sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O Erário das Alucinações


 Não deem a senha do Wi-Fi para as quimeras do subconsciente

No histórico de navegação foi encontrado: Como construir uma bomba atômica. Talvez fosse apenas curiosidade, um daqueles impulsos de consultar o abismo sem a intenção declarada de saltar.

Agora que estão em Erongo, onde o último drongo interrompeu o forrageamento ao encontrar uma carcaça de gafanhoto entre as raízes de uma acácia.

Sob a vastidão árida, ainda há insetos e pequenos répteis para nutrir aqueles que persistem em sobreviver à indiferença das dunas.

A repartição para regularizar a documentação das miragens está funcionando até ao último raio de Sol; como protesto, jogaram guache no guichê.

Os funcionários suspenderam o expediente e convocaram uma assembleia para discutir a pigmentação compulsória dos formulários administrativos. A perícia constatou que o pigmento alterou irreversivelmente os carimbos, obrigando os funcionários a preencher os requerimentos com penas de pavão e tinta de polvo.

O funcionalismo perdera a paciência com aquela sucessão de formalidades. Só faltavam exigir que cada requerimento fosse acompanhado de uma escama de pangolim, três certidões de inexistência e o reconhecimento presencial de uma miragem, sob pena de suspensão temporária da cidadania dos horizontes.

A situação ameaçava transbordar todos os limites da tolerância; a normalidade desintegrava-se diante de todos. O conselho deliberou que os grãos de areia passariam a ser numerados individualmente, ficando a erosão condicionada à emissão de uma licença ambiental por partícula.

Sem encontrar uma solução definitiva, a administração transferiu o problema para um departamento ainda inexistente, cujo funcionamento dependeria da aprovação retroativa de sua própria fundação.

O fim estava próximo, e não era preciso muito esforço para provocá-lo; enquanto a temperatura global ultrapassava os registros anteriores, a escassez de água convertia-se em privilégio tarifado, e os últimos hectares de sombra eram negociados na bolsa de valores, com dividendos pagos aos que jamais precisaram caminhar sob o sol.

Temos de preservar alguma coisa para os visitantes que venham de outros sistemas solares. A única dádiva que o caos não conseguiu confiscar foi o delírio, preservado em frascos herméticos e distribuído entre os museus de uma humanidade que já não sabia distinguir a memória da invenção. Os curadores catalogavam cada fragmento de absurdo com uma precisão quase religiosa, atribuindo números de série às alucinações e cobrando taxas de visita para contemplar aquilo que outrora fora gratuito: a capacidade de imaginar um mundo diferente daquele que se desmanchava sob os próprios alicerces.

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