imagem: O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch
Mais cedo ou mais tarde, acabariam saindo dali. Nunca perdem o instinto de liberdade. Seu esforço será recompensado; não se preocupe, era só um tempero alado, prometo que vou te mastigar devagar, não importa quanto resistam.
Alguns tentam correr, outros barganhar, outros ainda se convencem de que encontrarão uma saída escondida entre as sombras. Todos chegam à mesma conclusão, cedo ou tarde: aqui, cada caminho retorna ao ponto de partida. Não existem portas esquecidas, atalhos ou misericórdias acidentais. O destino já havia sido decidido muito antes do primeiro passo. Quanto mais alguém luta para escapar, mais percebe que a própria tentativa apenas o conduz exatamente para onde jamais deixou de estar destinado.
Até uma trilha sonora nos acompanha: pífaros. Está ruim? Não adianta tapar os ouvidos; o estrondo ignora qualquer tentativa de resistência. Pensa-se duas vezes antes de fazer o que fez; não há defesa, testemunhas ou última palavra. O silêncio ocupa o lugar de qualquer argumento, enquanto cada escolha feita em vida pesa mais do que qualquer justificativa que pudesse ser apresentada. Aqui, as ações falam por quem já não pode falar. Nenhuma sentença nasce da surpresa; ela apenas revela aquilo que sempre esteve sendo escrito, decisão após decisão. Quando o veredito enfim ecoa, ninguém protesta. Há um instante em que até o mais obstinado compreende que certos caminhos terminam exatamente onde sempre estiveram destinados a terminar.
O demiurgo deflagrou o expurgo.
Uma claridade austera espalhou-se pelo horizonte imóvel, revelando rostos despojados de máscaras e pretextos. Gestos outrora triviais assumiram proporções incontornáveis, gravados como marcas indeléveis na memória de cada consciência. Nenhum clamor se ergueu; restou apenas a compreensão tardia de que a travessia inteira conduzira, desde o início, a esse desfecho inexorável.
O facínora foi condenado a contar cada centelha das chamas que o cercavam e a inscrever, pedra por pedra, as incontáveis fissuras do abismo ao seu redor, até que a última chama se extinguisse.
O curiboca responsável pela curra recebeu, por juízo, a incumbência de moldar o enxofre incandescente em vasos perfeitos, que se rompiam em suas mãos antes de tomarem forma.
Ao trapezista responsável pelo tráfico de traqueias e trancelins foi atribuída a incumbência de erguer um arco de fumaça sobre as pedras ardentes, mas a obra se desfazia antes que a última pedra pudesse ser assentada.
O trapincola réu pelo homicídio do apícola teve por sentença a incumbência de aprisionar a névoa em vasos de pedra, mas ela se esvaía antes que pudesse ser encerrada.
Ao gajeiro acusado de pilhagem recaiu a obrigação de conduzir, por entre as trevas, uma embarcação sem leme nem velas, a qual tornava sempre ao mesmo ponto antes que pudesse alcançar qualquer porto.
O enfiteuta convicto de haver tirado a vida do enfiuzado teve por sentença a incumbência de enfileirar as sombras lançadas pelas chamas sobre a pedra nua, mas elas se dissipavam antes que a primeira pudesse ocupar o seu lugar.
À fuampa indiciada de emascular o incauto foi imposta a responsabilidade de forjar uma corrente com a própria fumaça das chamas que a cercavam, mas os elos se dissipavam antes de se unirem.
Ao causídico, condenado por haver subornado testemunhas em juízo, que não se acostuma com o cáustico, foi cominada a tarefa de lavrar, sobre a pedra abrasada, um cântico que apaziguasse as chamas, mas os caracteres se apagavam antes que o primeiro verso pudesse ser concluído.
Alguém terá que alimentar Cérbero, para que seu rosnado não ecoe em vão entre as sombras.
Pois o guardião não abandona seu posto, e seus três semblantes perscrutam, sem descanso, os caminhos que conduzem ao abismo. A cada passo que ressoa na pedra, seus olhos se erguem, vigilantes.
E, enquanto as chamas vacilam e a névoa se arrasta pelos umbrais, a antiga vigília permanece inalterada, como se o próprio tempo ali houvesse deposto as armas.
O alvanel, punido por emparedar sua esposa, foi o escolhido, levando-lhe, ao cair de cada sombra, o sustento que apaziguava seus três focinhos e mantinha serenos os umbrais.

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