sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Algo Álgido


imagem:Thom Goddard




Monólogo de uma Avalanche



Introdução: A avalanche evoluiu, agora é corretora de imóveis, colaboradora excepcional com ampla vivência profissional. Quem a observa percebe que suas tratativas não se limitam a números ou paredes; há um magnetismo que arrasta decisões para o lado que ela deseja. Testemunhou clientes, antes indecisos, cederem como encostas diante de seu avanço silencioso. Sua presença não apenas altera o rumo de uma conversa, mas também reconfigura a percepção do próprio espaço, como se cada imóvel ganhasse outra identidade sob o toque inevitável de sua ação.




Exasperei quando percebi que nada poderia conter o impulso que me arrastava, exautorei normas, descobri o controle e ele veio com naturalidade. O terreno respondia a cada gesto com uma obediência quase instintiva, enquanto vibrações antigas se dissipavam diante da minha passagem. Fragmentos antes soltos se alinharam, como se tivessem aguardado por esse instante de ordem inesperada. Cada movimento delineava trajetórias novas, revelando possibilidades que até então permaneciam invisíveis, e o mundo ao redor parecia suspender a própria respiração para testemunhar a transformação em curso.
Agora tenho uma profissão, e cada negociação se torna um deslizamento planejado, conduzindo clientes e oportunidades com precisão e velocidade. Nada resiste à minha estratégia, e cada fechamento concretiza o poder que aprendi a dominar, convertendo incertezas em caminhos claros e inevitáveis.
Espero atingir a meta de vendas este mês. Cada ligação realizada, cada visita agendada e cada proposta apresentada se tornam peças de um movimento orquestrado, capaz de transformar dúvidas em confiança e hesitações em decisões. Sigo avançando com determinação, sabendo que cada esforço acumula força suficiente para transformar objetivos em conquistas concretas.
Alguns clientes ainda têm medo de mim, hesitando diante da força e da rapidez com que conduzo cada negociação. Eles observam meus passos com cautela, tentando adivinhar meus próximos movimentos, mas logo percebem que minha intenção não é destruir, e sim revelar oportunidades que antes pareciam inalcançáveis. Com paciência calculada, mostro que cada ação tem propósito, cada proposta guarda possibilidades, e que a confiança, uma vez conquistada, transforma receio em admiração silenciosa.
Não quero decepcionar meu chefe, em um feedback feérico ele disse que eu era muito frígida, não sei se encaro isto com uma crítica ou elogio, pois suas palavras vinham envoltas em um tom enigmático, quase indecifrável. Analisei seu olhar, buscando pistas escondidas, mas encontrei apenas a serenidade de quem entrega enigmas para serem desvendados. Se ele quiser me demitir, tem uma empresa de demolição querendo me contratar, atraída pela minha habilidade de transformar obstáculos sólidos em passagens livres. Lá, talvez, minha intensidade não seja vista como frieza, mas como a força exata para derrubar o que impede o avanço, convertendo ruínas em terreno fértil para novos começos. Mas acho que isto não vai acontecer; no final da reunião ele disse que tenho feeling para vendas, e que poucas pessoas conseguem unir precisão e impacto com tanta naturalidade. Saí da sala com a sensação de carregar uma vantagem rara, como se minha trajetória tivesse sido moldada exatamente para conquistar espaços que outros sequer ousariam reivindicar. Por isso, cada detalhe recebe minha atenção completa. Cada decisão é medida, cada negociação refinada, e cada resultado avaliado com rigor. Sei que minha reputação e a confiança depositada dependem do equilíbrio entre rapidez e precisão, e nada é deixado ao acaso. Avanço com consciência, transformando responsabilidade em ação concreta, e garantindo que cada meta alcançada se torne um reflexo do empenho e da dedicação que dedico a cada desafio.


sábado, 9 de agosto de 2025

Outono precipitado

imagem:Guilherme Baracat


Monólogo de uma folha


Fiquei ali a tarde inteira, introspectiva, tentando fazer a fotossíntese, absorvendo a luz oblíqua que se desfaz no diáfano. Esta árvore vítrea e estranha erguia-se impassível, seus galhos de vidro e aço entrelaçados num emaranhado silencioso, como ossos petrificados que desafiam o tempo. Não era vida que brotava dali, mas uma imitação dura e fria, um esqueleto que sustentava o vazio e o silêncio.
Entre suas ramificações, pequenos refúgios brilhavam como frutos contidos, cada um guardando segredos e vidas invisíveis. Dentro desses pedaços de vida, pessoas habitavam silenciosas, cada uma em seu próprio canto, isoladas, vivendo histórias que eu jamais poderia alcançar.
A pucela chora e, se pudesse abrir a fresta que a envolve, suas lágrimas deslizariam para mim, um bálsamo capaz de despertar a vida adormecida em minhas veias. Cada gota seria um sopro de esperança, nutrindo o que insiste em resistir, alimentando a tênue dança entre o sol e a sombra que habito. Mas permanece fechada, guardando seu pranto para si.
A aquilia era um fator determinante. Só porque não deixo embaçado o vidro, ainda posso escrever seu nome com o pecíolo; seria preciso romper a inércia. Talvez, se eu me mover de um jeito quase imperceptível, ela perceba. Minha aquiria sustentava o declínio, como se minha inclinação silenciosa apontasse para algo que nem mesmo eu compreendo.
Ela, do outro lado, envolta em claridade artificial, não vê. Ou finge não ver. Com a aquiqui, você nem se importou: achou até bonita, cantava, pousava na antena, desaparecia. E eu, sem asas, sem voz, apenas me curvava devagar, esperando que meu gesto tivesse algum peso. Mas não tive. Talvez porque não sou ruído, nem cor vibrante, nem voo. Só uma espera presa no limite entre o toque e o nada.
Nada disso tem real relevância, agora que saúvas me carregam. Só espero não ser comida; talvez me deixem cair num canto escuro do formigueiro, esquecida entre farelos de outras que também já foram verdes; talvez me tornem cama; talvez me empilhem sobre outras memórias que não conheço; talvez eu apodreça devagar e, nesse apodrecer, alimente alguma raiz secreta, alguma coisa que brota no escuro e que nunca verá o sol, mas ainda assim cresce, ainda assim pulsa.
E, nesse destino estranho, talvez exista algum sentido, mesmo que torto, mesmo que não seja o que eu quis, mesmo que ela nunca saiba que eu existi, mesmo que minha última curvatura tenha sido apenas um aceno inútil que ninguém viu. Já não comando meu destino; apenas deslizo, levada por mandíbulas que não sabem da minha saudade. Elas seguem decididas, como se carregassem ouro, mas sou apenas um resto, um fragmento de um desejo antigo.
A cada passo das pequenas operárias, me afasto daquele ponto suspenso onde existia a possibilidade — tênue, delicada — de ser notada.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Manual de Sobrevivência em Neblina Interna


imagem:Rogério Skylab dormindo


Durmo entre cigarros: Nada queima, nada arde, apenas um eco contido. Talvez acenda algo depois... Por enquanto, só preciso apagar em mim o resto do dia. As paredes somem, e o chão me esquece. Estou ali e não estou. O tempo dobra, como se respirasse junto comigo. Ao redor, tudo se desfaz com a mesma lentidão dos pensamentos que não chegam a virar memória. Vejo rostos que nunca toquei me olhando como se soubessem de mim mais do que eu. Escuto uma voz — talvez minha — dizendo coisas que só entendo enquanto durmo. Nada dói, mas tudo pesa. Como se a gravidade aqui fosse feita de lembranças mal apagadas. Como se o ar estivesse preso sob o domínio das cinzas. Como se cada sopro de vida carregasse o cheiro do tabaco. Como se o planeta estivesse submerso em um mar de fumaça. Havia uma tabacaria em todas as esquinas. E, enquanto o mundo girava, envolto em neblina, isso aqui parece Bespin, onde irá começar o spin-off de uma vida. Agora, sem erros, apenas silêncios milimétricos entre decisões que ainda não tomei. O horizonte não promete, mas também não recusa. Sinto que posso seguir sem rastros ou talvez deixar pegadas que ninguém vai notar. Cada passo é uma hipótese, cada gesto, um rascunho. Não estou recomeçando. Estou tentando pela primeira vez, de novo. Os dias ainda escorrem devagar, mas não sangram. O passado se desfaz como névoa tocada pela manhã.
As coisas não começam com clarins, mas com uma leve desordem interior. Algo se move sem som, como se o próprio destino estivesse caminhando descalço. Olho em volta e não reconheço nada, mas também não estranho. É como habitar uma lembrança que nunca foi minha. Tudo é familiar e ao mesmo tempo inédito, como uma rua sonhada na infância, revisitada em silêncio por alguém que só existe agora. As certezas perderam o brilho, mas não fazem falta.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Inspiração marítima

 
imagem:@visualfodder @murjanabodeba

  

A fâmula de Poseidon


Não aguento mais essa maresia, parece que o mar quer invadir minha casa por osmose. Tudo gruda, tudo enferruja, até meu juízo está oxidando. O mar não sabe ficar no lugar dele? Às vezes me pergunto: o que eu fiz para merecer isso? Talvez sejam os desertos de dentro. Se eu fosse uma porífera geneticamente modificada, poderia sugar tudo isso — cada gota dessa umidade insistente, cada gota dessa tristeza que escorre sem permissão.
Certa vez me perguntaram: "O que você vai fazer com as conchas? Serão apenas adorno?"
E eu não soube responder. Porque eu não queria enfeitar nada.
Queria empilhar as conchas como se fossem muros.
Queria colá-las nas janelas pra ver se o sal do mundo parava de entrar.
Queria usá-las como escudo, como armadura, como tradução daquilo que sobrou em mim: uma casca dura por fora, um eco oco por dentro. Talvez um sambaqui na soleira — iria ficar bonito.
Um monte de conchas empilhadas, como quem constrói história com restos.
Um altar de coisas partidas que o mar devolveu sem culpa.
Que fique ali, na entrada, pra avisar: aqui mora alguém que já foi engolido e cuspido de volta.
“E se encontrar alguma pérola?”, me perguntaram, com aquele brilho nos olhos de quem ainda acredita que o mundo compensa.
Respirei fundo antes de responder, como quem busca dentro da própria ossatura uma verdade que não machuque tanto.
Se eu encontrar uma pérola, eu não a celebro.
Eu a acolho.
Porque a pérola é só mais um tipo de ferida cicatrizada com elegância.
Não é joia. É resposta.
Não é prêmio. É memória.
Vou guardá-la, sim.
Mas não em caixinha de veludo, nem sob vitrines.
Vou enterrá-la entre as conchas rachadas, onde ninguém note.
Porque não quero que a exceção me distraia da regra.
“E se você encontrar um dente de tubarão?”
Guardo também.
Não como troféu, mas como arma — é afiado. Pode cortar o que tenta me cercar.
Serve de arma, sim — mas também de lembrança.
Porque, em algum momento, mesmo cercada de predadores, eu já fui feliz.
E é bom lembrar que já sorri entre dentes perigosos.
Não vou pendurar no pescoço.
Vou esconder perto do peito.
Pra que, se um dia me faltarem forças,
eu me lembre que já fui ferida, mas também feroz.
“E se você encontrar uma garrafa com uma mensagem dentro?”
Respondo. Mesmo que a carta não tenha remetente.
Mesmo que as palavras estejam borradas pelo tempo e pela água.
Redargo, porque toda mensagem lançada ao mar carrega um desespero quieto,um pedido mudo de que alguém, em algum lugar, ouça.
Não importa se a carta veio de longe ou de um passado que já não me pertence.
Eu leio. Eu sinto.
E escrevo de volta, nem que seja só em pensamento.
Porque às vezes o que salva não é ser encontrado,
é saber que alguém respondeu,
mesmo sem saber exatamente o que foi dito.
Respondo, sim.
Porque eu também já joguei perguntas ao mar.
E sei como dói o silêncio.
Ainda tenho muita coisa pra fazer, não me incomode.
Já me perguntaram da pérola, do dente de tubarão, da garrafa com mensagem...
Como se eu tivesse tempo pra responder ao oceano inteiro.
Como se eu tivesse obrigação de dar sentido a cada pedaço que o mar regurgita.
Eu tô tentando não afundar — dá pra entender isso?
Tentando manter as mãos ocupadas, a cabeça fora d’água, o sal longe das feridas.
E vocês aí, querendo poesia de cada entulho que encontro.
Nem tudo é símbolo, às vezes é só lixo.
Nem tudo tem metáfora, às vezes só machuca.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Inspiração volátil


imagem: Remedios Varo, “Creación de las aves”, 1957


Abigail


Não gostava do seu nome. Seu sobrinho pequeno, ainda começando a falar, a chamava de Ababil, e ela sentia rêmiges crescendo nas costas, mesmo sem céu por perto, como se o voo a chamasse de dentro. E agora, quem se atreve a decifrar o destino de uma criatura deslocada no tempo? Todo esse anacronismo pesava sobre ela, enquanto seu desejo mais profundo era apenas existir no agora.
Vão acusá-la de ofender a fé. Isso pode resultar em prisão para mim? Estava preocupada. Afinal, ela não tinha culpa das distorções temporais. Sentia o peso da acusação pairando no ar, como um manto opaco que lhe cobria a pele.
O medo da prisão não era apenas pelo corpo, mas pela alma, pelo que representava ser aquela que desafiava não só o presente, mas o passado e o futuro entrelaçados. Seria possível ser culpada por algo que nem entendia? Por um tempo que fugia das mãos, deformado e esquecido?
Seus ossos pareciam mais leves a cada dia, como se o corpo estivesse se desfazendo da matéria antiga. O espelho devolvia contornos que não reconhecia. O rosto se alongava sutilmente, os olhos pareciam mais escuros, mais oblíquos, e havia algo na curvatura do pescoço que lembrava o pouso.
A humanidade lhe escapava por entre as falas e gestos. As palavras já não vinham com facilidade, como se sua boca soubesse que a linguagem dos homens era provisória. O corpo, antes obediente, agora seguia um ritmo outro, instintivo, como se estivesse ensaiando uma dança de vento.
Os dedos estavam longos demais, finos demais. A pele das costas coçava como terra rachando antes de parir raízes. Quando passava por vidraças, o reflexo devolvia uma figura que não pertencia mais a este tempo nem a esta espécie. Havia perdido o rosto que um dia foi seu, sem nem perceber quando.
A voz, agora rouca e breve, parecia feita para o grito, não para a conversa. Onde antes havia voz, agora há siringe, e o som é outro. A fúrcula se formava sob a pele como uma ponte viva entre os ombros, arqueando a estrutura, sustentando algo que ainda não sabia nomear.
Havia tensão nas articulações. Um pressentimento ósseo de que algo estava por vir, algo que não caberia mais nos limites da carne antiga. As costelas, comprimidas pela metamorfose, vibravam com o compasso de um bater invisível, como se dentro dela existisse já o gesto do impulso, do salto, da ascensão.
Dormia mal, espremida entre lençóis que pareciam gaiolas, com sonhos de alturas jamais visitadas. Os ruídos do mundo ficavam mais agudos, como se filtrados por tímpanos alheios, atentos a frequências que ninguém mais escutava.
As unhas curvavam-se, endurecendo-se em garras delicadas.
Com todo respeito a Alá, recuso-me a me opor aos etíopes. Sou uma ave pacífica, e meu peito não abriga guerras. O instinto que agora me habita não reconhece fronteiras, nem disputas, nem nomes dados pelos homens às suas inimizades.
Carregava no crânio uma bússola desorientada, apontando para direções que não estão nos mapas.
As escápulas doíam, não como dor comum, mas como uma memória encarnada tentando abrir passagem. Em vez de orações, vinham assobios, silvos partidos que escapavam no silêncio das madrugadas.
O sono era leve, feito de vigílias sutis, como se a vigília fosse uma espera por vento.
Toda a acrofobia e vertigem se foi, como se jamais houvesse temido os abismos. A simples ideia de altura agora lhe causava desejo, não receio. Havia nascido em sua carne uma familiaridade com o espaço aéreo, com o risco suspenso, com o nada que sustenta.
Já não sabia se havia nascido para esta forma ou se estava voltando a ela. E quanto mais se afastava da figura que fora, mais reconhecia uma outra lógica, feita de instantes suspensos, de mensagens no ar, de orientação solar.
Não era fuga. Era retorno.
E talvez, no fim, tudo isso fosse só isso: uma espécie de reencontro com aquilo que antecede a fala, a culpa, a punição.

Glossário: Ababil
substantivo masculino:Segundo o Alcorão, ave monstruosa mandada por Alá contra os abexins, quando Maomé nasceu, para que não sitiassem Meca. Variação de ababila 



sábado, 5 de julho de 2025

Adjacências


A Solidão de um Delírio Lúcido

Só conseguiu dormir em Alden. Mesmo depois do aldeamento, seguia incrédula. Mesmo no delírio, havia método: era fácil aldeagar suas teorias absurdas.
Teve que expulsar toda aquela gente. Afinal, que procurem outros planetas para viver. Que tentem em Júpiter, onde a gravidade esmagaria até seus argumentos. Ou que se aventurem em Saturno, girando sem fim entre os anéis, tentando dar sentido ao que nunca teve forma. Existem outras luas, incontáveis, geladas, esquecidas, que talvez os acolham. Calisto, por exemplo, espera em silêncio, coberta de cicatrizes tão antigas quanto suas próprias ilusões.Aqui, já foi feito o necessário. A operação foi complexa, mas silenciosa. Ela dizia que os cientistas haviam mentido demais, e agora mereciam um vazio. Um céu sem satélite. Nenhuma maré. Nada de eclipses para distraí-los da verdade.Levou anos planejando, sondando fraquezas no protocolo lunar, driblando a vigilância das agências espaciais com um balé de espelhos, drones falsos e comunicações embaralhadas.
Quando percebeu que sozinha não conseguiria, fez o impensável: ligou para seu velho conhecido Elon Musk. Afinal, alguém com tanto dinheiro podia muito bem emprestar um foguete — talvez até dois. Não foi difícil convencê-lo. Bastou prometer que aquilo abriria novos caminhos para a exploração privada do espaço, e que a Terra plana seria, no mínimo, uma boa notícia.
A Lua não foi levada à força, mas puxada com precisão por um sistema de tração orbital experimental, desenvolvido por engenheiros dissidentes que juravam ter entendido o real desenho do cosmos. Um campo gravitacional reverso, envolvido por cabos eletromagnéticos, guiou a travessia como se fosse um reboque silencioso entre crateras e escuridão. Assim ela sumiu, como um sonho recolhido antes do amanhecer.Precisava da Lua, e não era prepotência. Era cálculo, convicção. Sem ela no céu, o mundo inteiro teria que olhar para cima e notar o que antes ignorava. A ausência escancarava aquilo que o excesso sempre escondeu. O céu limpo era o seu argumento mais puro. Sem curvas, sem fases, sem distrações refletidas.Alguns, ainda confusos, ousaram perguntar: “Mas e a gravidade? Como você lida com ela lá?” Ela sorriu com certo desdém, como quem já ouviu a mesma dúvida em inúmeras vozes, sempre com o mesmo espanto. Depois, explicou com a calma meticulosa de quem decorou cada detalhe técnico ao longo dos anos.A gravidade ali era tênue, suave, como se o corpo pesasse menos porque carregava verdades demais. Bastava controlar o centro de massa, ajustar os passos à leveza estranha do solo cinzento. Os trajes foram adaptados, os instrumentos calibrados — tudo pensado para que o próprio andar parecesse argumento.O negociador indagou: “Qual é a exigência para o estorno?” Ela não hesitou. A exigência era clara, inegociável: que reconhecessem, oficialmente e sem rodeios, que a Terra era plana. Nenhuma margem para metáforas ou interpretações poéticas. Queria a confissão escrita, assinada, selada com carimbo científico. Só então, talvez, devolveria a Lua.Mas o reconhecimento nunca veio. Nenhuma assinatura, nenhum selo, nenhum pedido formal de desculpas pelo equívoco esférico. A confissão que ela exigia ficou suspensa, assim como a Lua — imóvel, oculta, silenciosa no alto do seu pequeno apartamento pressurizado em Alden, entre paredes metálicas e monitores que piscavam como vaga-lumes artificiais.Com o tempo, as marés se reinventaram. Os oceanos aprenderam a seguir outros ritmos, guiados talvez pelo magnetismo dos próprios ventos. Agricultores adaptaram os ciclos, criaram métodos independentes do céu. Poetas — esses sim — foram os primeiros a desertar. Sem a Lua para suspirar, passaram a mirar Vênus, tão visível quanto melancólica, acesa nas primeiras horas da tarde: um planeta que parecia sempre à beira de algo, como um amor que nunca chega.A Lua, esquecida em órbita baixa e privada, segue lá, presa ao delírio de um só. Não gira mais para ninguém, não ilumina marés, calendários ou canções. E ela, a sequestradora serena, assiste tudo pela janela estreita do módulo. Espera, ainda, a rendição do mundo.
Mas ninguém veio.


Glossário: Alden é uma cratera que se localiza no lado negro da Lua, entre Hilbert a norte-nordeste e Milne a sul-sudeste.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Elocução Etérea

 

imagem:@ariannamaih

Diálogos impertinentes


— Aquela já foi polinizada, as pétalas estão caindo. É estranho observar o fim de algo que brilhou com tanta intensidade. Lembro do perfume que ela exalava quando ainda sonhava em florescer para o mundo. Já se inclina para o inevitável, com a dignidade das coisas que sabem partir.
— Tem uma calma estranha no seu jeito hoje.
— Não se preocupe comigo, estou bem. Apenas um vazio leve me encostou por dentro.
— Você acha que há sofrimento nela?
— Talvez não seja dor… talvez seja só o corpo aceitando que não há mais o que oferecer, como quem se despede sem palavras, deixando o tempo levar o que não é mais dela. Fica um pouco no ar, um pouco na lembrança, e um pouco em quem teve o privilégio de vê-la aberta.
— Efemeridades… como se cada instante estivesse prestes a desaparecer.
— Às vezes penso que aquilo que não dura não vai nos afetar tanto.
— Vamos ter que voar mais longe.
— Por entre as folhas, há armadilhas silenciosas esperando voo distraído.
— Você, outra vez, preocupada comigo… Você percebe coisas em mim que nem eu noto. Sempre sabe quando algo em mim se recolhe.
— Se meu voo te inquieta, eu mudo a direção.
— Se acalme. É bonito esse jeito seu de estar por perto sem pedir.
— Talvez porque aprendi a ficar como quem não pesa, como quem entende que presença também pode ser abrigo.
— Você sempre chega assim, como quem escuta até o que não confesso.
— É que alguns silêncios seus gritam mais do que qualquer palavra.
— Quando voamos lado a lado, o vento pesa menos.

— Mesmo assim, senti o Mistral se aproximando…
— Esse sopro desmedido de longe?
— Sim… começa aos poucos, mas logo arranca tudo do lugar. Estou receosa.
— Podemos buscar refúgio antes que ele nos alcance.
— Mas e se ele já estiver nas sombras, nos vigiando entre os caules?
— Não se antecipe ao que ainda não chegou.
— Não é medo… é pressentimento.
— Eu entendo. Há ventos que não anunciam sua força, apenas varrem.
— E eu só queria garantir que continuássemos inteiras.
— Às vezes, inteireza é justamente o que sobra depois da ventania.
— Então me promete que, se for preciso, pousamos.
— Prometo que, se o céu escurecer demais, descanso ao seu lado.
— Mesmo que só reste um galho inclinado?
— Mesmo que reste apenas a sua presença me dizendo: aqui ainda é seguro.
— Obrigada por não duvidar da minha inquietação.
— É ela que nos mantém alertas… e, de certo modo, vivas.

(O vento passa leve entre elas, e nenhuma tenta decifrá-lo. Apenas sentem.)

— Às vezes penso que é isso que nos mantém em movimento: não a força das asas, mas o que nos move por dentro.

(O céu, nesse instante, parece mais largo — não por ser maior, mas por conter tudo o que elas não disseram.)