Monólogo de um carimbo
Não é só burocracia, protocolo de protoctistas, antes que o protodórico caia, antes que a protoestrela apareça.
Movimentos reiterados = tendinite.
Mais um afastado das funções.
O expediente parece suspenso hoje, deve ser feriado.
Até um pássaro parou na janela para ficar olhando, percorreu o interior da sala com os olhos por alguns instantes, como se esperasse encontrar algum movimento do outro lado do vidro, permaneceu ali diante do silêncio e parecia não compreender por que aquele lugar estava tão vazio; depois ajeitou as penas e continuou observando o interior da sala sem demonstrar pressa para ir embora, mudou de posição sobre o parapeito, aproximou o bico do vidro e ficou alguns segundos imóvel, olhando para as mesas vazias, para as cadeiras e para a porta fechada, como se tentasse reconhecer alguma coisa naquele ambiente, abriu as asas por um instante, mas não voou, apenas voltou a se acomodar e permaneceu ali.
Estava ali por outro motivo; todos os dias encontrava algumas migalhas espalhadas no parapeito, deixadas por quem costumava passar por aquela janela durante o expediente, por isso retornava sempre no mesmo horário, pousava no mesmo lugar e esperava pacientemente pela comida, mas naquele dia não havia ninguém para deixar qualquer coisa, apenas a janela fechada e a sala silenciosa.
E amigo emplumado, não vou poder te ajudar, você sabe que eu ficaria satisfeito em fazer alguma coisa, mas não tenho pernas para ir até o refeitório, nem mãos para abrir uma porta, fui colocado aqui para carimbar documentos e é isso que faço todos os dias; você ao menos pode ir embora quando quiser, eu não tenho essa possibilidade, talvez por isso você continue olhando para dentro, procurando as migalhas que costumavam aparecer por aqui, ou talvez esteja esperando alguém voltar, eu também costumo esperar, embora ninguém tenha me explicado exatamente o quê, se pudesse escolher, eu pegaria alguma coisa para você, talvez um pedaço de pão, algumas sementes, qualquer coisa que servisse para compensar sua espera, mas só consigo deixar marcas sobre o papel, e hoje nem isso parece necessário.
Talvez amanhã seja diferente, talvez alguém volte a ocupar as cadeiras e as migalhas apareçam novamente sobre o parapeito, você já se acostumou com esse horário e eu também, embora por motivos diferentes, você espera pela comida e eu espero pelas folhas, no entanto hoje teremos apenas o silêncio, e não sei por quanto tempo ainda.
Talvez seja melhor procurar outro lugar por hoje, companheiro de janela, há uma praça algumas quadras daqui onde costumam ficar pessoas sentadas nos bancos, quase sempre alguém está comendo alguma coisa e algumas migalhas acabam sobrando pelo chão, você poderia tentar a sorte por lá, aqui não há muito que eu possa fazer por você, a janela continuará fechada e eu continuarei no mesmo lugar, registrando a ausência de todos.







