sábado, 21 de março de 2026

Introdução Teutônica

Mögliche Dinge


Ich bringe die Klinge
Defesa da defecção
como quem sustenta o que já não se retém
nem se organiza em forma duradoura

 


Corolário subsequente


1

Quando separaram as ondas do mar: tobogã
Da turbulência originou-se o regozijo
Não tiveram mais naufrágios
Não pode evitar a extinção dos peixes

2

Quando isolaram a areia do deserto: ampulheta
Das miragens suscitaram o tempo
Não tiveram mais insolações
O infinito foi adestrado em quedas sucessivas

3

Quando delinearam distâncias: solidão
A proximidade foi reduzida a cálculo
E o espaço passou a pesar entre os corpos
E o silêncio se instalou como intervalo permanente

4

Quando debuxou o autorretrato da piéride: efeméride
Da memória fez-se calendário
Não reteve o instante
Não atenuou a ausência

5

Quando extraíram o algodão da lavoura: nuvens
Da matéria leve insinuaram o céu
A maciez foi elevada ao indizível
E o toque passou a existir sem peso

6

Quando diluíram a forma no ar: deriva
Do visível fizeram transição
O que era tato tornou-se ausência
E o que era presença passou a flutuar

7

Quando extraíram as listras da faixa de pedestre: zebras
Da repetição rígida nasceu o impulso
O caminho deixou de conduzir passos
Não evitaram a extinção dos quagas

8

Quando desmantelaram a grua e removeram o guincho: girafas
A elevação perdeu sua rigidez
O alcance deixou de ser cálculo
E encontrou equilíbrio no movimento

9

Quando, na construção de um prédio, faltava uma janela: enucleação
A enunciação de um epílogo
O interior deixou de dialogar com o exterior
E a luz já não encontrava passagem

10

Quando, na instalação de um chafariz, a sequidão prevalecia: deserto
Usaram sua enurese como desvio de origem
A escassez encontrou um fluxo improvável
E o que era ausência passou a simular origem.


*** Escrito após a leitura do livro: Lições de geometria fantástica, José Eduardo DEGRAZIA



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