excerto do livro Bananas podres de Ferreira Gullar
Iminente
Inevitavelmente, isso aconteceria, afinal eles têm cerca de 60% de água no corpo; bastaria uma pequena fissura na ordem das coisas para que tudo começasse a retornar lentamente ao estado líquido.
Mais um bípede que decide se desfazer; há plasma na platibanda, plastrada no plastonema; acumula-se bílis no bilro, enquanto a anatomia do mundo perde suas margens e cada fragmento humano começa a ceder por dentro, gota após gota, enquanto aquilo que antes possuía contorno se espalha sem pressa pelas frestas de uma realidade cada vez mais porosa. Contém fel no feldspato, onde a fenda fermenta lentamente feito febre fossilizada entre fibras frágeis e fluidos fugitivos, fazendo a forma flutuar para fora de si, até que o próprio contorno se torne uma película esquecida.
Foram detectadas quantidades grandes de saliva no sálix, onde se espalham substâncias salobras sobre superfícies salientes, e uma salmoura silenciosa se infiltra nos sulcos da matéria enquanto tudo se dissolve sob as pedras. Constataram-se concentrações elevadas de ureia no uredo, onde os resíduos se acumulam nas cavidades mais profundas e percorrem os canais da matéria, deixando marcas úmidas sobre as superfícies já desfeitas, até que os últimos vestígios se dispersem pelos interstícios da pedra.
Notaram-se quantidades consideráveis de colostro no colondro intragável, consumido pelas colunas corroídas que colapsam sobre cavidades cobertas de crostas e coágulos claros, acumulados nas camadas mais compactas da estrutura.
Sem menar a menarca na menaica mergulhada entre meandros, mantendo o mastro menor inclinado, enquanto a maresia mancha as madeiras e os remos permanecem imóveis sob a névoa marítima.
Foram registradas quantidades excessivas de sinóvias no sino da igreja, infiltradas nas fendas do bronze, onde escorrem espessas secreções, sedimentando-se sob a superfície sonora e silenciando gradualmente cada vibração entre as fibras do metal envelhecido.
Experimentaram-se emulsões, extratos e elixires, acrescentando-se leite de magnésia às misturas mais insistentes, mas os sedimentos continuaram a surgir nas superfícies, infiltrando-se por frestas estreitas e acumulando-se em estratos cada vez mais espessos, enquanto novas combinações eram preparadas em recipientes sucessivos; algumas mais densas, outras quase translúcidas, todas cuidadosamente vertidas sobre os pontos mais comprometidos. Aplicaram-se compressas, lavagens e soluções de composição variável, alternando-se períodos de repouso com intervenções demoradas, sem que as crostas diminuíssem ou que os depósitos perdessem sua consistência. A cada tentativa correspondiam novas manchas, novos acúmulos e pequenas alterações nos contornos, obrigando a substituir os instrumentos, recalcular as proporções e recomeçar o procedimento sob uma luz cada vez mais baixa.

