quinta-feira, 30 de março de 2017

Van Gogh


O Auto-Retrato


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!


Mário Quintana, in 'Apontamentos de História Sobrenatural'



os comedores de batata 1885


Anagramas edíveis

Exceto o oomiceto ábdito
O tábido no verso 
Alternar a alternaira para algo benéfico
A Natureza morta emerge
Amerge a megera com sua libido 
Reagem à solidão
Duelo com o edulo
O vesco do escoiço
A escorva como alimento da estrofe
Um pouco de amido
Liamento com o estro
A orelha em Lahore
Para se ouvir o petardo
O tonal do tritonal
O estribo não percebe
Silêncio ensurdecedor
Paracusia rugia
Leonina de maneira não linear
Oxímoros para o seu bel-prazer
A retórica que entorpece
Parei com esses paradoxos. 

                                                                                     Ednei P.Rodrigues
Glossário:

oomiceto-fungo responsável pela destruição de plantação de batatas
alternaira- praga nas batatas conhecida como pinta preta ou alternaira é causada pelos fungos Alternaria solani
Lahore(anagrama:orelha)também conhecida como Laore,é a capital e a mais populosa cidade da província do Panjabe, no Paquistão
tritonal:Tritonal é a mistura de 80% TNT e 20% de pó de alumínio , usado em vários tipos de armas.

   Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
  

sábado, 18 de março de 2017

Lugares onde nunca estive



 O ar da tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro do teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora - rui por dentro.
Reverbera no escuro o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.

Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios, 
femininos.

A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.


Elefante (Francisco Alvim - 1938)


Obelisco do Elefante_Roma,Itália


Matutino

A noite persiste
Sonhos no balcão da padaria
E o pesadelo de estar perdido na Pradaria 
Inclua lucina em seu awake
O sarcito de Minerveo,sem oscitar
Anexa Ganesha no verso
Para a poesia ficar mais leve
Sendo comprovadamente vetores de pólen
Sem precisar explicar muito
Explica a plica
Refém do refego
Nada precisa ser refeito
Pássaro a se apossar da xícara
Rémiges ao invês de café
Algo apossarco para as mazelas do mazagran
Pise no pires sem ires à lugar nenhum
Estátua Estável de equilíbrio constante
Mesmo quando tudo tende para a vertigem
Aquela detentora de tudo.

                                                         Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Minerveo:Obelisco do Elefante (em italiano: Obelisco della Minerva ou Pulcino della Minerva), chamado também de Minerveo, é uma escultura projetada pelo artista italiano Gian Lorenzo Bernini localizada em Roma, Itália. O elefante foi provavelmente executado por seu assistente Ercole Ferrata e o obelisco é um antigo monumento egípcio encontrado no claustro do convento dominicano nas imediações.
Mazagran:bebida fria de café adoçado que teve origem na Argélia.



   Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
             Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
             Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
             Coração de ninguém. 


                        Fernando Pessoa,"Cancioneiro"

quarta-feira, 1 de março de 2017

Anagramas Alados



   Esta esperança vã, doce tormento, 
Com que amor lisonjeiro determina 
Acumular estragos à ruína 
Por levantar padrões ao escarmento, 

Foi crepúsculo breve de um momento, 
Delicado jasmim, frágil bonina, 
Rosa, que se murchou duma aura fina, 
Vidro, que se quebrou de um leve vento. 

Morreu minha esperança às mãos de um rogo 
E nas cinzas se alenta o meu cuidado, 
Que amor nos impossíveis mais se inflama: 

Mas se a esperança é ar, e amor é fogo, 
Justo é que nela cresça o meu agrado, 
Pois ao sopro do vento cresce a chama. 


Francisco de Vasconcelos Coutinho"Fénix Renascida'"




Cleistes  (flor que dura só um dia)

Efemérides

Só mais um dia, e tudo se acaba 
                   Efêmero como Cleistes                  
Quis ser Fênix com vestido de albene
Quiçá quiçoçoria
Para fazer a operação rescaldo 
Tafetá afeta a inércia perene
Especulo séculos
O tempo é sicário
Detalhes ignorados
Falta alguma coisa
Minutos sem minúcias
Deixa tudo oneroso
Céu aberto sem minuano
Mesmo que você concorda 
Com o concorde
Turbina na tribuna
Sem intubar o intruso
O antevoar avarento
Norteava shamal no leque
Pavão se esconde no arco-íris.

                            Ednei P.Rodrigues


Glossário:
Albene é um tecido misto confeccionado com 73% Acetato e 27% Poliéster, é um tecido bem liso que não tem aderência para insetos, tem também uma grande vantagem é que não queima com o fogo.
Tafetá é um tecido de seda trançado.
quiçoçoria avê da África
shamal:vento



   Faísca luminar da etérea chama 
Que acendes nossa máquina vivente,
Que fazes nossa vista refulgente
Com eléctrico gás, com subtil flama:

A nossa construção por ti se inflama;
Por ti, o nosso sangue gira quente;
Por ti, as fibras tem vigor potente,
Teu vivo ardor por elas se derrama.

Tu, Fogo animador, nos vigorizas,
E à maneira de um voltejante rio,
Por todo o nosso corpo te deslizas.

O homem, só por ti tem força e brio
Mas, se tu o teu giro finalizas,
Quando a chama se apaga, ele cai frio


Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'