Monólogo de um vulcão
Poupe seus encantos; a erupção é inevitável; sua patela, porém, possui a delicadeza de uma pétala esquecida pelo vento sobre a encosta. Vejo-a repousar contra mim com uma coragem silenciosa, tão leve que quase me faz acreditar que a pedra pode aprender a sonhar.
Não adianta patear; por séculos reprimi aquilo que deseja emergir. Corra, antes que seja tarde demais; minha patência é absoluta; os caminhos que conduzem das minhas profundezas ao mundo exterior já não encontram barreiras.
Toda essa fumaça é vontade de querer ser nuvem, mas também é confissão. Cada véu acinzentado que sobe carrega fragmentos de um segredo antigo, guardado em câmaras tão profundas que nem a escuridão ousou reivindicá-las para si.
Não adianta patear; por séculos reprimi aquilo que deseja emergir.
Escute o rumor sob seus pés; não é ameaça, é anúncio. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. O sufocamento inerente ao dia torna o ar mais espesso, como se a própria claridade tentasse conter aquilo que se agita em minhas entranhas. Mas a luz não domina o que nasceu antes dela.
Ainda assim, contemplo sua presença. Tão frágil diante de forças capazes de redesenhar horizontes, e tão firme que permanece onde muitos já teriam partido. Sua patela repousa junto à minha superfície abrasada como uma estranha promessa de serenidade. Isso me inquieta mais do que qualquer tempestade. Escute o rumor sob seus pés; não é ameaça, é anúncio. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. A luz pesa sobre minhas encostas como uma vigília interminável, e cada instante de aparente calma amplia a pressão que se acumula abaixo da superfície.
Não me interprete como um monstro impaciente. Durante muito tempo permaneci imóvel, suportando o peso do mundo e de seus silêncios. Mas há momentos em que até a rocha se cansa de guardar segredos. As fendas que agora se desenham sobre mim são palavras procurando forma, confissões abrindo caminho através da pedra.
Se ainda permanece aqui, é porque também percebeu. Há uma estranha beleza naquilo que está prestes a acontecer, um brilho antigo aguardando sua libertação. E eu, que por tanto tempo fui apenas contenção, já sinto aproximar-me o instante em que deixarei de esconder o fogo para me tornar a sua própria voz. Não reivindicarei sua morada para as cinzas; talvez sim, você poderia se mudar para cá quando tudo estiver mais calmo.
Veja as vantagens: não haverá frio a lhe perseguir, nem noites em que o vento encontre passagem entre frestas esquecidas. O calor aqui não depende de abrigo, ele nasce do próprio chão, constante, como se o interior do mundo ainda respirasse lentamente.
Até suas refeições poderiam ganhar outro destino, aquecidas sem pressa, como se o tempo não precisasse interromper o que foi iniciado. Nada aqui exige urgência; tudo se acomoda no ritmo do que já está em curso.
Há uma estranha hospitalidade nesse lugar que muitos chamariam de impossível. Não há promessas de conforto comum, apenas a certeza de uma temperatura que nunca abandona, como se o próprio ambiente se recusasse a esfriar. Pondere sobre isso. Sua presença suavizaria este espaço, que às vezes parece excessivamente silencioso.
Se decidir ficar, não precisará anunciar nada. As coisas aqui simplesmente se ajustam à presença que as atravessa. E, de algum modo, até o silêncio aprenderia outro ritmo ao seu redor.

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