Monólogo de uma zaragatoa
Sou emética, todo fel fementido, como se fosse uma feminela para feloniar o que me cerca, quando tudo parece fenecer, e ainda assim há um resto de impulso que não cessa.
Sua úvula, tão trêmula, pende como um fragmento sensível. Há nela uma textura quase translúcida, tensa por dentro, como se concentrasse todas as reações daquele espaço num único ponto suspenso. Cada oscilação parece medir a invasão, registrar a presença, traduzir o desconforto em movimento contínuo.
Sua língua, tão viscosa, recoberta por uma umidade espessa que retém vestígios, sabores antigos e sinais quase imperceptíveis. Sua textura é irregular, pontilhada por relevos mínimos que se erguem e cedem conforme o contato, como um terreno vivo que responde em silêncio.
Há calor ali e uma sensibilidade difusa que não se fixa em um único ponto, espalhando-se em ondas discretas a cada toque. Reage com lentidão no início, depois com precisão crescente, como se identificasse a presença antes mesmo de compreendê-la. Não recua de imediato, mas também não acolhe, mantendo-se num estado ambíguo entre tolerância e rejeição.
Sua glossite migratória parece desenhar trajetos móveis sobre a superfície, como marcas que não se fixam, mas insinuam direções possíveis dentro desse espaço instável. As áreas se redefinem em silêncio; contornos surgem e desaparecem, como se houvesse ali um tipo de cartografia viva, sempre em mutação, sugerindo passagens que jamais se tornam permanentes.
A cada deslocamento, percebo que esses sinais não são aleatórios. Há uma espécie de orientação implícita, um convite sutil que não se revela por completo, como se indicassem um percurso possível, ainda que nunca garantido.
Antes do vômito, faço tudo o que precisa ser feito.
Há algo que me retém aqui, talvez precise de mais incentivos externos; este ambiente é insalubre, impregnado por uma rotina que não cessa, por gestos repetidos até perderem qualquer traço de intenção, como se tudo ao redor tivesse desaprendido a hesitar.
Alguns chegam ao mundo enquanto outros o deixam, tudo no mesmo fluxo apressado, como se começo e fim compartilhassem o mesmo corredor. E eu, no meio disso, não consigo compreender o que se desenrola — tudo passa por mim, mas nada se revela por inteiro.
O ar carrega um silêncio que não é paz, é espera. Tudo parece suspenso entre o toque e o descarte, entre o uso e o esquecimento. Superfícies frias, luzes que não piscam e mãos que vêm e vão sem jamais pertencer a este lugar.
Não sei se sou instrumento ou testemunha. Talvez ambos. Absorvo o que não me pertence, guardo vestígios de histórias que não me serão contadas. Cada contato é breve, mas deixa marcas invisíveis, como se eu carregasse fragmentos de tudo o que passa por mim.
Gostaria de poder ajudar mais essas pessoas; até criei algum tipo de vínculo com algumas, mas tudo se desfaz antes de ganhar forma, como se qualquer aproximação fosse interrompida por uma urgência maior que não admite permanência. Permaneço à margem, atravessando instantes que não me pertencem, enquanto presenças surgem e desaparecem sem deixar espaço para continuidade.
Há olhares que não se fixam, gestos que não se completam e uma sucessão de acontecimentos que me envolve sem jamais me incluir por inteiro. Tento compreender o que se desenrola ao redor, mas tudo se fragmenta antes que eu alcance algum sentido.
Ainda que o tempo se revele de maneira estranha, dilatado em alguns instantes e abrupto em outros, como se não obedecesse a uma ordem compreensível. Há processos que avançam silenciosamente, quase imperceptíveis, enquanto outros se impõem com uma evidência inevitável, e nenhum deles parece disposto a explicar sua própria razão. Permaneço à deriva entre sinais que não se organizam, tentando reunir fragmentos que escapam antes de formar qualquer clareza. O que surge diante de mim não se explica, apenas se apresenta, como se bastasse existir para impor sua presença.
Há uma lógica oculta que insiste em não se revelar, algo que percorre tudo isso como um fio invisível, ligando ocorrências dispersas sem jamais se deixar tocar. E, enquanto tento acompanhar esse encadeamento, percebo que cada tentativa de compreensão apenas me afasta ainda mais de qualquer certeza.
E, em meio a essa suspensão contínua, já imaginei outra forma de existir — algo leve, disperso, sem função definida, atravessando o espaço sem ser convocado, sem absorver nada além do próprio movimento. Talvez assim tudo fosse menos denso, menos urgente, como se a própria duração se tornasse mais suave, deslizando sem exigir respostas que nunca chegam.
*** zaragatoa é um instrumento médico utilizado para coletar amostras de secreções do corpo humano, como saliva, muco, sangue ou exsudados nasais e da garganta, com o objetivo de realizar exames laboratoriais. Também conhecida como swab, é composta por uma haste de plástico ou madeira com uma ponta de algodão ou material absorvente, usada em procedimentos como diagnóstico de infecções virais (como tosse convulsa), bacterianas ou para análises genéticas.





