quinta-feira, 30 de abril de 2026

Osteogênese por distração


Imagem: Elefantes Salvador Dali 1944


Levem os totens para Kangchenjunga. O Equinócio está próximo, e o tempo está propício à abertura do portal para Pangeia. Alinhem-nos de acordo com Órion.
Fixem cada base na rocha, voltadas para o vento mais alto, e mantenham a distância exata entre eles. Quando a primeira estrela surgir no horizonte, acendam as chamas nos pontos marcados e aguardem em silêncio. Não desviem o olhar do alinhamento; qualquer hesitação rompe o fluxo.
À medida que a noite avança, a luz deverá percorrer as superfícies esculpidas, refletindo de um totem ao outro até formar um traço contínuo. Se o traço se fechar sem falhas, a passagem começará a se delinear no ar, como uma dobra quase invisível. Permaneçam firmes. Não recuem.
Quando o frio mudar de intensidade e o céu parecer mais próximo do que deveria, avancem um passo e sustentem a posição. O que se abre não tolera desordem. Apenas sigam o alinhamento até que o limiar se revele por completo.
Não demonstrem qualquer receio para Ourea, pois ele não perdoa os pávidos, nem aqueles que vacilam diante do chamado, nem os que permitem que o pensamento interrompa o gesto. Se houver som, ignorem. Não pertence a este lado. O vento poderá assumir forma e voz, mas não responde a chamados humanos. Mantenham o ritmo da respiração sincronizado com o pulso da luz, como se o próprio ar fosse guiado pelo traço que se formou entre os totens. Aos poucos, o corpo deixará de resistir e começará a ajustar-se a esse compasso estranho, como se reconhecesse uma cadência mais antiga do que a própria memória. A rocha sob os pés deixará de ser apenas rocha. Sentirão uma leve inclinação, como se a montanha estivesse respirando por dentro. Não tentem compreender. A compreensão enfraquece a travessia. Apenas sustentem o gesto, pois é ele que mantém a abertura estável.
Se as sombras começarem a se projetar na direção contrária à chama, não se movam. Isso indica que o eixo foi alcançado. Nesse ponto, qualquer passo fora do alinhamento desfaz o que foi iniciado. A luz deve atravessar vocês como atravessa os totens, sem interrupção.
Quando o traço se elevar do solo e perder a forma rígida, tornando-se um arco suspenso, saberão que o limiar deixou de ser apenas visível e passou a ser ativo. É nesse instante que a passagem reconhece presença. Não falem. Não nomeiem. Nomes fixam aquilo que precisa permanecer em fluxo.
Avancem somente quando o silêncio se tornar denso o suficiente para parecer matéria. O primeiro a atravessar não deve olhar para trás. O segundo deve manter a distância exata do primeiro. O terceiro sustenta o fechamento, caso haja ruptura.
Se tudo estiver correto, não haverá retorno imediato. O que se abre não é caminho de ida e volta, mas de deslocamento contínuo. E, ao cruzarem, não levem consigo a certeza do que eram. Aqui, isso pesa.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O peso das sombras desalojadas



O Imperador do Sorvete
          
                                Wallace Stevens

Chame o rolador de charutos grandes,
O musculoso, e mande-o chicotear
Em xícaras de cozinha coalhadas concupiscentes.
Deixe as moças se demorarem em tais trajes
Como estão acostumadas a usar, e deixe os rapazes
Trazerem flores em jornais do mês passado.
Seja ser o final de parecer.
O único imperador é o imperador do sorvete.
Tire da cômoda de madeira,
Sem as três maçanetas de vidro, aquele lençol
Em que ela bordou caudas de leque um dia
E espalhe-o de modo a cobrir seu rosto.
Se seus pés cornudos se projetarem, eles vêm
Para mostrar o quanto ela está fria, e muda.
Deixe a lâmpada fixar seu raio.
O único imperador é o imperador do sorvete.

                                  *****                                
  
Ele está muito ríspido com o insípido e ordenou jogar baunilha na estátua de Baudelaire. Que venham as formigas! Precisamos de mais apócrifos dos apócritos, reparou na escassez da retórica isopórica? Estamos incomunicáveis sem a duração exata dos abalos sísmicos, e então ele resolve desalojar as sombras dos cantos, não com luz, mas com uma espécie de insistência muda, como se pudesse convencê-las a abandonar seus abrigos por puro desgaste. Ele as chama sem voz, arrasta seus contornos com gestos imprecisos, até que elas começam a se desprender das superfícies, relutantes, escorrendo pelas frestas como uma memória que já não encontra onde ficar.
Há algo de inquietante nesse movimento, porque, ao expulsá-las, ele também altera o peso das coisas. Os objetos perdem profundidade, as distâncias ficam incertas, e o espaço, antes familiar, passa a vibrar com uma leve distorção. Nada se acomoda como antes. O que era apoio se torna instável, e o que era vazio começa a insinuar presença.
Não quebre as xícaras, mesmo que a mesa já esteja inclinada, como se escutasse outra música por baixo do mundo. Há nelas um brilho antigo, desses que não pertencem à louça nem ao tempo, mas ao gesto de quem ainda insiste em servir algo que ninguém pediu.
Esposteje o espórulo e deixe que o pó resultante invente seus próprios mapas, como se cada partícula fosse um território indeciso, tremendo antes de escolher existir. Não há medida segura para o que se fragmenta assim, apenas uma sequência de tentativas que se acumulam nas margens do visível, enquanto algo insiste em reorganizar o caos com mãos que ninguém vê.
Tudo se mistura, o gosto, o gesto, a matéria, como se a própria lógica tivesse sido deixada de lado por cansaço.
Insistam, então, em nomear o que escapa, mesmo que as palavras se dissolvam antes de alcançar o objeto. Porque é nesse intervalo, entre o que se tenta dizer e o que nunca se fixa, que algo verdadeiro insiste em existir, ainda que ninguém consiga provar.
Que se recolham, então, os restos de intenção como quem varre ecos de um salão sem paredes, e que cada vestígio encontre um uso imprevisto, ainda que nenhum sentido se sustente por muito tempo.
Há um pulso discreto atravessando o indizível, uma engrenagem sem dentes girando por pura teimosia, enquanto aquilo que não se deixa capturar continua a se expandir, alheio a qualquer tentativa de contenção, como um sopro que nunca se repete e, ainda assim, permanece.

                                     Ednei Pereira Rodrigues



ACRESCENTA ISTO À RETÓRICA


Posa, posa e posa.
Mas na natureza apenas
Cresce. As pedras posam
Ao cair da noite, e os mendigos
Quando dormem também
Posam com seus trapos.
Bolas... cai o luar de lavanda.
Os prédios posam no céu
E, quando pintas, as nuvens,
Grisalhas, peroladas, profundas,
Pftt... No modo como falas
Arranjas, a coisa posa, o que
Na natureza apenas cresce.
Amanhã, quando o sol,
Apesar de tuas imagens,
Retornar como sol, fogaréu,
Tuas imagens não terão
Deixado nem sombra
Do que foram. As poses
Do discurso, da pintura,
Da música – o corpo dela jaz
Exausto, seu braço cai,
Seus dedos tocam o chão.
Acima dela, à esquerda,
Um toque de branco, o obscuro,
A lua sem forma,
Um olho debruado numa cripta.
O sentido cria a pose.
Nisso, se move e fala.
Esta é a figura, e não
Uma metáfora esquiva.
Acrescenta isto.
É para acrescentar.

                                                    Wallace Stevens






****escrito após a leitura de O Imperador do sorvete e outros poemas 
Wallace Stevens

terça-feira, 14 de abril de 2026

Vestígios de uma presença

 
Introdução indagativa: de que função nascem essas intervenções tão precisas?


Monólogo em suspensão contínua


Toda sua pulcritude destoa deste ambiente, talvez isso justifique essa rigidez corporal incomum; contrações breves surgiam aqui e ali. Pode ser que esteja tentando se expressar, talvez insista, à sua maneira, em se fazer presente.
Há uma espécie de atraso entre o gesto e o significado, como se algo ainda buscasse alcançar o próprio fim e não conseguisse. Os movimentos — se é que podem ser chamados assim — surgem como lapsos, interrupções de um silêncio que não se firma por inteiro.
Tudo parece obedecer a uma lógica que não se mostra. Há um cuidado excessivo, quase cerimonial, como se cada detalhe precisasse ser mantido intacto, mesmo quando já não há quem o perceba. Ainda assim, algo responde. Não de forma clara, não de forma contínua — mas responde.
Talvez seja apenas uma reverberação tardia, um eco preso nas bordas do que já cessou. Ou talvez seja um tipo de persistência sem nome, uma recusa silenciosa em se dissolver por completo.
O ambiente, por sua vez, permanece cúmplice. Não denuncia, não explica. Apenas abriga esse intervalo estranho entre o que foi e o que insiste em não se desfazer por completo.
Seus instrumentos de trabalho estão sobre a mesa, alinhados com uma precisão que beira o ritual: pincéis de cerdas macias, pequenas espátulas, frascos de líquidos opacos, pós finíssimos que parecem dissolver a própria luz, além de tecidos limpos, dobrados como se aguardassem um gesto já ensaiado. Nada ali denuncia pressa — ao contrário, tudo sugere uma paciência antiga, quase reverente.
Há uma escolha a ser feita, ainda que silenciosa.
Tons são avaliados não apenas pela cor, mas pelo que insinuam. Um leve ajuste aqui pode devolver algo que parecia ausente; um excesso, por outro lado, corre o risco de criar uma presença que nunca existiu. E isso não convém. Não se trata de inventar, mas de sugerir continuidade — um vestígio plausível do que um dia foi reconhecível.
Os traços começam a ser tocados com cuidado, como quem negocia com uma superfície que já não responde da mesma maneira. Ainda assim, há uma espécie de diálogo, embora unilateral, onde cada intervenção parece aguardar uma aceitação que não vem, mas também não recusa. A matéria cede, mas não colabora.
Há limites implícitos. Não se busca exagero, nem brilho indevido, nem qualquer artifício que transforme o que resta em algo deslocado de sua própria história. O objetivo — se é que se pode nomeá-lo — é evitar que a aparência se torne estranha demais, como se tivesse sido atravessada por intenções alheias ao que já lhe pertenceu.
E então, pouco a pouco, algo se reorganiza. Não é vida, tampouco sua imitação direta — é antes uma acomodação, uma espécie de acordo entre forma e silêncio. O rosto, ou aquilo que ainda sustenta essa ideia, parece menos distante, ainda que não se aproxime de fato.
Permanece ali uma impressão difícil de fixar, como se a superfície, agora ajustada, carregasse não uma presença, mas a lembrança de ter sido vista. Não há retorno, apenas uma disposição mais estável do que restou. Os contornos deixam de sugerir ruptura imediata e passam a sustentar algo mais contido, quase compreensível dentro de sua própria quietude.
O que antes surgia como descompasso agora se dilui em uma continuidade discreta. Não há cessação total daqueles pequenos impulsos, mas eles já não se impõem com a mesma estranheza — tornam-se parte de um pano de fundo, quase integrados a esse novo arranjo. Como se, ao invés de negar, o conjunto tivesse encontrado uma forma de absorver tais ocorrências sem precisar explicá-las.
Há, nisso tudo, uma espécie de apaziguamento que não chega a ser conforto. Apenas uma suspensão mais organizada do desconcerto inicial. O olhar — mesmo que não haja propriamente um — já não se perde tanto; encontra onde repousar, ainda que por engano. E talvez seja esse o limite possível: não restaurar, não recriar, mas tornar suportável aquilo que insiste em permanecer à margem de qualquer definição clara.
Nada se conclui de fato. Ainda existe esse intervalo, essa zona indefinida onde as coisas não terminam nem continuam plenamente. Mas agora, ao menos, ele não se impõe como ruptura — apenas como um espaço que se aceita, silencioso, entre aquilo que já foi e aquilo que, de alguma forma, ainda se recusa a desaparecer por completo.
O rímel suaviza a rímula rinal e toda rinçagem. Ainda assim, não há anulação completa das marcas; apenas um amortecimento delicado, quase imperceptível, que reorganiza o que se expõe. Cada passagem acrescenta uma camada mínima de coesão, como se o visível precisasse ser conduzido com cautela até um ponto de equilíbrio que não se sustenta por si.
Há, nesse gesto, uma tentativa silenciosa de contenção. Não se trata de esconder por completo, mas de reduzir o impacto, de tornar menos abrupta a transição entre aquilo que se mostra e aquilo que deveria permanecer discreto. O resultado não é uniformidade, mas uma espécie de harmonia instável, onde pequenas irregularidades ainda persistem, porém já não dominam a cena.
A superfície aceita essas intervenções sem resistência evidente, embora jamais ofereça colaboração plena. Existe um limite tênue entre ajustar e alterar demais, e é nesse limiar que cada decisão se apoia. Um leve excesso pode romper o acordo implícito; uma falta, por outro lado, deixa escapar aquilo que se buscava conter.