quinta-feira, 20 de junho de 2024

Descrição de imagem

imagem:Melancholy (Melancolia) do artista romeno Albert György.A obra fica às margens do lago de Genebra, na Suíça.

 

Dentre todos os meus problemas, a escoliose é um dos menos graves

E,  felizmente, não costuma me causar grande incômodo

Ontem até respirei mais fundo

Sem se preocupar com a poluição

Toda fumaça era bem-vinda

Liberdade sustancial irrestrita

Antes a entrada só era pelos poros

Hoje toda água que bebo

É fonte insonte onde os pássaros tomam banho

Antes tudo era insopésavel

Agora os níveis de dióxido de carbono na atmosfera são mensuráveis

Instintos insopitados que  levam a agir de forma inesperada diante da situação

Considerando resoluções para insossar vínculos

Pelo menos me libertei desse deserto de dentro

Agora será mais útil, divertindo crianças 

Habitar castelos que se dissipam com o vento

Melhor assim, não quero dividir minha alcova com micoses sistêmicas

Vontade de ser Duna, parte da paisagem que se transforma a cada dia

Cisco no seu olho, provocando lágrimas imprevistas.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Inspiração urbana


 

Monólogo de um bueiro



Passos que vêm e que vão. É uma vida de movimento, de mudança, de transformação. Passos que são rápidos, passos que são lentos, passos que são silenciosos, passos que são ruidosos. Aquele está com o cordão desamarrado, cuidado, é perigoso. Ontem foi um sofá, afinal precisava de mais conforto aqui, orto de ratos. E amanhã será a vez das cortinas, para dar aquele toque final de aconchego ao ambiente, e agora estou considerando uma nova mesa de centro para completar o espaço de convivência. Parece que só as panchloras estavam felizes, não terão uma vida fácil. Se serve de consolo, minha vida também não é fácil, os habitantes da superfície parecem não gostar de nós. Parecem nutrir um certo desprezo por nós, como se a existência deles dependesse da negação da nossa. Enquanto alguns nos veem como meros receptáculos de detritos e esgoto, há outros que reconhecem em mim um ecossistema próprio, um lugar onde a vida pulsa e se adapta de maneiras surpreendentes. Esta bulimia indômita me consome diariamente, criando desafios diários que são difíceis de superar. Ninguém virá trazer presentes, o fartum está cada vez mais insuportável, pode deixar por minha conta, a genitora afinal resolveu me nomear padrinho dos seus descendentes. Vou sorver alguma coisa de útil para sua prole, talvez um cobertor, aqui faz muito frio à noite, ou talvez resquícios de algum alimento do restaurante da esquina, que sempre desperdiça comida ao invés de doar aos necessitados. Amanhã  terá uma feira aqui, sempre rola alguma coisa, talvez um tomate, dá para fazer um encólpio com o licopeno que é muito bom para a saúde, pois é rico em antioxidantes e tem várias propriedades benéficas para sua prole. Falta muita empatia entre os humanos. É um problema que afeta a forma como nos relacionamos uns com os outros. Um dia vou regurgitar tudo o que descartam aqui e farei um grande estrago, um caos que ninguém poderá controlar. Será um despertar para a realidade, uma chamada de atenção para que as pessoas finalmente entendam as consequências de seus atos. E, talvez, seja tarde demais para mudar o curso, mas ao menos as pessoas saberão o que está acontecendo. Talvez isso possa ser o início de um novo caminho, uma oportunidade para que as pessoas sejam mais conscientes e responsáveis com o que fazem.

sábado, 8 de junho de 2024

Inspiração primata


 imagem:Biblioteca São Paulo 04/06/2024 Processo Criativo com a escritora Maria Fernanda Elias Maglio.




Alamirés



Não me lembro o que eu era antes de ser poeta
Alguma coisa entre vulcão e um estertor feito de fótons
(irascível e espalhafatoso)
Todo esse anacronismo era espurco
E não aceitava toda essa combinação espúria
Precisava de algo mais, um catalisador para desencadear tudo
Um canalizador para todas flatulências
Fogo-fátuo cintilava como um segredo ancestral, entre as sombras do desconhecido
Um catalogador de memórias perdidas
Tantos déjà vus que tive, como se o passado insistisse em sussurrar segredos que o presente ainda não entendia
Será que é tão complexo reconhecer a metamorfose que ocorreu dentro de mim?
A crisálida precisava ser lida
Introdução ao desespero
Espero mais um pouco?
E o vácuo retumbante.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Inspiração lúrida

 

imagem:Laura Redfern Navarro recitando a poesia de Andressa Monteiro, facilitadores

@matryoshkabooks


Ponto cego



Filma a glia

Vai ver que está tudo bem

Ainda estou ágil

Sei que você estava afim da fima



Nistagmo abléfaro tenaz

Zéfiro faz da cortina

Sucedânea pálpebra

Agora temos um ponto cego



Miopia induzida

Incrustadas na córnea

Neandertais de épocas já vividas

Cancelamentos aconteceram devido à neblina



O que pretende fazer?

Aproveitar o aprosopo

Aprosar a parrosa

Ninguém vai te julgar.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Continuação anagramática



  A Montanha Russa


Durante meio século
A poesia foi
O paraíso de solenes idiotas.
Até que eu chegasse
e me instalasse com a minha montanha russa.
Subam, se quiserem.
Claro que não responderei se descerem
Escorrendo sangue pela boca e nariz.

Niconor Parra 

tradução: Luca Argel

 

Estou bem, não se preocupe

Guarde a padiola para o paládio

Vai ser restituído

Não vou estancar

Deixo aqui minha contribuição

Aproveite antes de sonar

Ornar o chão com folhas caídas das árvores

Quando narro uma tomada de decisão

E a vida segue seu fluxo, indiferente à minha existência

Tanto refluxo por nada

Pássaro nem sentiu seu frouxel

É por mais que você se esforce

Algumas coisas simplesmente fogem ao controle

E o mundo sempre vai ser dos pascácios

Não preciso de tanta afeição assim

Estou acostumado com agressividade

Quero sua contumélia contundente

Pois é nela que encontro o ímpeto que e alimenta o estro.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Bovídeos que me inspiram

imagem:https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/05/09/video-boi-e-encontrado-dentro-de-igreja-apos-inundacoes-no-rs.htm 09/05/2024 10h55



Reflexões sobre a impermanência e o discernimento



Espero que sua homilia seja profunda e reflexiva, trazendo paz e conforto para todos que a ouvirem

Você poderia ruminar um pouco menos

A ruminação excessiva pode nos prender em pensamentos repetitivos e não produtivos

Facilite o discernimento



Não vai apaziguar a bátega

Nada tens de hierático

Pático aos puritanos

Prático ao estro



Talvez seja impermeável

Oblata para algum nume

Anacronismo persistente

Dificulta o entendimento



Há uma discrepância latente que perturba a normalidade

Toda entropia revela a essência inexorável da transformação e do caos no universo

Desnudando a impermanência inerente a toda existência

Desafiando nossa busca por estabilidade em um mundo em constante mudança



Agora que tudo está disperso

Podemos aproveitar e encontrar beleza na impermanência e na transformação contínua

A metáfora prefere não ser resgatada

Sempre à deriva


Sem a necessidade de recuperar exatamente o que foi perdido.
 
 

sábado, 4 de maio de 2024

Onças que me inspiram


Celso Suarana é natural de Minas Gerais e radicado em São Paulo.Músico, educador,escritor e editor de livros,criador do selo Abarca Editorial.Publicou: o Cabaré do fim dos tempos(romance),Queridas quimeras(minicontos), e os infantojuvenis: Quando aprendi a dançar com o vento, em coautoria, e A noite dos gatos chorões,livro escolhido para integrar o PNLD 2023

 

Monólogo de uma guilhotina

 

Sim, estou em desuso, agora virei uma atração turística, tiram fotos e fazem chacota de mim, ninguém tem mais medo de mim. O tempo diluiu meu poder, transformando-me em uma lâmina enferrujada e emperrada que não corta nem papel e uma mera curiosidade histórica. Ainda tem nódoas de sangue aqui, mas ninguém se importa, no entanto, mesmo que tenha perdido minha ameaça física, ainda carrego o peso das vidas que ceifei, uma lembrança sombria da fragilidade da humanidade e dos extremos que podemos alcançar em nome de nossas crenças. Comecei a notar minha própria fraqueza quando uma panchlora, que acidentalmente decapitei como parte de um teste, mostrou-se surpreendentemente viva. Fiquei perplexa ao ver que, apesar do que fiz, ela continuou a se mover como se nada tivesse acontecido. Percebendo que algo extraordinário estava acontecendo, me vi intrigada com a  sua persistência . Sua resistência desafiava minha compreensão do que era possível. Será que eu estava perdendo minha eficácia, ou ela era extraordinariamente resiliente? A situação me deixou pensativa, questionando minha própria natureza e habilidades. Só depois fui entender que as baratas têm a capacidade de sobreviver por um curto período de tempo após perderem a cabeça devido à sua anatomia peculiar. Isso ocorre porque elas possuem um sistema nervoso distribuído por todo o corpo, permitindo que continuem a se mover e até mesmo responder a estímulos por algum tempo após a decapitação. Foi uma revelação intrigante, expandindo meu entendimento sobre esses seres que eu, inadvertidamente, havia subestimado. Aprendi uma valiosa lição sobre a resiliência e adaptabilidade das criaturas que compartilham este mundo conosco. Lembro da flebotomia que fazia, meu patíbulo era bíbulo agora com esse crucíbulo, fazem até festas aqui. Ontem à noite teve até um sarau em homenagem ao poeta Augusto dos Anjos. Enquanto as pessoas declamavam seus versos melancólicos, eu sentia uma pontada de nostalgia, lembrando-me das cabeças que rolaram ao som de suas palavras. A irreverência de ser palco de uma celebração poética em meio ao cenário de minha história macabra não me escapa, é como se o destino zombasse da minha antiga função. Só não dá para fazer pic-nics aqui, os espinhos do tríbulo não permitem. A ironia da história me consome, apenas um sufíbulo tremulando ao vento como encômio das existências que interrompi, todos devem ser respeitados e o turíbulo queimando o incenso e purificando o ar das lembranças ancestrais, enquanto eu perduro no ciclo da eternidade. Enquanto testemunho esse espetáculo da natureza, condenada a uma existência paradoxal entre a necessidade e a moralidade. Talvez algum dia eu tenha uma utilidade mais significativa uma redenção, do que me foi atribuído, uma transformação que me liberte das amarras do passado e me permita ser mais do que apenas uma máquina de julgamento implacável. Talvez possa ser um símbolo de renovação, de reinvenção, um instrumento não apenas de punição, mas de esperança e reconciliação. Cansei de revoluções quero algo mais pacífico como contemplar este Pôr do Sol que anuncia mais um dia que se acaba.