sábado, 6 de junho de 2026

Anatomia de uma Ideia Extravagante

 


imagem: A Extração da Pedra da Loucura_ Hieronymus Bosch  

Monólogo de um funil



Exijo que minha dignidade seja preservada; estão fazendo um uso inadequado de mim. Fui criado para conduzir aquilo que flui, a não ser que tenham descoberto alguma teoria revolucionária segundo a qual pensamentos confusos possam ser despejados por um gargalo. Passei a existência inteira transferindo líquidos entre recipientes e, agora, me transformaram em adereço de um procedimento que desafia a lógica, a anatomia e até o bom senso. Observem minha inclinação, minha forma, minha elegante simplicidade: nada em mim sugere vocação para colher ideias extraviadas de uma cabeça humana. Se havia falta de juízo nesta cena, bastava conversar com o paciente; não era necessário envolver um especialista em evitar respingos.
Ainda assim, ninguém me consultou. Simplesmente me colocaram aqui, apontado para o céu como uma torre de observação da insensatez. Enquanto isso, os espectadores assistem com a maior naturalidade, como se extrair perplexidades pela cabeça fosse uma prática reconhecida pelos sábios da época. Reparem na expressão dos presentes: um parece oferecer conselhos que não pediu, outro observa como quem espera um milagre administrativo, e há até quem tenha trazido um livro para o caso de a realidade precisar de correções urgentes. Se continuarem ampliando minhas responsabilidades nesse ritmo, amanhã estarei sendo responsabilizado pela chuva, pelas marés e pelo desaparecimento das meias solitárias.
Estão expandindo minhas atribuições de maneira preocupante. Até pouco tempo atrás, bastava orientar o percurso de substâncias obedientes à gravidade. Agora esperam que eu participe de diagnósticos improváveis, intervenções intelectuais e operações para recuperar o bom senso perdido. Receio que estejam confundindo versatilidade com exploração funcional.
Alguém concluiu que, por possuir uma abertura larga e outra estreita, estou habilitado a desempenhar qualquer função concebível. É uma lógica curiosa. Seguindo esse raciocínio, uma colher deveria estar apta a redigir tratados filosóficos e um balde a ocupar cargos administrativos.
Não interpretem minha reclamação como hostilidade à criatividade. Tenho grande apreço pelas manifestações artísticas. É sempre agradável ver objetos comuns alcançando certa notoriedade cultural. O que me incomoda é a falta de critério. Uma coisa é participar de uma composição simbólica; outra, muito diferente, é ser promovido, sem treinamento, para auxiliar em procedimentos que desafiam séculos de conhecimento acumulado. Se desejavam representar uma ideia, um sonho ou uma metáfora, poderiam ao menos ter me informado. Em vez disso, fui lançado ao centro da cena e transformado em cúmplice involuntário de uma operação cuja finalidade continua tão misteriosa para mim quanto para o paciente. Confesso que estou começando a suspeitar que a verdadeira extração realizada aqui não seja de pedras, mas de responsabilidades alheias depositadas discretamente sobre meus ombros.
Talvez eu tenha sido severo demais com os envolvidos nesta cena. Afinal, como escreveu Florbela Espanca: “Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo!”
Quanto mais observo o mundo, mais compreendo o que ela quis dizer. Os que reconhecem suas próprias extravagâncias costumam ser mais tolerantes, mais criativos e até mais interessantes. Já aqueles que se consideram proprietários exclusivos da razão frequentemente transformam a certeza em arrogância e a convicção em teimosia. A imaginação, por mais indisciplinada que seja, ao menos permite explorar caminhos novos. A rigidez absoluta, por outro lado, raramente produz algo além de repetições.
Um pouco de desordem mental pode ser desconfortável, mas uma existência completamente esterilizada de fantasia seria incapaz de sonhar, criar ou se surpreender. E, entre uma realidade excessivamente organizada e uma imaginação que ocasionalmente transborda pelos cantos, há quem prefira preservar essa pequena e valiosa centelha de loucura.
O que torna toda esta situação ainda mais intrigante é uma aparente contradição. Se a centelha de desatino é responsável por boa parte da arte, da invenção e da imaginação humanas, por que tanto empenho em removê-la? Observem o entusiasmo dos participantes da cena. Todos parecem convencidos de que estão prestando um grande serviço ao paciente, como se estivessem libertando-o de um terrível fardo. Mas e se estiverem retirando justamente aquilo que torna uma pessoa interessante?
Talvez ninguém tenha considerado essa possibilidade. Talvez a suposta enfermidade seja também a fonte das histórias que ele contaria, das ideias que teria ou das perguntas que ainda faria. Há algo de curioso em declarar guerra à extravagância enquanto se participa de uma cena tão extraordinariamente extravagante. Os presentes parecem determinados a expulsar a fantasia da cabeça de um homem ao mesmo tempo em que encenam um espetáculo que desafia qualquer explicação razoável.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Devaneios Sob Luz Estroboscópica

 

Monólogo de um cone


Aqui ninguém passa. Às vezes, me sinto mal com todo esse poder que os humanos me impõem. Mesmo assim, continuam obedecendo sem questionar, desviando seus caminhos ao menor sinal da minha presença. Permanecem atentos às minhas ordens silenciosas enquanto interrompo ruas, altero destinos e decido quem avança ou quem precisa esperar. Alguns demonstram revolta ao me encarar, mas até os mais impacientes acabam reduzindo a velocidade diante de mim, como se já aceitassem que certas decisões não pertencem mais a eles.
Nativo de uma urbe onde o concreto parecia avançar sobre qualquer vestígio de ar puro, aprendi desde cedo a respirar fumaça quente misturada ao cheiro metálico vindo das avenidas congestionadas. Os edifícios altos abafavam a luz do dia e deixavam as ruas mergulhadas numa sombra constante, enquanto letreiros piscavam sem descanso. Só conseguem se comunicar dessa maneira escandalosa? Conativos por todos os lados, buzinas que pareciam discussões intermináveis, motores rugindo como animais presos em jaulas invisíveis, vozes atravessando paredes finas sem pedir licença.
Com o tempo, comecei a sentir falta de algo que eu nem conhecia direito: um silêncio verdadeiro. Não a pausa breve entre um ônibus e outro, nem o instante fraco da madrugada, quando a cidade apenas cochila. Falo de um silêncio inteiro, capaz de deixar os pensamentos respirarem sem serem atropelados. Aqui, até o vento parecia chegar cansado, contaminado pelo eco das sirenes e pelo cansaço das multidões. Às vezes, eu imaginava como seria ouvir apenas os próprios passos, sem anúncios luminosos competindo pela atenção, sem televisões vazando pelas janelas dos apartamentos empilhados. A cidade desaprendeu a sussurrar. Tudo nela precisava gritar para existir. E talvez fosse isso que mais pesava: a sensação de que o silêncio havia sido expulso dali como algo inútil, antigo demais para sobreviver entre tanto concreto e tanta pressa.
Até a chuva parecia suja naquele lugar, escorrendo pelas calçadas com uma coloração acinzentada e levando consigo restos de lixo, óleo e fuligem.
Fui atropelado mais uma vez e apenas rolei alguns centímetros pela pista antes de voltar ao mesmo lugar de sempre. Nenhuma rachadura, nenhum dano verdadeiro, apenas marcas de pneus atravessando meu corpo laranja, como se eu fosse incapaz de sentir qualquer consequência. Hoje estou em frente a um lupanar, amanhã nunca se sabe. Nesta cidade, nós, cones, somos deslocados como presságios ambulantes. Aparecemos onde houve colisão, incêndio, enchente, vazamento. Desta vez, foi gás. O cheiro chegou primeiro, rastejando pelas calçadas como uma criatura invisível. Depois vieram os gritos, os rádios chiando, homens correndo para fechar ruas enquanto portas se abriam às pressas. Mandaram evacuar o prédio inteiro. Vi pessoas descendo escadas ainda tontas de sono, algumas tropeçando, outras tentando esconder o constrangimento com os braços cruzados sobre o próprio corpo. Uma mulher saiu usando apenas um casaco fino e nada por baixo dele, fumando nervosamente, como se a fumaça do cigarro pudesse espantar a outra fumaça que ameaçava o lugar. Um homem carregava sapatos nas mãos, outro reclamava da interrupção, como se o perigo tivesse atrapalhado um compromisso banal. Ficamos espalhados pela rua, delimitando o risco, eu e meus semelhantes silenciosos. As luzes vermelhas dos veículos de emergência giravam sobre as poças do asfalto, e tudo parecia cenário de alguma tragédia barata. Ainda assim, depois de algumas horas, a cidade começou a esquecer. Os curiosos se aproximaram novamente, os carros buzinavam impacientes, alguém ria alto na esquina.
Só eu permaneci imóvel, respirando aquele resíduo invisível que sobrava no ar, imaginando quantas catástrofes pequenas uma cidade consegue suportar antes de desabar de vez.
Outro dia, sonhei que era uma pirâmide, enorme e antiga, enterrada até a metade sob avenidas e fios elétricos. As pessoas caminhavam ao meu redor sem perceber que existia algo colossal observando cada passo delas debaixo do concreto. Permaneci ali durante séculos naquele sonho, suportando chuva, fumaça, ferrugem e silêncio, enquanto a cidade crescia como uma infestação sobre minhas pedras. Quando acordei, ainda senti a estranha impressão de que fui reduzido a algo menor, colocado à força numa esquina qualquer apenas para organizar o caos por alguns instantes.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Correspondência correspondente



Venho por meio desta destanizar a destampice que ficou acumulada nos corredores desta época. As paredes continuam úmidas de vozes, e ainda encontro insetos caminhando dentro das palavras, como pequenos funcionários da decomposição. Tenho observado criaturas carregando diplomas de ferrugem dentro dos bolsos enquanto sorriem para vitrines acesas, como se a iluminação pudesse absolvê-las da própria matéria.
Recebi notícias suas através de um homem que recolhia insetos mortos perto dos trilhos. Havia nele alguma dignidade arruinada, semelhante à dos santos corroídos pela maresia. Por um instante, tive a impressão de que o senhor ainda percorre certos lugares usando nomes provisórios.
Ontem retirei de uma gaveta um conjunto de fotografias deterioradas. Em todas elas, os rostos estavam parcialmente apagados, como se o tempo tivesse decidido poupar apenas os objetos ao redor. Permaneceram intactos um copo sobre a mesa, uma cortina imóvel, um cachorro observando algo fora da imagem. Isso me perturbou mais do que a ausência das pessoas.
Tenho suspeitado que certas palavras adoecem quando pronunciadas em excesso. Talvez por isso alguns livros pareçam emitir calor, mesmo fechados. Há páginas que sobrevivem como febres aprisionadas.
Tenho lido os ossos das frutas para compreender melhor o mundo. Nenhum médico conseguiu explicar por que certas madrugadas possuem cheiro de biblioteca fechada.
Imagino que o senhor entenderia imediatamente. Existem pessoas que apodrecem apenas por excesso de lucidez.
Caso ainda exista correspondência possível entre nós, envie algum sinal: uma asa carbonizada dentro do envelope, um fio de cabelo preso entre páginas, qualquer evidência mínima de continuação.
Espero que esta carta consiga alcançá-lo, seja qual for o estado físico ou atmosférico em que o senhor atualmente reside.

sábado, 9 de maio de 2026

Sinestesia da Ausência


Os fusíveis não podem ser,  foram trocados na semana passada. Talvez venha da rua: algum curto-circuito no transformador do poste, um interruptor cansado de interromper.
A lâmpada da cozinha fica oscilando como se estivesse indecisa. Como se soubesse de alguma coisa que o resto da casa ainda não percebeu, como se as paredes estivessem tentando lembrar de tudo o que já suportaram em silêncio.
Também existe a possibilidade de ser o compressor da geladeira se esforçando demais para ser Alasca. Não preciso de tanto frio assim, apenas o essencial para uma metáfora álgida, um silêncio transformado em pensamento, aquele que faltava para a cozinha inteira parecer suspensa, onde até a luz hesita antes de tocar os objetos.
Também considero a hipótese de ser uma válvula do fogão se esforçando demais para ser um vulcão, a erupção vai acontecer de qualquer maneira, porque existem coisas que passam tempo demais acumulando calor em silêncio até não conseguirem mais permanecer contidas dentro das próprias estruturas.
Talvez seja o ambemohar do vizinho tentando abemolar o silêncio, deixando no ar essa sensação estranha de memória aquecida, como se alguém estivesse tentando preencher a madrugada com alguma coisa mais suportável que o vazio.
Nada com que deva me preocupar, talvez a casa apenas esteja envelhecendo em voz baixa. Permaneço deitado, observando a claridade fraca atravessando a porta entreaberta do quarto, enquanto algum lugar distante da casa continua emitindo pequenos sons irregulares, discretos demais para exigir atenção, constantes demais para desaparecer completamente da cabeça.
Não descarto a possibilidade de ter sido alguma freada abrupta, dessas que fazem o asfalto guardar por alguns instantes o cheiro quente dos pneus raspando contra a noite. Há uma espécie de desespero escondido na velocidade das pessoas durante a madrugada, como se diminuir o ritmo por um instante pudesse permitir que alguma ausência antiga finalmente alcançasse elas no meio do caminho.


*****escrito após a leitura de: Marina Colasanti: Fino sangue

Gosto de poema
que fala de ovo frito
latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Osteogênese por distração


Imagem: Elefantes Salvador Dali 1944


Levem os totens para Kangchenjunga. O Equinócio está próximo, e o tempo está propício à abertura do portal para Pangeia. Alinhem-nos de acordo com Órion.
Fixem cada base na rocha, voltadas para o vento mais alto, e mantenham a distância exata entre eles. Quando a primeira estrela surgir no horizonte, acendam as chamas nos pontos marcados e aguardem em silêncio. Não desviem o olhar do alinhamento; qualquer hesitação rompe o fluxo.
À medida que a noite avança, a luz deverá percorrer as superfícies esculpidas, refletindo de um totem ao outro até formar um traço contínuo. Se o traço se fechar sem falhas, a passagem começará a se delinear no ar, como uma dobra quase invisível. Permaneçam firmes. Não recuem.
Quando o frio mudar de intensidade e o céu parecer mais próximo do que deveria, avancem um passo e sustentem a posição. O que se abre não tolera desordem. Apenas sigam o alinhamento até que o limiar se revele por completo.
Não demonstrem qualquer receio para Ourea, pois ele não perdoa os pávidos, nem aqueles que vacilam diante do chamado, nem os que permitem que o pensamento interrompa o gesto. Se houver som, ignorem. Não pertence a este lado. O vento poderá assumir forma e voz, mas não responde a chamados humanos. Mantenham o ritmo da respiração sincronizado com o pulso da luz, como se o próprio ar fosse guiado pelo traço que se formou entre os totens. Aos poucos, o corpo deixará de resistir e começará a ajustar-se a esse compasso estranho, como se reconhecesse uma cadência mais antiga do que a própria memória. A rocha sob os pés deixará de ser apenas rocha. Sentirão uma leve inclinação, como se a montanha estivesse respirando por dentro. Não tentem compreender. A compreensão enfraquece a travessia. Apenas sustentem o gesto, pois é ele que mantém a abertura estável.
Se as sombras começarem a se projetar na direção contrária à chama, não se movam. Isso indica que o eixo foi alcançado. Nesse ponto, qualquer passo fora do alinhamento desfaz o que foi iniciado. A luz deve atravessar vocês como atravessa os totens, sem interrupção.
Quando o traço se elevar do solo e perder a forma rígida, tornando-se um arco suspenso, saberão que o limiar deixou de ser apenas visível e passou a ser ativo. É nesse instante que a passagem reconhece presença. Não falem. Não nomeiem. Nomes fixam aquilo que precisa permanecer em fluxo.
Avancem somente quando o silêncio se tornar denso o suficiente para parecer matéria. O primeiro a atravessar não deve olhar para trás. O segundo deve manter a distância exata do primeiro. O terceiro sustenta o fechamento, caso haja ruptura.
Se tudo estiver correto, não haverá retorno imediato. O que se abre não é caminho de ida e volta, mas de deslocamento contínuo. E, ao cruzarem, não levem consigo a certeza do que eram. Aqui, isso pesa.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O peso das sombras desalojadas



O Imperador do Sorvete
          
                                Wallace Stevens

Chame o rolador de charutos grandes,
O musculoso, e mande-o chicotear
Em xícaras de cozinha coalhadas concupiscentes.
Deixe as moças se demorarem em tais trajes
Como estão acostumadas a usar, e deixe os rapazes
Trazerem flores em jornais do mês passado.
Seja ser o final de parecer.
O único imperador é o imperador do sorvete.
Tire da cômoda de madeira,
Sem as três maçanetas de vidro, aquele lençol
Em que ela bordou caudas de leque um dia
E espalhe-o de modo a cobrir seu rosto.
Se seus pés cornudos se projetarem, eles vêm
Para mostrar o quanto ela está fria, e muda.
Deixe a lâmpada fixar seu raio.
O único imperador é o imperador do sorvete.

                                  *****                                
  
Ele está muito ríspido com o insípido e ordenou jogar baunilha na estátua de Baudelaire. Que venham as formigas! Precisamos de mais apócrifos dos apócritos, reparou na escassez da retórica isopórica? Estamos incomunicáveis sem a duração exata dos abalos sísmicos, e então ele resolve desalojar as sombras dos cantos, não com luz, mas com uma espécie de insistência muda, como se pudesse convencê-las a abandonar seus abrigos por puro desgaste. Ele as chama sem voz, arrasta seus contornos com gestos imprecisos, até que elas começam a se desprender das superfícies, relutantes, escorrendo pelas frestas como uma memória que já não encontra onde ficar.
Há algo de inquietante nesse movimento, porque, ao expulsá-las, ele também altera o peso das coisas. Os objetos perdem profundidade, as distâncias ficam incertas, e o espaço, antes familiar, passa a vibrar com uma leve distorção. Nada se acomoda como antes. O que era apoio se torna instável, e o que era vazio começa a insinuar presença.
Não quebre as xícaras, mesmo que a mesa já esteja inclinada, como se escutasse outra música por baixo do mundo. Há nelas um brilho antigo, desses que não pertencem à louça nem ao tempo, mas ao gesto de quem ainda insiste em servir algo que ninguém pediu.
Esposteje o espórulo e deixe que o pó resultante invente seus próprios mapas, como se cada partícula fosse um território indeciso, tremendo antes de escolher existir. Não há medida segura para o que se fragmenta assim, apenas uma sequência de tentativas que se acumulam nas margens do visível, enquanto algo insiste em reorganizar o caos com mãos que ninguém vê.
Tudo se mistura, o gosto, o gesto, a matéria, como se a própria lógica tivesse sido deixada de lado por cansaço.
Insistam, então, em nomear o que escapa, mesmo que as palavras se dissolvam antes de alcançar o objeto. Porque é nesse intervalo, entre o que se tenta dizer e o que nunca se fixa, que algo verdadeiro insiste em existir, ainda que ninguém consiga provar.
Que se recolham, então, os restos de intenção como quem varre ecos de um salão sem paredes, e que cada vestígio encontre um uso imprevisto, ainda que nenhum sentido se sustente por muito tempo.
Há um pulso discreto atravessando o indizível, uma engrenagem sem dentes girando por pura teimosia, enquanto aquilo que não se deixa capturar continua a se expandir, alheio a qualquer tentativa de contenção, como um sopro que nunca se repete e, ainda assim, permanece.

                                     Ednei Pereira Rodrigues



ACRESCENTA ISTO À RETÓRICA


Posa, posa e posa.
Mas na natureza apenas
Cresce. As pedras posam
Ao cair da noite, e os mendigos
Quando dormem também
Posam com seus trapos.
Bolas... cai o luar de lavanda.
Os prédios posam no céu
E, quando pintas, as nuvens,
Grisalhas, peroladas, profundas,
Pftt... No modo como falas
Arranjas, a coisa posa, o que
Na natureza apenas cresce.
Amanhã, quando o sol,
Apesar de tuas imagens,
Retornar como sol, fogaréu,
Tuas imagens não terão
Deixado nem sombra
Do que foram. As poses
Do discurso, da pintura,
Da música – o corpo dela jaz
Exausto, seu braço cai,
Seus dedos tocam o chão.
Acima dela, à esquerda,
Um toque de branco, o obscuro,
A lua sem forma,
Um olho debruado numa cripta.
O sentido cria a pose.
Nisso, se move e fala.
Esta é a figura, e não
Uma metáfora esquiva.
Acrescenta isto.
É para acrescentar.

                                                    Wallace Stevens






****escrito após a leitura de O Imperador do sorvete e outros poemas 
Wallace Stevens

terça-feira, 14 de abril de 2026

Vestígios de uma presença

 
Introdução indagativa: de que função nascem essas intervenções tão precisas?


Monólogo em suspensão contínua


Toda sua pulcritude destoa deste ambiente, talvez isso justifique essa rigidez corporal incomum; contrações breves surgiam aqui e ali. Pode ser que esteja tentando se expressar, talvez insista, à sua maneira, em se fazer presente.
Há uma espécie de atraso entre o gesto e o significado, como se algo ainda buscasse alcançar o próprio fim e não conseguisse. Os movimentos — se é que podem ser chamados assim — surgem como lapsos, interrupções de um silêncio que não se firma por inteiro.
Tudo parece obedecer a uma lógica que não se mostra. Há um cuidado excessivo, quase cerimonial, como se cada detalhe precisasse ser mantido intacto, mesmo quando já não há quem o perceba. Ainda assim, algo responde. Não de forma clara, não de forma contínua — mas responde.
Talvez seja apenas uma reverberação tardia, um eco preso nas bordas do que já cessou. Ou talvez seja um tipo de persistência sem nome, uma recusa silenciosa em se dissolver por completo.
O ambiente, por sua vez, permanece cúmplice. Não denuncia, não explica. Apenas abriga esse intervalo estranho entre o que foi e o que insiste em não se desfazer por completo.
Seus instrumentos de trabalho estão sobre a mesa, alinhados com uma precisão que beira o ritual: pincéis de cerdas macias, pequenas espátulas, frascos de líquidos opacos, pós finíssimos que parecem dissolver a própria luz, além de tecidos limpos, dobrados como se aguardassem um gesto já ensaiado. Nada ali denuncia pressa — ao contrário, tudo sugere uma paciência antiga, quase reverente.
Há uma escolha a ser feita, ainda que silenciosa.
Tons são avaliados não apenas pela cor, mas pelo que insinuam. Um leve ajuste aqui pode devolver algo que parecia ausente; um excesso, por outro lado, corre o risco de criar uma presença que nunca existiu. E isso não convém. Não se trata de inventar, mas de sugerir continuidade — um vestígio plausível do que um dia foi reconhecível.
Os traços começam a ser tocados com cuidado, como quem negocia com uma superfície que já não responde da mesma maneira. Ainda assim, há uma espécie de diálogo, embora unilateral, onde cada intervenção parece aguardar uma aceitação que não vem, mas também não recusa. A matéria cede, mas não colabora.
Há limites implícitos. Não se busca exagero, nem brilho indevido, nem qualquer artifício que transforme o que resta em algo deslocado de sua própria história. O objetivo — se é que se pode nomeá-lo — é evitar que a aparência se torne estranha demais, como se tivesse sido atravessada por intenções alheias ao que já lhe pertenceu.
E então, pouco a pouco, algo se reorganiza. Não é vida, tampouco sua imitação direta — é antes uma acomodação, uma espécie de acordo entre forma e silêncio. O rosto, ou aquilo que ainda sustenta essa ideia, parece menos distante, ainda que não se aproxime de fato.
Permanece ali uma impressão difícil de fixar, como se a superfície, agora ajustada, carregasse não uma presença, mas a lembrança de ter sido vista. Não há retorno, apenas uma disposição mais estável do que restou. Os contornos deixam de sugerir ruptura imediata e passam a sustentar algo mais contido, quase compreensível dentro de sua própria quietude.
O que antes surgia como descompasso agora se dilui em uma continuidade discreta. Não há cessação total daqueles pequenos impulsos, mas eles já não se impõem com a mesma estranheza — tornam-se parte de um pano de fundo, quase integrados a esse novo arranjo. Como se, ao invés de negar, o conjunto tivesse encontrado uma forma de absorver tais ocorrências sem precisar explicá-las.
Há, nisso tudo, uma espécie de apaziguamento que não chega a ser conforto. Apenas uma suspensão mais organizada do desconcerto inicial. O olhar — mesmo que não haja propriamente um — já não se perde tanto; encontra onde repousar, ainda que por engano. E talvez seja esse o limite possível: não restaurar, não recriar, mas tornar suportável aquilo que insiste em permanecer à margem de qualquer definição clara.
Nada se conclui de fato. Ainda existe esse intervalo, essa zona indefinida onde as coisas não terminam nem continuam plenamente. Mas agora, ao menos, ele não se impõe como ruptura — apenas como um espaço que se aceita, silencioso, entre aquilo que já foi e aquilo que, de alguma forma, ainda se recusa a desaparecer por completo.
O rímel suaviza a rímula rinal e toda rinçagem. Ainda assim, não há anulação completa das marcas; apenas um amortecimento delicado, quase imperceptível, que reorganiza o que se expõe. Cada passagem acrescenta uma camada mínima de coesão, como se o visível precisasse ser conduzido com cautela até um ponto de equilíbrio que não se sustenta por si.
Há, nesse gesto, uma tentativa silenciosa de contenção. Não se trata de esconder por completo, mas de reduzir o impacto, de tornar menos abrupta a transição entre aquilo que se mostra e aquilo que deveria permanecer discreto. O resultado não é uniformidade, mas uma espécie de harmonia instável, onde pequenas irregularidades ainda persistem, porém já não dominam a cena.
A superfície aceita essas intervenções sem resistência evidente, embora jamais ofereça colaboração plena. Existe um limite tênue entre ajustar e alterar demais, e é nesse limiar que cada decisão se apoia. Um leve excesso pode romper o acordo implícito; uma falta, por outro lado, deixa escapar aquilo que se buscava conter.