terça-feira, 26 de maio de 2026

Devaneios Sob Luz Estroboscópica

 

Monólogo de um cone


Aqui ninguém passa. Às vezes, me sinto mal com todo esse poder que os humanos me impõem. Mesmo assim, continuam obedecendo sem questionar, desviando seus caminhos ao menor sinal da minha presença. Permanecem atentos às minhas ordens silenciosas enquanto interrompo ruas, altero destinos e decido quem avança ou quem precisa esperar. Alguns demonstram revolta ao me encarar, mas até os mais impacientes acabam reduzindo a velocidade diante de mim, como se já aceitassem que certas decisões não pertencem mais a eles.
Nativo de uma urbe onde o concreto parecia avançar sobre qualquer vestígio de ar puro, aprendi desde cedo a respirar fumaça quente misturada ao cheiro metálico vindo das avenidas congestionadas. Os edifícios altos abafavam a luz do dia e deixavam as ruas mergulhadas numa sombra constante, enquanto letreiros piscavam sem descanso. Só conseguem se comunicar dessa maneira escandalosa? Conativos por todos os lados, buzinas que pareciam discussões intermináveis, motores rugindo como animais presos em jaulas invisíveis, vozes atravessando paredes finas sem pedir licença.
Com o tempo, comecei a sentir falta de algo que eu nem conhecia direito: um silêncio verdadeiro. Não a pausa breve entre um ônibus e outro, nem o instante fraco da madrugada, quando a cidade apenas cochila. Falo de um silêncio inteiro, capaz de deixar os pensamentos respirarem sem serem atropelados. Aqui, até o vento parecia chegar cansado, contaminado pelo eco das sirenes e pelo cansaço das multidões. Às vezes, eu imaginava como seria ouvir apenas os próprios passos, sem anúncios luminosos competindo pela atenção, sem televisões vazando pelas janelas dos apartamentos empilhados. A cidade desaprendeu a sussurrar. Tudo nela precisava gritar para existir. E talvez fosse isso que mais pesava: a sensação de que o silêncio havia sido expulso dali como algo inútil, antigo demais para sobreviver entre tanto concreto e tanta pressa.
Até a chuva parecia suja naquele lugar, escorrendo pelas calçadas com uma coloração acinzentada e levando consigo restos de lixo, óleo e fuligem.
Fui atropelado mais uma vez e apenas rolei alguns centímetros pela pista antes de voltar ao mesmo lugar de sempre. Nenhuma rachadura, nenhum dano verdadeiro, apenas marcas de pneus atravessando meu corpo laranja, como se eu fosse incapaz de sentir qualquer consequência. Hoje estou em frente a um lupanar, amanhã nunca se sabe. Nesta cidade, nós, cones, somos deslocados como presságios ambulantes. Aparecemos onde houve colisão, incêndio, enchente, vazamento. Desta vez, foi gás. O cheiro chegou primeiro, rastejando pelas calçadas como uma criatura invisível. Depois vieram os gritos, os rádios chiando, homens correndo para fechar ruas enquanto portas se abriam às pressas. Mandaram evacuar o prédio inteiro. Vi pessoas descendo escadas ainda tontas de sono, algumas tropeçando, outras tentando esconder o constrangimento com os braços cruzados sobre o próprio corpo. Uma mulher saiu usando apenas um casaco fino e nada por baixo dele, fumando nervosamente, como se a fumaça do cigarro pudesse espantar a outra fumaça que ameaçava o lugar. Um homem carregava sapatos nas mãos, outro reclamava da interrupção, como se o perigo tivesse atrapalhado um compromisso banal. Ficamos espalhados pela rua, delimitando o risco, eu e meus semelhantes silenciosos. As luzes vermelhas dos veículos de emergência giravam sobre as poças do asfalto, e tudo parecia cenário de alguma tragédia barata. Ainda assim, depois de algumas horas, a cidade começou a esquecer. Os curiosos se aproximaram novamente, os carros buzinavam impacientes, alguém ria alto na esquina.
Só eu permaneci imóvel, respirando aquele resíduo invisível que sobrava no ar, imaginando quantas catástrofes pequenas uma cidade consegue suportar antes de desabar de vez.
Outro dia, sonhei que era uma pirâmide, enorme e antiga, enterrada até a metade sob avenidas e fios elétricos. As pessoas caminhavam ao meu redor sem perceber que existia algo colossal observando cada passo delas debaixo do concreto. Permaneci ali durante séculos naquele sonho, suportando chuva, fumaça, ferrugem e silêncio, enquanto a cidade crescia como uma infestação sobre minhas pedras. Quando acordei, ainda senti a estranha impressão de que fui reduzido a algo menor, colocado à força numa esquina qualquer apenas para organizar o caos por alguns instantes.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Correspondência correspondente



Venho por meio desta destanizar a destampice que ficou acumulada nos corredores desta época. As paredes continuam úmidas de vozes, e ainda encontro insetos caminhando dentro das palavras, como pequenos funcionários da decomposição. Tenho observado criaturas carregando diplomas de ferrugem dentro dos bolsos enquanto sorriem para vitrines acesas, como se a iluminação pudesse absolvê-las da própria matéria.
Recebi notícias suas através de um homem que recolhia insetos mortos perto dos trilhos. Havia nele alguma dignidade arruinada, semelhante à dos santos corroídos pela maresia. Por um instante, tive a impressão de que o senhor ainda percorre certos lugares usando nomes provisórios.
Ontem retirei de uma gaveta um conjunto de fotografias deterioradas. Em todas elas, os rostos estavam parcialmente apagados, como se o tempo tivesse decidido poupar apenas os objetos ao redor. Permaneceram intactos um copo sobre a mesa, uma cortina imóvel, um cachorro observando algo fora da imagem. Isso me perturbou mais do que a ausência das pessoas.
Tenho suspeitado que certas palavras adoecem quando pronunciadas em excesso. Talvez por isso alguns livros pareçam emitir calor, mesmo fechados. Há páginas que sobrevivem como febres aprisionadas.
Tenho lido os ossos das frutas para compreender melhor o mundo. Nenhum médico conseguiu explicar por que certas madrugadas possuem cheiro de biblioteca fechada.
Imagino que o senhor entenderia imediatamente. Existem pessoas que apodrecem apenas por excesso de lucidez.
Caso ainda exista correspondência possível entre nós, envie algum sinal: uma asa carbonizada dentro do envelope, um fio de cabelo preso entre páginas, qualquer evidência mínima de continuação.
Espero que esta carta consiga alcançá-lo, seja qual for o estado físico ou atmosférico em que o senhor atualmente reside.

sábado, 9 de maio de 2026

Sinestesia da Ausência


Os fusíveis não podem ser,  foram trocados na semana passada. Talvez venha da rua: algum curto-circuito no transformador do poste, um interruptor cansado de interromper.
A lâmpada da cozinha fica oscilando como se estivesse indecisa. Como se soubesse de alguma coisa que o resto da casa ainda não percebeu, como se as paredes estivessem tentando lembrar de tudo o que já suportaram em silêncio.
Também existe a possibilidade de ser o compressor da geladeira se esforçando demais para ser Alasca. Não preciso de tanto frio assim, apenas o essencial para uma metáfora álgida, um silêncio transformado em pensamento, aquele que faltava para a cozinha inteira parecer suspensa, onde até a luz hesita antes de tocar os objetos.
Também considero a hipótese de ser uma válvula do fogão se esforçando demais para ser um vulcão, a erupção vai acontecer de qualquer maneira, porque existem coisas que passam tempo demais acumulando calor em silêncio até não conseguirem mais permanecer contidas dentro das próprias estruturas.
Talvez seja o ambemohar do vizinho tentando abemolar o silêncio, deixando no ar essa sensação estranha de memória aquecida, como se alguém estivesse tentando preencher a madrugada com alguma coisa mais suportável que o vazio.
Nada com que deva me preocupar, talvez a casa apenas esteja envelhecendo em voz baixa. Permaneço deitado, observando a claridade fraca atravessando a porta entreaberta do quarto, enquanto algum lugar distante da casa continua emitindo pequenos sons irregulares, discretos demais para exigir atenção, constantes demais para desaparecer completamente da cabeça.
Não descarto a possibilidade de ter sido alguma freada abrupta, dessas que fazem o asfalto guardar por alguns instantes o cheiro quente dos pneus raspando contra a noite. Há uma espécie de desespero escondido na velocidade das pessoas durante a madrugada, como se diminuir o ritmo por um instante pudesse permitir que alguma ausência antiga finalmente alcançasse elas no meio do caminho.


*****escrito após a leitura de: Marina Colasanti: Fino sangue

Gosto de poema
que fala de ovo frito
latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.