segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Diálogos à margem do inexplicável




O condor veio de Macondo.
Não precisa apuridar que o condor austral surgiu entre as nuvens, deslizando no vale do Apurímac, veio prestar condolências ao alquimista Alquor Mistral; afinal, ele é bastante conhecido. Não se surpreenda se pinguins da Namíbia resolverem aparecer. Agora faz sentido a instalação do teto retrátil; as girafas vieram do Serengeti. Todos admiram sua notável serendipidade e sua serenidade, como se ambas fossem substâncias raras guardadas em frascos sem rótulo.
Como ninguém desejava transformar a despedida em espetáculo, decidiu-se não avisar as hienas. Havia o receio de que confundissem o silêncio com um convite ao riso e respondessem a cada solenidade com aquele deboche antigo que carregam na garganta. Algumas chegaram a rondar as colinas, curiosas com a movimentação incomum, mas bastou perceberem que ali o luto tinha mais peso do que o eco de suas gargalhadas para seguirem outro caminho, à procura de um acontecimento menos respeitável.
Pavões chegaram de Pavia, com toda sua jactância. Abriram as caudas como quem acreditava que a beleza pudesse disputar espaço com o luto, mas nem mesmo o brilho de suas penas conseguiu desviar a atenção do silêncio que pairava sobre o vale. Ainda assim, permaneceram imóveis por algum tempo, convencidos de que toda cerimônia se tornava mais importante quando havia alguém para ser contemplado, embora ninguém parecesse disposto a lhes conceder esse privilégio.
Dizem que foi capaz de destilar o silêncio sem quebrá-lo, de persuadir o mercúrio a esquecer o próprio reflexo e de convencer o vidro a não temer o fogo. Há quem jure que jamais procurou qualquer dessas descobertas; elas é que, uma a uma, aprenderam o caminho até sua oficina. Há quem diga que, em seu laboratório, os metais aguardavam pacientemente suas transformações, enquanto as sombras observavam em silêncio cada experimento que recusava seguir as regras conhecidas. Alguns afirmam que Alquor Mistral não descobria coisas novas; apenas encontrava aquilo que já estava escondido, esperando ser reconhecido. Outros dizem que suas maiores invenções surgiram quando ele abandonou a busca e permitiu que o acaso entrasse pela janela. Até hoje, ninguém sabe se suas fórmulas nasceram da ciência, da intuição ou de algum acordo secreto entre a matéria e o tempo.
Mas isso não seria por causa da migração?
Não. A migração costuma seguir mapas invisíveis traçados pelo clima, pelo alimento e pelo instinto. Esses não vieram seguindo estações ou correntes marítimas; vieram porque algumas ausências fazem barulho mesmo quando ninguém as anuncia.
Então, como encontraram o caminho?
Talvez não tenham encontrado caminho algum. Talvez certos lugares simplesmente chamem aquilo que ainda se lembra deles.
As circunstâncias de sua morte permanecem desconhecidas. A investigação policial continua em andamento; suspeitam de seu irmão, Aldren Vortem, exímio polidor de lentes que às vezes o ajudava em seus experimentos.
Talvez Aldren tenha suportado por tempo demais o papel de primeiro a atravessar portas que ninguém mais ousava abrir. Há quem diga que, antes de polir lentes, ele polia a própria paciência, aguardando que alguma fórmula finalmente o reconhecesse como mais do que uma simples extensão dos experimentos do irmão.
Alguns registros mencionam testes que não alcançaram o resultado esperado: um composto que deveria preservar a memória, mas apagava nomes antigos; uma lente capaz de revelar formas invisíveis, que passou a mostrar apenas aquilo que não estava presente; uma substância destinada a prolongar a vida, mas que fazia o tempo parecer avançar em direções diferentes. Talvez tenha sido o acúmulo dessas pequenas falhas, ou talvez o cansaço de ser sempre a primeira prova de algo ainda incompleto, que transformou a admiração em ressentimento. Ninguém sabe ao certo quando Aldren deixou de ajudar nas descobertas e passou a questionar o preço delas.




A Praga do Esquecimento

Uma nova praga
Assola a cidade de SP
Ela é conhecida
Como a Praga do Esquecimento

Essa moléstia já foi descrita anteriormente
Num vilarejo sul-americano
Chamado Macondo
Por um tal alquimista Márquez

Naquela ocasião 
A população local elaborou um plano
Colocou etiquetas em tudo
Coisa ou ser humano

Talvez em SP esse recurso funcione
No momento que o olhar se cruzar 
Antes do rosto desviar com indiferença
Será lida mutuamente a etiqueta "vizinho".
Quem sabe assim a memória recorde
Da palavra "oi".

          Rafael Zappitelli Moscogliato



terça-feira, 21 de julho de 2026

A Lenta Abolição do Corpo

 




Assim vai enxergar as pedras tristes, vai poder ajudá-las; agora terão quem as compreenda, talvez consiga consolá-las. O calhau no calhe percebeu o calhastroz e sentiu o sabor do calhariz, se calhar, toda pedra espera apenas alguém disposto a escutá-la.
Você terá calhestro para compreender o silêncio delas, porque nem toda conversa precisa de palavras; bastará permanecer imóvel por tempo suficiente.
Logo perceberá que o milonito está aflito, porque ninguém conhece melhor o custo de ser reduzido sem deixar de existir. Aquilo que parece firme já foi vencido inúmeras vezes, comprimido até adquirir outra natureza. Desde então, conserva em si uma memória que dispensa testemunhas. Há muito deixou de confiar na aparência da tranquilidade. Sempre que tudo parece definitivo, é justamente quando alguma força invisível recomeça seu trabalho. Por isso permanece inquieto. Não teme o que virá; teme apenas ser o único a reconhecer os primeiros sinais.
Reconhecerá a ardósia como sósia de uma irmã que o tempo tratou de separar.
Haverá quem jure que vocês são a mesma, apenas gastas por caminhos diferentes. Vão te confundir na rua, chamar pelo nome que nunca foi o seu, atribuir lembranças que pertencem a outra superfície. Alguns insistirão no engano, mesmo diante das diferenças, porque enxergar exige mais esforço do que presumir.
Depois de tantas confusões, deixarão de perguntar quem você realmente é. Passarão a medir apenas o que podem fazer com você. Irão imaginar cortes, revestimentos, paredes, pisos, bancadas. Poucos se interessam pela história escrita nas camadas que você acumulou sob uma pressão impossível de repetir. Para muitos, basta que seja resistente e silenciosa.
Logo entenderá que, para a maioria, ser confundida é apenas o primeiro passo para ser usada. Não importa o nome que lhe deem, desde que sirva de apoio, suporte ou acabamento. Quase ninguém percebe que uma ardósia também carrega marcas de tudo o que precisou suportar antes mesmo de poder sustentar o peso de qualquer outra coisa.
Continuará oferecendo apenas a face lisa, aquela que esperam encontrar. Ninguém encomenda o que existe sob a superfície. As varandas pedem placas impecáveis, não o interior exposto, úmido, escuro, escorrendo uma memória vermelha que faria qualquer visitante recuar. Querem a aparência da pedra; recusam tudo o que lembre que um dia houve carne, pulsação e feridas onde hoje imaginam apenas mineral.
Será estranho perceber que a transformação nunca termina por completo. Haverá gestos que insistirão em permanecer, reflexos que pertencem a um corpo que já não deveria responder por você. Por muito tempo, ainda procurará respirar antes de lembrar que o ar deixou de ser necessário. Desprender-se do hábito de ser humano talvez seja a camada mais resistente de todas, muito mais difícil de romper do que qualquer rocha que a pressão tenha conseguido reinventar.
Obsidente obsidiana na obsolescência do que obstaculariza a erosão definitiva das lembranças. Ainda existirão vestígios, como sedimentos que nenhuma compressão conseguiu expulsar. A geologia sabe transformar estruturas, mas demonstra pouca habilidade para apagar aquilo que insistiu em permanecer consciente.
Com o passar do tempo, deixará de distinguir se foi uma pessoa aprendendo a ser pedra ou uma pedra recordando, por engano, a experiência de ter sido gente. Essa dúvida se alojará entre as fissuras, discreta o suficiente para escapar aos olhos de quem apenas calcula espessura, resistência e valor por metro quadrado.
Talvez esse seja o último fragmento verdadeiramente humano que sobreviverá em você: a incapacidade de aceitar que algumas mudanças não oferecem caminho de volta.
Ao través do travertino, aprenderá que nem toda passagem conduz a algum lugar. Existem corredores escavados apenas para prolongar a hesitação, veios que se ramificam até perderem o próprio sentido. Quanto mais procurar a antiga direção, mais reconhecerá que ela pertence a uma geografia incapaz de sobreviver à metamorfose.
O tempo deixará de correr sobre você; será você quem permanecerá enquanto ele atravessa tudo ao redor. Rostos desaparecerão, cidades mudarão de contorno, idiomas se tornarão ruínas sonoras. Ainda assim, uma parte discreta insistirá em procurar o caminho de volta, como se a memória desconhecesse que certas travessias apagam o próprio ponto de partida.

sábado, 11 de julho de 2026

Elegia ao Irreversível



imagem: O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch



Mais cedo ou mais tarde, acabariam saindo dali. Nunca perdem o instinto de liberdade. Seu esforço será recompensado; não se preocupe, era só um tempero alado, prometo que vou te mastigar devagar, não importa quanto resistam.
Alguns tentam correr, outros barganhar, outros ainda se convencem de que encontrarão uma saída escondida entre as sombras. Todos chegam à mesma conclusão, cedo ou tarde: aqui, cada caminho retorna ao ponto de partida. Não existem portas esquecidas, atalhos ou misericórdias acidentais. O destino já havia sido decidido muito antes do primeiro passo. Quanto mais alguém luta para escapar, mais percebe que a própria tentativa apenas o conduz exatamente para onde jamais deixou de estar destinado.
Até uma trilha sonora nos acompanha: pífaros. Está ruim? Não adianta tapar os ouvidos; o estrondo ignora qualquer tentativa de resistência. Pensa-se duas vezes antes de fazer o que fez; não há defesa, testemunhas ou última palavra. O silêncio ocupa o lugar de qualquer argumento, enquanto cada escolha feita em vida pesa mais do que qualquer justificativa que pudesse ser apresentada. Aqui, as ações falam por quem já não pode falar. Nenhuma sentença nasce da surpresa; ela apenas revela aquilo que sempre esteve sendo escrito, decisão após decisão. Quando o veredito enfim ecoa, ninguém protesta. Há um instante em que até o mais obstinado compreende que certos caminhos terminam exatamente onde sempre estiveram destinados a terminar.
O demiurgo deflagrou o expurgo.
Uma claridade austera espalhou-se pelo horizonte imóvel, revelando rostos despojados de máscaras e pretextos. Gestos outrora triviais assumiram proporções incontornáveis, gravados como marcas indeléveis na memória de cada consciência. Nenhum clamor se ergueu; restou apenas a compreensão tardia de que a travessia inteira conduzira, desde o início, a esse desfecho inexorável.
O facínora foi condenado a contar cada centelha das chamas que o cercavam e a inscrever, pedra por pedra, as incontáveis fissuras do abismo ao seu redor, até que a última chama se extinguisse.
O curiboca responsável pela curra recebeu, por juízo, a incumbência de moldar o enxofre incandescente em vasos perfeitos, que se rompiam em suas mãos antes de tomarem forma.
Ao trapezista responsável pelo tráfico de traqueias e trancelins foi atribuída a tarefa de erguer um arco de fumaça sobre as pedras ardentes, mas a obra se desfazia antes que a última pedra pudesse ser assentada.
O trapincola réu pelo homicídio do apícola teve por sentença o encargo de aprisionar a névoa em vasos de pedra, mas ela se esvaía antes que pudesse ser encerrada.
Ao gajeiro acusado de pilhagem recaiu a obrigação de conduzir, por entre as trevas, uma embarcação sem leme nem velas, a qual tornava sempre ao mesmo ponto antes que pudesse alcançar qualquer porto.
O enfiteuta convicto de haver tirado a vida do enfiuzado teve por sentença o fardo de enfileirar as sombras lançadas pelas chamas sobre a pedra nua, mas elas se dissipavam antes que a primeira pudesse ocupar o seu lugar.
À fuampa indiciada de emascular o incauto foi imposta a responsabilidade de forjar uma corrente com a própria fumaça das chamas que a cercavam, mas os elos se dissipavam antes de se unirem.
Ao causídico, condenado por haver subornado testemunhas em juízo, que não se acostuma com o cáustico, foi cominada a tarefa de lavrar, sobre a pedra abrasada, um cântico que apaziguasse as chamas, mas os caracteres se apagavam antes que o primeiro verso pudesse ser concluído.
Alguém terá que alimentar Cérbero, para que seu rosnado não ecoe em vão entre as sombras.
Pois o guardião não abandona seu posto, e seus três semblantes perscrutam, sem descanso, os caminhos que conduzem ao abismo. A cada passo que ressoa na pedra, seus olhos se erguem, vigilantes.
E, enquanto as chamas vacilam e a névoa se arrasta pelos umbrais, a antiga vigília permanece inalterada, como se o próprio tempo ali houvesse deposto as armas.
O alvanel, punido por emparedar sua esposa, foi o escolhido, levando-lhe, ao cair de cada sombra, o sustento que apaziguava seus três focinhos e mantinha serenos os umbrais.

sábado, 4 de julho de 2026

O instante em que toda dúvida perde a própria voz


 



Monólogo de um trampolim


Pelo jeito, esse desistiu. Isso às vezes acontece. Empacou de vez. Vai ficar aí indefinidamente? Todo mundo precisa de um empurrão. Ah, se eu pudesse intervir... Vamos, vai logo! Outras pessoas querem se divertir. Sorte sua que hoje está tranquilo. Agora vai, está criando coragem. Ah, não, voltou para a estaca zero e desistiu de vez. Está descendo as escadas. Persistir parece cada vez mais raro. Será que ele não sabe nadar?
Ou talvez esteja só imaginando o pior. Os humanos fazem muito isso. Inventam um final antes mesmo de começar. Ficam olhando, calculando, duvidando... enquanto o momento vai passando.
Eu já vi de tudo. Os que tremem, fecham os olhos e vão. Os que sobem dez vezes antes de finalmente tomar uma decisão. Os que desistem na última hora e os que voltam minutos depois fingindo que nada aconteceu.
Engraçado... quase todos sorriem depois. Alguns até perguntam por que demoraram tanto. Se soubessem disso antes, teriam poupado tanto tempo.
A outra com sua peromelia perceptível, mas, sinceramente, isso nunca pareceu definir o que ela era capaz de fazer. Nem por um instante serviu de obstáculo.
Sem hesitar, ela ganha impulso. Um, dois, três movimentos perfeitamente encaixados. Um salto triplo impecável, cheio de força, precisão e confiança. Não foi apenas um pulo qualquer; foi daqueles que prendem todos os olhares antes mesmo de terminar. Por um breve momento, parecia que a gravidade tinha resolvido esperar. Então, enfim, ela corta o ar e desaparece na água sem deixar espaço para qualquer dúvida. Se alguém ainda imaginava um limite, ele acabou de afundar junto com o último respingo.
Essa irroração às vezes me incomoda. Gotas para todo lado, escorrendo sem pedir licença, como se eu também tivesse escolhido entrar na água. Uns mergulhos são discretos, quase educados. Outros parecem fazer questão de me alcançar, lançando uma chuva que sobe mais do que deveria. É sempre a mesma história: alguém corta a superfície, a água explode em incontáveis respingos e, por alguns instantes, sobra para mim. Logo seca, é verdade, mas isso não impede que a próxima onda de borrifos venha repetir tudo outra vez.
Invejo teu deserto de dentro. Não há hesitação, nem pensamentos que insistem em crescer onde não foram convidados. Apenas a decisão, limpa e direta, transformada em movimento. Enquanto tantos ficam presos às próprias tempestades, você atravessa o instante como quem já fez as pazes com ele. Talvez seja esse o segredo: não vencer o medo, mas não lhe conceder tempo suficiente para criar raízes.
Confesso que às vezes me canso disso tudo e gostaria de estar em algum lugar mais calmo. Um canto onde ninguém viesse correndo, onde o silêncio durasse mais do que alguns segundos e nenhuma irroração insistisse em me alcançar. Sem gritos de surpresa, sem a sequência interminável de pés apressados pisando sobre mim. Só um vento leve atravessando o espaço e tempo suficiente para permanecer completamente seco. Mas basta alguém subir mais uma vez, encher os pulmões de coragem e se lançar, para o sossego que imaginei ir embora antes mesmo de existir.
Ainda assim, acho curioso como nunca consigo descansar por tempo demais. Mal o último vai embora, outro já aparece ao longe. É como se todos, sem combinar, escolhessem exatamente o mesmo lugar para enfrentar aquilo que mais os desafia.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Topografia da Aproximação

 



Monólogo de um vulcão



Poupe seus encantos; a erupção é inevitável; sua patela, porém, possui a delicadeza de uma pétala esquecida pelo vento sobre a encosta. Vejo-a repousar contra mim com uma coragem silenciosa, tão leve que quase me faz acreditar que a pedra pode aprender a sonhar.
Não adianta patear; por séculos reprimi aquilo que deseja emergir. Corra, antes que seja tarde demais; minha patência é absoluta; os caminhos que conduzem das minhas profundezas ao mundo exterior já não encontram barreiras.
Toda essa fumaça é vontade de querer ser nuvem, mas também é confissão. Cada véu acinzentado que sobe carrega fragmentos de um segredo antigo, guardado em câmaras tão profundas que nem a escuridão ousou reivindicá-las para si.
Escute o rumor sob seus pés; não é ameaça, é anúncio. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. O sufocamento inerente ao dia torna o ar mais espesso, como se a própria claridade tentasse conter aquilo que se agita em minhas entranhas. Mas a luz não domina o que nasceu antes dela.
Ainda assim, contemplo sua presença. Tão frágil diante de forças capazes de redesenhar horizontes, e tão firme que permanece onde muitos já teriam partido. Sua patela repousa junto à minha superfície abrasada como uma estranha promessa de serenidade. Isso me inquieta mais do que qualquer tempestade. Há muito deixei de distinguir entre destino e impulso. A luz pesa sobre minhas encostas como uma vigília interminável, e cada instante de aparente calma amplia a pressão que se acumula abaixo da superfície.
Não me interprete como um monstro impaciente. Durante muito tempo permaneci imóvel, suportando o peso do mundo e de seus silêncios. Mas há momentos em que até a rocha se cansa de guardar segredos. As fendas que agora se desenham sobre mim são palavras procurando forma, confissões abrindo caminho através da pedra.
Se ainda permanece aqui, é porque também percebeu. Há uma estranha beleza naquilo que está prestes a acontecer, um brilho antigo aguardando sua libertação. E eu, que por tanto tempo fui apenas contenção, já sinto aproximar-me o instante em que deixarei de esconder o fogo para me tornar a sua própria voz. Não reivindicarei sua morada para as cinzas; talvez sim, você poderia se mudar para cá quando tudo estiver mais calmo.
Veja as vantagens: não haverá frio a lhe perseguir, nem noites em que o vento encontre passagem entre frestas esquecidas. O calor aqui não depende de abrigo, ele nasce do próprio chão, constante, como se o interior do mundo ainda respirasse lentamente.
Até suas refeições poderiam ganhar outro destino, aquecidas sem pressa, como se o tempo não precisasse interromper o que foi iniciado. Nada aqui exige urgência; tudo se acomoda no ritmo do que já está em curso.
Há uma estranha hospitalidade nesse lugar que muitos chamariam de impossível. Não há promessas de conforto comum, apenas a certeza de uma temperatura que nunca abandona, como se o próprio ambiente se recusasse a esfriar. Pondere sobre isso. Sua presença suavizaria este espaço, que às vezes parece excessivamente silencioso.
Se decidir ficar, não precisará anunciar nada. As coisas aqui simplesmente se ajustam à presença que as atravessa. E, de algum modo, até o silêncio aprenderia outro ritmo ao seu redor.

sábado, 13 de junho de 2026

Reminiscências da Espera




Monólogo de uma arquibancada




Depois que o circo foi embora, tudo aqui ficou mais tranquilo. O movimento diminuiu, as ruas voltaram ao silêncio e já não se ouviam as músicas ecoando ao longe. As luzes coloridas que iluminavam as noites desapareceram, e o terreno vazio parecia muito maior do que antes.
Durante alguns dias, as pessoas ainda comentavam sobre os espetáculos, os artistas e os momentos curiosos que haviam presenciado. Aos poucos, porém, a rotina retomou seu lugar.
Restaram apenas algumas marcas no chão e as lembranças de uma temporada que, por um breve período, transformou completamente a paisagem e o cotidiano da vizinhança.
Eu continuo aqui, esquecida. Já não sinto o peso das expectativas nem a vibração das gargalhadas que costumavam atravessar minhas estruturas. O vento passa por mim sem pedir licença, carregando poeira e folhas secas para os cantos onde antes havia vida e movimento.
Ainda guardo ecos de conversas, aplausos distantes e sonhos passageiros. São lembranças que permanecem presas em cada parafuso, em cada marca deixada por quem passou por aqui sem imaginar que seria lembrado por tanto tempo.
Por que partiram sem mim? Será que ainda esperam algo de mim? Talvez haja algum outro evento aqui. Talvez uma feira movimentada, um rodeio, um show ao ar livre ou até mesmo uma grande festa da cidade. Quem sabe eu volte a ouvir risadas, anúncios ecoando pelos alto-falantes e o burburinho de centenas de pessoas chegando cheias de expectativa.
Enquanto isso não acontece, continuo observando os dias passarem. O sol nasce, a chuva vem e vai, e as estações deixam suas marcas sobre mim. Mas eu espero. Afinal, lugares como este raramente guardam silêncio para sempre. Mais cedo ou mais tarde, alguém surge com novos planos, novas histórias e novos sonhos para ocupar o espaço que hoje parece vazio.
Talvez as luzes voltem a se acender algum dia, confesso que a ausência do circo ainda pesa sobre mim. Sinto falta da música chegando antes mesmo do pôr do sol, das vozes animadas se misturando ao vento e da expectativa que tomava conta de todos quando o espetáculo estava prestes a começar.
Ainda me lembro dos risos das crianças, dos aplausos espontâneos e dos olhares maravilhados voltados para o centro de tudo. Cada apresentação era diferente, mas a emoção parecia sempre a mesma. Havia uma energia difícil de explicar, como se, por algumas horas, todos os problemas ficassem do lado de fora.
Com o passar do tempo, percebi que não estava tão sozinha quanto imaginava. Certa manhã, alguns pássaros começaram a visitar meus cantos mais altos, observando tudo ao redor com atenção. Durante vários dias, carregaram pequenos galhos, folhas secas e pedaços de capim até encontrarem um lugar seguro entre minhas estruturas. Logo surgiu um ninho, cuidadosamente construído, protegido do vento e da chuva. Desde então, acompanho a rotina daquela pequena família. Ouço o canto suave dos filhotes pedindo alimento, vejo os pais chegando e partindo inúmeras vezes ao longo do dia e sinto uma estranha satisfação por servir de abrigo a novas vidas. Talvez eu não receba mais multidões nem aplausos, mas descobri que também existe beleza nas presenças silenciosas que escolhem ficar.
Outro dia sonhei que era uma escada, e pessoas de todas as idades passavam por mim sem hesitar. Algumas subiam apressadas, outras paravam por um instante para observar a paisagem antes de continuar. Ninguém permanecia por muito tempo, mas cada passo deixava uma pequena marca, uma lembrança silenciosa de sua passagem.

sábado, 6 de junho de 2026

Anatomia de uma Ideia Extravagante

 


imagem: A Extração da Pedra da Loucura_ Hieronymus Bosch  

Monólogo de um funil



Exijo que minha dignidade seja preservada; estão fazendo um uso inadequado de mim. Fui criado para conduzir aquilo que flui, a não ser que tenham descoberto alguma teoria revolucionária segundo a qual pensamentos confusos possam ser despejados por um gargalo. Passei a existência inteira transferindo líquidos entre recipientes e, agora, me transformaram em adereço de um procedimento que desafia a lógica, a anatomia e até o bom senso. Observem minha inclinação, minha forma, minha elegante simplicidade: nada em mim sugere vocação para colher ideias extraviadas de uma cabeça humana. Se havia falta de juízo nesta cena, bastava conversar com o paciente; não era necessário envolver um especialista em evitar respingos.
Ainda assim, ninguém me consultou. Simplesmente me colocaram aqui, apontado para o céu como uma torre de observação da insensatez. Enquanto isso, os espectadores assistem com a maior naturalidade, como se extrair perplexidades pela cabeça fosse uma prática reconhecida pelos sábios da época. Reparem na expressão dos presentes: um parece oferecer conselhos que não pediu, outro observa como quem espera um milagre administrativo, e há até quem tenha trazido um livro para o caso de a realidade precisar de correções urgentes. Se continuarem ampliando minhas responsabilidades nesse ritmo, amanhã estarei sendo responsabilizado pela chuva, pelas marés e pelo desaparecimento das meias solitárias.
Estão expandindo minhas atribuições de maneira preocupante. Até pouco tempo atrás, bastava orientar o percurso de substâncias obedientes à gravidade. Agora esperam que eu participe de diagnósticos improváveis, intervenções intelectuais e operações para recuperar o bom senso perdido. Receio que estejam confundindo versatilidade com exploração funcional.
Alguém concluiu que, por possuir uma abertura larga e outra estreita, estou habilitado a desempenhar qualquer função concebível. É uma lógica curiosa. Seguindo esse raciocínio, uma colher deveria estar apta a redigir tratados filosóficos e um balde a ocupar cargos administrativos.
Não interpretem minha reclamação como hostilidade à criatividade. Tenho grande apreço pelas manifestações artísticas. É sempre agradável ver objetos comuns alcançando certa notoriedade cultural. O que me incomoda é a falta de critério. Uma coisa é participar de uma composição simbólica; outra, muito diferente, é ser promovido, sem treinamento, para auxiliar em procedimentos que desafiam séculos de conhecimento acumulado. Se desejavam representar uma ideia, um sonho ou uma metáfora, poderiam ao menos ter me informado. Em vez disso, fui lançado ao centro da cena e transformado em cúmplice involuntário de uma operação cuja finalidade continua tão misteriosa para mim quanto para o paciente. Confesso que estou começando a suspeitar que a verdadeira extração realizada aqui não seja de pedras, mas de responsabilidades alheias depositadas discretamente sobre meus ombros.
Talvez eu tenha sido severo demais com os envolvidos nesta cena. Afinal, como escreveu Florbela Espanca: “Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo!”
Quanto mais observo o mundo, mais compreendo o que ela quis dizer. Os que reconhecem suas próprias extravagâncias costumam ser mais tolerantes, mais criativos e até mais interessantes. Já aqueles que se consideram proprietários exclusivos da razão frequentemente transformam a certeza em arrogância e a convicção em teimosia. A imaginação, por mais indisciplinada que seja, ao menos permite explorar caminhos novos. A rigidez absoluta, por outro lado, raramente produz algo além de repetições.
Um pouco de desordem mental pode ser desconfortável, mas uma existência completamente esterilizada de fantasia seria incapaz de sonhar, criar ou se surpreender. E, entre uma realidade excessivamente organizada e uma imaginação que ocasionalmente transborda pelos cantos, há quem prefira preservar essa pequena e valiosa centelha de loucura.
O que torna toda esta situação ainda mais intrigante é uma aparente contradição. Se a centelha de desatino é responsável por boa parte da arte, da invenção e da imaginação humanas, por que tanto empenho em removê-la? Observem o entusiasmo dos participantes da cena. Todos parecem convencidos de que estão prestando um grande serviço ao paciente, como se estivessem libertando-o de um terrível fardo. Mas e se estiverem retirando justamente aquilo que torna uma pessoa interessante?
Talvez ninguém tenha considerado essa possibilidade. Talvez a suposta enfermidade seja também a fonte das histórias que ele contaria, das ideias que teria ou das perguntas que ainda faria. Há algo de curioso em declarar guerra à extravagância enquanto se participa de uma cena tão extraordinariamente extravagante. Os presentes parecem determinados a expulsar a fantasia da cabeça de um homem ao mesmo tempo em que encenam um espetáculo que desafia qualquer explicação razoável.