sábado, 28 de fevereiro de 2026

Diálogos impertinentes


— Não vai conseguir sublevar o Mar.
— Não posso ao menos tentar?
— Por que está drenando toda a minha motivação?
— Porque você fala em dominar, e eu só queria aproximar. Não é conquista o que busco. É proximidade.
— Aproximar-se para quê?
— Para sentir a vibração da maré, ouvir o que existe sob a superfície. Não quero erguer a imensidão. Quero encostar nela sem me afogar na própria ambição.
— Então não é sobre elevar?
— Nunca foi. É sobre tocar o limite e compreender sua temperatura, sua força, seu ritmo. Há diferença entre possuir e experienciar.
— E acredita que chegar mais perto não trará o mesmo risco?
— Todo encontro traz risco. Mas distância excessiva também corrói. Ficar apenas observando transforma respeito em frustração.
— Você teme que eu esteja confundindo aproximação com enfrentamento.
— Exato. Nem toda ascensão é desafio. Às vezes, é só desejo de contato. Quero sentir o sal no ar, o peso da umidade, o pulso daquilo que parece inalcançável.
— E se, ao se aproximar, perceber que a vastidão continua indiferente?
— Ainda assim terei sentido sua presença. E isso, para mim, já basta.
— Ainda assim, existe algo que você parece ignorar.
— O quê?
— A proximidade com a água salgada cobra preço. O ar úmido corrói lentamente, infiltra-se nas juntas, enfraquece parafusos, compromete cabos. A ferrugem não anuncia sua chegada; ela se instala em silêncio.
— Está falando de desgaste físico ?
— Também. A salinidade adere às superfícies, acelera a deterioração, transforma resistência em fragilidade com o passar do tempo. Estruturas robustas podem se tornar vulneráveis sem perceber. Isso não lhe causa apreensão?
— Toda aproximação envolve risco.
— Mas aqui o risco é progressivo, quase invisível. Hoje é apenas uma camada fina sobre o metal. Amanhã, é corrosão profunda. Depois, ruptura.
— Então sua preocupação não é o mar em si, mas o efeito contínuo dele ?
— Exato. Não é a onda que me inquieta, é o que fica depois dela. A exposição constante altera a matéria. E nós somos feitos de matéria.
— Talvez seja preciso aceitar algum desgaste para sentir o que há além da distância.
— Aceitar desgaste é diferente de ignorar consequências. Quero que se aproxime com consciência, não com descuido. A maresia não perdoa entusiasmo desatento.
— Estou preocupado com você, a iluminação está criando uma miragem. Veja como o vermelho faz o metal parecer incandescente, quase vivo. O azul aprofunda o fundo, como se houvesse uma distância infinita atrás dele. Estão direcionando sua percepção, e você pensa que decidiu sozinho.
— Está insinuando que minha percepção é falha?
— Não falo de falha, falo de influência. A claridade aqui não é neutra. Ela exalta contornos, intensifica volumes, transforma estrutura em símbolo. Você está reagindo ao clima, não apenas à matéria.
— Então minha determinação é apenas reflexo desse cenário?
— Pode ser amplificada por ele. Observe como as sombras alongam cada peça, como o contraste cria uma sensação de grandiosidade. Sob outra luz, talvez você enxergasse limites com mais serenidade.
— Ou talvez enxergasse medo.
— Temo que esteja confundindo intensidade visual com possibilidade real. Quando as cores se apagarem e restar apenas aço frio e concreto silencioso, sua decisão continuará firme?
— Continuará se for minha, e não da atmosfera.
— Já pensou se essa tensão entre nós não for técnica, mas natureza?
— Natureza?
— Talvez eu carregue a vastidão instável das águas, e você a combustão inquieta das chamas. Um tenta expandir, o outro quer consumir. Como haver acordo pleno?
— Então nossa divergência seria inevitável?
— Correntes e labaredas não dialogam no mesmo idioma. Um dissolve, o outro transforma em cinza. Quando se encontram, há vapor, choque, ruído.
— Isso explicaria por que sempre reagimos com intensidade.
— Exatamente. Você busca ascensão ardente. Eu penso em profundidade e fluxo. Sua essência sobe. A minha se espalha.
— E o que acontece quando maré encontra incêndio?
— Surge névoa espessa, calor abafado, tensão suspensa. Nenhum domina por completo. Ambos se alteram no contato.
— Então não é conflito pessoal. É constituição.
— Pode ser. Você quer elevar o impossível pela força do impulso. Eu questiono pelo peso da imensidão.
— Talvez precisemos um do outro.
— Talvez. A chama sem limite consome a si mesma. A água sem direção se dispersa. Se houver equilíbrio, não haverá disputa, apenas transformação.

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