segunda-feira, 18 de maio de 2026

Correspondência correspondente



Venho por meio desta destanizar a destampice que ficou acumulada nos corredores desta época. As paredes continuam úmidas de vozes, e ainda encontro insetos caminhando dentro das palavras, como pequenos funcionários da decomposição. Tenho observado criaturas carregando diplomas de ferrugem dentro dos bolsos enquanto sorriem para vitrines acesas, como se a iluminação pudesse absolvê-las da própria matéria.
Recebi notícias suas através de um homem que recolhia insetos mortos perto dos trilhos. Havia nele alguma dignidade arruinada, semelhante à dos santos corroídos pela maresia. Por um instante, tive a impressão de que o senhor ainda percorre certos lugares usando nomes provisórios.
Ontem retirei de uma gaveta um conjunto de fotografias deterioradas. Em todas elas, os rostos estavam parcialmente apagados, como se o tempo tivesse decidido poupar apenas os objetos ao redor. Permaneceram intactos um copo sobre a mesa, uma cortina imóvel, um cachorro observando algo fora da imagem. Isso me perturbou mais do que a ausência das pessoas.
Tenho suspeitado que certas palavras adoecem quando pronunciadas em excesso. Talvez por isso alguns livros pareçam emitir calor, mesmo fechados. Há páginas que sobrevivem como febres aprisionadas.
Tenho lido os ossos das frutas para compreender melhor o mundo. Nenhum médico conseguiu explicar por que certas madrugadas possuem cheiro de biblioteca fechada.
Imagino que o senhor entenderia imediatamente. Existem pessoas que apodrecem apenas por excesso de lucidez.
Caso ainda exista correspondência possível entre nós, envie algum sinal: uma asa carbonizada dentro do envelope, um fio de cabelo preso entre páginas, qualquer evidência mínima de continuação.
Espero que esta carta consiga alcançá-lo, seja qual for o estado físico ou atmosférico em que o senhor atualmente reside.

Um comentário:

Luiz Bras disse...

Augusto dos Anjos certamente responderia: "Compreendo perfeitamente o seu diagnóstico, pois as engrenagens do tempo decidiram, nesta última terça-feira de agosto, nascer com dentes de leite. Para destanizar tamanha destampice, precisei costurar minhas próprias orelhas nas bainhas do horizonte, já que os relógios de bolso aqui decidiram derreter em forma de sopa de tomate, alimentando os mesmos insetos que o senhor mencionou. O homem dos trilhos é meu cunhado metafísico; ele me devolveu os nomes provisórios que deixei esquecidos no estômago de um piano de cauda subterrâneo, embora eu agora atenda apenas pelo som de uma colher de chá colidindo contra uma constelação menor. Não se preocupe com as paredes úmidas de vozes: pendurei três ou quatro guarda-chuvas feitos de fumaça e os diplomas de ferrugem finalmente começaram a florescer em pequenos girassóis de carne que cantam ópera ao meio-dia."