sábado, 26 de setembro de 2026

A Liturgia das Vísceras



Sou o silêncio, vou precisar dela. A língua será ponte entre o indizível e aquilo que se move lentamente sob a superfície das palavras, conduzindo sons sem origem por corredores úmidos onde cada sílaba se desfaz antes de alcançar o outro lado, enquanto a voz permanece suspensa, procurando no vazio uma forma de atravessar sem deixar vestígio, deslizando pela garganta como um túnel, uma passagem estreita onde as palavras perdem o significado quando chegam do outro lado sem saber se ainda pertencem a alguém, enquanto eu me inclino para escutá-las antes que desapareçam.
Albatrozes se perderam no túnel de Albula, onde o eco se acumulava em camadas e as asas roçavam nas paredes que pareciam deslocar-se lentamente, como se o próprio corredor respirasse; precisamos melhorar isto, talvez com uma abertura que surgisse apenas quando ninguém a procurasse, estreita demais para ser passagem e larga demais para ser ignorada, deixando do outro lado uma claridade cuja origem permanecia impossível de distinguir.
Os dentes serão degraus, para aqueles que ainda insistem em descer até a traqueia; os incisivos sustentam os primeiros passos, enquanto os molares se alongariam como plataformas sucessivas, cada superfície conduzindo a uma região mais interna da matéria. O canino permaneceria à entrada, imóvel e atento, feito um cão de guarda mineral, vigiando aquilo que tenta atravessar sem permissão. Precisamos de segurança, antes que a mastigação se torne apenas mais uma forma de queda. E quando toda essa arquitetura estiver concluída, nunca mais terá problemas com cáries.
Sua úvula será o sino da ermida, onde uma nova religião surgirá; o demiurgo pancreático vai traduzir toda essa encriptação, e quando chegarem no esôfago, encontrarão inscrições dissolvidas. A passagem se estreitará aos poucos, obrigando cada símbolo a abandonar sua forma original antes de prosseguir. Mais abaixo, os sinais já não poderão ser distinguidos das próprias secreções, e aquilo que parecia uma mensagem começará a adquirir movimento, descendo lentamente em direção a regiões onde nenhuma linguagem deveria sobreviver.
Nada será explicado; apenas convertido em símbolos, enzimas e murmúrios que descem lentamente até desaparecerem em algum ponto onde a anatomia deixa de obedecer ao corpo.
Nunca mais terá problemas com a halitose.
A cavidade oral permanecerá selada por uma película translúcida, enquanto a laringe recolherá os últimos vestígios de ar e os transformará em pequenas vibrações sem origem. O estômago receberá aquilo que descer, envolto em movimentos lentos, até que o piloro interrompa o fluxo por alguns instantes.
O hálito será substituído por uma corrente morna de substâncias indecifráveis, atravessando a laringe como uma procissão sem destino. O estômago abrirá seus átrios para receber o que restou, enquanto o piloro decidirá quais fragmentos poderão prosseguir. No jejuno, pequenas vilosidades se erguerão como florestas microscópicas, recolhendo vestígios de matéria antes que o íleo os conduza para regiões ainda mais remotas.
O ceco permanecerá à margem, como uma câmara esquecida, e o cólon desenhará seus próprios mapas sob a pressão silenciosa do peristaltismo. Em algum ponto, o sigmoide começará a dobrar o espaço sobre si mesmo, preparando a matéria para uma última cerimônia.
E ninguém saberá dizer quando o corpo terminou e o labirinto começou.
Nunca mais terá problemas com o briquismo.
As articulações da mandíbula permanecerão imóveis, enquanto ela abandonará seus movimentos habituais e começará a descrever pequenas órbitas diante do vazio.
O masseter repousará sob a pele como uma engrenagem desativada. O temporal permanecerá contraído, sustentando uma tensão sem causa, enquanto os músculos pterigoideos conduzirão a mandíbula para direções que não constam em nenhuma anatomia.
Até que o maxilar inferior se torne apenas uma dobradiça, e alguma coisa, do outro lado, comece novamente a ranger.

sábado, 12 de setembro de 2026

Praxe interrompida



Monólogo de um carimbo




Não é só burocracia, protocolo de protoctistas, antes que o protodórico caia, antes que a protoestrela apareça.
Movimentos reiterados = tendinite.
Mais um afastado das funções.
O expediente parece suspenso hoje, deve ser feriado.
Até um pássaro parou na janela para ficar olhando, percorreu o interior da sala com os olhos por alguns instantes, como se esperasse encontrar algum movimento do outro lado do vidro, permaneceu ali diante do silêncio e parecia não compreender por que aquele lugar estava tão vazio; depois ajeitou as penas e continuou observando o interior da sala sem demonstrar pressa para ir embora, mudou de posição sobre o parapeito, aproximou o bico do vidro e ficou alguns segundos imóvel, olhando para as mesas vazias, para as cadeiras e para a porta fechada, como se tentasse reconhecer alguma coisa naquele ambiente, abriu as asas por um instante, mas não voou, apenas voltou a se acomodar e permaneceu ali.
Estava ali por outro motivo; todos os dias encontrava algumas migalhas espalhadas no parapeito, deixadas por quem costumava passar por aquela janela durante o expediente, por isso retornava sempre no mesmo horário, pousava no mesmo lugar e esperava pacientemente pela comida, mas naquele dia não havia ninguém para deixar qualquer coisa, apenas a janela fechada e a sala silenciosa.
E amigo emplumado, não vou poder te ajudar, você sabe que eu ficaria satisfeito em fazer alguma coisa, mas não tenho pernas para ir até o refeitório, nem mãos para abrir uma porta, fui colocado aqui para carimbar documentos e é isso que faço todos os dias; você ao menos pode ir embora quando quiser, eu não tenho essa possibilidade, talvez por isso você continue olhando para dentro, procurando as migalhas que costumavam aparecer por aqui, ou talvez esteja esperando alguém voltar, eu também costumo esperar, embora ninguém tenha me explicado exatamente o quê, se pudesse escolher, eu pegaria alguma coisa para você, talvez um pedaço de pão, algumas sementes, qualquer coisa que servisse para compensar sua espera, mas só consigo deixar marcas sobre o papel, e hoje nem isso parece necessário.
Talvez amanhã seja diferente, talvez alguém volte a ocupar as cadeiras e as migalhas apareçam novamente sobre o parapeito, você já se acostumou com esse horário e eu também, embora por motivos diferentes, você espera pela comida e eu espero pelas folhas, no entanto hoje teremos apenas o silêncio, e não sei por quanto tempo ainda.
Talvez seja melhor procurar outro lugar por hoje, companheiro de janela, há uma praça algumas quadras daqui onde costumam ficar pessoas sentadas nos bancos, quase sempre alguém está comendo alguma coisa e algumas migalhas acabam sobrando pelo chão, você poderia tentar a sorte por lá, aqui não há muito que eu possa fazer por você, a janela continuará fechada e eu continuarei no mesmo lugar, registrando a ausência de todos.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Anatomia do Inexistente

 


excerto do livro Bananas podres de Ferreira Gullar

Iminente


Inevitavelmente, isso aconteceria, afinal eles têm cerca de 60% de água no corpo; bastaria uma pequena fissura na ordem das coisas para que tudo começasse a retornar lentamente ao estado líquido.
Mais um bípede que decide se desfazer; há plasma na platibanda, plastrada no plastonema; acumula-se bílis no bilro, enquanto a anatomia do mundo perde suas margens e cada fragmento humano começa a ceder por dentro, gota após gota, enquanto aquilo que antes possuía contorno se espalha sem pressa pelas frestas de uma realidade cada vez mais porosa. Contém fel no feldspato, onde a fenda fermenta lentamente feito febre fossilizada entre fibras frágeis e fluidos fugitivos, fazendo a forma flutuar para fora de si, até que o próprio contorno se torne uma película esquecida.
Foram detectadas quantidades grandes de saliva no sálix, onde se espalham substâncias salobras sobre superfícies salientes, e uma salmoura silenciosa se infiltra nos sulcos da matéria enquanto tudo se dissolve sob as pedras. Constataram-se concentrações elevadas de ureia no uredo, onde os resíduos se acumulam nas cavidades mais profundas e percorrem os canais da matéria, deixando marcas úmidas sobre as superfícies já desfeitas, até que os últimos vestígios se dispersem pelos interstícios da pedra.
Notaram-se quantidades consideráveis de colostro no colondro intragável, consumido pelas colunas corroídas que colapsam sobre cavidades cobertas de crostas e coágulos claros, acumulados nas camadas mais compactas da estrutura.
Sem menar a menarca na menaica mergulhada entre meandros, mantendo o mastro menor inclinado, enquanto a maresia mancha as madeiras e os remos permanecem imóveis sob a névoa marítima.
Foram registradas quantidades excessivas de sinóvias no sino da igreja, infiltradas nas fendas do bronze, onde escorrem espessas secreções, sedimentando-se sob a superfície sonora e silenciando gradualmente cada vibração entre as fibras do metal envelhecido.
Experimentaram-se emulsões, extratos e elixires, acrescentando-se leite de magnésia às misturas mais insistentes, mas os sedimentos continuaram a surgir nas superfícies, infiltrando-se por frestas estreitas e acumulando-se em estratos cada vez mais espessos, enquanto novas combinações eram preparadas em recipientes sucessivos; algumas mais densas, outras quase translúcidas, todas cuidadosamente vertidas sobre os pontos mais comprometidos. Aplicaram-se compressas, lavagens e soluções de composição variável, alternando-se períodos de repouso com intervenções demoradas, sem que as crostas diminuíssem ou que os depósitos perdessem sua consistência. A cada tentativa correspondiam novas manchas, novos acúmulos e pequenas alterações nos contornos, obrigando a substituir os instrumentos, recalcular as proporções e recomeçar o procedimento sob uma luz cada vez mais baixa.


*** escrito após a leitura do livro Bananas podres do poeta Ferreira Gullar