quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Cerejeiras em flor

    hoje à noite avistei sobre a folha de papel 
o dragão em celuloide da infância 
escuro como o interior polposo das cerejas 
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos... 


dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens 
podia beber a umidade aérea do musgo 
derramar sangue nos dedos magoados 
foi há muito tempo 
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever 
o mundo reduzia-se a um berlinde 
e as mãos eram pequenas 
desvendavam os noturnos segredos dos pinhais 



não quero mais perceber as palavras nem os corpos 
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras 
prossigo caminho com estes ossos cor de malva 
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono 
desta obra que fica por construir... o receio 
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei 
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar 



ficou-me esta mão com sua sombra de terra 
sobre o papel branco... como é louca esta mão 
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas 


Al Berto,"'O Medo'"   


Prelúdio Monocromático

Rêmiges ao invéns de pétalas
Vontade de ser flamingo
Learn to fly
Talante do Tálamo
Um pouco de amatol para a ignição
Agnição do vazio 
Agonia está ocorrendo dentro do planejado
Tudo para manter as aparências
Exigência tácita do exício
Premeditado para premir
Premissas de algo
Premunir-se do fracasso
Premura que empurra para o abismo
Lugar sem Lufar
O caos é contra a energia eólica
Se fosse cráton
Iria ter um motivo 
Pretexto para o texto.

                   Ednei P. Rodrigues

Glossário:
amatol- Explosivo composto de nitrato de amônio e trinitrotolueno.
Agnição-conhecer
exício-perdição,ruína,morte.
cráton-São unidades geológicas bastante antigas, tendo se mantido relativamente estáveis por no mínimo 500 milhões de anos. Por estabilidade entende-se que estes se mantiveram preservados e foram pouco afetados por processos tectônicos de separação e amalgamação de continentes ao longo da história geológica do planeta.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%A1ton 


    O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia

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