Monólogo de uma arquibancada
Depois que o circo foi embora, tudo aqui ficou mais tranquilo. O movimento diminuiu, as ruas voltaram ao silêncio e já não se ouviam as músicas ecoando ao longe. As luzes coloridas que iluminavam as noites desapareceram, e o terreno vazio parecia muito maior do que antes.
Durante alguns dias, as pessoas ainda comentavam sobre os espetáculos, os artistas e os momentos curiosos que haviam presenciado. Aos poucos, porém, a rotina retomou seu lugar.
Restaram apenas algumas marcas no chão e as lembranças de uma temporada que, por um breve período, transformou completamente a paisagem e o cotidiano da vizinhança.
Eu continuo aqui, esquecida. Já não sinto o peso das expectativas nem a vibração das gargalhadas que costumavam atravessar minhas estruturas. O vento passa por mim sem pedir licença, carregando poeira e folhas secas para os cantos onde antes havia vida e movimento.
Ainda guardo ecos de conversas, aplausos distantes e sonhos passageiros. São lembranças que permanecem presas em cada parafuso, em cada marca deixada por quem passou por aqui sem imaginar que seria lembrado por tanto tempo.
Por que partiram sem mim? Será que ainda esperam algo de mim? Talvez haja algum outro evento aqui. Talvez uma feira movimentada, um rodeio, um show ao ar livre ou até mesmo uma grande festa da cidade. Quem sabe eu volte a ouvir risadas, anúncios ecoando pelos alto-falantes e o burburinho de centenas de pessoas chegando cheias de expectativa.
Enquanto isso não acontece, continuo observando os dias passarem. O sol nasce, a chuva vem e vai, e as estações deixam suas marcas sobre mim. Mas eu espero. Afinal, lugares como este raramente guardam silêncio para sempre. Mais cedo ou mais tarde, alguém surge com novos planos, novas histórias e novos sonhos para ocupar o espaço que hoje parece vazio.
Talvez as luzes voltem a se acender algum dia, confesso que a ausência do circo ainda pesa sobre mim. Sinto falta da música chegando antes mesmo do pôr do sol, das vozes animadas se misturando ao vento e da expectativa que tomava conta de todos quando o espetáculo estava prestes a começar.
Ainda me lembro dos risos das crianças, dos aplausos espontâneos e dos olhares maravilhados voltados para o centro de tudo. Cada apresentação era diferente, mas a emoção parecia sempre a mesma. Havia uma energia difícil de explicar, como se, por algumas horas, todos os problemas ficassem do lado de fora.
Com o passar do tempo, percebi que não estava tão sozinha quanto imaginava. Certa manhã, alguns pássaros começaram a visitar meus cantos mais altos, observando tudo ao redor com atenção. Durante vários dias, carregaram pequenos galhos, folhas secas e pedaços de capim até encontrarem um lugar seguro entre minhas estruturas. Logo surgiu um ninho, cuidadosamente construído, protegido do vento e da chuva. Desde então, acompanho a rotina daquela pequena família. Ouço o canto suave dos filhotes pedindo alimento, vejo os pais chegando e partindo inúmeras vezes ao longo do dia e sinto uma estranha satisfação por servir de abrigo a novas vidas. Talvez eu não receba mais multidões nem aplausos, mas descobri que também existe beleza nas presenças silenciosas que escolhem ficar.
Outro dia sonhei que era uma escada, e pessoas de todas as idades passavam por mim sem hesitar. Algumas subiam apressadas, outras paravam por um instante para observar a paisagem antes de continuar. Ninguém permanecia por muito tempo, mas cada passo deixava uma pequena marca, uma lembrança silenciosa de sua passagem.








