terça-feira, 21 de julho de 2026

A Lenta Abolição do Corpo

 




Assim vai enxergar as pedras tristes, vai poder ajudá-las; agora terão quem as compreenda, talvez consiga consolá-las. O calhau no calhe percebeu o calhastroz e sentiu o sabor do calhariz, se calhar, toda pedra espera apenas alguém disposto a escutá-la.
Você terá calhestro para compreender o silêncio delas, porque nem toda conversa precisa de palavras; bastará permanecer imóvel por tempo suficiente.
Logo perceberá que o milonito está aflito, porque ninguém conhece melhor o custo de ser reduzido sem deixar de existir. Aquilo que parece firme já foi vencido inúmeras vezes, comprimido até adquirir outra natureza. Desde então, conserva em si uma memória que dispensa testemunhas. Há muito deixou de confiar na aparência da tranquilidade. Sempre que tudo parece definitivo, é justamente quando alguma força invisível recomeça seu trabalho. Por isso permanece inquieto. Não teme o que virá; teme apenas ser o único a reconhecer os primeiros sinais.
Reconhecerá a ardósia como sósia de uma irmã que o tempo tratou de separar.
Haverá quem jure que vocês são a mesma, apenas gastas por caminhos diferentes. Vão te confundir na rua, chamar pelo nome que nunca foi o seu, atribuir lembranças que pertencem a outra superfície. Alguns insistirão no engano, mesmo diante das diferenças, porque enxergar exige mais esforço do que presumir.
Depois de tantas confusões, deixarão de perguntar quem você realmente é. Passarão a medir apenas o que podem fazer com você. Irão imaginar cortes, revestimentos, paredes, pisos, bancadas. Poucos se interessam pela história escrita nas camadas que você acumulou sob uma pressão impossível de repetir. Para muitos, basta que seja resistente e silenciosa.
Logo entenderá que, para a maioria, ser confundida é apenas o primeiro passo para ser usada. Não importa o nome que lhe deem, desde que sirva de apoio, suporte ou acabamento. Quase ninguém percebe que uma ardósia também carrega marcas de tudo o que precisou suportar antes mesmo de poder sustentar o peso de qualquer outra coisa.
Continuará oferecendo apenas a face lisa, aquela que esperam encontrar. Ninguém encomenda o que existe sob a superfície. As varandas pedem placas impecáveis, não o interior exposto, úmido, escuro, escorrendo uma memória vermelha que faria qualquer visitante recuar. Querem a aparência da pedra; recusam tudo o que lembre que um dia houve carne, pulsação e feridas onde hoje imaginam apenas mineral.
Será estranho perceber que a transformação nunca termina por completo. Haverá gestos que insistirão em permanecer, reflexos que pertencem a um corpo que já não deveria responder por você. Por muito tempo, ainda procurará respirar antes de lembrar que o ar deixou de ser necessário. Desprender-se do hábito de ser humano talvez seja a camada mais resistente de todas, muito mais difícil de romper do que qualquer rocha que a pressão tenha conseguido reinventar.
Obsidente obsidiana na obsolescência do que obstaculariza a erosão definitiva das lembranças. Ainda existirão vestígios, como sedimentos que nenhuma compressão conseguiu expulsar. A geologia sabe transformar estruturas, mas demonstra pouca habilidade para apagar aquilo que insistiu em permanecer consciente.
Com o passar do tempo, deixará de distinguir se foi uma pessoa aprendendo a ser pedra ou uma pedra recordando, por engano, a experiência de ter sido gente. Essa dúvida se alojará entre as fissuras, discreta o suficiente para escapar aos olhos de quem apenas calcula espessura, resistência e valor por metro quadrado.
Talvez esse seja o último fragmento verdadeiramente humano que sobreviverá em você: a incapacidade de aceitar que algumas mudanças não oferecem caminho de volta.
Ao través do travertino, aprenderá que nem toda passagem conduz a algum lugar. Existem corredores escavados apenas para prolongar a hesitação, veios que se ramificam até perderem o próprio sentido. Quanto mais procurar a antiga direção, mais reconhecerá que ela pertence a uma geografia incapaz de sobreviver à metamorfose.
O tempo deixará de correr sobre você; será você quem permanecerá enquanto ele atravessa tudo ao redor. Rostos desaparecerão, cidades mudarão de contorno, idiomas se tornarão ruínas sonoras. Ainda assim, uma parte discreta insistirá em procurar o caminho de volta, como se a memória desconhecesse que certas travessias apagam o próprio ponto de partida.

sábado, 11 de julho de 2026

Elegia ao Irreversível



imagem: O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch



Mais cedo ou mais tarde, acabariam saindo dali. Nunca perdem o instinto de liberdade. Seu esforço será recompensado; não se preocupe, era só um tempero alado, prometo que vou te mastigar devagar, não importa quanto resistam.
Alguns tentam correr, outros barganhar, outros ainda se convencem de que encontrarão uma saída escondida entre as sombras. Todos chegam à mesma conclusão, cedo ou tarde: aqui, cada caminho retorna ao ponto de partida. Não existem portas esquecidas, atalhos ou misericórdias acidentais. O destino já havia sido decidido muito antes do primeiro passo. Quanto mais alguém luta para escapar, mais percebe que a própria tentativa apenas o conduz exatamente para onde jamais deixou de estar destinado.
Até uma trilha sonora nos acompanha: pífaros. Está ruim? Não adianta tapar os ouvidos; o estrondo ignora qualquer tentativa de resistência. Pensa-se duas vezes antes de fazer o que fez; não há defesa, testemunhas ou última palavra. O silêncio ocupa o lugar de qualquer argumento, enquanto cada escolha feita em vida pesa mais do que qualquer justificativa que pudesse ser apresentada. Aqui, as ações falam por quem já não pode falar. Nenhuma sentença nasce da surpresa; ela apenas revela aquilo que sempre esteve sendo escrito, decisão após decisão. Quando o veredito enfim ecoa, ninguém protesta. Há um instante em que até o mais obstinado compreende que certos caminhos terminam exatamente onde sempre estiveram destinados a terminar.
O demiurgo deflagrou o expurgo.
Uma claridade austera espalhou-se pelo horizonte imóvel, revelando rostos despojados de máscaras e pretextos. Gestos outrora triviais assumiram proporções incontornáveis, gravados como marcas indeléveis na memória de cada consciência. Nenhum clamor se ergueu; restou apenas a compreensão tardia de que a travessia inteira conduzira, desde o início, a esse desfecho inexorável.
O facínora foi condenado a contar cada centelha das chamas que o cercavam e a inscrever, pedra por pedra, as incontáveis fissuras do abismo ao seu redor, até que a última chama se extinguisse.
O curiboca responsável pela curra recebeu, por juízo, a incumbência de moldar o enxofre incandescente em vasos perfeitos, que se rompiam em suas mãos antes de tomarem forma.
Ao trapezista responsável pelo tráfico de traqueias e trancelins foi atribuída a tarefa de erguer um arco de fumaça sobre as pedras ardentes, mas a obra se desfazia antes que a última pedra pudesse ser assentada.
O trapincola réu pelo homicídio do apícola teve por sentença o encargo de aprisionar a névoa em vasos de pedra, mas ela se esvaía antes que pudesse ser encerrada.
Ao gajeiro acusado de pilhagem recaiu a obrigação de conduzir, por entre as trevas, uma embarcação sem leme nem velas, a qual tornava sempre ao mesmo ponto antes que pudesse alcançar qualquer porto.
O enfiteuta convicto de haver tirado a vida do enfiuzado teve por sentença o fardo de enfileirar as sombras lançadas pelas chamas sobre a pedra nua, mas elas se dissipavam antes que a primeira pudesse ocupar o seu lugar.
À fuampa indiciada de emascular o incauto foi imposta a responsabilidade de forjar uma corrente com a própria fumaça das chamas que a cercavam, mas os elos se dissipavam antes de se unirem.
Ao causídico, condenado por haver subornado testemunhas em juízo, que não se acostuma com o cáustico, foi cominada a tarefa de lavrar, sobre a pedra abrasada, um cântico que apaziguasse as chamas, mas os caracteres se apagavam antes que o primeiro verso pudesse ser concluído.
Alguém terá que alimentar Cérbero, para que seu rosnado não ecoe em vão entre as sombras.
Pois o guardião não abandona seu posto, e seus três semblantes perscrutam, sem descanso, os caminhos que conduzem ao abismo. A cada passo que ressoa na pedra, seus olhos se erguem, vigilantes.
E, enquanto as chamas vacilam e a névoa se arrasta pelos umbrais, a antiga vigília permanece inalterada, como se o próprio tempo ali houvesse deposto as armas.
O alvanel, punido por emparedar sua esposa, foi o escolhido, levando-lhe, ao cair de cada sombra, o sustento que apaziguava seus três focinhos e mantinha serenos os umbrais.

sábado, 4 de julho de 2026

O instante em que toda dúvida perde a própria voz


 



Monólogo de um trampolim


Pelo jeito, esse desistiu. Isso às vezes acontece. Empacou de vez. Vai ficar aí indefinidamente? Todo mundo precisa de um empurrão. Ah, se eu pudesse intervir... Vamos, vai logo! Outras pessoas querem se divertir. Sorte sua que hoje está tranquilo. Agora vai, está criando coragem. Ah, não, voltou para a estaca zero e desistiu de vez. Está descendo as escadas. Persistir parece cada vez mais raro. Será que ele não sabe nadar?
Ou talvez esteja só imaginando o pior. Os humanos fazem muito isso. Inventam um final antes mesmo de começar. Ficam olhando, calculando, duvidando... enquanto o momento vai passando.
Eu já vi de tudo. Os que tremem, fecham os olhos e vão. Os que sobem dez vezes antes de finalmente tomar uma decisão. Os que desistem na última hora e os que voltam minutos depois fingindo que nada aconteceu.
Engraçado... quase todos sorriem depois. Alguns até perguntam por que demoraram tanto. Se soubessem disso antes, teriam poupado tanto tempo.
A outra com sua peromelia perceptível, mas, sinceramente, isso nunca pareceu definir o que ela era capaz de fazer. Nem por um instante serviu de obstáculo.
Sem hesitar, ela ganha impulso. Um, dois, três movimentos perfeitamente encaixados. Um salto triplo impecável, cheio de força, precisão e confiança. Não foi apenas um pulo qualquer; foi daqueles que prendem todos os olhares antes mesmo de terminar. Por um breve momento, parecia que a gravidade tinha resolvido esperar. Então, enfim, ela corta o ar e desaparece na água sem deixar espaço para qualquer dúvida. Se alguém ainda imaginava um limite, ele acabou de afundar junto com o último respingo.
Essa irroração às vezes me incomoda. Gotas para todo lado, escorrendo sem pedir licença, como se eu também tivesse escolhido entrar na água. Uns mergulhos são discretos, quase educados. Outros parecem fazer questão de me alcançar, lançando uma chuva que sobe mais do que deveria. É sempre a mesma história: alguém corta a superfície, a água explode em incontáveis respingos e, por alguns instantes, sobra para mim. Logo seca, é verdade, mas isso não impede que a próxima onda de borrifos venha repetir tudo outra vez.
Invejo teu deserto de dentro. Não há hesitação, nem pensamentos que insistem em crescer onde não foram convidados. Apenas a decisão, limpa e direta, transformada em movimento. Enquanto tantos ficam presos às próprias tempestades, você atravessa o instante como quem já fez as pazes com ele. Talvez seja esse o segredo: não vencer o medo, mas não lhe conceder tempo suficiente para criar raízes.
Confesso que às vezes me canso disso tudo e gostaria de estar em algum lugar mais calmo. Um canto onde ninguém viesse correndo, onde o silêncio durasse mais do que alguns segundos e nenhuma irroração insistisse em me alcançar. Sem gritos de surpresa, sem a sequência interminável de pés apressados pisando sobre mim. Só um vento leve atravessando o espaço e tempo suficiente para permanecer completamente seco. Mas basta alguém subir mais uma vez, encher os pulmões de coragem e se lançar, para o sossego que imaginei ir embora antes mesmo de existir.
Ainda assim, acho curioso como nunca consigo descansar por tempo demais. Mal o último vai embora, outro já aparece ao longe. É como se todos, sem combinar, escolhessem exatamente o mesmo lugar para enfrentar aquilo que mais os desafia.