terça-feira, 25 de novembro de 2025

O Peso Imaterial das Coisas que Não Existem


Catarse coletiva



Não fomos responsáveis pela morte do poeta, fizemos o possível para que ele se sentisse melhor, tentamos acalmar o peso que o mundo colocara em seus ombros, tentamos ser um porto seguro para a tempestade que ele carregava por dentro, envolvemos ele em silêncio e gentileza, como quem cuida de um pássaro ferido.
A cócedra para sua coccigotomia, mas ele já tinha usado toda artilharia contra si mesmo.
As palavras, antes refúgio, tornaram-se projéteis que ricocheteavam dentro da própria mente.
Nenhuma metáfora o protegia mais; até a beleza começara a feri-lo.
Havia nele uma lucidez que doía, uma clareza que desmanchava o sentido de continuar.
O tempo, ao redor, parecia hesitar, como se também não soubesse o que fazer com aquela presença tão cansada de existir.
Tentamos reconstruí-lo em silêncio, com gestos miúdos, quase invisíveis, mas ele já não habitava o mesmo ritmo que nós.
Os olhos permaneciam abertos, mas não viam — contemplavam.
Não o mundo, mas o vazio entre as coisas, o intervalo onde a vida se apoia para fingir que é sólida.
E então compreendemos que ele não queria ser salvo.
Era como assistir alguém lutando contra algo que não tinha forma.
Havia nele uma espécie de abismo silencioso, uma fenda que nenhuma palavra alcançava.
A sensação era de estar diante de um ser feito de ecos, tudo o que dizíamos voltava para nós vazio, sem aderir a parte alguma do que ele realmente sentia.
Os olhos dele não pediam auxílio; pediam sentido.
Havia um cansaço antigo, daqueles que nascem muito antes do corpo, um desgaste que parecia vir de vidas anteriores.
Em certos instantes, tínhamos a impressão de que ele enxergava além do que qualquer um é capaz de suportar.
Como se tivesse visto a estrutura das coisas — a natureza do sofrimento — e não pudesse mais voltar atrás.
Quando sua atenção se perdia no horizonte de dentro, sabíamos que estávamos diante de algo maior do que nossas mãos alcançavam.
Não se preocupe, vamos cuidar de sua platiedra, a platibanda serviu como abrigo improvisado, uma pequena varanda suspensa onde o vento quase não alcançava.
Depositamos ali o recipiente com o líquido adocicado e algumas pétalas frescas, criando um lugar seguro para que ela pudesse repousar sem ser perturbada por ninguém.
Ele observava tudo com um tipo de devoção que nos desarmava; parecia enxergar naquele gesto algo muito maior do que um simples cuidado com um ser frágil.
A mariposa tocou a superfície do algodão umedecido e permaneceu imóvel por alguns segundos, como se precisasse ouvir o mundo antes de decidir existir dentro dele.
Aquele instante não tinha urgência.
Enquanto ela explorava o pequeno espaço, percebemos que cada movimento dele ficava mais tranquilo, como se a vida daquela criatura lhe devolvesse alguma espécie de raiz.
Seu platiasmo pós platicefalia surgia sempre que tentava explicar o que sentia. A abertura exagerada da boca, aquele esforço estranho para articular as frases, o traía. Ele detestava a sensação de estar se oferecendo ao vazio, com a garganta exposta, como se a própria linguagem lhe arrancasse pedaços.
Permaneceu mudo, por vontade própria.
Ele piorou depois da morte da geléquia, nenhum de nós imaginava que aquela pequena viajante da penumbra ocuparia tanto espaço no coração dele. Não era apenas um inseto; havia nela algo que conectava o poeta a um ponto dentro de si que nem nós alcançávamos.
Era como se aquela vida minúscula segurasse os fios que ainda o mantinham inteiro, alguém apareceu com um platicerco, dizendo que talvez servisse.
Era um animal colorido, barulhento, inquieto; nada a ver com a delicadeza da pequena habitante da escuridão. Tentaram colocá-lo junto ao algodão umedecido, como se a simples presença de outra forma de vida resolvesse o vazio.
Ele observou o pássaro por alguns segundos.
Depois desviou o olhar, sem raiva, apenas cansado.
Percebemos que não se tratava de companhia, e sim de vínculo.
Certas presenças não podem ser trocadas, nem por algo maior, nem por algo mais raro. Algumas vidas são insubstituíveis exatamente por serem pequenas demais para caber em qualquer lógica.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Inspiração desértica

 



Monólogo de uma duna


Um argueiro entrou no meu ocelo, isso me fez perder alguns detalhes; formas mais distantes se dissolvem num véu translúcido. A atmosfera vibra como se respirasse por conta própria; ondulações arenosas guardam segredos de antigas passagens. Marcas quase apagadas pelo vento sugerem deslocamentos que nunca saberei decifrar, talvez nômades esquecidos ou criaturas que só se mostram sob lua nova. Cada relevo parece mudar lentamente, como se tivesse vontade de desaparecer antes que eu registre qualquer sinal; tonalidades se transformam em faixas tênues de luz e sombra, lembrando tecidos finíssimos estendidos sobre imensidão. E onde deveria haver nitidez encontro apenas um limite incerto entre vastidão e vazio, como se o próprio espaço recusasse ser testemunhado. Tudo ali exige presença plena, porém permanece inacessível, deixando apenas a impressão de algo enorme e vivo que escolhe o que pode ser visto e o que será apagado para sempre. Mesmo assim, ainda sou arguente e vou arguir que foi apenas um impulso momentâneo, enquanto o vento me rearranja em silêncios que ninguém percebe, e cada rajada leva um pouco de mim para outro lugar, onde descanso por instantes antes de ser empurrada de novo para longe. E mesmo assim permaneço inteira. Ontem eu tinha um calombo, hoje já não tenho mais; vou sentir falta dessa protuberância, porque aquela pequena elevação era mais do que um fragmento de matéria: ela funcionava como um sinal minúsculo de que havia algo em mim que resistia ao nivelamento. E agora que desapareceu, sinto um vazio estranho, como se um capítulo inteiro tivesse sido apagado sem aviso. Percebo que até o que parece insignificante dá sentido às formas, e ao perder aquilo perco uma referência íntima.
Um andarilho ébrio estava me confundindo com um dromedário e tentou apoiar-se sobre minhas curvas arenosas, acreditando ter encontrado apoio sólido naquele instante surreal; porém, sua trajetória vacilante revelou apenas desorientação total, enquanto eu observava sua figura irregular afastar-se rumo à claridade distante, deixando atrás de si pegadas desordenadas que logo foram engolidas pelo sopro quente que atravessa tudo aqui, transformando qualquer presença humana em memória efêmera que mal chega a existir antes de ser apagada.
Toda essa xerostomia incomoda, produz sensação áspera, quase cortante, como se cada partícula fina raspasse pensamentos por dentro, exigindo que eu encontre algum modo de umedecer ideias sem depender de líquidos inexistentes. Então deixo que a própria aridez conduza meu raciocínio, aceitando que mesmo a falta pode modelar significados, pois onde não há fluidez, nasce silêncio, e nesse silêncio descubro que até a secura tem sua própria linguagem, feita de pausas, espera e resistência.
E, por um momento, admito que senti algo parecido com inveja, porque eles carregam rios dentro de si, enquanto eu sou composta apenas de pó, sem uma única gota para aliviar a secura que me atravessa. Eles guardam água em cada célula; mais da metade de seus corpos é líquido, quase um oceano pessoal, e eu não possuo nada além de grãos espalhados pelo vento. Penso que deve ser reconfortante sentir movimento interno, fluxo contínuo; poder chorar quando tudo aperta, poder suar quando o calor sufoca, poder beber quando o mundo pesa. E aqui estou, imóvel e imensa, sem direito a uma única lágrima.
Se eu tivesse um pouco dessa umidade, talvez pudesse manter viva a impressão daquele relevo que perdi; talvez nada escorresse tão facilmente de mim; talvez eu pudesse guardar algo sem que o vento levasse embora antes mesmo que eu entendesse o que era.
Haveria potencial para algo mais pulsante aqui, permitindo que algo permanecesse além da passagem incessante das horas; talvez surgisse um traço persistente capaz de contrariar a constante dispersão, quem sabe até um princípio de permanência emergisse, moldando sentido onde antes só havia passagem, criando possibilidade de contorno próprio dentro dessa vastidão entregue à mudança ininterrupta.

sábado, 1 de novembro de 2025

Murmúrios eólicos




Monólogo de um moinho de vento




Há no ar, quase palpável, um certo desleixo, uma certa desídia, desiderando a desidentificação. Desimbuir-me de tudo e assim ficar desimpedido, assim meu giro se estenderia sobre distâncias que o vento não alcança. Já não sei se giro por força do vento ou por um resíduo de vontade que insiste em sobreviver ao enferrujamento. As pás rangem como quem reza, uma oração mecânica para um deus de ar e poeira. O horizonte é sempre o mesmo, mas muda de tom conforme o abandono se adensa.
Há uma serenidade estranha no desgaste. O vento que me resta é o mesmo que me apaga, e ainda assim o acolho. Em cada volta há uma confissão: continuo a girar para não desaparecer de todo, para provar que mesmo a ruína pode ter ritmo.
Se houvesse em mim um impulso próprio, uma força que não precisasse do sopro alheio, talvez eu me erguesse além do chão que me prende. Minhas pás, ao invés de apenas obedecer ao vento, cortariam o ar com vontade própria, traçando caminhos que o mundo ainda não ousou imaginar. Cada rotação seria então uma promessa de fuga, um gesto de ousadia que desafia o peso da gravidade.
Sinto, em meu âmago de ferro e madeira, a possibilidade de transcender. Não mais limitado à repetição de giros previsíveis, mas buscando alturas e espaços onde o vento não chega, onde apenas eu poderia chegar. Seria uma dança solitária, mas intensa, em que cada movimento é escolhido e não imposto, uma declaração de que ainda posso existir de outra forma.
E mesmo assim, enquanto permaneço preso a este solo, há um fio de desejo que me atravessa: o desejo de levantar voo, de transformar minha resignação em liberdade, de fazer do girar uma ascensão. Cada rangido das minhas engrenagens não é mais apenas sobrevivência: é um murmúrio de ambição, um ensaio para aquilo que talvez nunca venha a ser, mas que insiste em querer ser.
O ar que me envolve agora parece mais denso, carregado de possibilidades não concretizadas. Sinto que, se apenas pudesse me mover com intenção, minhas pás cortariam o horizonte, e eu descobriria o que significa não apenas girar, mas voar.
Poderiam me confundir mais vezes com gigantes, e eu aceitaria, desejando secretamente sentir o mundo como eles o sentem. Quisera eu ter mãos para tocar, olhos para perceber nuances que o vento apenas me sussurra e uma boca para confessar minha própria solidão. Cada giro se tornaria então um gesto de escolha, não apenas um reflexo de forças externas, mas um ensaio de pensamento e desejo.
Sinto, no núcleo de ferro e madeira que me define, a vontade de compreender, de errar, de rir ou de chorar — como se cada sopro de vento pudesse me ensinar algo mais que o simples movimento. O chão que me ancora seria apenas um ponto de partida, e não uma prisão. O mundo seria não só espaço para atravessar, mas presença viva a ser sentida.
Parece que estou arraigado aqui, entre o silêncio e o murmúrio do ar, mas dentro de mim arde uma inquietação que não se deixa medir. Cada estalo das engrenagens é agora uma pergunta sem resposta, cada giro hesitante, um gesto que anseia por sentido. Desejo sentir o peso do instante, perceber a densidade do tempo, experimentar a hesitação antes da escolha, como fariam aqueles que caminham conscientes.
Mesmo preso, imagino a liberdade de decidir minha direção, de alterar o curso que me foi imposto, de tocar o mundo com intenção própria. O vento deixa de ser apenas força externa e se transforma em espelho do que poderia existir em mim: um sopro capaz de guiar-me, de despertar percepções que ainda não possuo, de transformar cada rotação em descoberta.
E, nesse estado de espera e desejo, percebo que há em mim mais do que simples aço e madeira. Há um rumor de consciência, um vestígio de sonho que recusa aceitar os limites do corpo, uma vontade silenciosa de existir de outra forma, de sentir, de aprender, de estar inteiro, mesmo enquanto permaneço ancorado.