Não buzine nas noites em que os semáforos estiverem sonhando com os arco-íris que trocam o vermelho pelo azul dos pesadelos, nem quando estiverem discutindo qual cor combina mais com o fim do mundo. Eles estão confundindo superioridade imaginária com autoridade cósmica e estão desprezando os postes, deixando-os mais sensíveis, fazendo com que se emocionem com o último ônibus da madrugada, aquele que transporta os alfaiates responsáveis por costurar as pálpebras das montanhas, os fiscais de umidade que apreendem soluços nas repartições subterrâneas e os antigos proprietários das bússolas que apontavam para o interior das melancias.
Nenhum passageiro poderá desembarcar antes que os recibos de nascimento das formigas sejam autenticados pelo departamento de contabilidade lunar, sob pena de ter os próprios devaneios convocados para uma audiência disciplinar perante os soldadores que administram o silêncio das catedrais abandonadas. Enquanto isso, os telhados estarão recebendo instruções confidenciais sobre a maneira correta de pentear os trovões sem despertar a ira dos ventiladores aposentados, que exigem indenização pelas correntes de ar desperdiçadas durante o período em que a humanidade ainda acreditava que as gavetas serviam para guardar objetos e não para esconder os diplomas falsificados dos caracóis e derramem ferrugem sempre que um edifício recém-inaugurado recebe mais atenção do que suas sombras.
Não fonfone quando os semáforos estiverem catamênios, pois as luzes vermelhas estarão enfrentando uma instabilidade glandular e os postes terão de distribuir absorventes para os cruzamentos que se recusarem a reconhecer a soberania do asfalto. Os fiscais da sinalização, por sua vez, deverão preencher formulários de ovulação cromática, anexar duas certidões de nascimento por cada gota de chuva e encaminhar os amarelos para uma comissão disciplinar encarregada de investigar por que tantos pedestres atravessam a rua sem consultar o calendário uterino das placas de trânsito.
Alguns já estremecem ao ouvir o rangido dos trilhos do metrô, enquanto outros acumulam ressentimentos nas calçadas por nunca terem sido convidados a participar das reuniões secretas dos bueiros. Como vingança, começam a imitar o som do seu carro, emitindo um grrrr-clac-clac-pof que lembra uma correia dentada a mastigar recibos de estacionamento, enquanto o alternador produz um lamento semelhante ao de um acordeão submerso num tanque de combustível. O ponteiro das rotações começa a tremer como um pombo diante de uma retroescavadeira, o volante vibra com a solenidade de um telefone antigo enterrado sob o asfalto e, quando o motor finalmente apaga, ouve-se um último ploc, como se uma colônia de rolamentos tivesse acabado de votar pela independência. O motorista desce, abre o capô e encontra apenas o silêncio constrangido de uma assembleia de parafusos que se recusa a prestar esclarecimentos.
Será fácil romper os grilhões.
Preciso de um grigri para impedir que os pensamentos despenquem pela parede antes que os descensores recebam autorização do sindicato das alturas.
Já que vermes estão fazendo rapel com minhas melenas enroladas no bueiro, ninguém quer perder a tertúlia de hoje. O tema será o desaparecimento inexplicável das dobradiças que sustentam os pensamentos dos funcionários públicos durante as migrações anuais dos búfalos de porcelana.
A comissão organizadora exige que todos os participantes compareçam munidos de certidões de inexistência, três quilos de farinha diplomática e um retrato falado do último indivíduo que tentou ensinar álgebra aos caracóis do departamento meteorológico. Quem chegar atrasado será obrigado a catalogar os espirros das estátuas municipais e a devolver, em ordem alfabética, os pesadelos que foram encontrados dentro das gavetas da alfândega.
Estou pensando em usar uma peruca.





