segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Hipóteses para um corpo improvável

 


Vejo que está demonstrando uma desenvoltura admirável e confesso que é difícil não reparar. Não quero fazer disso um solilóquio para seu ísquio, mas há algo particularmente interessante na maneira como você se movimenta, uma combinação curiosa de naturalidade e presença que acaba atraindo o olhar sem sequer pedir por ele.

Seu caixilho poderia ser seu espartilho para todo esse desbrilho, apertando as frestas por onde escapa aquilo que ainda insiste em reluzir, como se até a moldura soubesse que certas formas não nasceram para permanecer discretas.

Como esta sua cimalha está tão démodé, talvez já não consiga conter o excesso de elegância que se derrama pelas bordas. Sugiro um enquadramento minimalista, de linhas limpas e geometria assimétrica, para que o contemporâneo faça justiça ao que a moldura antiga já não consegue disfarçar.
O mundo é hostil com toda essa galhardia, querem rustificar tudo. Sugiro alguns galhos discretamente dispostos sobre a estrutura, para criar um contraste orgânico sem comprometer o verniz de modernidade.
É tempo de inércia, quando até o movimento parece cansado de procurar uma direção e a própria quietude começa a se tornar uma forma de presença, enquanto o instante permanece suspenso entre aquilo que já deixou de acontecer e aquilo que ainda não encontrou coragem para começar.
Quando Saturno é saturável, seus anéis tornam-se a última fronteira entre o corpo e o abismo e começam a circundar aquilo que o esqueceu, até que descubra que também os planetas podem transbordar e que há órbitas que se desfazem simplesmente por terem sido completadas.

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