sábado, 11 de julho de 2026

Elegia ao Irreversível



imagem: O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch



Mais cedo ou mais tarde, acabariam saindo dali. Nunca perdem o instinto de liberdade. Seu esforço será recompensado; não se preocupe, era só um tempero alado, prometo que vou te mastigar devagar, não importa quanto resistam.
Alguns tentam correr, outros barganhar, outros ainda se convencem de que encontrarão uma saída escondida entre as sombras. Todos chegam à mesma conclusão, cedo ou tarde: aqui, cada caminho retorna ao ponto de partida. Não existem portas esquecidas, atalhos ou misericórdias acidentais. O destino já havia sido decidido muito antes do primeiro passo. Quanto mais alguém luta para escapar, mais percebe que a própria tentativa apenas o conduz exatamente para onde jamais deixou de estar destinado.
Até uma trilha sonora nos acompanha: pífaros. Está ruim? Não adianta tapar os ouvidos; o estrondo ignora qualquer tentativa de resistência. Pensa-se duas vezes antes de fazer o que fez; não há defesa, testemunhas ou última palavra. O silêncio ocupa o lugar de qualquer argumento, enquanto cada escolha feita em vida pesa mais do que qualquer justificativa que pudesse ser apresentada. Aqui, as ações falam por quem já não pode falar. Nenhuma sentença nasce da surpresa; ela apenas revela aquilo que sempre esteve sendo escrito, decisão após decisão. Quando o veredito enfim ecoa, ninguém protesta. Há um instante em que até o mais obstinado compreende que certos caminhos terminam exatamente onde sempre estiveram destinados a terminar.
O demiurgo deflagrou o expurgo.
Uma claridade austera espalhou-se pelo horizonte imóvel, revelando rostos despojados de máscaras e pretextos. Gestos outrora triviais assumiram proporções incontornáveis, gravados como marcas indeléveis na memória de cada consciência. Nenhum clamor se ergueu; restou apenas a compreensão tardia de que a travessia inteira conduzira, desde o início, a esse desfecho inexorável.
O facínora foi condenado a contar cada centelha das chamas que o cercavam e a inscrever, pedra por pedra, as incontáveis fissuras do abismo ao seu redor, até que a última chama se extinguisse.
O curiboca responsável pela curra recebeu, por juízo, a incumbência de moldar o enxofre incandescente em vasos perfeitos, que se rompiam em suas mãos antes de tomarem forma.
Ao trapezista responsável pelo tráfico de traqueias e trancelins foi atribuída a tarefa de erguer um arco de fumaça sobre as pedras ardentes, mas a obra se desfazia antes que a última pedra pudesse ser assentada.
O trapincola réu pelo homicídio do apícola teve por sentença o encargo de aprisionar a névoa em vasos de pedra, mas ela se esvaía antes que pudesse ser encerrada.
Ao gajeiro acusado de pilhagem recaiu a obrigação de conduzir, por entre as trevas, uma embarcação sem leme nem velas, a qual tornava sempre ao mesmo ponto antes que pudesse alcançar qualquer porto.
O enfiteuta convicto de haver tirado a vida do enfiuzado teve por sentença o fardo de enfileirar as sombras lançadas pelas chamas sobre a pedra nua, mas elas se dissipavam antes que a primeira pudesse ocupar o seu lugar.
À fuampa indiciada de emascular o incauto foi imposta a responsabilidade de forjar uma corrente com a própria fumaça das chamas que a cercavam, mas os elos se dissipavam antes de se unirem.
Ao causídico, condenado por haver subornado testemunhas em juízo, que não se acostuma com o cáustico, foi cominada a tarefa de lavrar, sobre a pedra abrasada, um cântico que apaziguasse as chamas, mas os caracteres se apagavam antes que o primeiro verso pudesse ser concluído.
Alguém terá que alimentar Cérbero, para que seu rosnado não ecoe em vão entre as sombras.
Pois o guardião não abandona seu posto, e seus três semblantes perscrutam, sem descanso, os caminhos que conduzem ao abismo. A cada passo que ressoa na pedra, seus olhos se erguem, vigilantes.
E, enquanto as chamas vacilam e a névoa se arrasta pelos umbrais, a antiga vigília permanece inalterada, como se o próprio tempo ali houvesse deposto as armas.
O alvanel, punido por emparedar sua esposa, foi o escolhido, levando-lhe, ao cair de cada sombra, o sustento que apaziguava seus três focinhos e mantinha serenos os umbrais.

sábado, 4 de julho de 2026

O instante em que toda dúvida perde a própria voz


 



Monólogo de um trampolim


Pelo jeito, esse desistiu. Isso às vezes acontece. Empacou de vez. Vai ficar aí indefinidamente? Todo mundo precisa de um empurrão. Ah, se eu pudesse intervir... Vamos, vai logo! Outras pessoas querem se divertir. Sorte sua que hoje está tranquilo. Agora vai, está criando coragem. Ah, não, voltou para a estaca zero e desistiu de vez. Está descendo as escadas. Persistir parece cada vez mais raro. Será que ele não sabe nadar?
Ou talvez esteja só imaginando o pior. Os humanos fazem muito isso. Inventam um final antes mesmo de começar. Ficam olhando, calculando, duvidando... enquanto o momento vai passando.
Eu já vi de tudo. Os que tremem, fecham os olhos e vão. Os que sobem dez vezes antes de finalmente tomar uma decisão. Os que desistem na última hora e os que voltam minutos depois fingindo que nada aconteceu.
Engraçado... quase todos sorriem depois. Alguns até perguntam por que demoraram tanto. Se soubessem disso antes, teriam poupado tanto tempo.
A outra com sua peromelia perceptível, mas, sinceramente, isso nunca pareceu definir o que ela era capaz de fazer. Nem por um instante serviu de obstáculo.
Sem hesitar, ela ganha impulso. Um, dois, três movimentos perfeitamente encaixados. Um salto triplo impecável, cheio de força, precisão e confiança. Não foi apenas um pulo qualquer; foi daqueles que prendem todos os olhares antes mesmo de terminar. Por um breve momento, parecia que a gravidade tinha resolvido esperar. Então, enfim, ela corta o ar e desaparece na água sem deixar espaço para qualquer dúvida. Se alguém ainda imaginava um limite, ele acabou de afundar junto com o último respingo.
Essa irroração às vezes me incomoda. Gotas para todo lado, escorrendo sem pedir licença, como se eu também tivesse escolhido entrar na água. Uns mergulhos são discretos, quase educados. Outros parecem fazer questão de me alcançar, lançando uma chuva que sobe mais do que deveria. É sempre a mesma história: alguém corta a superfície, a água explode em incontáveis respingos e, por alguns instantes, sobra para mim. Logo seca, é verdade, mas isso não impede que a próxima onda de borrifos venha repetir tudo outra vez.
Invejo teu deserto de dentro. Não há hesitação, nem pensamentos que insistem em crescer onde não foram convidados. Apenas a decisão, limpa e direta, transformada em movimento. Enquanto tantos ficam presos às próprias tempestades, você atravessa o instante como quem já fez as pazes com ele. Talvez seja esse o segredo: não vencer o medo, mas não lhe conceder tempo suficiente para criar raízes.
Confesso que às vezes me canso disso tudo e gostaria de estar em algum lugar mais calmo. Um canto onde ninguém viesse correndo, onde o silêncio durasse mais do que alguns segundos e nenhuma irroração insistisse em me alcançar. Sem gritos de surpresa, sem a sequência interminável de pés apressados pisando sobre mim. Só um vento leve atravessando o espaço e tempo suficiente para permanecer completamente seco. Mas basta alguém subir mais uma vez, encher os pulmões de coragem e se lançar, para o sossego que imaginei ir embora antes mesmo de existir.
Ainda assim, acho curioso como nunca consigo descansar por tempo demais. Mal o último vai embora, outro já aparece ao longe. É como se todos, sem combinar, escolhessem exatamente o mesmo lugar para enfrentar aquilo que mais os desafia.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Topografia da Aproximação

 



Monólogo de um vulcão



Poupe seus encantos; a erupção é inevitável; sua patela, porém, possui a delicadeza de uma pétala esquecida pelo vento sobre a encosta. Vejo-a repousar contra mim com uma coragem silenciosa, tão leve que quase me faz acreditar que a pedra pode aprender a sonhar.
Não adianta patear; por séculos reprimi aquilo que deseja emergir. Corra, antes que seja tarde demais; minha patência é absoluta; os caminhos que conduzem das minhas profundezas ao mundo exterior já não encontram barreiras.
Toda essa fumaça é vontade de querer ser nuvem, mas também é confissão. Cada véu acinzentado que sobe carrega fragmentos de um segredo antigo, guardado em câmaras tão profundas que nem a escuridão ousou reivindicá-las para si.
Escute o rumor sob seus pés; não é ameaça, é anúncio. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. O sufocamento inerente ao dia torna o ar mais espesso, como se a própria claridade tentasse conter aquilo que se agita em minhas entranhas. Mas a luz não domina o que nasceu antes dela.
Ainda assim, contemplo sua presença. Tão frágil diante de forças capazes de redesenhar horizontes, e tão firme que permanece onde muitos já teriam partido. Sua patela repousa junto à minha superfície abrasada como uma estranha promessa de serenidade. Isso me inquieta mais do que qualquer tempestade. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. A luz pesa sobre minhas encostas como uma vigília interminável, e cada instante de aparente calma amplia a pressão que se acumula abaixo da superfície.
Não me interprete como um monstro impaciente. Durante muito tempo permaneci imóvel, suportando o peso do mundo e de seus silêncios. Mas há momentos em que até a rocha se cansa de guardar segredos. As fendas que agora se desenham sobre mim são palavras procurando forma, confissões abrindo caminho através da pedra.
Se ainda permanece aqui, é porque também percebeu. Há uma estranha beleza naquilo que está prestes a acontecer, um brilho antigo aguardando sua libertação. E eu, que por tanto tempo fui apenas contenção, já sinto aproximar-me o instante em que deixarei de esconder o fogo para me tornar a sua própria voz. Não reivindicarei sua morada para as cinzas; talvez sim, você poderia se mudar para cá quando tudo estiver mais calmo.
Veja as vantagens: não haverá frio a lhe perseguir, nem noites em que o vento encontre passagem entre frestas esquecidas. O calor aqui não depende de abrigo, ele nasce do próprio chão, constante, como se o interior do mundo ainda respirasse lentamente.
Até suas refeições poderiam ganhar outro destino, aquecidas sem pressa, como se o tempo não precisasse interromper o que foi iniciado. Nada aqui exige urgência; tudo se acomoda no ritmo do que já está em curso.
Há uma estranha hospitalidade nesse lugar que muitos chamariam de impossível. Não há promessas de conforto comum, apenas a certeza de uma temperatura que nunca abandona, como se o próprio ambiente se recusasse a esfriar. Pondere sobre isso. Sua presença suavizaria este espaço, que às vezes parece excessivamente silencioso.
Se decidir ficar, não precisará anunciar nada. As coisas aqui simplesmente se ajustam à presença que as atravessa. E, de algum modo, até o silêncio aprenderia outro ritmo ao seu redor.

sábado, 13 de junho de 2026

Reminiscências da Espera




Monólogo de uma arquibancada




Depois que o circo foi embora, tudo aqui ficou mais tranquilo. O movimento diminuiu, as ruas voltaram ao silêncio e já não se ouviam as músicas ecoando ao longe. As luzes coloridas que iluminavam as noites desapareceram, e o terreno vazio parecia muito maior do que antes.
Durante alguns dias, as pessoas ainda comentavam sobre os espetáculos, os artistas e os momentos curiosos que haviam presenciado. Aos poucos, porém, a rotina retomou seu lugar.
Restaram apenas algumas marcas no chão e as lembranças de uma temporada que, por um breve período, transformou completamente a paisagem e o cotidiano da vizinhança.
Eu continuo aqui, esquecida. Já não sinto o peso das expectativas nem a vibração das gargalhadas que costumavam atravessar minhas estruturas. O vento passa por mim sem pedir licença, carregando poeira e folhas secas para os cantos onde antes havia vida e movimento.
Ainda guardo ecos de conversas, aplausos distantes e sonhos passageiros. São lembranças que permanecem presas em cada parafuso, em cada marca deixada por quem passou por aqui sem imaginar que seria lembrado por tanto tempo.
Por que partiram sem mim? Será que ainda esperam algo de mim? Talvez haja algum outro evento aqui. Talvez uma feira movimentada, um rodeio, um show ao ar livre ou até mesmo uma grande festa da cidade. Quem sabe eu volte a ouvir risadas, anúncios ecoando pelos alto-falantes e o burburinho de centenas de pessoas chegando cheias de expectativa.
Enquanto isso não acontece, continuo observando os dias passarem. O sol nasce, a chuva vem e vai, e as estações deixam suas marcas sobre mim. Mas eu espero. Afinal, lugares como este raramente guardam silêncio para sempre. Mais cedo ou mais tarde, alguém surge com novos planos, novas histórias e novos sonhos para ocupar o espaço que hoje parece vazio.
Talvez as luzes voltem a se acender algum dia, confesso que a ausência do circo ainda pesa sobre mim. Sinto falta da música chegando antes mesmo do pôr do sol, das vozes animadas se misturando ao vento e da expectativa que tomava conta de todos quando o espetáculo estava prestes a começar.
Ainda me lembro dos risos das crianças, dos aplausos espontâneos e dos olhares maravilhados voltados para o centro de tudo. Cada apresentação era diferente, mas a emoção parecia sempre a mesma. Havia uma energia difícil de explicar, como se, por algumas horas, todos os problemas ficassem do lado de fora.
Com o passar do tempo, percebi que não estava tão sozinha quanto imaginava. Certa manhã, alguns pássaros começaram a visitar meus cantos mais altos, observando tudo ao redor com atenção. Durante vários dias, carregaram pequenos galhos, folhas secas e pedaços de capim até encontrarem um lugar seguro entre minhas estruturas. Logo surgiu um ninho, cuidadosamente construído, protegido do vento e da chuva. Desde então, acompanho a rotina daquela pequena família. Ouço o canto suave dos filhotes pedindo alimento, vejo os pais chegando e partindo inúmeras vezes ao longo do dia e sinto uma estranha satisfação por servir de abrigo a novas vidas. Talvez eu não receba mais multidões nem aplausos, mas descobri que também existe beleza nas presenças silenciosas que escolhem ficar.
Outro dia sonhei que era uma escada, e pessoas de todas as idades passavam por mim sem hesitar. Algumas subiam apressadas, outras paravam por um instante para observar a paisagem antes de continuar. Ninguém permanecia por muito tempo, mas cada passo deixava uma pequena marca, uma lembrança silenciosa de sua passagem.

sábado, 6 de junho de 2026

Anatomia de uma Ideia Extravagante

 


imagem: A Extração da Pedra da Loucura_ Hieronymus Bosch  

Monólogo de um funil



Exijo que minha dignidade seja preservada; estão fazendo um uso inadequado de mim. Fui criado para conduzir aquilo que flui, a não ser que tenham descoberto alguma teoria revolucionária segundo a qual pensamentos confusos possam ser despejados por um gargalo. Passei a existência inteira transferindo líquidos entre recipientes e, agora, me transformaram em adereço de um procedimento que desafia a lógica, a anatomia e até o bom senso. Observem minha inclinação, minha forma, minha elegante simplicidade: nada em mim sugere vocação para colher ideias extraviadas de uma cabeça humana. Se havia falta de juízo nesta cena, bastava conversar com o paciente; não era necessário envolver um especialista em evitar respingos.
Ainda assim, ninguém me consultou. Simplesmente me colocaram aqui, apontado para o céu como uma torre de observação da insensatez. Enquanto isso, os espectadores assistem com a maior naturalidade, como se extrair perplexidades pela cabeça fosse uma prática reconhecida pelos sábios da época. Reparem na expressão dos presentes: um parece oferecer conselhos que não pediu, outro observa como quem espera um milagre administrativo, e há até quem tenha trazido um livro para o caso de a realidade precisar de correções urgentes. Se continuarem ampliando minhas responsabilidades nesse ritmo, amanhã estarei sendo responsabilizado pela chuva, pelas marés e pelo desaparecimento das meias solitárias.
Estão expandindo minhas atribuições de maneira preocupante. Até pouco tempo atrás, bastava orientar o percurso de substâncias obedientes à gravidade. Agora esperam que eu participe de diagnósticos improváveis, intervenções intelectuais e operações para recuperar o bom senso perdido. Receio que estejam confundindo versatilidade com exploração funcional.
Alguém concluiu que, por possuir uma abertura larga e outra estreita, estou habilitado a desempenhar qualquer função concebível. É uma lógica curiosa. Seguindo esse raciocínio, uma colher deveria estar apta a redigir tratados filosóficos e um balde a ocupar cargos administrativos.
Não interpretem minha reclamação como hostilidade à criatividade. Tenho grande apreço pelas manifestações artísticas. É sempre agradável ver objetos comuns alcançando certa notoriedade cultural. O que me incomoda é a falta de critério. Uma coisa é participar de uma composição simbólica; outra, muito diferente, é ser promovido, sem treinamento, para auxiliar em procedimentos que desafiam séculos de conhecimento acumulado. Se desejavam representar uma ideia, um sonho ou uma metáfora, poderiam ao menos ter me informado. Em vez disso, fui lançado ao centro da cena e transformado em cúmplice involuntário de uma operação cuja finalidade continua tão misteriosa para mim quanto para o paciente. Confesso que estou começando a suspeitar que a verdadeira extração realizada aqui não seja de pedras, mas de responsabilidades alheias depositadas discretamente sobre meus ombros.
Talvez eu tenha sido severo demais com os envolvidos nesta cena. Afinal, como escreveu Florbela Espanca: “Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo!”
Quanto mais observo o mundo, mais compreendo o que ela quis dizer. Os que reconhecem suas próprias extravagâncias costumam ser mais tolerantes, mais criativos e até mais interessantes. Já aqueles que se consideram proprietários exclusivos da razão frequentemente transformam a certeza em arrogância e a convicção em teimosia. A imaginação, por mais indisciplinada que seja, ao menos permite explorar caminhos novos. A rigidez absoluta, por outro lado, raramente produz algo além de repetições.
Um pouco de desordem mental pode ser desconfortável, mas uma existência completamente esterilizada de fantasia seria incapaz de sonhar, criar ou se surpreender. E, entre uma realidade excessivamente organizada e uma imaginação que ocasionalmente transborda pelos cantos, há quem prefira preservar essa pequena e valiosa centelha de loucura.
O que torna toda esta situação ainda mais intrigante é uma aparente contradição. Se a centelha de desatino é responsável por boa parte da arte, da invenção e da imaginação humanas, por que tanto empenho em removê-la? Observem o entusiasmo dos participantes da cena. Todos parecem convencidos de que estão prestando um grande serviço ao paciente, como se estivessem libertando-o de um terrível fardo. Mas e se estiverem retirando justamente aquilo que torna uma pessoa interessante?
Talvez ninguém tenha considerado essa possibilidade. Talvez a suposta enfermidade seja também a fonte das histórias que ele contaria, das ideias que teria ou das perguntas que ainda faria. Há algo de curioso em declarar guerra à extravagância enquanto se participa de uma cena tão extraordinariamente extravagante. Os presentes parecem determinados a expulsar a fantasia da cabeça de um homem ao mesmo tempo em que encenam um espetáculo que desafia qualquer explicação razoável.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Devaneios Sob Luz Estroboscópica

 

Monólogo de um cone


Aqui ninguém passa. Às vezes, me sinto mal com todo esse poder que os humanos me impõem. Mesmo assim, continuam obedecendo sem questionar, desviando seus caminhos ao menor sinal da minha presença. Permanecem atentos às minhas ordens silenciosas enquanto interrompo ruas, altero destinos e decido quem avança ou quem precisa esperar. Alguns demonstram revolta ao me encarar, mas até os mais impacientes acabam reduzindo a velocidade diante de mim, como se já aceitassem que certas decisões não pertencem mais a eles.
Nativo de uma urbe onde o concreto parecia avançar sobre qualquer vestígio de ar puro, aprendi desde cedo a respirar fumaça quente misturada ao cheiro metálico vindo das avenidas congestionadas. Os edifícios altos abafavam a luz do dia e deixavam as ruas mergulhadas numa sombra constante, enquanto letreiros piscavam sem descanso. Só conseguem se comunicar dessa maneira escandalosa? Conativos por todos os lados, buzinas que pareciam discussões intermináveis, motores rugindo como animais presos em jaulas invisíveis, vozes atravessando paredes finas sem pedir licença.
Com o tempo, comecei a sentir falta de algo que eu nem conhecia direito: um silêncio verdadeiro. Não a pausa breve entre um ônibus e outro, nem o instante fraco da madrugada, quando a cidade apenas cochila. Falo de um silêncio inteiro, capaz de deixar os pensamentos respirarem sem serem atropelados. Aqui, até o vento parecia chegar cansado, contaminado pelo eco das sirenes e pelo cansaço das multidões. Às vezes, eu imaginava como seria ouvir apenas os próprios passos, sem anúncios luminosos competindo pela atenção, sem televisões vazando pelas janelas dos apartamentos empilhados. A cidade desaprendeu a sussurrar. Tudo nela precisava gritar para existir. E talvez fosse isso que mais pesava: a sensação de que o silêncio havia sido expulso dali como algo inútil, antigo demais para sobreviver entre tanto concreto e tanta pressa.
Até a chuva parecia suja naquele lugar, escorrendo pelas calçadas com uma coloração acinzentada e levando consigo restos de lixo, óleo e fuligem.
Fui atropelado mais uma vez e apenas rolei alguns centímetros pela pista antes de voltar ao mesmo lugar de sempre. Nenhuma rachadura, nenhum dano verdadeiro, apenas marcas de pneus atravessando meu corpo laranja, como se eu fosse incapaz de sentir qualquer consequência. Hoje estou em frente a um lupanar, amanhã nunca se sabe. Nesta cidade, nós, cones, somos deslocados como presságios ambulantes. Aparecemos onde houve colisão, incêndio, enchente, vazamento. Desta vez, foi gás. O cheiro chegou primeiro, rastejando pelas calçadas como uma criatura invisível. Depois vieram os gritos, os rádios chiando, homens correndo para fechar ruas enquanto portas se abriam às pressas. Mandaram evacuar o prédio inteiro. Vi pessoas descendo escadas ainda tontas de sono, algumas tropeçando, outras tentando esconder o constrangimento com os braços cruzados sobre o próprio corpo. Uma mulher saiu usando apenas um casaco fino e nada por baixo dele, fumando nervosamente, como se a fumaça do cigarro pudesse espantar a outra fumaça que ameaçava o lugar. Um homem carregava sapatos nas mãos, outro reclamava da interrupção, como se o perigo tivesse atrapalhado um compromisso banal. Ficamos espalhados pela rua, delimitando o risco, eu e meus semelhantes silenciosos. As luzes vermelhas dos veículos de emergência giravam sobre as poças do asfalto, e tudo parecia cenário de alguma tragédia barata. Ainda assim, depois de algumas horas, a cidade começou a esquecer. Os curiosos se aproximaram novamente, os carros buzinavam impacientes, alguém ria alto na esquina.
Só eu permaneci imóvel, respirando aquele resíduo invisível que sobrava no ar, imaginando quantas catástrofes pequenas uma cidade consegue suportar antes de desabar de vez.
Outro dia, sonhei que era uma pirâmide, enorme e antiga, enterrada até a metade sob avenidas e fios elétricos. As pessoas caminhavam ao meu redor sem perceber que existia algo colossal observando cada passo delas debaixo do concreto. Permaneci ali durante séculos naquele sonho, suportando chuva, fumaça, ferrugem e silêncio, enquanto a cidade crescia como uma infestação sobre minhas pedras. Quando acordei, ainda senti a estranha impressão de que fui reduzido a algo menor, colocado à força numa esquina qualquer apenas para organizar o caos por alguns instantes.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Correspondência correspondente



Venho por meio desta destanizar a destampice que ficou acumulada nos corredores desta época. As paredes continuam úmidas de vozes, e ainda encontro insetos caminhando dentro das palavras, como pequenos funcionários da decomposição. Tenho observado criaturas carregando diplomas de ferrugem dentro dos bolsos enquanto sorriem para vitrines acesas, como se a iluminação pudesse absolvê-las da própria matéria.
Recebi notícias suas através de um homem que recolhia insetos mortos perto dos trilhos. Havia nele alguma dignidade arruinada, semelhante à dos santos corroídos pela maresia. Por um instante, tive a impressão de que o senhor ainda percorre certos lugares usando nomes provisórios.
Ontem retirei de uma gaveta um conjunto de fotografias deterioradas. Em todas elas, os rostos estavam parcialmente apagados, como se o tempo tivesse decidido poupar apenas os objetos ao redor. Permaneceram intactos um copo sobre a mesa, uma cortina imóvel, um cachorro observando algo fora da imagem. Isso me perturbou mais do que a ausência das pessoas.
Tenho suspeitado que certas palavras adoecem quando pronunciadas em excesso. Talvez por isso alguns livros pareçam emitir calor, mesmo fechados. Há páginas que sobrevivem como febres aprisionadas.
Tenho lido os ossos das frutas para compreender melhor o mundo. Nenhum médico conseguiu explicar por que certas madrugadas possuem cheiro de biblioteca fechada.
Imagino que o senhor entenderia imediatamente. Existem pessoas que apodrecem apenas por excesso de lucidez.
Caso ainda exista correspondência possível entre nós, envie algum sinal: uma asa carbonizada dentro do envelope, um fio de cabelo preso entre páginas, qualquer evidência mínima de continuação.
Espero que esta carta consiga alcançá-lo, seja qual for o estado físico ou atmosférico em que o senhor atualmente reside.

sábado, 9 de maio de 2026

Sinestesia da Ausência


Os fusíveis não podem ser,  foram trocados na semana passada. Talvez venha da rua: algum curto-circuito no transformador do poste, um interruptor cansado de interromper.
A lâmpada da cozinha fica oscilando como se estivesse indecisa. Como se soubesse de alguma coisa que o resto da casa ainda não percebeu, como se as paredes estivessem tentando lembrar de tudo o que já suportaram em silêncio.
Também existe a possibilidade de ser o compressor da geladeira se esforçando demais para ser Alasca. Não preciso de tanto frio assim, apenas o essencial para uma metáfora álgida, um silêncio transformado em pensamento, aquele que faltava para a cozinha inteira parecer suspensa, onde até a luz hesita antes de tocar os objetos.
Também considero a hipótese de ser uma válvula do fogão se esforçando demais para ser um vulcão, a erupção vai acontecer de qualquer maneira, porque existem coisas que passam tempo demais acumulando calor em silêncio até não conseguirem mais permanecer contidas dentro das próprias estruturas.
Talvez seja o ambemohar do vizinho tentando abemolar o silêncio, deixando no ar essa sensação estranha de memória aquecida, como se alguém estivesse tentando preencher a madrugada com alguma coisa mais suportável que o vazio.
Nada com que deva me preocupar, talvez a casa apenas esteja envelhecendo em voz baixa. Permaneço deitado, observando a claridade fraca atravessando a porta entreaberta do quarto, enquanto algum lugar distante da casa continua emitindo pequenos sons irregulares, discretos demais para exigir atenção, constantes demais para desaparecer completamente da cabeça.
Não descarto a possibilidade de ter sido alguma freada abrupta, dessas que fazem o asfalto guardar por alguns instantes o cheiro quente dos pneus raspando contra a noite. Há uma espécie de desespero escondido na velocidade das pessoas durante a madrugada, como se diminuir o ritmo por um instante pudesse permitir que alguma ausência antiga finalmente alcançasse elas no meio do caminho.


*****escrito após a leitura de: Marina Colasanti: Fino sangue

Gosto de poema
que fala de ovo frito
latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Osteogênese por distração


Imagem: Elefantes Salvador Dali 1944


Levem os totens para Kangchenjunga. O Equinócio está próximo, e o tempo está propício à abertura do portal para Pangeia. Alinhem-nos de acordo com Órion.
Fixem cada base na rocha, voltadas para o vento mais alto, e mantenham a distância exata entre eles. Quando a primeira estrela surgir no horizonte, acendam as chamas nos pontos marcados e aguardem em silêncio. Não desviem o olhar do alinhamento; qualquer hesitação rompe o fluxo.
À medida que a noite avança, a luz deverá percorrer as superfícies esculpidas, refletindo de um totem ao outro até formar um traço contínuo. Se o traço se fechar sem falhas, a passagem começará a se delinear no ar, como uma dobra quase invisível. Permaneçam firmes. Não recuem.
Quando o frio mudar de intensidade e o céu parecer mais próximo do que deveria, avancem um passo e sustentem a posição. O que se abre não tolera desordem. Apenas sigam o alinhamento até que o limiar se revele por completo.
Não demonstrem qualquer receio para Ourea, pois ele não perdoa os pávidos, nem aqueles que vacilam diante do chamado, nem os que permitem que o pensamento interrompa o gesto. Se houver som, ignorem. Não pertence a este lado. O vento poderá assumir forma e voz, mas não responde a chamados humanos. Mantenham o ritmo da respiração sincronizado com o pulso da luz, como se o próprio ar fosse guiado pelo traço que se formou entre os totens. Aos poucos, o corpo deixará de resistir e começará a ajustar-se a esse compasso estranho, como se reconhecesse uma cadência mais antiga do que a própria memória. A rocha sob os pés deixará de ser apenas rocha. Sentirão uma leve inclinação, como se a montanha estivesse respirando por dentro. Não tentem compreender. A compreensão enfraquece a travessia. Apenas sustentem o gesto, pois é ele que mantém a abertura estável.
Se as sombras começarem a se projetar na direção contrária à chama, não se movam. Isso indica que o eixo foi alcançado. Nesse ponto, qualquer passo fora do alinhamento desfaz o que foi iniciado. A luz deve atravessar vocês como atravessa os totens, sem interrupção.
Quando o traço se elevar do solo e perder a forma rígida, tornando-se um arco suspenso, saberão que o limiar deixou de ser apenas visível e passou a ser ativo. É nesse instante que a passagem reconhece presença. Não falem. Não nomeiem. Nomes fixam aquilo que precisa permanecer em fluxo.
Avancem somente quando o silêncio se tornar denso o suficiente para parecer matéria. O primeiro a atravessar não deve olhar para trás. O segundo deve manter a distância exata do primeiro. O terceiro sustenta o fechamento, caso haja ruptura.
Se tudo estiver correto, não haverá retorno imediato. O que se abre não é caminho de ida e volta, mas de deslocamento contínuo. E, ao cruzarem, não levem consigo a certeza do que eram. Aqui, isso pesa.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O peso das sombras desalojadas



O Imperador do Sorvete
          
                                Wallace Stevens

Chame o rolador de charutos grandes,
O musculoso, e mande-o chicotear
Em xícaras de cozinha coalhadas concupiscentes.
Deixe as moças se demorarem em tais trajes
Como estão acostumadas a usar, e deixe os rapazes
Trazerem flores em jornais do mês passado.
Seja ser o final de parecer.
O único imperador é o imperador do sorvete.
Tire da cômoda de madeira,
Sem as três maçanetas de vidro, aquele lençol
Em que ela bordou caudas de leque um dia
E espalhe-o de modo a cobrir seu rosto.
Se seus pés cornudos se projetarem, eles vêm
Para mostrar o quanto ela está fria, e muda.
Deixe a lâmpada fixar seu raio.
O único imperador é o imperador do sorvete.

                                  *****                                
  
Ele está muito ríspido com o insípido e ordenou jogar baunilha na estátua de Baudelaire. Que venham as formigas! Precisamos de mais apócrifos dos apócritos, reparou na escassez da retórica isopórica? Estamos incomunicáveis sem a duração exata dos abalos sísmicos, e então ele resolve desalojar as sombras dos cantos, não com luz, mas com uma espécie de insistência muda, como se pudesse convencê-las a abandonar seus abrigos por puro desgaste. Ele as chama sem voz, arrasta seus contornos com gestos imprecisos, até que elas começam a se desprender das superfícies, relutantes, escorrendo pelas frestas como uma memória que já não encontra onde ficar.
Há algo de inquietante nesse movimento, porque, ao expulsá-las, ele também altera o peso das coisas. Os objetos perdem profundidade, as distâncias ficam incertas, e o espaço, antes familiar, passa a vibrar com uma leve distorção. Nada se acomoda como antes. O que era apoio se torna instável, e o que era vazio começa a insinuar presença.
Não quebre as xícaras, mesmo que a mesa já esteja inclinada, como se escutasse outra música por baixo do mundo. Há nelas um brilho antigo, desses que não pertencem à louça nem ao tempo, mas ao gesto de quem ainda insiste em servir algo que ninguém pediu.
Esposteje o espórulo e deixe que o pó resultante invente seus próprios mapas, como se cada partícula fosse um território indeciso, tremendo antes de escolher existir. Não há medida segura para o que se fragmenta assim, apenas uma sequência de tentativas que se acumulam nas margens do visível, enquanto algo insiste em reorganizar o caos com mãos que ninguém vê.
Tudo se mistura, o gosto, o gesto, a matéria, como se a própria lógica tivesse sido deixada de lado por cansaço.
Insistam, então, em nomear o que escapa, mesmo que as palavras se dissolvam antes de alcançar o objeto. Porque é nesse intervalo, entre o que se tenta dizer e o que nunca se fixa, que algo verdadeiro insiste em existir, ainda que ninguém consiga provar.
Que se recolham, então, os restos de intenção como quem varre ecos de um salão sem paredes, e que cada vestígio encontre um uso imprevisto, ainda que nenhum sentido se sustente por muito tempo.
Há um pulso discreto atravessando o indizível, uma engrenagem sem dentes girando por pura teimosia, enquanto aquilo que não se deixa capturar continua a se expandir, alheio a qualquer tentativa de contenção, como um sopro que nunca se repete e, ainda assim, permanece.

                                     Ednei Pereira Rodrigues



ACRESCENTA ISTO À RETÓRICA


Posa, posa e posa.
Mas na natureza apenas
Cresce. As pedras posam
Ao cair da noite, e os mendigos
Quando dormem também
Posam com seus trapos.
Bolas... cai o luar de lavanda.
Os prédios posam no céu
E, quando pintas, as nuvens,
Grisalhas, peroladas, profundas,
Pftt... No modo como falas
Arranjas, a coisa posa, o que
Na natureza apenas cresce.
Amanhã, quando o sol,
Apesar de tuas imagens,
Retornar como sol, fogaréu,
Tuas imagens não terão
Deixado nem sombra
Do que foram. As poses
Do discurso, da pintura,
Da música – o corpo dela jaz
Exausto, seu braço cai,
Seus dedos tocam o chão.
Acima dela, à esquerda,
Um toque de branco, o obscuro,
A lua sem forma,
Um olho debruado numa cripta.
O sentido cria a pose.
Nisso, se move e fala.
Esta é a figura, e não
Uma metáfora esquiva.
Acrescenta isto.
É para acrescentar.

                                                    Wallace Stevens






****escrito após a leitura de O Imperador do sorvete e outros poemas 
Wallace Stevens

terça-feira, 14 de abril de 2026

Vestígios de uma presença

 
Introdução indagativa: de que função nascem essas intervenções tão precisas?


Monólogo em suspensão contínua


Toda sua pulcritude destoa deste ambiente, talvez isso justifique essa rigidez corporal incomum; contrações breves surgiam aqui e ali. Pode ser que esteja tentando se expressar, talvez insista, à sua maneira, em se fazer presente.
Há uma espécie de atraso entre o gesto e o significado, como se algo ainda buscasse alcançar o próprio fim e não conseguisse. Os movimentos — se é que podem ser chamados assim — surgem como lapsos, interrupções de um silêncio que não se firma por inteiro.
Tudo parece obedecer a uma lógica que não se mostra. Há um cuidado excessivo, quase cerimonial, como se cada detalhe precisasse ser mantido intacto, mesmo quando já não há quem o perceba. Ainda assim, algo responde. Não de forma clara, não de forma contínua — mas responde.
Talvez seja apenas uma reverberação tardia, um eco preso nas bordas do que já cessou. Ou talvez seja um tipo de persistência sem nome, uma recusa silenciosa em se dissolver por completo.
O ambiente, por sua vez, permanece cúmplice. Não denuncia, não explica. Apenas abriga esse intervalo estranho entre o que foi e o que insiste em não se desfazer por completo.
Seus instrumentos de trabalho estão sobre a mesa, alinhados com uma precisão que beira o ritual: pincéis de cerdas macias, pequenas espátulas, frascos de líquidos opacos, pós finíssimos que parecem dissolver a própria luz, além de tecidos limpos, dobrados como se aguardassem um gesto já ensaiado. Nada ali denuncia pressa — ao contrário, tudo sugere uma paciência antiga, quase reverente.
Há uma escolha a ser feita, ainda que silenciosa.
Tons são avaliados não apenas pela cor, mas pelo que insinuam. Um leve ajuste aqui pode devolver algo que parecia ausente; um excesso, por outro lado, corre o risco de criar uma presença que nunca existiu. E isso não convém. Não se trata de inventar, mas de sugerir continuidade — um vestígio plausível do que um dia foi reconhecível.
Os traços começam a ser tocados com cuidado, como quem negocia com uma superfície que já não responde da mesma maneira. Ainda assim, há uma espécie de diálogo, embora unilateral, onde cada intervenção parece aguardar uma aceitação que não vem, mas também não recusa. A matéria cede, mas não colabora.
Há limites implícitos. Não se busca exagero, nem brilho indevido, nem qualquer artifício que transforme o que resta em algo deslocado de sua própria história. O objetivo — se é que se pode nomeá-lo — é evitar que a aparência se torne estranha demais, como se tivesse sido atravessada por intenções alheias ao que já lhe pertenceu.
E então, pouco a pouco, algo se reorganiza. Não é vida, tampouco sua imitação direta — é antes uma acomodação, uma espécie de acordo entre forma e silêncio. O rosto, ou aquilo que ainda sustenta essa ideia, parece menos distante, ainda que não se aproxime de fato.
Permanece ali uma impressão difícil de fixar, como se a superfície, agora ajustada, carregasse não uma presença, mas a lembrança de ter sido vista. Não há retorno, apenas uma disposição mais estável do que restou. Os contornos deixam de sugerir ruptura imediata e passam a sustentar algo mais contido, quase compreensível dentro de sua própria quietude.
O que antes surgia como descompasso agora se dilui em uma continuidade discreta. Não há cessação total daqueles pequenos impulsos, mas eles já não se impõem com a mesma estranheza — tornam-se parte de um pano de fundo, quase integrados a esse novo arranjo. Como se, ao invés de negar, o conjunto tivesse encontrado uma forma de absorver tais ocorrências sem precisar explicá-las.
Há, nisso tudo, uma espécie de apaziguamento que não chega a ser conforto. Apenas uma suspensão mais organizada do desconcerto inicial. O olhar — mesmo que não haja propriamente um — já não se perde tanto; encontra onde repousar, ainda que por engano. E talvez seja esse o limite possível: não restaurar, não recriar, mas tornar suportável aquilo que insiste em permanecer à margem de qualquer definição clara.
Nada se conclui de fato. Ainda existe esse intervalo, essa zona indefinida onde as coisas não terminam nem continuam plenamente. Mas agora, ao menos, ele não se impõe como ruptura — apenas como um espaço que se aceita, silencioso, entre aquilo que já foi e aquilo que, de alguma forma, ainda se recusa a desaparecer por completo.
O rímel suaviza a rímula rinal e toda rinçagem. Ainda assim, não há anulação completa das marcas; apenas um amortecimento delicado, quase imperceptível, que reorganiza o que se expõe. Cada passagem acrescenta uma camada mínima de coesão, como se o visível precisasse ser conduzido com cautela até um ponto de equilíbrio que não se sustenta por si.
Há, nesse gesto, uma tentativa silenciosa de contenção. Não se trata de esconder por completo, mas de reduzir o impacto, de tornar menos abrupta a transição entre aquilo que se mostra e aquilo que deveria permanecer discreto. O resultado não é uniformidade, mas uma espécie de harmonia instável, onde pequenas irregularidades ainda persistem, porém já não dominam a cena.
A superfície aceita essas intervenções sem resistência evidente, embora jamais ofereça colaboração plena. Existe um limite tênue entre ajustar e alterar demais, e é nesse limiar que cada decisão se apoia. Um leve excesso pode romper o acordo implícito; uma falta, por outro lado, deixa escapar aquilo que se buscava conter.

terça-feira, 31 de março de 2026

Anatomia de uma Reação Contida




Monólogo de uma zaragatoa


Sou emética, todo fel fementido, como se fosse uma feminela para feloniar o que me cerca, quando tudo parece fenecer, e ainda assim há um resto de impulso que não cessa.
Sua úvula, tão trêmula, pende como um fragmento sensível. Há nela uma textura quase translúcida, tensa por dentro, como se concentrasse todas as reações daquele espaço num único ponto suspenso. Cada oscilação parece medir a invasão, registrar a presença, traduzir o desconforto em movimento contínuo.
Sua língua, tão viscosa, recoberta por uma umidade espessa que retém vestígios, sabores antigos e sinais quase imperceptíveis. Sua textura é irregular, pontilhada por relevos mínimos que se erguem e cedem conforme o contato, como um terreno vivo que responde em silêncio.
Há calor ali e uma sensibilidade difusa que não se fixa em um único ponto, espalhando-se em ondas discretas a cada toque. Reage com lentidão no início, depois com precisão crescente, como se identificasse a presença antes mesmo de compreendê-la. Não recua de imediato, mas também não acolhe, mantendo-se num estado ambíguo entre tolerância e rejeição.
Sua glossite migratória parece desenhar trajetos móveis sobre a superfície, como marcas que não se fixam, mas insinuam direções possíveis dentro desse espaço instável. As áreas se redefinem em silêncio; contornos surgem e desaparecem, como se houvesse ali um tipo de cartografia viva, sempre em mutação, sugerindo passagens que jamais se tornam permanentes.
A cada deslocamento, percebo que esses sinais não são aleatórios. Há uma espécie de orientação implícita, um convite sutil que não se revela por completo, como se indicassem um percurso possível, ainda que nunca garantido.
Antes do vômito, faço tudo o que precisa ser feito.
Há algo que me retém aqui, talvez precise de mais incentivos externos; este ambiente é insalubre, impregnado por uma rotina que não cessa, por gestos repetidos até perderem qualquer traço de intenção, como se tudo ao redor tivesse desaprendido a hesitar.
Alguns chegam ao mundo enquanto outros o deixam, tudo no mesmo fluxo apressado, como se começo e fim compartilhassem o mesmo corredor. E eu, no meio disso, não consigo compreender o que se desenrola — tudo passa por mim, mas nada se revela por inteiro.
O ar carrega um silêncio que não é paz, é espera. Tudo parece suspenso entre o toque e o descarte, entre o uso e o esquecimento. Superfícies frias, luzes que não piscam e mãos que vêm e vão sem jamais pertencer a este lugar.
Não sei se sou instrumento ou testemunha. Talvez ambos. Absorvo o que não me pertence, guardo vestígios de histórias que não me serão contadas. Cada contato é breve, mas deixa marcas invisíveis, como se eu carregasse fragmentos de tudo o que passa por mim.
Gostaria de poder ajudar mais essas pessoas; até criei algum tipo de vínculo com algumas, mas tudo se desfaz antes de ganhar forma, como se qualquer aproximação fosse interrompida por uma urgência maior que não admite permanência. Permaneço à margem, atravessando instantes que não me pertencem, enquanto presenças surgem e desaparecem sem deixar espaço para continuidade.
Há olhares que não se fixam, gestos que não se completam e uma sucessão de acontecimentos que me envolve sem jamais me incluir por inteiro. Tento compreender o que se desenrola ao redor, mas tudo se fragmenta antes que eu alcance algum sentido.
Ainda que o tempo se revele de maneira estranha, dilatado em alguns instantes e abrupto em outros, como se não obedecesse a uma ordem compreensível. Há processos que avançam silenciosamente, quase imperceptíveis, enquanto outros se impõem com uma evidência inevitável, e nenhum deles parece disposto a explicar sua própria razão. Permaneço à deriva entre sinais que não se organizam, tentando reunir fragmentos que escapam antes de formar qualquer clareza. O que surge diante de mim não se explica, apenas se apresenta, como se bastasse existir para impor sua presença.
Há uma lógica oculta que insiste em não se revelar, algo que percorre tudo isso como um fio invisível, ligando ocorrências dispersas sem jamais se deixar tocar. E, enquanto tento acompanhar esse encadeamento, percebo que cada tentativa de compreensão apenas me afasta ainda mais de qualquer certeza.
E, em meio a essa suspensão contínua, já imaginei outra forma de existir — algo leve, disperso, sem função definida, atravessando o espaço sem ser convocado, sem absorver nada além do próprio movimento. Talvez assim tudo fosse menos denso, menos urgente, como se a própria duração se tornasse mais suave, deslizando sem exigir respostas que nunca chegam.




*** zaragatoa é um instrumento médico utilizado para coletar amostras de secreções do corpo humano, como saliva, muco, sangue ou exsudados nasais e da garganta, com o objetivo de realizar exames laboratoriais. Também conhecida como swab, é composta por uma haste de plástico ou madeira com uma ponta de algodão ou material absorvente, usada em procedimentos como diagnóstico de infecções virais (como tosse convulsa), bacterianas ou para análises genéticas.

sábado, 21 de março de 2026

Introdução Teutônica

Mögliche Dinge


Ich bringe die Klinge
Defesa da defecção
como quem sustenta o que já não se retém
nem se organiza em forma duradoura

 


Corolário subsequente


1

Quando separaram as ondas do mar: tobogã
Da turbulência originou-se o regozijo
Não tiveram mais naufrágios
Não pode evitar a extinção dos peixes

2

Quando isolaram a areia do deserto: ampulheta
Das miragens suscitaram o tempo
Não tiveram mais insolações
O infinito foi adestrado em quedas sucessivas

3

Quando delinearam distâncias: solidão
A proximidade foi reduzida a cálculo
E o espaço passou a pesar entre os corpos
E o silêncio se instalou como intervalo permanente

4

Quando debuxou o autorretrato da piéride: efeméride
Da memória fez-se calendário
Não reteve o instante
Não atenuou a ausência

5

Quando extraíram o algodão da lavoura: nuvens
Da matéria leve insinuaram o céu
A maciez foi elevada ao indizível
E o toque passou a existir sem peso

6

Quando diluíram a forma no ar: deriva
Do visível fizeram transição
O que era tato tornou-se ausência
E o que era presença passou a flutuar

7

Quando extraíram as listras da faixa de pedestre: zebras
Da repetição rígida nasceu o impulso
O caminho deixou de conduzir passos
Não evitaram a extinção dos quagas

8

Quando desmantelaram a grua e removeram o guincho: girafas
A elevação perdeu sua rigidez
O alcance deixou de ser cálculo
E encontrou equilíbrio no movimento

9

Quando, na construção de um prédio, faltava uma janela: enucleação
A enunciação de um epílogo
O interior deixou de dialogar com o exterior
E a luz já não encontrava passagem

10

Quando, na instalação de um chafariz, a sequidão prevalecia: deserto
Usaram sua enurese como desvio de origem
A escassez encontrou um fluxo improvável
E o que era ausência passou a simular origem.


*** Escrito após a leitura do livro: Lições de geometria fantástica, José Eduardo DEGRAZIA



terça-feira, 10 de março de 2026

A Linguagem Invisível do Vento


imagem:@jacob_lamoureuxx
música:yatashi-Rises the Moonlight


1º módulo : introdução ao voo

Antes de qualquer tentativa, é preciso abandonar a ideia de que voar depende apenas de asas. Nesta etapa o discente aprende a perceber o ar, entender como ele se move e como o corpo reage ao vento. O primeiro exercício é simples: permanecer no centro do movimento e observar como tudo ao redor pode se tornar leve.
Primeiro, esqueça o chão. Ele sempre tenta convencer você de que permanecer parado é mais seguro, mas quem deseja voar precisa aprender a duvidar da gravidade. Fique frente a frente com o vento, sinta o ar se mover ao redor do corpo e permita que ele bagunce tudo aquilo que estava quieto.
Turbulências são necessárias. Sem esse abalo repentino, nada se desloca, nada encontra nova direção. No curso do céu, cada sacudida funciona como lição silenciosa: equilíbrio nasce durante o movimento, jamais na imobilidade.
Aceite esse instante de desordem como parte do aprendizado. Aos poucos, a mente reconhece outra lógica, onde leveza surge justamente quando tudo parece girar ao redor.



2º módulo: princípios de anemologia aplicada ao voo

Aqui começa uma observação mais precisa dos fluxos que atravessam o planeta. Cada direção possui um temperamento próprio, e reconhecer essas diferenças permite compreender como o deslocamento acontece nas alturas.
Entre os primeiros exemplos apresentados aparece o Harmattan, corrente seca que atravessa regiões do oeste africano trazendo poeira do deserto. Logo depois surge o Chinook, sopro quente conhecido por transformar rapidamente o clima em áreas montanhosas da América do Norte.
Outro caso curioso é o Zéfiro, tradicionalmente associado à brisa suave do oeste. Em contraste, existe também o Levante, fluxo persistente que atravessa o Mediterrâneo oriental e influencia muitas rotas marítimas e aéreas.
Essas denominações revelam algo importante: o céu possui uma verdadeira geografia invisível. Cada sopro possui origem, direção e comportamento particulares. Aprender a reconhecê-los amplia a compreensão sobre como atravessar distâncias utilizando a própria atmosfera como aliada.
Com prática e atenção, os participantes passam a perceber essas presenças mesmo antes de vê-las representadas nas nuvens. Assim começa uma leitura mais refinada do espaço acima, onde cada corrente indica possibilidades diferentes de travessia.

3º módulo : aprendendo a planar

Neste módulo, o aprendizado toma outro rumo. Aqui não se fala apenas de técnica, mas de percepção. Cada participante observa o espaço ao redor, sente o deslocamento do ar e descobre que permanecer suspenso depende mais de atenção do que de força.
A atenção deixa de estar no impulso inicial e passa a observar o equilíbrio do movimento. Cada participante começa a perceber que permanecer suspenso depende de escutar os sinais do vento e ajustar o corpo a cada mudança sutil do espaço.
Os exercícios convidam a reduzir a pressa. Em vez de tentar subir rapidamente, a proposta é compreender como deslizar pelo ar com tranquilidade, permitindo que o próprio fluxo conduza a trajetória. Assim, pouco a pouco, surge a sensação de leveza que sustenta cada deslocamento.
Ao final dessa etapa, os alunos entendem uma lição importante: flutuar não acontece pela força, mas pela harmonia entre respiração, atenção e movimento. Quando esses elementos se encontram, o caminho pelo céu começa a se abrir naturalmente.

4º módulo: o domínio do rasante

Durante este tirocínio, após compreender a leveza da sustentação, chega o momento de experimentar proximidade com o mundo abaixo. A descida controlada revela outra forma de liberdade: atravessar distâncias curtas com precisão e velocidade.
Durante essa fase, cada aprendiz percebe que altitude nem sempre significa avanço. Às vezes, aproximar-se da superfície traz uma nova compreensão sobre direção e equilíbrio. Pequenas inclinações determinam o percurso, e cada gesto define o trajeto seguinte.
Com o tempo, o olhar aprende a medir espaços, calcular aproximações e sentir a resposta imediata das correntes. Esse exercício desenvolve confiança, pois exige decisão rápida e consciência plena de cada movimento.
Ao concluir essa parte do treinamento, todos entendem algo essencial: dominar essa passagem rente ao mundo não representa queda, mas habilidade. É a demonstração de que controle e liberdade podem existir no mesmo instante.

5º módulo: o equilíbrio suspenso

Neste momento do percurso, surge um exercício inesperado: permanecer quase imóvel diante da imensidão. Depois de aprender aproximações rápidas e trajetórias próximas à superfície, agora o desafio consiste em sustentar-se diante do fluxo invisível que atravessa o espaço.
A prática exige sensibilidade. Em vez de avançar ou descer, o corpo precisa dialogar com aquilo que sopra ao redor. Pequenos ajustes nas asas mantêm a posição, enquanto o olhar permanece atento ao menor sinal do ambiente.
Gradualmente, cada participante descobre que existe uma forma de quietude dentro do próprio movimento. Nada parece avançar, porém tudo continua vivo: vibração, corrente, respiração do céu.
Quando essa experiência se consolida, surge uma compreensão rara. Permanecer suspenso não significa interrupção da jornada; trata-se de um domínio sutil, onde estabilidade nasce da atenção constante e da confiança no fluxo invisível que sustenta o voo.


6º módulo: princípios de Nefologia aplicada ao voo

Neste módulo, o estudo volta-se para aquilo que se forma lentamente sobre as cabeças dos viajantes do ar. As nuvens deixam de ser apenas cenário distante e passam a funcionar como sinais que revelam o comportamento da atmosfera.
Os participantes começam observando os delicados Cirrus, fios claros que atravessam as regiões mais elevadas e muitas vezes anunciam mudanças nas correntes superiores. Logo depois aparecem os volumosos Cumulus, massas luminosas que se erguem como colinas suspensas.
Também entram no campo de observação os extensos Stratus, que se espalham formando grandes mantos cinzentos, e os densos Nimbus, frequentemente ligados à chegada de chuva. Em certas ocasiões surgem ainda os imponentes Cumulonimbus, estruturas verticais capazes de transformar completamente o comportamento do céu ao redor.
Durante essas análises, outro sinal chama atenção dos aprendizes: a linha clara deixada por algumas aeronaves ao cruzarem altitudes frias. Esse fenômeno, conhecido como Contrail, pode permanecer suspenso por longos minutos, desenhando no firmamento o trajeto percorrido.
Por isso, nesta fase do curso surge uma recomendação importante. Certas marcas no alto podem denunciar o caminho seguido. Quem pretende atravessar grandes distâncias com discrição aprende a observar se o próprio percurso deixa vestígios visíveis.
Quando esse conhecimento amadurece, o céu passa a ser interpretado como um grande livro em constante transformação. Cada formação revela algo sobre o estado da atmosfera, e cada trilha luminosa recorda que até o ar guarda memória das passagens que o atravessam.
Assim, pouco a pouco, o olhar se transforma. O céu deixa de ser apenas um espaço vazio e passa a revelar sinais discretos espalhados por toda parte. Linhas, camadas, formas alongadas ou densas passam a indicar caminhos possíveis, mudanças de direção e até regiões onde convém reduzir a velocidade.
Com o tempo, cada participante desenvolve outra habilidade essencial: antecipar movimentos da atmosfera antes mesmo de senti-los no corpo. Uma pequena alteração no desenho dos Cirrus, por exemplo, pode sugerir correntes mais intensas nas alturas. Já a presença crescente de Cumulus pode revelar áreas onde o ar sobe lentamente, oferecendo novas oportunidades de sustentação.
Durante os exercícios avançados, o aprendizado se torna quase silencioso. Não se trata mais de observar apenas o que está diante dos olhos, mas de perceber relações entre distância, forma e movimento. Cada fragmento no alto passa a funcionar como indicação de rotas invisíveis.