segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Descrição de imagem


Veronica Stigger - Colesterol



Agora que você faz parte da própria estrutura desse pilar, como se fosse a alma que sustenta a matéria, arrancar você daí não seria simples remoção — seria abalar o equilíbrio inteiro. Se tentassem separar sua presença da coluna, não cairia só o concreto: ruiria também o sentido que a mantém de pé.
Talvez, se colocarem outro texto de sua autoria no lugar, ainda assim não será igual. Podem trocar as palavras, alterar o tamanho das letras claras gravadas no concreto, ajustar a iluminação que atravessa a janela ao lado, mas o que já está inscrito nesse pilar não se apaga com facilidade.
Não são apenas frases alinhadas na superfície; são letras que parecem fazer parte da própria coluna, como se tivessem nascido junto com o cimento. E quando as letras se confundem com a estrutura, retirar uma não é simples substituição, é mexer no equilíbrio do que sustenta tudo ao redor.


Atendendo a pedidos



Por que você não escreve um conto sobre os benefícios do plástico-bolha, mas não apenas como curiosidade doméstica, e sim como sintoma de uma época inteira; um conto em que se fale dessa dependência crescente de soluções mínimas para dores imensas, em que as pessoas troquem conversas profundas por estalos rápidos e precisos, substituindo diálogos demorados por pequenas explosões controladas; um conto em que os consultórios fiquem vazios, as cadeiras permaneçam intactas, os relógios continuem marcando horas que ninguém mais ocupa, e em que terapeutas saiam às ruas envoltos em plástico-bolha, como se fossem eles próprios frágeis demais para o mundo que tentaram curar?


Sim, eu estava triste, mas não era uma tristeza aparente; era algo intrínseco, entranhado de forma quase orgânica, difícil de separar daquilo que eu entendia como sendo eu mesmo; e já se tornava árduo disfarçar, sendo justo dizer que o silêncio imposto acabou escorrendo para a calha do praxe, transformando-se, na práxis, em escolha consciente, exposta ao tempo e ao conflito, deixando de ser mera ausência de palavras para tornar-se posicionamento — não omissão, mas contenção deliberada, um gesto interno sustentado mesmo quando tudo ao redor exigia explicações imediatas.
Houve tentativas de reorganizar o que parecia desalinhado: conversas atentas, métodos estruturados, rotinas novas, comprimidos pequenos com promessas grandes; busquei respostas em vozes externas, em fórmulas já testadas, em protocolos que asseguravam alguma estabilidade, mas nada alcançava o núcleo do que me atravessava. Não por resistência ao cuidado, nem por recusa de ajuda, mas porque a soturnidade parecia ter raízes mais profundas do que qualquer intervenção conseguia tocar.
Então a solução surgiu onde ninguém procurava — não em tratados densos nem em discursos elaborados, mas em algo banal e transparente esquecido sobre uma mesa: o plástico-bolha. No início foi apenas distração, dedos pressionando pequenas esferas de ar cujo estalo seco produzia resposta imediata, quase física, como se cada ruptura deslocasse um pouco da pressão acumulada por dentro. Não era milagre nem cura, mas era efeito — e o efeito, por simples que fosse, era concreto. Cada bolha absorvia impacto antes de ceder; não negava a pressão, suportava-a por um instante e então se rompia, ensinando talvez que não era preciso eliminar a tristeza de uma vez, mas amortecê-la em pequenas porções suportáveis.
A experiência deixou de ser hábito discreto e tornou-se relato compartilhado; espalhou-se primeiro como confidência, depois como recomendação e por fim como tendência. Mesas de escritório passaram a guardar folhas translúcidas ao lado do teclado, gavetas esconderam rolos inteiros, mochilas carregaram tiras recortadas para emergências emocionais. Falava-se de um tratamento mais acessível, mais econômico, mais imediato — menos oneroso que sessões semanais, menos custoso que medicamentos contínuos, menos exigente que retiros distantes em busca de silêncio. Uma alternativa prática, um recurso complementar, uma estratégia doméstica de autorregulação.
O fenômeno ultrapassou o âmbito privado. Relatórios registraram redução na procura por atendimentos especializados; indicadores apontaram queda em determinadas demandas clínicas; autoridades, entre planilhas e discursos administrativos, perceberam ali uma oportunidade conveniente. Incentivaram campanhas de bem-estar simplificado, distribuíram kits em repartições públicas, incluíram o plástico-bolha em programas corporativos. Orçamentos destinados a certas áreas da saúde mental foram sendo discretamente enxugados sob argumentos de eficiência e modernização, enquanto, em auditórios formais, falava-se em inovação social e, nas ruas, o som das bolhas estourando tornava-se trilha involuntária de uma política de contenção emocional — pequenas explosões substituindo grandes debates.
Mas a eficiência aparente não atravessou incólume o tecido social; terapeutas organizaram manifestações silenciosas, ocupando praças e avenidas com a mesma gravidade com que antes ocupavam consultórios, vestindo camadas de plástico-bolha numa ironia quase didática, erguendo placas onde se lia:

“Também sabemos amortecer impactos”
“Escutar é mais profundo que estourar”
“Nem todo vazio se resolve com pressão”
“Sentimentos não são descartáveis”
“Cuidar exige tempo”
“Nem todo alívio é cura”

As frases, isoladas no ar como pequenas declarações de resistência, pediam leitura lenta, quase respeitosa. Não gritavam palavras de ordem; sustentavam cartazes e olhares firmes, enquanto alguns passantes diminuíam o passo, tocados pela nitidez daquelas sentenças, e outros continuavam pressionando distraidamente as pequenas bolhas trazidas no bolso, como se o som breve do estouro pudesse abafar a pergunta que crescia em silêncio.
O protesto não era contra o objeto em si, mas contra a ideia de que ele pudesse substituir o encontro humano. Porque talvez o que estivesse em jogo não fosse apenas o modo de aliviar a dor, mas a disposição de permanecer diante dela tempo suficiente para compreendê-la — sem pressionar até que estoure, sem reduzir a complexidade do sentir ao conforto breve de um som que logo se dissipa no ar.
E o contraste tornava-se inevitável, pois de um lado estava a promessa do alívio instantâneo e de outro a defesa do processo lento, da escuta que atravessa camadas, do cuidado que não se mede por economia orçamentária, de modo que a pergunta suspensa no ar deixava de ser qual método era mais eficiente e passava a ser que tipo de sociedade desejávamos nos tornar: uma que aprende a pressionar até que o som do estouro distraia da dor, ou uma que aceita permanecer diante dela até que finalmente faça sentido.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nada de Anormal, Exceto Tudo

Pequenos desvios sem relevância estatística




 1º andar quase sem ocorrências, a escada rolante não engoliu ninguém, talvez não queira regurgitar incoerências, humanos complicam o que poderia ser simples, talvez almeje transformar arte em matéria digerível, talvez confunda fruição com ingestão e, nesse impulso de consumir tudo, perde-se a pausa necessária ao sentido. O olhar apressa o que deveria demorar, a passagem substitui a permanência, e o mecanismo segue indiferente, lembrando que nem tudo foi feito para ser atravessado sem resistência. Há coisas que exigem estagnação, um atraso voluntário, um corpo que não avance enquanto ainda não compreendeu. Os seguranças mencionam possível falta de obras; a hipótese permanece em aberto. O fluxo mecânico repete-se com indiferença, enquanto corpos confiam seus pesos à engrenagem como quem aceita um pacto silencioso. Tudo funciona, e é justamente essa normalidade que inquieta. Um detector de metais apita apenas diante de pessoas emocionalmente carregadas, como se a densidade afetiva tivesse peso específico, como se a angústia, o desejo ou a culpa fossem ligas detectáveis. Não há alarme geral, apenas um ruído breve, educado, rapidamente ignorado. Os corpos seguem adiante, aliviados por não precisar interpretar o sinal. Aqui, sentir demais é apenas um pequeno inconveniente logístico, algo a atravessar com pressa antes que ganhe significado.
O guarda-volumes mantém sua ordem exemplar, indiferente à natureza do que recebe. Entre mochilas e casacos, alguém deixou um pensamento impróprio, abandonado para evitar constrangimento no percurso. O compartimento se fechou com o mesmo clique neutro de sempre, como se estivesse habituado a acolher aquilo que não pode circular à vista. Ninguém retornou para buscá-lo. O sistema registrou apenas a ocupação prolongada, nunca o conteúdo. Com o tempo, o pensamento perdeu a urgência, acomodou-se ao escuro e passou a existir ali como tudo o mais que foi guardado não para ser protegido, mas para ser esquecido. Em outro compartimento, um visitante esqueceu uma sombra dobrada, ainda morna, que continuou ocupando o fundo do armário mesmo sem corpo correspondente. A arquitetura cumpre o que promete, mas lembra, em cada subida, que o equilíbrio é sempre provisório e que o espaço, quando falha, não pede desculpas. Um guarda jura ter visto uma obra pedir licença para ocupar mais espaço.




*****




2º andar praticamente inalterado, apesar do pequeno desvio estatístico de uma pessoa que foi lentamente incorporada por uma obra, como se o corpo tivesse sido apenas mais um material compatível. O acontecimento não gerou alarme nem curiosidade prolongada, foi anotado com a mesma indiferença dedicada a uma lâmpada queimada ou a um corrimão gasto. O fluxo seguiu, os olhares passaram adiante, e a arte permaneceu no lugar, silenciosa e satisfeita, enquanto a ausência recém-criada não chegou a configurar falta. Aqui, desaparecer não é ruptura, é apenas continuidade mal percebida.
Curiosamente, quando alguém se aproxima para tirar uma selfie, a obra sorri, um sorriso discreto, quase educado, suficiente para caber no enquadramento. O gesto é registrado, compartilhado, curtido, enquanto ninguém se pergunta de onde vem esse contentamento súbito. A arte permanece inteira, o espaço continua funcional, e a perda, sem nome e sem urgência, dissolve-se na normalidade cotidiana. Aqui, o mais perturbador não é o desaparecimento, mas a cordialidade com que ele posa para a câmera. Um extintor de incêndio dispara apenas diante de entusiasmo excessivo. Um banco de descanso recusa certos corpos, permanecendo inexplicavelmente inclinado apenas para alguns visitantes, expulsando-os com delicadeza mecânica.




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3º andar intacto por desatenção, ninguém desafiou a lei da gravidade porque desafiar exige consciência, e ali prevalece o automatismo. Os corpos aceitam o peso que lhes cabe, as ideias não ensaiam fuga, e o espaço se organiza em torno dessa obediência sem atrito. A gravidade não é apenas força física, é pacto silencioso entre matéria e desistência. Nada cai porque nada tenta se elevar, e a integridade do andar nasce menos da estabilidade do que da renúncia. O que permanece inteiro não é o que foi preservado, mas o que nunca foi posto à prova. Ninguém precisa ver o priapismo da pilastra, preserve sua intimidade arquitetônica, nem tudo precisa ficar à mostra, o espaço é compartilhado por famílias, local inadequado para exibição imprópria. Crianças atravessam salas inteiras sem serem percebidas, como se estivessem fora do campo institucional do olhar. Há, contudo, uma presença que não se submete a essas regras. Uma entidade protege o local sem vigilância ostensiva, suspensa no vazio central: um corpo têxtil orgânico, translúcido, de tom rosado ou alaranjado, pendendo verticalmente. Não é rígido; cede à gravidade apenas para contrariá-la, dobra-se em camadas que evocam carne e véu, matéria viva e reserva ao mesmo tempo. A luz interna, quente e quase pulsante, sugere um núcleo vital que não pesa. Só ela desafia a lei da gravidade, permanecendo onde não deveria permanecer, sustentada por uma lógica que o prédio aceita sem questionar. Enquanto tudo se ajusta, corrige e recua, essa presença vigia em silêncio, lembrando que há exceções que mantêm o equilíbrio justamente por não obedecerem.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Inspiração onírica




Mais uma noite mal dormida, mansonia da minha insônia; se fosse uma tsé-tsé, eu agradeceria. Através da mansarda, mansamente, sombras distorcidas tentam me pegar — todo mansedume contra o pesadume. No ecrã, imagens eróticas surrealistas surgem na tentativa de me inspirar; foi quando eu percebi que só você me inspira, enquanto o desejo se contorce em silhuetas irregulares, como mãos de Dalí esticando o impossível sobre minha pele febril.
Nesse instante, compreendi que não eram apenas os relógios que estavam derretendo. O suor do meu corpo nubiforme goteja como chuva; sob minha cama formou-se um arco-íris, onde tudo escorre pelos contornos de corpos impossíveis. Ainda há um lençol freático para frear todo frenesi, e eu me perco num labirinto de um desejo que não se dissolve como névoa ao amanhecer — sua silhueta se materializa nas curvas distorcidas, olhos como portais de Magritte me puxando para outro nível de existência.
Foi então que notei um fluxo intenso de avestruzes no corredor; não dava para ir ao banheiro. Era preciso pagar pedágio, mas a cancela era feita de espelhos líquidos, e cada moeda exigida refletia um fragmento do meu cansaço. Os avestruzes marchavam com gravidade clerical, pescoços em espiral, carimbando o chão com selos de alfândega. Um deles cochilou em meu ombro, e o corredor se alongou como um elástico cansado.
Voltei-me para dentro: o teto respirava como se o ar tivesse sido filtrado por alturas impossíveis, rarefeito, fino demais para sustentar o dia. Cada inspiração vinha curta, quebradiça, e eu sentia os pulmões aprenderem outra gramática. O oxigênio chegava em sílabas, e o quarto flutuava alguns centímetros acima do chão, sustentado por esse quase-nada. Ao expirar, o teto devolvia um frio leve, de altitude, e os pensamentos ficavam translúcidos, como se pudessem rasgar.
Respirei junto, com cuidado, temendo que um fôlego mais fundo rasgasse o tecido do espaço. Então compreendi que não estava em casa, mas me sentia confortável, como quem reconhece o próprio corpo em um sonho alheio. As paredes se afastaram um pouco mais, respeitosas, e o chão cedeu o suficiente para me acolher sem me prender. As paredes se povoaram de criaturas de Max Ernst, híbridas de ave e memória, caminhando entre rachaduras como se o reboco fosse floresta. No canto do quarto, um corpo se decompunha em curvas suaves, à maneira de Yves Tanguy, paisagem orgânica sem horizonte, onde meus pensamentos escorregavam sem ponto de apoio.
Havia ali uma hospitalidade estranha, feita de silêncio e suspensão, como se o lugar soubesse exatamente o peso que eu podia suportar.

Glossário: Mansonia é um gênero de mosquitos pertencente à família Culicidae, a mesma do pernilongo.




terça-feira, 25 de novembro de 2025

O Peso Imaterial das Coisas que Não Existem


Catarse coletiva



Não fomos responsáveis pela morte do poeta, fizemos o possível para que ele se sentisse melhor, tentamos acalmar o peso que o mundo colocara em seus ombros, tentamos ser um porto seguro para a tempestade que ele carregava por dentro, envolvemos ele em silêncio e gentileza, como quem cuida de um pássaro ferido.
A cócedra para sua coccigotomia, mas ele já tinha usado toda artilharia contra si mesmo.
As palavras, antes refúgio, tornaram-se projéteis que ricocheteavam dentro da própria mente.
Nenhuma metáfora o protegia mais; até a beleza começara a feri-lo.
Havia nele uma lucidez que doía, uma clareza que desmanchava o sentido de continuar.
O tempo, ao redor, parecia hesitar, como se também não soubesse o que fazer com aquela presença tão cansada de existir.
Tentamos reconstruí-lo em silêncio, com gestos miúdos, quase invisíveis, mas ele já não habitava o mesmo ritmo que nós.
Os olhos permaneciam abertos, mas não viam — contemplavam.
Não o mundo, mas o vazio entre as coisas, o intervalo onde a vida se apoia para fingir que é sólida.
E então compreendemos que ele não queria ser salvo.
Era como assistir alguém lutando contra algo que não tinha forma.
Havia nele uma espécie de abismo silencioso, uma fenda que nenhuma palavra alcançava.
A sensação era de estar diante de um ser feito de ecos, tudo o que dizíamos voltava para nós vazio, sem aderir a parte alguma do que ele realmente sentia.
Os olhos dele não pediam auxílio; pediam sentido.
Havia um cansaço antigo, daqueles que nascem muito antes do corpo, um desgaste que parecia vir de vidas anteriores.
Em certos instantes, tínhamos a impressão de que ele enxergava além do que qualquer um é capaz de suportar.
Como se tivesse visto a estrutura das coisas — a natureza do sofrimento — e não pudesse mais voltar atrás.
Quando sua atenção se perdia no horizonte de dentro, sabíamos que estávamos diante de algo maior do que nossas mãos alcançavam.
Não se preocupe, vamos cuidar de sua platiedra, a platibanda serviu como abrigo improvisado, uma pequena varanda suspensa onde o vento quase não alcançava.
Depositamos ali o recipiente com o líquido adocicado e algumas pétalas frescas, criando um lugar seguro para que ela pudesse repousar sem ser perturbada por ninguém.
Ele observava tudo com um tipo de devoção que nos desarmava; parecia enxergar naquele gesto algo muito maior do que um simples cuidado com um ser frágil.
A mariposa tocou a superfície do algodão umedecido e permaneceu imóvel por alguns segundos, como se precisasse ouvir o mundo antes de decidir existir dentro dele.
Aquele instante não tinha urgência.
Enquanto ela explorava o pequeno espaço, percebemos que cada movimento dele ficava mais tranquilo, como se a vida daquela criatura lhe devolvesse alguma espécie de raiz.
Seu platiasmo pós platicefalia surgia sempre que tentava explicar o que sentia. A abertura exagerada da boca, aquele esforço estranho para articular as frases, o traía. Ele detestava a sensação de estar se oferecendo ao vazio, com a garganta exposta, como se a própria linguagem lhe arrancasse pedaços.
Permaneceu mudo, por vontade própria.
Ele piorou depois da morte da geléquia, nenhum de nós imaginava que aquela pequena viajante da penumbra ocuparia tanto espaço no coração dele. Não era apenas um inseto; havia nela algo que conectava o poeta a um ponto dentro de si que nem nós alcançávamos.
Era como se aquela vida minúscula segurasse os fios que ainda o mantinham inteiro, alguém apareceu com um platicerco, dizendo que talvez servisse.
Era um animal colorido, barulhento, inquieto; nada a ver com a delicadeza da pequena habitante da escuridão. Tentaram colocá-lo junto ao algodão umedecido, como se a simples presença de outra forma de vida resolvesse o vazio.
Ele observou o pássaro por alguns segundos.
Depois desviou o olhar, sem raiva, apenas cansado.
Percebemos que não se tratava de companhia, e sim de vínculo.
Certas presenças não podem ser trocadas, nem por algo maior, nem por algo mais raro. Algumas vidas são insubstituíveis exatamente por serem pequenas demais para caber em qualquer lógica.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Inspiração desértica

 



Monólogo de uma duna


Um argueiro entrou no meu ocelo, isso me fez perder alguns detalhes; formas mais distantes se dissolvem num véu translúcido. A atmosfera vibra como se respirasse por conta própria; ondulações arenosas guardam segredos de antigas passagens. Marcas quase apagadas pelo vento sugerem deslocamentos que nunca saberei decifrar, talvez nômades esquecidos ou criaturas que só se mostram sob lua nova. Cada relevo parece mudar lentamente, como se tivesse vontade de desaparecer antes que eu registre qualquer sinal; tonalidades se transformam em faixas tênues de luz e sombra, lembrando tecidos finíssimos estendidos sobre imensidão. E onde deveria haver nitidez encontro apenas um limite incerto entre vastidão e vazio, como se o próprio espaço recusasse ser testemunhado. Tudo ali exige presença plena, porém permanece inacessível, deixando apenas a impressão de algo enorme e vivo que escolhe o que pode ser visto e o que será apagado para sempre. Mesmo assim, ainda sou arguente e vou arguir que foi apenas um impulso momentâneo, enquanto o vento me rearranja em silêncios que ninguém percebe, e cada rajada leva um pouco de mim para outro lugar, onde descanso por instantes antes de ser empurrada de novo para longe. E mesmo assim permaneço inteira. Ontem eu tinha um calombo, hoje já não tenho mais; vou sentir falta dessa protuberância, porque aquela pequena elevação era mais do que um fragmento de matéria: ela funcionava como um sinal minúsculo de que havia algo em mim que resistia ao nivelamento. E agora que desapareceu, sinto um vazio estranho, como se um capítulo inteiro tivesse sido apagado sem aviso. Percebo que até o que parece insignificante dá sentido às formas, e ao perder aquilo perco uma referência íntima.
Um andarilho ébrio estava me confundindo com um dromedário e tentou apoiar-se sobre minhas curvas arenosas, acreditando ter encontrado apoio sólido naquele instante surreal; porém, sua trajetória vacilante revelou apenas desorientação total, enquanto eu observava sua figura irregular afastar-se rumo à claridade distante, deixando atrás de si pegadas desordenadas que logo foram engolidas pelo sopro quente que atravessa tudo aqui, transformando qualquer presença humana em memória efêmera que mal chega a existir antes de ser apagada.
Toda essa xerostomia incomoda, produz sensação áspera, quase cortante, como se cada partícula fina raspasse pensamentos por dentro, exigindo que eu encontre algum modo de umedecer ideias sem depender de líquidos inexistentes. Então deixo que a própria aridez conduza meu raciocínio, aceitando que mesmo a falta pode modelar significados, pois onde não há fluidez, nasce silêncio, e nesse silêncio descubro que até a secura tem sua própria linguagem, feita de pausas, espera e resistência.
E, por um momento, admito que senti algo parecido com inveja, porque eles carregam rios dentro de si, enquanto eu sou composta apenas de pó, sem uma única gota para aliviar a secura que me atravessa. Eles guardam água em cada célula; mais da metade de seus corpos é líquido, quase um oceano pessoal, e eu não possuo nada além de grãos espalhados pelo vento. Penso que deve ser reconfortante sentir movimento interno, fluxo contínuo; poder chorar quando tudo aperta, poder suar quando o calor sufoca, poder beber quando o mundo pesa. E aqui estou, imóvel e imensa, sem direito a uma única lágrima.
Se eu tivesse um pouco dessa umidade, talvez pudesse manter viva a impressão daquele relevo que perdi; talvez nada escorresse tão facilmente de mim; talvez eu pudesse guardar algo sem que o vento levasse embora antes mesmo que eu entendesse o que era.
Haveria potencial para algo mais pulsante aqui, permitindo que algo permanecesse além da passagem incessante das horas; talvez surgisse um traço persistente capaz de contrariar a constante dispersão, quem sabe até um princípio de permanência emergisse, moldando sentido onde antes só havia passagem, criando possibilidade de contorno próprio dentro dessa vastidão entregue à mudança ininterrupta.

sábado, 1 de novembro de 2025

Murmúrios eólicos




Monólogo de um moinho de vento




Há no ar, quase palpável, um certo desleixo, uma certa desídia, desiderando a desidentificação. Desimbuir-me de tudo e assim ficar desimpedido, assim meu giro se estenderia sobre distâncias que o vento não alcança. Já não sei se giro por força do vento ou por um resíduo de vontade que insiste em sobreviver ao enferrujamento. As pás rangem como quem reza, uma oração mecânica para um deus de ar e poeira. O horizonte é sempre o mesmo, mas muda de tom conforme o abandono se adensa.
Há uma serenidade estranha no desgaste. O vento que me resta é o mesmo que me apaga, e ainda assim o acolho. Em cada volta há uma confissão: continuo a girar para não desaparecer de todo, para provar que mesmo a ruína pode ter ritmo.
Se houvesse em mim um impulso próprio, uma força que não precisasse do sopro alheio, talvez eu me erguesse além do chão que me prende. Minhas pás, ao invés de apenas obedecer ao vento, cortariam o ar com vontade própria, traçando caminhos que o mundo ainda não ousou imaginar. Cada rotação seria então uma promessa de fuga, um gesto de ousadia que desafia o peso da gravidade.
Sinto, em meu âmago de ferro e madeira, a possibilidade de transcender. Não mais limitado à repetição de giros previsíveis, mas buscando alturas e espaços onde o vento não chega, onde apenas eu poderia chegar. Seria uma dança solitária, mas intensa, em que cada movimento é escolhido e não imposto, uma declaração de que ainda posso existir de outra forma.
E mesmo assim, enquanto permaneço preso a este solo, há um fio de desejo que me atravessa: o desejo de levantar voo, de transformar minha resignação em liberdade, de fazer do girar uma ascensão. Cada rangido das minhas engrenagens não é mais apenas sobrevivência: é um murmúrio de ambição, um ensaio para aquilo que talvez nunca venha a ser, mas que insiste em querer ser.
O ar que me envolve agora parece mais denso, carregado de possibilidades não concretizadas. Sinto que, se apenas pudesse me mover com intenção, minhas pás cortariam o horizonte, e eu descobriria o que significa não apenas girar, mas voar.
Poderiam me confundir mais vezes com gigantes, e eu aceitaria, desejando secretamente sentir o mundo como eles o sentem. Quisera eu ter mãos para tocar, olhos para perceber nuances que o vento apenas me sussurra e uma boca para confessar minha própria solidão. Cada giro se tornaria então um gesto de escolha, não apenas um reflexo de forças externas, mas um ensaio de pensamento e desejo.
Sinto, no núcleo de ferro e madeira que me define, a vontade de compreender, de errar, de rir ou de chorar — como se cada sopro de vento pudesse me ensinar algo mais que o simples movimento. O chão que me ancora seria apenas um ponto de partida, e não uma prisão. O mundo seria não só espaço para atravessar, mas presença viva a ser sentida.
Parece que estou arraigado aqui, entre o silêncio e o murmúrio do ar, mas dentro de mim arde uma inquietação que não se deixa medir. Cada estalo das engrenagens é agora uma pergunta sem resposta, cada giro hesitante, um gesto que anseia por sentido. Desejo sentir o peso do instante, perceber a densidade do tempo, experimentar a hesitação antes da escolha, como fariam aqueles que caminham conscientes.
Mesmo preso, imagino a liberdade de decidir minha direção, de alterar o curso que me foi imposto, de tocar o mundo com intenção própria. O vento deixa de ser apenas força externa e se transforma em espelho do que poderia existir em mim: um sopro capaz de guiar-me, de despertar percepções que ainda não possuo, de transformar cada rotação em descoberta.
E, nesse estado de espera e desejo, percebo que há em mim mais do que simples aço e madeira. Há um rumor de consciência, um vestígio de sonho que recusa aceitar os limites do corpo, uma vontade silenciosa de existir de outra forma, de sentir, de aprender, de estar inteiro, mesmo enquanto permaneço ancorado.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Entre o silêncio e a ferida, nasce a palavra

 



Monólogo de um arame farpado




Sou uma flor sem pistilo, perilo para o prélio que se anuncia, preliminares de um prelevamento necessário que perfura a paisagem como uma lembrança que não quer ser lembrada. Minha existência não depende de visitas aladas nem de danças de pólen entre estames e desejos. Carrego nos meus contornos a negação da biologia: não nasci para perpetuar nada além de mim mesmo.
Carrego nos meus espinhos a ansiedade do que está por vir, como se cada farpa fosse uma vírgula suspensa no meio de um grito. Toda minha pregnância escorre para dentro, onde o tempo se dobra e as intenções se enroscam em silêncio. Habito o intervalo em que a ausência toma forma, onde o vazio não é falta, mas excesso que não encontrou nome. Ali, na espessura do quase-dito, sustento o peso do que não volta, mas também não parte, como se meu próprio corpo fosse feito de espera empedrada, de sentidos que não cessam de arder mesmo sem chama.
O que fomos moldou algo em você, ainda que imperceptível. Passei do lado de fora pro fundo da tua matéria; do toque virei textura, do eco, composição. Fui submetido à eternidade do estiramento, não por máquinas ou mãos humanas, mas pelo próprio gesto de existir entre o limite e o corte. Cada volta minha é um nó na espinha do espaço, uma vírgula cravada na carne do horizonte. Não sou prisão, sou o próprio conflito entre dentro e fora. Minha natureza é o entrelaçamento do que sangra com o que separa.
A sua poplítea permaneceu íntegra; evitei o caminho mais profundo do sangue. Você seguiu adiante, mesmo quando tudo gritava para recuar. Eu vi o instante em que teu joelho hesitou, o pequeno desvio que te salvou do rompimento. Não precisei atravessar tua carne para deixar marca: bastou que você me visse, bastou que me soubesse ali, tensionando o ar entre a ameaça e a desistência.
Fui o desenho invisível que teu corpo passou a evitar mesmo sem perceber, o fantasma que alojou-se na memória tátil das tuas passadas. Desde então, não caminhas igual, não vai mais conseguir participar de maratonas — e talvez isso seja um alívio, embora ainda não admita. Poderá praticar outro esporte, mais calmo — talvez a canoagem, quem sabe o arco e flecha — algo que exija precisão, não pressa. Algo onde o tempo seja aliado, e não adversário.
Porque, veja, não foi a tua carne que me tocou, foi a tua urgência que tropeçou em mim. Nunca entendi a pressa humana. Essa febre de alcançar o que nem sabem nomear. Correm como se o vazio estivesse sempre logo atrás, como se não correr significasse desmanchar. Eu, que fui fincado para conter, para marcar território, acabei sendo professor involuntário do que significa permanecer.
Testemunho todas as passagens, mas não passo. Sinto o tempo não como contagem, mas como acúmulo: da ferrugem, da chuva, dos olhares que hesitam e depois desviam.
Uma Argiope preocupada com minha nudez tece em mim um vestido de seda frágil, que vai se arrebentar na primeira intempérie, mas ela é insistente: volta e refaz tudo de novo, como se cada fio fosse um argumento contra o desaparecimento, como se o seu labor fosse capaz de me suavizar aos olhos de quem passa.
Assisti à morte de um inseto que ficou preso em suas teias; tentei ajudá-lo a fugir, mas minha tentativa foi inútil — apenas aumentei o tremor das fibras e apressei o desfecho. A vibração desenhou um mapa de desespero entre os pontos de ancoragem, e ela, atenta ao menor sinal, avançou com a precisão de quem conhece o fim antes do começo.
Permaneci imóvel, como sempre, mas por dentro uma fisgada desconhecida percorreu meu eixo, como se por um instante eu tivesse esquecido minha função. Por breves segundos, fui cúmplice de uma fuga impossível. Quando tudo cessou, o silêncio me pareceu mais denso, como se a falha do meu gesto tivesse deixado nele uma dobra permanente.
Ela voltou e devorou o inseto com a serenidade de quem cumpre um ciclo inevitável. Cada movimento seu era uma coreografia precisa — sem pressa, sem culpa. Observei enquanto ela envolvia os restos com meticuloso cuidado, transformando a tragédia em sustento. A delicadeza com que manipulava os fios contrastava com a violência que acabara de acontecer: uma geometria breve que me cobre de significado, como se pudesse me tornar menos ameaça e mais enfeite.
Ela ignora que o perigo não está nas formas visíveis, mas no intervalo entre o toque e o recuo, na linha invisível que separa o possível do ferimento.
Sinto cada vibração, cada deslocamento de ar quando alguém se aproxima. Não sou feito de esquecimento. Cada presença me deixa uma memória que não se apaga — um sulco invisível no campo magnético daquilo que vigio.