segunda-feira, 22 de junho de 2026

Topografia da Aproximação

 



Monólogo de um vulcão



Poupe seus encantos; a erupção é inevitável; sua patela, porém, possui a delicadeza de uma pétala esquecida pelo vento sobre a encosta. Vejo-a repousar contra mim com uma coragem silenciosa, tão leve que quase me faz acreditar que a pedra pode aprender a sonhar.
Não adianta patear; por séculos reprimi aquilo que deseja emergir. Corra, antes que seja tarde demais; minha patência é absoluta; os caminhos que conduzem das minhas profundezas ao mundo exterior já não encontram barreiras.
Toda essa fumaça é vontade de querer ser nuvem, mas também é confissão. Cada véu acinzentado que sobe carrega fragmentos de um segredo antigo, guardado em câmaras tão profundas que nem a escuridão ousou reivindicá-las para si.
Escute o rumor sob seus pés; não é ameaça, é anúncio. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. O sufocamento inerente ao dia torna o ar mais espesso, como se a própria claridade tentasse conter aquilo que se agita em minhas entranhas. Mas a luz não domina o que nasceu antes dela.
Ainda assim, contemplo sua presença. Tão frágil diante de forças capazes de redesenhar horizontes, e tão firme que permanece onde muitos já teriam partido. Sua patela repousa junto à minha superfície abrasada como uma estranha promessa de serenidade. Isso me inquieta mais do que qualquer tempestade. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. A luz pesa sobre minhas encostas como uma vigília interminável, e cada instante de aparente calma amplia a pressão que se acumula abaixo da superfície.
Não me interprete como um monstro impaciente. Durante muito tempo permaneci imóvel, suportando o peso do mundo e de seus silêncios. Mas há momentos em que até a rocha se cansa de guardar segredos. As fendas que agora se desenham sobre mim são palavras procurando forma, confissões abrindo caminho através da pedra.
Se ainda permanece aqui, é porque também percebeu. Há uma estranha beleza naquilo que está prestes a acontecer, um brilho antigo aguardando sua libertação. E eu, que por tanto tempo fui apenas contenção, já sinto aproximar-me o instante em que deixarei de esconder o fogo para me tornar a sua própria voz. Não reivindicarei sua morada para as cinzas; talvez sim, você poderia se mudar para cá quando tudo estiver mais calmo.
Veja as vantagens: não haverá frio a lhe perseguir, nem noites em que o vento encontre passagem entre frestas esquecidas. O calor aqui não depende de abrigo, ele nasce do próprio chão, constante, como se o interior do mundo ainda respirasse lentamente.
Até suas refeições poderiam ganhar outro destino, aquecidas sem pressa, como se o tempo não precisasse interromper o que foi iniciado. Nada aqui exige urgência; tudo se acomoda no ritmo do que já está em curso.
Há uma estranha hospitalidade nesse lugar que muitos chamariam de impossível. Não há promessas de conforto comum, apenas a certeza de uma temperatura que nunca abandona, como se o próprio ambiente se recusasse a esfriar. Pondere sobre isso. Sua presença suavizaria este espaço, que às vezes parece excessivamente silencioso.
Se decidir ficar, não precisará anunciar nada. As coisas aqui simplesmente se ajustam à presença que as atravessa. E, de algum modo, até o silêncio aprenderia outro ritmo ao seu redor.

sábado, 13 de junho de 2026

Reminiscências da Espera




Monólogo de uma arquibancada




Depois que o circo foi embora, tudo aqui ficou mais tranquilo. O movimento diminuiu, as ruas voltaram ao silêncio e já não se ouviam as músicas ecoando ao longe. As luzes coloridas que iluminavam as noites desapareceram, e o terreno vazio parecia muito maior do que antes.
Durante alguns dias, as pessoas ainda comentavam sobre os espetáculos, os artistas e os momentos curiosos que haviam presenciado. Aos poucos, porém, a rotina retomou seu lugar.
Restaram apenas algumas marcas no chão e as lembranças de uma temporada que, por um breve período, transformou completamente a paisagem e o cotidiano da vizinhança.
Eu continuo aqui, esquecida. Já não sinto o peso das expectativas nem a vibração das gargalhadas que costumavam atravessar minhas estruturas. O vento passa por mim sem pedir licença, carregando poeira e folhas secas para os cantos onde antes havia vida e movimento.
Ainda guardo ecos de conversas, aplausos distantes e sonhos passageiros. São lembranças que permanecem presas em cada parafuso, em cada marca deixada por quem passou por aqui sem imaginar que seria lembrado por tanto tempo.
Por que partiram sem mim? Será que ainda esperam algo de mim? Talvez haja algum outro evento aqui. Talvez uma feira movimentada, um rodeio, um show ao ar livre ou até mesmo uma grande festa da cidade. Quem sabe eu volte a ouvir risadas, anúncios ecoando pelos alto-falantes e o burburinho de centenas de pessoas chegando cheias de expectativa.
Enquanto isso não acontece, continuo observando os dias passarem. O sol nasce, a chuva vem e vai, e as estações deixam suas marcas sobre mim. Mas eu espero. Afinal, lugares como este raramente guardam silêncio para sempre. Mais cedo ou mais tarde, alguém surge com novos planos, novas histórias e novos sonhos para ocupar o espaço que hoje parece vazio.
Talvez as luzes voltem a se acender algum dia, confesso que a ausência do circo ainda pesa sobre mim. Sinto falta da música chegando antes mesmo do pôr do sol, das vozes animadas se misturando ao vento e da expectativa que tomava conta de todos quando o espetáculo estava prestes a começar.
Ainda me lembro dos risos das crianças, dos aplausos espontâneos e dos olhares maravilhados voltados para o centro de tudo. Cada apresentação era diferente, mas a emoção parecia sempre a mesma. Havia uma energia difícil de explicar, como se, por algumas horas, todos os problemas ficassem do lado de fora.
Com o passar do tempo, percebi que não estava tão sozinha quanto imaginava. Certa manhã, alguns pássaros começaram a visitar meus cantos mais altos, observando tudo ao redor com atenção. Durante vários dias, carregaram pequenos galhos, folhas secas e pedaços de capim até encontrarem um lugar seguro entre minhas estruturas. Logo surgiu um ninho, cuidadosamente construído, protegido do vento e da chuva. Desde então, acompanho a rotina daquela pequena família. Ouço o canto suave dos filhotes pedindo alimento, vejo os pais chegando e partindo inúmeras vezes ao longo do dia e sinto uma estranha satisfação por servir de abrigo a novas vidas. Talvez eu não receba mais multidões nem aplausos, mas descobri que também existe beleza nas presenças silenciosas que escolhem ficar.
Outro dia sonhei que era uma escada, e pessoas de todas as idades passavam por mim sem hesitar. Algumas subiam apressadas, outras paravam por um instante para observar a paisagem antes de continuar. Ninguém permanecia por muito tempo, mas cada passo deixava uma pequena marca, uma lembrança silenciosa de sua passagem.

sábado, 6 de junho de 2026

Anatomia de uma Ideia Extravagante

 


imagem: A Extração da Pedra da Loucura_ Hieronymus Bosch  

Monólogo de um funil



Exijo que minha dignidade seja preservada; estão fazendo um uso inadequado de mim. Fui criado para conduzir aquilo que flui, a não ser que tenham descoberto alguma teoria revolucionária segundo a qual pensamentos confusos possam ser despejados por um gargalo. Passei a existência inteira transferindo líquidos entre recipientes e, agora, me transformaram em adereço de um procedimento que desafia a lógica, a anatomia e até o bom senso. Observem minha inclinação, minha forma, minha elegante simplicidade: nada em mim sugere vocação para colher ideias extraviadas de uma cabeça humana. Se havia falta de juízo nesta cena, bastava conversar com o paciente; não era necessário envolver um especialista em evitar respingos.
Ainda assim, ninguém me consultou. Simplesmente me colocaram aqui, apontado para o céu como uma torre de observação da insensatez. Enquanto isso, os espectadores assistem com a maior naturalidade, como se extrair perplexidades pela cabeça fosse uma prática reconhecida pelos sábios da época. Reparem na expressão dos presentes: um parece oferecer conselhos que não pediu, outro observa como quem espera um milagre administrativo, e há até quem tenha trazido um livro para o caso de a realidade precisar de correções urgentes. Se continuarem ampliando minhas responsabilidades nesse ritmo, amanhã estarei sendo responsabilizado pela chuva, pelas marés e pelo desaparecimento das meias solitárias.
Estão expandindo minhas atribuições de maneira preocupante. Até pouco tempo atrás, bastava orientar o percurso de substâncias obedientes à gravidade. Agora esperam que eu participe de diagnósticos improváveis, intervenções intelectuais e operações para recuperar o bom senso perdido. Receio que estejam confundindo versatilidade com exploração funcional.
Alguém concluiu que, por possuir uma abertura larga e outra estreita, estou habilitado a desempenhar qualquer função concebível. É uma lógica curiosa. Seguindo esse raciocínio, uma colher deveria estar apta a redigir tratados filosóficos e um balde a ocupar cargos administrativos.
Não interpretem minha reclamação como hostilidade à criatividade. Tenho grande apreço pelas manifestações artísticas. É sempre agradável ver objetos comuns alcançando certa notoriedade cultural. O que me incomoda é a falta de critério. Uma coisa é participar de uma composição simbólica; outra, muito diferente, é ser promovido, sem treinamento, para auxiliar em procedimentos que desafiam séculos de conhecimento acumulado. Se desejavam representar uma ideia, um sonho ou uma metáfora, poderiam ao menos ter me informado. Em vez disso, fui lançado ao centro da cena e transformado em cúmplice involuntário de uma operação cuja finalidade continua tão misteriosa para mim quanto para o paciente. Confesso que estou começando a suspeitar que a verdadeira extração realizada aqui não seja de pedras, mas de responsabilidades alheias depositadas discretamente sobre meus ombros.
Talvez eu tenha sido severo demais com os envolvidos nesta cena. Afinal, como escreveu Florbela Espanca: “Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo!”
Quanto mais observo o mundo, mais compreendo o que ela quis dizer. Os que reconhecem suas próprias extravagâncias costumam ser mais tolerantes, mais criativos e até mais interessantes. Já aqueles que se consideram proprietários exclusivos da razão frequentemente transformam a certeza em arrogância e a convicção em teimosia. A imaginação, por mais indisciplinada que seja, ao menos permite explorar caminhos novos. A rigidez absoluta, por outro lado, raramente produz algo além de repetições.
Um pouco de desordem mental pode ser desconfortável, mas uma existência completamente esterilizada de fantasia seria incapaz de sonhar, criar ou se surpreender. E, entre uma realidade excessivamente organizada e uma imaginação que ocasionalmente transborda pelos cantos, há quem prefira preservar essa pequena e valiosa centelha de loucura.
O que torna toda esta situação ainda mais intrigante é uma aparente contradição. Se a centelha de desatino é responsável por boa parte da arte, da invenção e da imaginação humanas, por que tanto empenho em removê-la? Observem o entusiasmo dos participantes da cena. Todos parecem convencidos de que estão prestando um grande serviço ao paciente, como se estivessem libertando-o de um terrível fardo. Mas e se estiverem retirando justamente aquilo que torna uma pessoa interessante?
Talvez ninguém tenha considerado essa possibilidade. Talvez a suposta enfermidade seja também a fonte das histórias que ele contaria, das ideias que teria ou das perguntas que ainda faria. Há algo de curioso em declarar guerra à extravagância enquanto se participa de uma cena tão extraordinariamente extravagante. Os presentes parecem determinados a expulsar a fantasia da cabeça de um homem ao mesmo tempo em que encenam um espetáculo que desafia qualquer explicação razoável.