sábado, 14 de setembro de 2024

Inspiração frugal

 imagem: filme A cor das Romãs 1969 Sergei Parajanov

 

 

Esta tarde não ouvi os pombos

 

Leia-me com prudência, não sou pruá que você conduz sem esforço

Não quero sentir cílios roçando minha tez

Sou feito de lexemas que pesam, que se entrelaçam com teu pensamento, exigindo atenção e cuidado

 Bigorna de sentimentos

Cada linha que percorres pode desviar-te do que és, pode transformar, pode fazer com que enxergues aquilo que preferias ignorar

Não busques em mim um refúgio leve; sou um espelho que reflete não apenas o que está à frente, mas o que te ronda nas sombras do teu próprio ser

Todo esse pruído que você provoca é ilibado, afinal, todos precisam rir

Toda essa pruína que você conduz, ser nêspera

Toda essa ruína e a necessidade de se reconstruir, e o impulso inevitável de se renovar, sem jamais ser o que se foi

O zéfiro não conseguiu extrair a zeína, ficaram sem a proteína

Não se sinta inferior por causa disso

A subsistência ainda era viável.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Inspiração urbana

Itinerários


Na ladeira sentiu o sartório, o sartigalho saltitante toma a dianteira, parou para ver o sarsório tão bonito da igreja, sentir-se como um mosaico, formado por fragmentos de experiências, emoções e memórias que, embora distintos, se entrelaçam para compor a singularidade da essência. O sarrido perceptível o impedia de participar de maratonas com acrídios; mesmo assim, procurava algo que o motivasse a seguir em frente. Talvez todo esse sarrancolim constrito de um ambiente degradado, uma arquitetura inventada que ainda inspira, talvez eu seja uma pilastra deste empório, punição por apetecer um outono fora de época. Poderia ter uma poesia minha naquele outdoor, mas a realidade era outra. A poesia era algo que se perdia na pressa cotidiana, diluída no ritmo das buzinas e dos passos apressados. No entanto, essa mesma pressa que esvaziava significados também criava momentos de abertura, brechas onde uma palavra ou verso poderia se infiltrar, plantar uma ideia, uma emoção. Agora é preciso aceitar as consequências, não acreditar mais no lirismo; a humanidade perdeu o rumo depois que a confiança nas verdades absolutas começou a desmoronar. A busca por certezas deu lugar a um labirinto de dúvidas, e as grandes narrativas que outrora orientavam a civilização começaram a se fragmentar, deixando as pessoas à deriva em um oceano de incertezas. O progresso, antes celebrado, começou a ser questionado. A civilização foi tomada por um sentimento de desorientação profunda, onde cada escolha parecia carregar o peso do desconhecido. Perguntavam-se se, em meio a todo esse caos, ainda havia um lugar para a beleza e a verdade, ou se tudo estava destinado a ser apenas uma série de instantes desconexos e efêmeros, onde a esperança e a nostalgia eram os únicos faróis na vastidão de um mundo cada vez mais nebuloso. Não viu o sol se pôr, mas sabia que ele estava lá, oculto por trás das nuvens que cobriam o horizonte, uma presença constante mesmo quando não visível. A sensação de que algo essencial permanecia além da visão direta oferecia um leve conforto: dormir e não sonhar com nada; sonhos estavam proibidos, eram perigosos, os grandes responsáveis por tudo, afinal precisavam encontrar um culpado para toda inquietação predominante. A vida, com suas complexidades, parecia cada vez mais um labirinto sem saída, onde as oportunidades de conexão e descoberta se tornavam raras. As interações, cada vez mais escassas, perdiam seu valor, e cada sorriso trocado na rua, marfileno para marfar arredores, quando tudo é marga e o margalhudo com o olhar perdido no horizonte tentava encontrar um sentido em meio ao ruído da cidade. As vozes que ecoavam ao seu redor pareciam falar de um mundo que já não existia, onde a simplicidade e a beleza se entrelaçavam em cada gesto. Agora, tudo era apressado, superficial; já perdi tantos detalhes que poderiam ter se transformado em histórias. No entanto, apesar de tudo, havia uma teimosia interna, uma resistência quase involuntária que se agarrava a qualquer vestígio de significado, como uma azaléia que insiste em brotar entre as rachaduras do asfalto. Era um impulso irracional, mas necessário, para manter viva a chama da criatividade, ainda que abafada pelo peso da rotina.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Desdobramentos vertiginosos

 

A Vertigem do Caos

um estranho entre estranhos, nômade
entre escombros, procuro sem
procurar, um não-lugar, o ventre
de látex de uma replicante quase
humana, as ruínas enfim apaziguadas
da bombonera, as águas que refluem
pra dentro da baía de todos
os infernos, ali, onde a eternidade
são os dentes de estanho do último sol
mastigando oceanos como fatias
de pizza, lançadas ao ocaso
do fundo de um naufrágio, ante
a dança misteriosa de um feiticeiro cherokee

                                                     Ademir Assunção

 

Não vai conseguir fazer chover com isso
Talvez se colocar algumas beldades dançando cancan
Cancaborrada na matiz, não vai espantar a matilha
Até a noite, o sangue vai ser diluído
Pigmeus precisam de pigmentos
Não vai alcançar nenhum resultado com isso
Talvez a coreografia esteja errada
Retese mais o braço, espiche o godemiche
Envolto na poeira, esqueceu que tinha corpo
Talvez seja corêmio
Proêmio de algo hermético
Corpúsculo disforme para o opúsculo
Não precisa mais de músculo
Agora que é crepúsculo
Côncavo e convexo grumo
Uma boa mistura para húmus
Não culpe o torso pelo cansaço iminente
Os mamilos marcescíveis que não alimentaram a prole órfã do ocapi
A única certeza que temos é a morte.

sábado, 24 de agosto de 2024

Exegeses Incongruentes


Solidão

Infusão de baixo teor alcoólico resultante da fermentação do silêncio, onde cada bolha traz à tona ecos do passado e deixa um gosto acerbo de uma ausência prolongada. Convém ser degustada em momentos de introspecção, quando o mundo lá fora se dissolve na quietude interior. Pode causar alucinações emocionais e psicológicas, transportando o indivíduo a paisagens mentais distantes e às vezes surreais, onde as fronteiras entre realidade e imaginação se tornam tênues.

 

Frustração



Fruto abrolhado com polpa rugosa, de sabor agridoce, que se desfaz ao toque, deixando apenas a promessa de doçura e a sensação de algo que nunca amadurece por completo. É para ser ingerido com a consciência de que não saciará, mas ensinará sobre a impermanência das coisas, sobre o sabor da ausência e a aceitação de que nem tudo que é desejado se transforma em plenitude.


Angústia



Prótese por inspiração inexpugnável (substantivo feminino – Fonética)Perrexil amplamente apreciado na culinária brasileira, onde cada prato carrega o peso silencioso de memórias e ausências. Sensação densa e persistente, semelhante a uma massa espessa que se forma no peito, feita de expectativas não atendidas e incertezas acumuladas, mistura-se com o amargo das experiências, moldando-se à forma que a mente lhe dá, podendo ser digerida lentamente ou permanecer, enrijecida, em fatias de inquietude.


Girafa



Guindaste onírico usado para erigir poemas ou outras obras literárias, ela desempenha uma função importante, ajudando a levantar e posicionar materiais pesados, metáforas & devaneios. Suas longas pernas e pescoço permitem alcançar alturas elevadas onde as ideias se tornam visíveis e tangíveis, entrelaçando-se com nuvens & estrelas. Sem predadores ela caminha livremente nas brumas do inconsciente.


Metáfora



Indumentária que a poesia veste contra as vicissitudes, pelta que a protege contra as asperezas do cotidiano. Quando ocorre a ecdise e tudo fica exposto, segredos são revelados e o que antes estava hermético se desdobra em discernimento. As palavras, antes seladas, agora se abrem como flores ao sol, oferecendo nuances e profundidades e quando o vulnerável se revela em sua essência.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Inspiração acuminada


Monólogo de uma Estalactite
 

O canino não reteve a presa, era apenas uma crinia tinnula que se esquivou com agilidade. “Você não precisa disso”, alguém disse, colocando em dúvida minha existência. Então, todo aquele período de desenvolvimento foi em vão? A dúvida pairava no ar, questionando se o esforço investido realmente havia contribuído para algo significativo ou se tudo havia sido um desperdício. Talvez toda essa escuridão tenha me confundido. Tentei me concentrar, afastar os pensamentos que me puxavam para um abismo de incertezas, mas era difícil. O medo de que tudo o que fizera até agora não passasse de um erro ganhava força, e a escuridão ao meu redor parecia se fechar ainda mais, tornando cada passo à frente mais pesado e incerto. Leva-me a questionar o valor e o propósito de cada passo dado em meu caminho. Agora sei por que minha tentativa de gritar resulta em silêncio. O vazio do eco não é apenas a falta de som, mas uma reflexão sobre como, em meio à vastidão da existência, nossas ações podem parecer insignificantes, como se a própria essência do nosso ser estivesse sendo absorvida pela escuridão que nos rodeia. Sempre achei que meu problema era a aglossia, a incapacidade de articular minhas emoções e pensamentos em palavras que fizessem sentido. Uma boca que nunca vai ser beijada guarda anseios profundos. Nunca acreditei em qualquer idílio; talvez isso tenha me deixado mais ríspida e cética em relação aos sentimentos que os outros dizem sentir. Há uma proteção construída ao redor do coração, uma barreira que impede a vulnerabilidade, mas também a plena felicidade. Talvez, nessa defesa contra o sofrimento, eu tenha me isolado de momentos de verdadeira conexão, perdendo a chance de experimentar algo genuíno e transformador. Mas, ao mergulhar mais fundo nessa escuridão, percebo que a verdadeira questão não reside na falta de expressão, mas na luta interna entre o que sinto e o que consigo comunicar. O silêncio, que antes me parecia uma prisão, agora se transforma em um espaço de contemplação, onde posso explorar as nuances do que sou. Ontem dancei com sombras, e hoje, o que resta é uma sensação de estar perdida em um labirinto de incertezas, onde cada movimento parece ser uma busca por algo que permanece intangível e distante. Pelo menos, nunca terei cáries, e a arnela não causará desconforto, pois está ainda em formação. Vou ter que planger muito, motivos não faltam, esforçando-me para moldar algo significativo em meio a essa escuridão persistente, onde até mesmo a menor certeza parece um farol distante em um mar de dúvidas. É uma pequena compensação, talvez, para a imensidão de dúvidas e a sensação de futilidade que agora preenche meu ser, lembrando-me de que, mesmo nas menores certezas, pode haver algum alívio.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Inspiração Onírica

imagem: livro de poesias do escritor Tarso de Melo-A lapso

 

Reflexo flexo


Só desperto depois do reflexo flexo na pálpebra

Sonhos persistem sob o travesseiro

Uma girafa lambe meu rosto

Certas situações são inevitáveis

E mesmo quando tudo ainda está diluído pelas sombras

Dou-me conta do ambiente

E não é uma Savana

Estava gostando de ser savanícola

Retornando à praxe, aos transtornos de sempre

As dúvidas não resolvidas, as indagações sem respostas

Será que o pilar de livros resiste?

O vento ontem estava muito forte

Assobiando pelas frestas das janelas e fazendo as cortinas dançarem freneticamente

E eu incessantemente buscando a incerteza

Áreas não ocupadas para desenvolvimento adicional

Onde o tempo parece se esticar e as possibilidades se entrelaçam em um emaranhado de sonhos não realizados.

 

***escrito após a leitura do livro do escritor Tarso de Melo, A Lapso

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Inspiração Lacerante


imagem:vídeo-poema da escritora Morgana Krismann,Mulher navalha
 

Monólogo de uma navalha
 
 
Dilacero dilatações; você não precisa de tudo isso. Antes, a entrada era apenas através dos poros, mas agora, a passagem se alarga, desvendando o essencial com maior clareza. Tentei estancar o que esparge; a barregã irascível já retirava as vísceras, e na lâmina refletia o que o mancebo comeu: aspargo. Todas aquelas vitaminas não serviam para nada. Agonizante, ele ainda tentava dizer algo incompreensível; seus lábios se moviam, mas as palavras eram apenas um murmurinho abafado, misturado ao som metálico do sangue que se espalhava pelo chão. Eu sempre buscava a dissonância de tudo, como a torneira pingando, imitando a chuva se mesclando com o latejo do coração, que sirva de lição: nunca escarnecer da espargose de uma mulher. O sujeito sempre foi esparolado, não respeitava ninguém. Muitas vão dizer: “Não vai fazer falta.” Já se passaram dois dias desde o óbito e ninguém veio retirar o cadáver que estava virando mobília para algum necrófilo. Precisavam disfarçar o fartum do cadáver pútrido, talvez com bicarbonato de sódio ou algum incenso, e voltar à rotina, como se nada tivesse acontecido, tornou-se uma necessidade imperativa. Era essencial retomar a vida com uma aparência de normalidade, ignorando o que ficou para trás. O que importava era a volúpia volúvel, todo hedonismo que preenchia os vazios e afastava o peso da realidade de uma sociedade moralista. Subverter as restrições impostas, revelando que, ao tentar evitar as consequências, muitas vezes se acaba criando situações ainda mais complicadas e destrutivas. A lógica perversa do comportamento humano tornava evidente que o desejo de escapar da norma muitas vezes conduzia a formas ainda mais caóticas de indulgência.