Sou o silêncio, vou precisar dela. A língua será ponte entre o indizível e aquilo que se move lentamente sob a superfície das palavras, conduzindo sons sem origem por corredores úmidos onde cada sílaba se desfaz antes de alcançar o outro lado, enquanto a voz permanece suspensa, procurando no vazio uma forma de atravessar sem deixar vestígio, deslizando pela garganta como um túnel, uma passagem estreita onde as palavras perdem o significado quando chegam do outro lado sem saber se ainda pertencem a alguém, enquanto eu me inclino para escutá-las antes que desapareçam.
Albatrozes se perderam no túnel de Albula, onde o eco se acumulava em camadas e as asas roçavam nas paredes que pareciam deslocar-se lentamente, como se o próprio corredor respirasse; precisamos melhorar isto, talvez com uma abertura que surgisse apenas quando ninguém a procurasse, estreita demais para ser passagem e larga demais para ser ignorada, deixando do outro lado uma claridade cuja origem permanecia impossível de distinguir.
Os dentes serão degraus, para aqueles que ainda insistem em descer até a traqueia; os incisivos sustentam os primeiros passos, enquanto os molares se alongariam como plataformas sucessivas, cada superfície conduzindo a uma região mais interna da matéria. O canino permaneceria à entrada, imóvel e atento, feito um cão de guarda mineral, vigiando aquilo que tenta atravessar sem permissão. Precisamos de segurança, antes que a mastigação se torne apenas mais uma forma de queda. E quando toda essa arquitetura estiver concluída, nunca mais terá problemas com cáries.
Sua úvula será o sino da ermida, onde uma nova religião surgirá; o demiurgo pancreático vai traduzir toda essa encriptação, e quando chegarem no esôfago, encontrarão inscrições dissolvidas. A passagem se estreitará aos poucos, obrigando cada símbolo a abandonar sua forma original antes de prosseguir. Mais abaixo, os sinais já não poderão ser distinguidos das próprias secreções, e aquilo que parecia uma mensagem começará a adquirir movimento, descendo lentamente em direção a regiões onde nenhuma linguagem deveria sobreviver.
Nada será explicado; apenas convertido em símbolos, enzimas e murmúrios que descem lentamente até desaparecerem em algum ponto onde a anatomia deixa de obedecer ao corpo.
Nunca mais terá problemas com a halitose.
A cavidade oral permanecerá selada por uma película translúcida, enquanto a laringe recolherá os últimos vestígios de ar e os transformará em pequenas vibrações sem origem. O estômago receberá aquilo que descer, envolto em movimentos lentos, até que o piloro interrompa o fluxo por alguns instantes.
O hálito será substituído por uma corrente morna de substâncias indecifráveis, atravessando a laringe como uma procissão sem destino. O estômago abrirá seus átrios para receber o que restou, enquanto o piloro decidirá quais fragmentos poderão prosseguir. No jejuno, pequenas vilosidades se erguerão como florestas microscópicas, recolhendo vestígios de matéria antes que o íleo os conduza para regiões ainda mais remotas.
O ceco permanecerá à margem, como uma câmara esquecida, e o cólon desenhará seus próprios mapas sob a pressão silenciosa do peristaltismo. Em algum ponto, o sigmoide começará a dobrar o espaço sobre si mesmo, preparando a matéria para uma última cerimônia.
E ninguém saberá dizer quando o corpo terminou e o labirinto começou.
Nunca mais terá problemas com o briquismo.
As articulações da mandíbula permanecerão imóveis, enquanto ela abandonará seus movimentos habituais e começará a descrever pequenas órbitas diante do vazio.
O masseter repousará sob a pele como uma engrenagem desativada. O temporal permanecerá contraído, sustentando uma tensão sem causa, enquanto os músculos pterigoideos conduzirão a mandíbula para direções que não constam em nenhuma anatomia.
Até que o maxilar inferior se torne apenas uma dobradiça, e alguma coisa, do outro lado, comece novamente a ranger.

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