Imagem: Elefantes Salvador Dali 1944
Levem os totens para Kangchenjunga. O Equinócio está próximo, e o tempo está propício à abertura do portal para Pangeia. Alinhem-nos de acordo com Órion.
Fixem cada base na rocha, voltadas para o vento mais alto, e mantenham a distância exata entre eles. Quando a primeira estrela surgir no horizonte, acendam as chamas nos pontos marcados e aguardem em silêncio. Não desviem o olhar do alinhamento; qualquer hesitação rompe o fluxo.
À medida que a noite avança, a luz deverá percorrer as superfícies esculpidas, refletindo de um totem ao outro até formar um traço contínuo. Se o traço se fechar sem falhas, a passagem começará a se delinear no ar, como uma dobra quase invisível. Permaneçam firmes. Não recuem.
Quando o frio mudar de intensidade e o céu parecer mais próximo do que deveria, avancem um passo e sustentem a posição. O que se abre não tolera desordem. Apenas sigam o alinhamento até que o limiar se revele por completo.
Não demonstrem qualquer receio para Ourea, pois ele não perdoa os pávidos, nem aqueles que vacilam diante do chamado, nem os que permitem que o pensamento interrompa o gesto. Se houver som, ignorem. Não pertence a este lado. O vento poderá assumir forma e voz, mas não responde a chamados humanos. Mantenham o ritmo da respiração sincronizado com o pulso da luz, como se o próprio ar fosse guiado pelo traço que se formou entre os totens. Aos poucos, o corpo deixará de resistir e começará a ajustar-se a esse compasso estranho, como se reconhecesse uma cadência mais antiga do que a própria memória. A rocha sob os pés deixará de ser apenas rocha. Sentirão uma leve inclinação, como se a montanha estivesse respirando por dentro. Não tentem compreender. A compreensão enfraquece a travessia. Apenas sustentem o gesto, pois é ele que mantém a abertura estável.
Se as sombras começarem a se projetar na direção contrária à chama, não se movam. Isso indica que o eixo foi alcançado. Nesse ponto, qualquer passo fora do alinhamento desfaz o que foi iniciado. A luz deve atravessar vocês como atravessa os totens, sem interrupção.
Quando o traço se elevar do solo e perder a forma rígida, tornando-se um arco suspenso, saberão que o limiar deixou de ser apenas visível e passou a ser ativo. É nesse instante que a passagem reconhece presença. Não falem. Não nomeiem. Nomes fixam aquilo que precisa permanecer em fluxo.
Avancem somente quando o silêncio se tornar denso o suficiente para parecer matéria. O primeiro a atravessar não deve olhar para trás. O segundo deve manter a distância exata do primeiro. O terceiro sustenta o fechamento, caso haja ruptura.
Se tudo estiver correto, não haverá retorno imediato. O que se abre não é caminho de ida e volta, mas de deslocamento contínuo. E, ao cruzarem, não levem consigo a certeza do que eram. Aqui, isso pesa.

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