sábado, 4 de julho de 2026

O instante em que toda dúvida perde a própria voz


 



Monólogo de um trampolim


Pelo jeito, esse desistiu. Isso às vezes acontece. Empacou de vez. Vai ficar aí indefinidamente? Todo mundo precisa de um empurrão. Ah, se eu pudesse intervir... Vamos, vai logo! Outras pessoas querem se divertir. Sorte sua que hoje está tranquilo. Agora vai, está criando coragem. Ah, não, voltou para a estaca zero e desistiu de vez. Está descendo as escadas. Persistir parece cada vez mais raro. Será que ele não sabe nadar?
Ou talvez esteja só imaginando o pior. Os humanos fazem muito isso. Inventam um final antes mesmo de começar. Ficam olhando, calculando, duvidando... enquanto o momento vai passando.
Eu já vi de tudo. Os que tremem, fecham os olhos e vão. Os que sobem dez vezes antes de finalmente tomar uma decisão. Os que desistem na última hora e os que voltam minutos depois fingindo que nada aconteceu.
Engraçado... quase todos sorriem depois. Alguns até perguntam por que demoraram tanto. Se soubessem disso antes, teriam poupado tanto tempo.
A outra com sua peromelia perceptível, mas, sinceramente, isso nunca pareceu definir o que ela era capaz de fazer. Nem por um instante serviu de obstáculo.
Sem hesitar, ela ganha impulso. Um, dois, três movimentos perfeitamente encaixados. Um salto triplo impecável, cheio de força, precisão e confiança. Não foi apenas um pulo qualquer; foi daqueles que prendem todos os olhares antes mesmo de terminar. Por um breve momento, parecia que a gravidade tinha resolvido esperar. Então, enfim, ela corta o ar e desaparece na água sem deixar espaço para qualquer dúvida. Se alguém ainda imaginava um limite, ele acabou de afundar junto com o último respingo.
Essa irroração às vezes me incomoda. Gotas para todo lado, escorrendo sem pedir licença, como se eu também tivesse escolhido entrar na água. Uns mergulhos são discretos, quase educados. Outros parecem fazer questão de me alcançar, lançando uma chuva que sobe mais do que deveria. É sempre a mesma história: alguém corta a superfície, a água explode em incontáveis respingos e, por alguns instantes, sobra para mim. Logo seca, é verdade, mas isso não impede que a próxima onda de borrifos venha repetir tudo outra vez.
Invejo teu deserto de dentro. Não há hesitação, nem pensamentos que insistem em crescer onde não foram convidados. Apenas a decisão, limpa e direta, transformada em movimento. Enquanto tantos ficam presos às próprias tempestades, você atravessa o instante como quem já fez as pazes com ele. Talvez seja esse o segredo: não vencer o medo, mas não lhe conceder tempo suficiente para criar raízes.
Confesso que às vezes me canso disso tudo e gostaria de estar em algum lugar mais calmo. Um canto onde ninguém viesse correndo, onde o silêncio durasse mais do que alguns segundos e nenhuma irroração insistisse em me alcançar. Sem gritos de surpresa, sem a sequência interminável de pés apressados pisando sobre mim. Só um vento leve atravessando o espaço e tempo suficiente para permanecer completamente seco. Mas basta alguém subir mais uma vez, encher os pulmões de coragem e se lançar, para o sossego que imaginei ir embora antes mesmo de existir.
Ainda assim, acho curioso como nunca consigo descansar por tempo demais. Mal o último vai embora, outro já aparece ao longe. É como se todos, sem combinar, escolhessem exatamente o mesmo lugar para enfrentar aquilo que mais os desafia.

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