Monólogo de um cone
Aqui ninguém passa. Às vezes, me sinto mal com todo esse poder que os humanos me impõem. Mesmo assim, continuam obedecendo sem questionar, desviando seus caminhos ao menor sinal da minha presença. Permanecem atentos às minhas ordens silenciosas enquanto interrompo ruas, altero destinos e decido quem avança ou quem precisa esperar. Alguns demonstram revolta ao me encarar, mas até os mais impacientes acabam reduzindo a velocidade diante de mim, como se já aceitassem que certas decisões não pertencem mais a eles.
Nativo de uma urbe onde o concreto parecia avançar sobre qualquer vestígio de ar puro, aprendi desde cedo a respirar fumaça quente misturada ao cheiro metálico vindo das avenidas congestionadas. Os edifícios altos abafavam a luz do dia e deixavam as ruas mergulhadas numa sombra constante, enquanto letreiros piscavam sem descanso. Só conseguem se comunicar dessa maneira escandalosa? Conativos por todos os lados, buzinas que pareciam discussões intermináveis, motores rugindo como animais presos em jaulas invisíveis, vozes atravessando paredes finas sem pedir licença.
Com o tempo, comecei a sentir falta de algo que eu nem conhecia direito: um silêncio verdadeiro. Não a pausa breve entre um ônibus e outro, nem o instante fraco da madrugada, quando a cidade apenas cochila. Falo de um silêncio inteiro, capaz de deixar os pensamentos respirarem sem serem atropelados. Aqui, até o vento parecia chegar cansado, contaminado pelo eco das sirenes e pelo cansaço das multidões. Às vezes, eu imaginava como seria ouvir apenas os próprios passos, sem anúncios luminosos competindo pela atenção, sem televisões vazando pelas janelas dos apartamentos empilhados. A cidade desaprendeu a sussurrar. Tudo nela precisava gritar para existir. E talvez fosse isso que mais pesava: a sensação de que o silêncio havia sido expulso dali como algo inútil, antigo demais para sobreviver entre tanto concreto e tanta pressa.
Até a chuva parecia suja naquele lugar, escorrendo pelas calçadas com uma coloração acinzentada e levando consigo restos de lixo, óleo e fuligem.
Fui atropelado mais uma vez e apenas rolei alguns centímetros pela pista antes de voltar ao mesmo lugar de sempre. Nenhuma rachadura, nenhum dano verdadeiro, apenas marcas de pneus atravessando meu corpo laranja, como se eu fosse incapaz de sentir qualquer consequência. Hoje estou em frente a um lupanar, amanhã nunca se sabe. Nesta cidade, nós, cones, somos deslocados como presságios ambulantes. Aparecemos onde houve colisão, incêndio, enchente, vazamento. Desta vez, foi gás. O cheiro chegou primeiro, rastejando pelas calçadas como uma criatura invisível. Depois vieram os gritos, os rádios chiando, homens correndo para fechar ruas enquanto portas se abriam às pressas. Mandaram evacuar o prédio inteiro. Vi pessoas descendo escadas ainda tontas de sono, algumas tropeçando, outras tentando esconder o constrangimento com os braços cruzados sobre o próprio corpo. Uma mulher saiu usando apenas um casaco fino e nada por baixo dele, fumando nervosamente, como se a fumaça do cigarro pudesse espantar a outra fumaça que ameaçava o lugar. Um homem carregava sapatos nas mãos, outro reclamava da interrupção, como se o perigo tivesse atrapalhado um compromisso banal. Ficamos espalhados pela rua, delimitando o risco, eu e meus semelhantes silenciosos. As luzes vermelhas dos veículos de emergência giravam sobre as poças do asfalto, e tudo parecia cenário de alguma tragédia barata. Ainda assim, depois de algumas horas, a cidade começou a esquecer. Os curiosos se aproximaram novamente, os carros buzinavam impacientes, alguém ria alto na esquina.
Só eu permaneci imóvel, respirando aquele resíduo invisível que sobrava no ar, imaginando quantas catástrofes pequenas uma cidade consegue suportar antes de desabar de vez.
Outro dia, sonhei que era uma pirâmide, enorme e antiga, enterrada até a metade sob avenidas e fios elétricos. As pessoas caminhavam ao meu redor sem perceber que existia algo colossal observando cada passo delas debaixo do concreto. Permaneci ali durante séculos naquele sonho, suportando chuva, fumaça, ferrugem e silêncio, enquanto a cidade crescia como uma infestação sobre minhas pedras. Quando acordei, ainda senti a estranha impressão de que fui reduzido a algo menor, colocado à força numa esquina qualquer apenas para organizar o caos por alguns instantes.

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