Assim vai enxergar as pedras tristes, vai poder ajudá-las; agora terão quem as compreenda, talvez consiga consolá-las. O calhau no calhe percebeu o calhastroz e sentiu o sabor do calhariz, se calhar, toda pedra espera apenas alguém disposto a escutá-la.
Você terá calhestro para compreender o silêncio delas, porque nem toda conversa precisa de palavras; bastará permanecer imóvel por tempo suficiente.
Logo perceberá que o milonito está aflito, porque ninguém conhece melhor o custo de ser reduzido sem deixar de existir. Aquilo que parece firme já foi vencido inúmeras vezes, comprimido até adquirir outra natureza. Desde então, conserva em si uma memória que dispensa testemunhas. Há muito deixou de confiar na aparência da tranquilidade. Sempre que tudo parece definitivo, é justamente quando alguma força invisível recomeça seu trabalho. Por isso permanece inquieto. Não teme o que virá; teme apenas ser o único a reconhecer os primeiros sinais.
Reconhecerá a ardósia como sósia de uma irmã que o tempo tratou de separar.
Haverá quem jure que vocês são a mesma, apenas gastas por caminhos diferentes. Vão te confundir na rua, chamar pelo nome que nunca foi o seu, atribuir lembranças que pertencem a outra superfície. Alguns insistirão no engano, mesmo diante das diferenças, porque enxergar exige mais esforço do que presumir.
Depois de tantas confusões, deixarão de perguntar quem você realmente é. Passarão a medir apenas o que podem fazer com você. Irão imaginar cortes, revestimentos, paredes, pisos, bancadas. Poucos se interessam pela história escrita nas camadas que você acumulou sob uma pressão impossível de repetir. Para muitos, basta que seja resistente e silenciosa.
Logo entenderá que, para a maioria, ser confundida é apenas o primeiro passo para ser usada. Não importa o nome que lhe deem, desde que sirva de apoio, suporte ou acabamento. Quase ninguém percebe que uma ardósia também carrega marcas de tudo o que precisou suportar antes mesmo de poder sustentar o peso de qualquer outra coisa.
Continuará oferecendo apenas a face lisa, aquela que esperam encontrar. Ninguém encomenda o que existe sob a superfície. As varandas pedem placas impecáveis, não o interior exposto, úmido, escuro, escorrendo uma memória vermelha que faria qualquer visitante recuar. Querem a aparência da pedra; recusam tudo o que lembre que um dia houve carne, pulsação e feridas onde hoje imaginam apenas mineral.
Será estranho perceber que a transformação nunca termina por completo. Haverá gestos que insistirão em permanecer, reflexos que pertencem a um corpo que já não deveria responder por você. Por muito tempo, ainda procurará respirar antes de lembrar que o ar deixou de ser necessário. Desprender-se do hábito de ser humano talvez seja a camada mais resistente de todas, muito mais difícil de romper do que qualquer rocha que a pressão tenha conseguido reinventar.
Obsidente obsidiana na obsolescência do que obstaculariza a erosão definitiva das lembranças. Ainda existirão vestígios, como sedimentos que nenhuma compressão conseguiu expulsar. A geologia sabe transformar estruturas, mas demonstra pouca habilidade para apagar aquilo que insistiu em permanecer consciente.
Com o passar do tempo, deixará de distinguir se foi uma pessoa aprendendo a ser pedra ou uma pedra recordando, por engano, a experiência de ter sido gente. Essa dúvida se alojará entre as fissuras, discreta o suficiente para escapar aos olhos de quem apenas calcula espessura, resistência e valor por metro quadrado.
Talvez esse seja o último fragmento verdadeiramente humano que sobreviverá em você: a incapacidade de aceitar que algumas mudanças não oferecem caminho de volta.
Ao través do travertino, aprenderá que nem toda passagem conduz a algum lugar. Existem corredores escavados apenas para prolongar a hesitação, veios que se ramificam até perderem o próprio sentido. Quanto mais procurar a antiga direção, mais reconhecerá que ela pertence a uma geografia incapaz de sobreviver à metamorfose.
O tempo deixará de correr sobre você; será você quem permanecerá enquanto ele atravessa tudo ao redor. Rostos desaparecerão, cidades mudarão de contorno, idiomas se tornarão ruínas sonoras. Ainda assim, uma parte discreta insistirá em procurar o caminho de volta, como se a memória desconhecesse que certas travessias apagam o próprio ponto de partida.






