O condor veio de Macondo.
Não precisa apuridar que o condor austral surgiu entre as nuvens, deslizando no vale do Apurímac, veio prestar condolências ao alquimista Alquor Mistral; afinal, ele é bastante conhecido. Não se surpreenda se pinguins da Namíbia resolverem aparecer. Agora faz sentido a instalação do teto retrátil; as girafas vieram do Serengeti. Todos admiram sua notável serendipidade e sua serenidade, como se ambas fossem substâncias raras guardadas em frascos sem rótulo.
Como ninguém desejava transformar a despedida em espetáculo, decidiu-se não avisar as hienas. Havia o receio de que confundissem o silêncio com um convite ao riso e respondessem a cada solenidade com aquele deboche antigo que carregam na garganta. Algumas chegaram a rondar as colinas, curiosas com a movimentação incomum, mas bastou perceberem que ali o luto tinha mais peso do que o eco de suas gargalhadas para seguirem outro caminho, à procura de um acontecimento menos respeitável.
Pavões chegaram de Pavia, com toda sua jactância. Abriram as caudas como quem acreditava que a beleza pudesse disputar espaço com o luto, mas nem mesmo o brilho de suas penas conseguiu desviar a atenção do silêncio que pairava sobre o vale. Ainda assim, permaneceram imóveis por algum tempo, convencidos de que toda cerimônia se tornava mais importante quando havia alguém para ser contemplado, embora ninguém parecesse disposto a lhes conceder esse privilégio.
Dizem que foi capaz de destilar o silêncio sem quebrá-lo, de persuadir o mercúrio a esquecer o próprio reflexo e de convencer o vidro a não temer o fogo. Há quem jure que jamais procurou qualquer dessas descobertas; elas é que, uma a uma, aprenderam o caminho até sua oficina. Há quem diga que, em seu laboratório, os metais aguardavam pacientemente suas transformações, enquanto as sombras observavam em silêncio cada experimento que recusava seguir as regras conhecidas. Alguns afirmam que Alquor Mistral não descobria coisas novas; apenas encontrava aquilo que já estava escondido, esperando ser reconhecido. Outros dizem que suas maiores invenções surgiram quando ele abandonou a busca e permitiu que o acaso entrasse pela janela. Até hoje, ninguém sabe se suas fórmulas nasceram da ciência, da intuição ou de algum acordo secreto entre a matéria e o tempo.
Mas isso não seria por causa da migração?
Não. A migração costuma seguir mapas invisíveis traçados pelo clima, pelo alimento e pelo instinto. Esses não vieram seguindo estações ou correntes marítimas; vieram porque algumas ausências fazem barulho mesmo quando ninguém as anuncia.
Então, como encontraram o caminho?
Talvez não tenham encontrado caminho algum. Talvez certos lugares simplesmente chamem aquilo que ainda se lembra deles.
As circunstâncias de sua morte permanecem desconhecidas. A investigação policial continua em andamento; suspeitam de seu irmão, Aldren Vortem, exímio polidor de lentes que às vezes o ajudava em seus experimentos.
Talvez Aldren tenha suportado por tempo demais o papel de primeiro a atravessar portas que ninguém mais ousava abrir. Há quem diga que, antes de polir lentes, ele polia a própria paciência, aguardando que alguma fórmula finalmente o reconhecesse como mais do que uma simples extensão dos experimentos do irmão.
Alguns registros mencionam testes que não alcançaram o resultado esperado: um composto que deveria preservar a memória, mas apagava nomes antigos; uma lente capaz de revelar formas invisíveis, que passou a mostrar apenas aquilo que não estava presente; uma substância destinada a prolongar a vida, mas que fazia o tempo parecer avançar em direções diferentes. Talvez tenha sido o acúmulo dessas pequenas falhas, ou talvez o cansaço de ser sempre a primeira prova de algo ainda incompleto, que transformou a admiração em ressentimento. Ninguém sabe ao certo quando Aldren deixou de ajudar nas descobertas e passou a questionar o preço delas.
A Praga do Esquecimento
Uma nova praga
Assola a cidade de SP
Ela é conhecida
Como a Praga do Esquecimento
Essa moléstia já foi descrita anteriormente
Num vilarejo sul-americano
Chamado Macondo
Por um tal alquimista Márquez
Naquela ocasião
A população local elaborou um plano
Colocou etiquetas em tudo
Coisa ou ser humano
Talvez em SP esse recurso funcione
No momento que o olhar se cruzar
Antes do rosto desviar com indiferença
Será lida mutuamente a etiqueta "vizinho".
Quem sabe assim a memória recorde
Da palavra "oi".
Rafael Zappitelli Moscogliato

