Tapeçaria ambrosia
Estava no almixar, até o maxilar se desprender, deixando o rosto suspenso numa expressão que já não pertencia a ninguém, deixando os dentes expostos ao sol e a língua caída entre os figos, enquanto as gengivas tateavam os devaneios, procurando entre as fibras adocicadas alguma lembrança que tivesse sobrevivido à secura, até que o próprio sabor começou a adquirir contornos de voz. Tudo isso para economizar com a alcatifa? A tarifa aduaneira permanecia intacta, cobrando de cada sombra um pequeno tributo pela passagem, enquanto os figos amadureciam em silêncio e o chão adquiria uma inclinação impossível. Perceberão as dunas escondidas em seus bolsos; não deveria se expor ao risco. Você ainda está em liberdade condicional.
A bebena não aceitou a bêbera como estipêndio, talvez um compêndio? Poderíamos passar horas conversando, até que o silêncio deixasse de parecer vazio. A breva sempre foi rejeitada; há cada vez menos sabores capazes de satisfazer as bocas. Talvez o umami do mani, vai disputar o alimento diretamente com o panda? Isso foi antes ou depois do tsunami?
Depois dele, ninguém encontrou motivo para interromper o almoço. As cadeiras continuavam voltadas para a mesa, o teto permanecia sobre as paredes e uma pequena poça salgada repousava no corredor, como se sempre tivesse pertencido à casa. Do lado de fora, o oceano recuara até desaparecer atrás de uma janela, deixando tudo em uma ordem tão impecável que chegava a parecer suspeita.
Talvez o almíscar, para miscar-se da miscelânea de sentimentos, a miss continua irascível, recusando qualquer tentativa de conciliação enquanto dobrava cuidadosamente os guardanapos e observava a água escorrer pelas frestas. Um mordomo apareceu carregando uma bandeja vazia, pediu desculpas pela demora e anunciou que a sobremesa havia sido transferida para outro século.
Ao anunciar o pospasto, cortou a manga de sua parka e depositou o pedaço no prato. A miss contemplou aquela iguaria improvisada com um olhar de estranheza e perguntou se realmente esperava que ela comesse aquilo. O colaborador, sem demonstrar qualquer constrangimento, explicou que os mantimentos andavam escassos e que algumas economias precisavam ser feitas, inclusive à custa do próprio vestuário.
A miss fitou novamente o pedaço de tecido, suspirou e declarou que preferiria um mangá; ao menos teria alguma coisa para ler enquanto esperava o verdadeiro manjar. O anfitrião pareceu considerar a sugestão com extrema seriedade, recolheu o prato e voltou alguns instantes depois, trazendo um volume encadernado, ainda úmido, com as páginas grudadas umas às outras. Ela abriu na primeira página e encontrou apenas desenhos de mangas sendo servidas em pratos de porcelana.
O subalterno recomendou a Manga (Arctiidae), túmida depois de uma longa dieta à base de livros, afirmando que seu volume abdominal demonstrava a qualidade das refeições. A miss aproximou o rosto, examinou o inseto por alguns segundos e perguntou se aquilo vinha acompanhado de algum tipo de molho. O serviçal disse que não, que o manganês só iria ser servido amanhã.







