sábado, 9 de maio de 2026

Alguma coisa funcionando além das paredes


Os fusíveis não podem ser,  foram trocados na semana passada. Talvez venha da rua: algum curto-circuito no transformador do poste, um interruptor cansado de interromper.
A lâmpada da cozinha fica oscilando como se estivesse indecisa. Como se soubesse de alguma coisa que o resto da casa ainda não percebeu, como se as paredes estivessem tentando lembrar de tudo o que já suportaram em silêncio.
Também existe a possibilidade de ser o compressor da geladeira se esforçando demais para ser Alasca. Não preciso de tanto frio assim, apenas o essencial para uma metáfora álgida, um silêncio transformado em pensamento, aquele que faltava para a cozinha inteira parecer suspensa, onde até a luz hesita antes de tocar os objetos.
Também considero a hipótese de ser uma válvula do fogão se esforçando demais para ser um vulcão, a erupção vai acontecer de qualquer maneira, porque existem coisas que passam tempo demais acumulando calor em silêncio até não conseguirem mais permanecer contidas dentro das próprias estruturas.
Talvez seja o ambemohar do vizinho tentando abemolar o silêncio, deixando no ar essa sensação estranha de memória aquecida, como se alguém estivesse tentando preencher a madrugada com alguma coisa mais suportável que o vazio.
Nada com que deva me preocupar, talvez a casa apenas esteja envelhecendo em voz baixa. Permaneço deitado, observando a claridade fraca atravessando a porta entreaberta do quarto, enquanto algum lugar distante da casa continua emitindo pequenos sons irregulares, discretos demais para exigir atenção, constantes demais para desaparecer completamente da cabeça.
Não descarto a possibilidade de ter sido alguma freada abrupta, dessas que fazem o asfalto guardar por alguns instantes o cheiro quente dos pneus raspando contra a noite. Há uma espécie de desespero escondido na velocidade das pessoas durante a madrugada, como se diminuir o ritmo por um instante pudesse permitir que alguma ausência antiga finalmente alcançasse elas no meio do caminho.


*****escrito após a leitura de: Marina Colasanti: Fino sangue

Gosto de poema
que fala de ovo frito
latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.