblíquo 
Para o profícuo estro 
O descaso sem gança
Procrastina o Outono
A berne está na cerne
Hiberne o ímpeto
Comum ainhum para a inércia
Colgar o Coliquante
Açobar o baraço que ata 
Sogar a pressa
Desate só o disparate
O curto-circuito é o insight
O blecaute e a penumbra da numbra no abajur
Antecipam o eclipse
O leiaute com esmalte,anuncia a lei seca
Vontade de ser Tanami
O malte com metal.

                                                Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Onixe-
Inflamação da pele em torno das unhas dos pés, que se manifesta por escoriações, úlceras ou fístulas, provocada por uma infecção por bactérias ou uma micose. (Chama-se vulgarmente unha encravada.).
emplastro-
Remédio para uso externo que, quando exposto ao sol, se adapta à pele.
berne-É uma infecção produzida por um estágio larval, tipo de doença conhecida da mosca Dermatobia hominis, popularmente conhecida no Brasil como mosca-varejeira, que infecta diversos animais, principalmente bovinos
gança-O mesmo que alimpadura(limpeza)
Ainhum-Moléstia, peculiar à raça negra, que se caracteriza pela queda espontânea de dedos do pé
Sogar-prender com soga(corda)
Tanami-É um deserto localizado na porção norte da Austrália, no Território do Norte. Possui um terreno rochoso com pequnas colinas. O deserto é descrito como um dos lugares mais inóspitos áridos da Terra, sendo considerado por alguns como descrições infindáveis.


No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos. 

Fernando Pessoa / Ricardo Reis

terça-feira, 11 de abril de 2017

Anagramas Outonais


   O outono vem vindo, chegam melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas; as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.


Eugénio de Andrade, "'O Outro Nome da Terra"'

  Adilson Santos, Natureza morta com cajus e bule azul

Outono eruptivo

Como pálpebra da árvore
A caruma sobre a gluma
Faz a taxidermia,quando forra o cimento
Não temos só a imponente Araucária
Um pouco de ledice nos dias pares
E o cajueiro invoca castanha
O orvalho é lágrima da pétala
Não estamos em época de chuvas
Ócio do Rócio 
Algum dendrófobo antecipa o Outono
Suposto Agosto exposto
Topiária para parir Paris
Ou algo bucólico 
A torre Eiffel é algo erétil
Todo desgaste com o desbaste
Aflorar com o alforra
Nanja laranja no lúrido
Não vão conseguir tisnar a poesia
Tem o bule azul com magma 
Que ela pega com luvas de camurça
Como se fosse deter a erupção
Anti Antisana
Editaram a Diatrema
Osorno como adorno 
 De outro outono abléfaro.

                             Ednei P.Rodrigues

Glossário:

Topiária-arte de podar plantas em formas ornamentais. Consiste na prática 
da jardinagem que consiste em dar formas artísticas às plantas mediante corte.

desbaste-Operação agrícola para eliminar os rebentos em excesso.Ação de cortar, de tornar menos basto, espesso ou grosso(poda).
alforra-É o nome de uma doença, provocada por fungos, que ataca cereais 
cultivados, causando o escurecimento dos grãos e tornando-os com sabor ruim.
                  Nanja-Advérbio antigo e popular para negar ou dizer que algo já é o suficiente.(nunca)
Antisana-Vulcão da Cordilheira dos Andes localizado no Equador. Atinge 
os 5704 metros de altitude. A sua última erupção ocorreu em 1801-1802.
Diatrema-É uma chaminé vulcânica, em geral preenchida por brechas vulcânicas, formada por vulcanismo explosivo ou por ejecção de materiais a alta velocidade, que liga a região de origem do magma expelido à superfície.
Osorno-O vulcão Osorno é um vulcão ativo do tipo estratovulcão situado entre as províncias de Osorno e Llanquihue, na Região de Los Lagos, Chile.


Paris


Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens


O Sena foge
levando o gosto da posse.

Sergio Milliet

quinta-feira, 30 de março de 2017

Van Gogh


O Auto-Retrato


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!


Mário Quintana, in 'Apontamentos de História Sobrenatural'



os comedores de batata 1885


Anagramas edíveis

Exceto o oomiceto ábdito
O tábido no verso 
Alternar a alternaira para algo benéfico
A Natureza morta emerge
Amerge a megera com sua libido 
Reagem à solidão
Duelo com o edulo
O vesco do escoiço
A escorva como alimento da estrofe
Um pouco de amido
Liamento com o estro
A orelha em Lahore
Para se ouvir o petardo
O tonal do tritonal
O estribo não percebe
Silêncio ensurdecedor
Paracusia rugia
Leonina de maneira não linear
Oxímoros para o seu bel-prazer
A retórica que entorpece
Parei com esses paradoxos. 

                                                                                     Ednei P.Rodrigues
Glossário:

oomiceto-fungo responsável pela destruição de plantação de batatas
alternaira- praga nas batatas conhecida como pinta preta ou alternaira é causada pelos fungos Alternaria solani
Lahore(anagrama:orelha)também conhecida como Laore,é a capital e a mais populosa cidade da província do Panjabe, no Paquistão
tritonal:Tritonal é a mistura de 80% TNT e 20% de pó de alumínio , usado em vários tipos de armas.

   Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
  

sábado, 18 de março de 2017

Lugares onde nunca estive



 O ar da tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro do teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora - rui por dentro.
Reverbera no escuro o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.

Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios, 
femininos.

A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.


Elefante (Francisco Alvim - 1938)


Obelisco do Elefante_Roma,Itália


Matutino

A noite persiste
Sonhos no balcão da padaria
E o pesadelo de estar perdido na Pradaria 
Inclua lucina em seu awake
O sarcito de Minerveo,sem oscitar
Anexa Ganesha no verso
Para a poesia ficar mais leve
Sendo comprovadamente vetores de pólen
Sem precisar explicar muito
Explica a plica
Refém do refego
Nada precisa ser refeito
Pássaro a se apossar da xícara
Rémiges ao invês de café
Algo apossarco para as mazelas do mazagran
Pise no pires sem ires à lugar nenhum
Estátua Estável de equilíbrio constante
Mesmo quando tudo tende para a vertigem
Aquela detentora de tudo.

                                                         Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Minerveo:Obelisco do Elefante (em italiano: Obelisco della Minerva ou Pulcino della Minerva), chamado também de Minerveo, é uma escultura projetada pelo artista italiano Gian Lorenzo Bernini localizada em Roma, Itália. O elefante foi provavelmente executado por seu assistente Ercole Ferrata e o obelisco é um antigo monumento egípcio encontrado no claustro do convento dominicano nas imediações.
Mazagran:bebida fria de café adoçado que teve origem na Argélia.



   Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
             Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
             Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
             Coração de ninguém. 


                        Fernando Pessoa,"Cancioneiro"

quarta-feira, 1 de março de 2017

Anagramas Alados



   Esta esperança vã, doce tormento, 
Com que amor lisonjeiro determina 
Acumular estragos à ruína 
Por levantar padrões ao escarmento, 

Foi crepúsculo breve de um momento, 
Delicado jasmim, frágil bonina, 
Rosa, que se murchou duma aura fina, 
Vidro, que se quebrou de um leve vento. 

Morreu minha esperança às mãos de um rogo 
E nas cinzas se alenta o meu cuidado, 
Que amor nos impossíveis mais se inflama: 

Mas se a esperança é ar, e amor é fogo, 
Justo é que nela cresça o meu agrado, 
Pois ao sopro do vento cresce a chama. 


Francisco de Vasconcelos Coutinho"Fénix Renascida'"




Cleistes  (flor que dura só um dia)

Efemérides

Só mais um dia, e tudo se acaba 
                   Efêmero como Cleistes                  
Quis ser Fênix com vestido de albene
Quiçá quiçoçoria
Para fazer a operação rescaldo 
Tafetá afeta a inércia perene
Especulo séculos
O tempo é sicário
Detalhes ignorados
Falta alguma coisa
Minutos sem minúcias
Deixa tudo oneroso
Céu aberto sem minuano
Mesmo que você concorda 
Com o concorde
Turbina na tribuna
Sem intubar o intruso
O antevoar avarento
Norteava shamal no leque
Pavão se esconde no arco-íris.

                            Ednei P.Rodrigues


Glossário:
Albene é um tecido misto confeccionado com 73% Acetato e 27% Poliéster, é um tecido bem liso que não tem aderência para insetos, tem também uma grande vantagem é que não queima com o fogo.
Tafetá é um tecido de seda trançado.
quiçoçoria avê da África
shamal:vento



   Faísca luminar da etérea chama 
Que acendes nossa máquina vivente,
Que fazes nossa vista refulgente
Com eléctrico gás, com subtil flama:

A nossa construção por ti se inflama;
Por ti, o nosso sangue gira quente;
Por ti, as fibras tem vigor potente,
Teu vivo ardor por elas se derrama.

Tu, Fogo animador, nos vigorizas,
E à maneira de um voltejante rio,
Por todo o nosso corpo te deslizas.

O homem, só por ti tem força e brio
Mas, se tu o teu giro finalizas,
Quando a chama se apaga, ele cai frio


Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Anagramas Lúgubres



À PARTIR DA TOPOGRAFIA

Aprende-se muito
com a ausência. Cito a arte
da cartografia, do
paciente desenho
feito olhos a dentro
sem régua ou compasso,
com o qual catálogo, a
posteriori, pintas,
sinais de nascença, e as
(não sem ser expert no
teodolito) marcas
de uma catapora.

Paulo Ferraz





Parosmia

Ninguém instrui a solidão
Contra a súcia 
Sua única defesa:cuias
Talvez algum instrumento:cuicas
O silêncio era ensurdecedor
E sua voz na foz
Contra a Xerostomia
Um oboé submerso
Para a reconciliação com o mar
No auge do estro a solidão é táctil
E a distância não se acostuma com o adjacente
Bússola quebrada
E o fato já foi consumado
Em dezessete sílabas
Seus alamirés ainda me afligem
Aunar seu olor com a aurécia
Talvez  em Caueira 
Acuarei a solidão
Amareis a maresia
Miscar com almíscar
São só eflúvios.

Ednei P. Rodrigues




   Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!... 

Manuel da Fonseca, "Poemas Dispersos"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Anagramas Mitológicos



ÉBANO

componho
como uma cega como
alguém que sobreviveu
ao bombardeio da casa - estranhas
as crianças em piques gangorras
amarelinhas terríveis
no seu autocontrole
os homens andando
em trajes completos
sob o sol

se rezas não fossem palavras, mas
cores, pintaria algumas para aqueles
que têm as pálpebras estampadas de chão

Andréa Catrópa




Labirintos

O escopro era o escopo 
A copose do corpo
Copos vazios sobre a mesa 
Podem significar algo
A carreação com a carraspana
Um gemmail para sua gemursa 
Escoimar a escoda do erro
Bisel à anediar Ariadne
E a pedra não pesa o poema 
Faz a polinização amenófila
Arilho como uma ária
O veto do vento na área do triângulo
Adorna o vazio 
Aderna com Andréa Catrópa
Aditiva como adita
Ela se aproximou do abismo e parou
O destino do síndeto sem sentido
Talvez seja Satrapia à direita
E não estamos perdidos
Desambiguação de tudo
Até o próximo poema
Apartais o parasita do óbvio
Aquele que incomoda. 

Ednei P.Rodrigues



DISCURSO

tecer o fio de Ariadne
sem ao menos a intenção
de um dia retornar

tecer pelo exercício
narcísico
de se conhecer e doar

ir, perscrutar
para além do verde
opaco da próxima curva

sabendo cada passo
apenas eco
do anterior

ir
pelo puro prazer
da paisagem

ao estrangeiro

é permitido
o esplendor 

Sergio Cohn