quarta-feira, 17 de junho de 2020

Plágio de mim mesmo


Súbita Subida
Mera meralgia
Mesmo dolicópode
Degringolei do último degrau
Chispas dos chispes
Derradeiro mas derrogador
A degola da derme
O nada me atrai
Seu descaso é outro caso
Há derrisão do nocivo
Normal na próxima curva
Ao norte
Um nódulo górdio
Enrolam-se os fatos
Esféricas miúdas
Como as de Van Gogh
Dobro como um dom
Domável ao dolorífico
Domínio de uma variável
Pode ser um dólmen
O âmbito do ambívio
Deixa tudo ambíguo. 

                     Ednei Pereira Rodrigues

***Poesia publicada em 10/05/2009

Imagem da artista espanhola Alicia Martin que faz esculturas com livros 

Defenestração

Estanque a Estante 
Algo emético
Capiscar o capítulo capialçado
A lauda com láudano produz alucinações
Escada que escacha
Em cada degrau uma poesia
Vade-mécum de Agriotimia
Cartapácio como potássio
Léxico para a estultice
Romance para o caos
Verberar o Verbo
Pendia o compêndio
Tome a epitome como mistela
Abreviação para o silêncio
O aurismo do sumário
Riqueza de imaginação
Monarquia inventada
Cartilha como cartilagem
O avesso da Avesta
Abista para o Abismo. 

             Ednei Pereira Rodrigues

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Arquitetura inventada



ARQUITETURA
com o pensamento em Franz
Kafka
Encapsular o inferno
numa tarde sem mais
de Praga. No entanto
era ele quem deslocava
a cidade para a parede
incalculável de seus olhos.
Auscultar o pântano
de sua razão intranquila
até que nenhuma ponte
se arme para nossa passagem.
Inventar entradas falsas
(entrar sem sequer ter saído)
traços pontilhados, estradas.
Procurar praças estações catedrais
como um cão sem faro.
Como um cão fora de si.
Alcançar o fio cego do horizonte
por algum túnel longíquo
incomunicável; abastecer
o teto mais que o chão.
                                  Laura Liuzzi
Infiltrações

O teto é tétrico
O lustre é meu Sol domado pelo interruptor
Aqui não é Lapônia
Mas tem Sol da meia-noite


O teto tentou imitar Tétis
Quando chove muito
Formam-se goteiras e pinga
A torneira faz plágio

O teto nunca será Tétio
Sem tetimixira
Tentou imitar o aquário
Ictologia inventada

O teto nunca será o limite
E nem preciso de tetrilo para destruí-lo
A metáfora e a tetriz que impulsiona tudo
Daqui da pra ver Ástrapa

O teto é tretonal
Cada nicho que se abre
É uma passagem para minha fuga
Pode até ser fugaz

O teto serve de ninho
Onde a argiope faz sua teia
Para capturar o pássalo
Pode até ser pássaro

O teto não é totalmente inútil
É preciso valorizar o intrínseco das coisas
Mesmo que seja supérfluo
Existe um pouco de flúor na palavra.

              Ednei Pereira Rodrigues



AUTORRETRATO


Como pode água nascer
de pedra
como pode, posso eu
também ter matéria
grave e intransponível
conjugada a esta outra
transparente, irrepresável.
Basta um olhar à fotografia –
o bebê no colo
o papel envelhecido.
Ao mesmo tempo que um avança
somando anos
o outro recua, mais antigo.
Quando as tardes pareciam
maiores
quando o fim do dia
era o fim do dia
quando tatuagens não eram
para sempre.
O tapete da sala era branco
e peludo, parecia um bicho
depois da ração diária.
O sol entrava geométrico
e, espremendo-se entre as grades
desenhava escarpas
onde eu me deitava
junto ao bicho.
Eu fechava os olhos
para ver as cores no escuro.
Só o que morria era inseto.
Sorrir nunca foi fácil.
Cresço com a boca miúda
e ainda não gosto de piadas.
Conservo a interrogação
quando de frente ao espelho:
como pode ser tão diferente
o frontal do perfil?
E me pergunto, desde lá
se todos enxergamos as mesmas coisas
se a língua não é tão só
um mesmo código para coisas distintas
se entre mim e você
não há um abismo sem solução.
O que sei é o que não sei
sobre projetos de futuro.
E mesmo assim escrevo cartas
(funcionam melhor que espelhos)
para meu próprio endereço.
Me respondo como se já tivesse
arquivado toda a memória
e pudesse confortar
confrontar o porvir.
Quando escrevo me passo a limpo
sem riscar as imperfeições.
A infância ainda gravita
em mim. Não só
a minha, mas outras
que vêm com músicas
sub-reptícias, por um atalho
por onde atravessam
com a velocidade
incalculável
do tempo.
Dar nome às coisas:
primeiro passo torto
até que se deseje
as coisas puras
sem auxílio de som —
a rosa única
a pedra que se sabe pedra.
Segundo passo, falho:
inominar.
Nos retratos guardamos nos olhos
o vidro dos olhos do gato
a cama ainda desfeita
a última tempestade
e o escuro do que virá.
[Colher nas mãos o que
das mesmas mãos se extinguiu:
pedra papel tesoura.]

                       Laura Liuzzi 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A mogitocia do mogno




para Júlia Barnabé

Frugal

E se os galhos brotarem ?
E começarem a produzir frutos ?
Se for de jaqueira
O novo corpo não vai aguentar o fardo
Convém usar árvores não frutíferas
O putsch do putumuju
Insulto contido pela metáfora
Bambu para o vento assobiar
Mossô sucedâneo ao osso
A mogitocia do mogno
Outro fim para o ébano
Membros inferiores
Uma perna permutável
Faltou um ventrículo
Uma ventrículite para justificar sua inércia
Mesmo com a ventrifixação
A inapetência
Uma ameaça iminente

O caruncho responsável pelo fruncho.

                           Ednei Pereira Rodrigues

sábado, 9 de maio de 2020

Girafas em meu sonho Lilás

Descrição de imagem


Girafa escondia arco-íris

A acidez do acidente
A aciesia não serve para ser musa
Cedia para a acídia alguns estímulos
A cedilha para o silêncio
O albaroo serviu para algo
Naquele dia tinha chovido o dia inteiro
E não teve arco-íris
Será que é escarmento?
Por sempre insistir no escuro
Quando tentei encanecer
Veio uma avalanche e destruiu tudo
Alude Alucinótico
Tudo o que encandeia
Quando verdejo
Uma chuva de sapos para a Bufotenina
Quando alvoreço
A xantopsia de um âmbar que se forma
A icterícia mostra que o Sol está tentando sair pelos poros
O vermelho relho para a sangria
O semáforo tentou ser girafa
Relicário para o arco-íris
Tudo voltou ao seu lugar.


                           Ednei Pereira Rodrigues

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Oligomania incomoda a metáfora



Perspicácia


Percebe-se que a Acácia não floresceu

Acracia da natureza
Motim da Acradênia
Talvez seja natureza-morta
A gleba era infértil
Alternar a alternaria
Lídimo o Míldio
Sem libido por causa da Monília
Não adianta construir um Motel por cima
A lagnose da lagerstrêmia
Talvez um cemitério
A oligospermia era iminente
A oligonéride queria ser piéride
Minha oligomania incomoda a metáfora
Tento ser mais criativo
Não se pode exigir muito do caos
Aquele que se incorpora igual a um incórdio
Só porque hoje estava inconvulso

Avulso do que se pensa.

                              Ednei Pereira Rodrigues

terça-feira, 21 de abril de 2020

Notícia Poética

https://www1.folha.uol.com.br/turismo/2020/04/turistas-quebram-quarentena-na-india-e-sao-obrigados-a-escrever-desculpe-500-vezes.shtml


बहाना



Melhor ficar por aqui mesmo
A prudência foi tanta
Que ficou apenas PRU contra o silêncio
Tergiversar o tergo sem asas
Não ia conseguir ser redundante
Só iria conseguir bisar a brisa
Insistir no Ínsito
Teimar com as metáforas
Cismar com o que cisa
Decantações são necessárias
Faço plágio da plaga
Decalque de mim mesmo
Obrigue-os a escrever 500 poesias
Cumprirá sua incumbência sem incutir o incurso
Meação não vai adiantar
Meaçar o macaré, idem
Subterfúgios para o Submerso
Emaçar metáforas para uma nova impressão
Depois um Decametônio
O ralho sem vergalho
Admonenda adenda ao que se pensa.


                               Ednei Pereira Rodrigues

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Imolar metáforas para o silêncio


Metáfora em Cápsula

Talvez seja a cura para todos os males
Imolar metáforas para o silêncio
O imoral é imortal
A rolimã ainda serve para causar vertigem
O adejo da hoombe
Foi antes da hecatombe
Tombe antes da queda
Obtém uma competitividade estratégica
Não há mais disputa no céu
Grandes pássaros de metal
Não cortam mais nuvens
Não existe mais o perigo
De ser sugado por uma turbina
Da até para pairar sobre uma antena
Condutor metálico com vontade de ser inseto
Filiforme como o pulso
Acrídio de minha dicoria
Nem tudo precisa ser ambíguo
Nem tudo precisa causar dor.

                                             Ednei Pereira Rodrigues

***escrito após a leitura do livro Rinoceronte em Cápsula do poeta Rafael Puertas de Miranda