O Imperador do Sorvete
Chame o rolador de charutos grandes,
O musculoso, e mande-o chicotear
Em xícaras de cozinha coalhadas concupiscentes.
Deixe as moças se demorarem em tais trajes
Como estão acostumadas a usar, e deixe os rapazes
Trazerem flores em jornais do mês passado.
Seja ser o final de parecer.
O único imperador é o imperador do sorvete.
Tire da cômoda de madeira,
Sem as três maçanetas de vidro, aquele lençol
Em que ela bordou caudas de leque um dia
E espalhe-o de modo a cobrir seu rosto.
Se seus pés cornudos se projetarem, eles vêm
Para mostrar o quanto ela está fria, e muda.
Deixe a lâmpada fixar seu raio.
O único imperador é o imperador do sorvete.
Wallace Stevens
Ele está muito ríspido com o insípido e ordenou jogar baunilha na estátua de Baudelaire. Que venham as formigas! Precisamos de mais apócrifos dos apócritos, reparou na escassez da retórica isopórica? Estamos incomunicáveis sem a duração exata dos abalos sísmicos, e então ele resolve desalojar as sombras dos cantos, não com luz, mas com uma espécie de insistência muda, como se pudesse convencê-las a abandonar seus abrigos por puro desgaste. Ele as chama sem voz, arrasta seus contornos com gestos imprecisos, até que elas começam a se desprender das superfícies, relutantes, escorrendo pelas frestas como uma memória que já não encontra onde ficar.
Há algo de inquietante nesse movimento, porque, ao expulsá-las, ele também altera o peso das coisas. Os objetos perdem profundidade, as distâncias ficam incertas, e o espaço, antes familiar, passa a vibrar com uma leve distorção. Nada se acomoda como antes. O que era apoio se torna instável, e o que era vazio começa a insinuar presença.
Não quebre as xícaras, mesmo que a mesa já esteja inclinada, como se escutasse outra música por baixo do mundo. Há nelas um brilho antigo, desses que não pertencem à louça nem ao tempo, mas ao gesto de quem ainda insiste em servir algo que ninguém pediu.
Esposteje o espórulo e deixe que o pó resultante invente seus próprios mapas, como se cada partícula fosse um território indeciso, tremendo antes de escolher existir. Não há medida segura para o que se fragmenta assim, apenas uma sequência de tentativas que se acumulam nas margens do visível, enquanto algo insiste em reorganizar o caos com mãos que ninguém vê.
Tudo se mistura, o gosto, o gesto, a matéria, como se a própria lógica tivesse sido deixada de lado por cansaço.
Insistam, então, em nomear o que escapa, mesmo que as palavras se dissolvam antes de alcançar o objeto. Porque é nesse intervalo, entre o que se tenta dizer e o que nunca se fixa, que algo verdadeiro insiste em existir, ainda que ninguém consiga provar.
Que se recolham, então, os restos de intenção como quem varre ecos de um salão sem paredes, e que cada vestígio encontre um uso imprevisto, ainda que nenhum sentido se sustente por muito tempo.
Há um pulso discreto atravessando o indizível, uma engrenagem sem dentes girando por pura teimosia, enquanto aquilo que não se deixa capturar continua a se expandir, alheio a qualquer tentativa de contenção, como um sopro que nunca se repete e, ainda assim, permanece.
Ednei Pereira Rodrigues
ACRESCENTA ISTO À RETÓRICA
Posa, posa e posa.
Mas na natureza apenas
Cresce. As pedras posam
Ao cair da noite, e os mendigos
Quando dormem também
Posam com seus trapos.
Bolas... cai o luar de lavanda.
Os prédios posam no céu
E, quando pintas, as nuvens,
Grisalhas, peroladas, profundas,
Pftt... No modo como falas
Arranjas, a coisa posa, o que
Na natureza apenas cresce.
Amanhã, quando o sol,
Apesar de tuas imagens,
Retornar como sol, fogaréu,
Tuas imagens não terão
Deixado nem sombra
Do que foram. As poses
Do discurso, da pintura,
Da música – o corpo dela jaz
Exausto, seu braço cai,
Seus dedos tocam o chão.
Acima dela, à esquerda,
Um toque de branco, o obscuro,
A lua sem forma,
Um olho debruado numa cripta.
O sentido cria a pose.
Nisso, se move e fala.
Esta é a figura, e não
Uma metáfora esquiva.
Acrescenta isto.
É para acrescentar.
Wallace Stevens
Wallace Stevens








