quinta-feira, 12 de junho de 2025

Surrealismo erótico apocalíptico



extraído do livro: Manifesto contra a felicidade eterna (ou cinco réquiens para uma morte lenta)
Júlio César Bernades 


  
O terno está na lavanderia.
Afinal, não posso ir de qualquer jeito... se for pra acabar tudo, que seja com estilo.
Toda pompa de pompeiano.
Como quem entende que o fim é só mais uma ocasião social, e toda ocasião social exige o traje adequado.
Não, ela não vai pompoarizar.
Não faz sentido multiplicar o que já está falhando em unidade.
Satélites salpicam emoções gaseificadas.
Nova especiaria.
A saudade precisa mais de sal.
Toda saliva dos corpos absorvida
não formou marés.
Foi quando o chão deixou de reconhecer meus pés.
Foi quando a sua teoria da Terra triangular só parecia absurda até percebermos que tudo afunila.
A eternidade agora tem gosto de ferrugem.
Ela entrou no compartimento como compáscuo,
(compassadamente, para não ter a acoplagem).
Quando minha acoprose te incomoda,
deveria agradecer, porque agora o gás metano encontrou utilidade.
Ela entrou na bifurcação como um coquetel molotov emocional.
Um passo em falso e tudo iria explodir.
Recuso-me a ser lixo espacial.
Parafusos soltos podem ser úteis — seguram mais
que estruturas inteiras.
Tive que perder alguns para o insight.
Aceito o vácuo que já não me surpreende.
Antenas uso na cabeça.
Sempre quis ser algum inseto.
Um besouro, talvez,
carregando ruínas nas costas, ou uma barata imortal entre desastres,
indiferente à lógica
dos grandes colapsos.
Minhocas entendem
o valor de cavar no escuro.
Vagalumes, mesmo em queda,
ainda piscam.
Se o universo não me quer humano,
que me aceite com seis pernas
e olhos que enxergam
além do visível.
E toda essa anteneasmia vai diminuir
ante ao antauge.
Sinto falta das antas:
sua calma pré-histórica,
seu andar sem pressa
em direção a lugar nenhum.
Talvez elas soubessem
que a salvação nunca foi
tecnológica.



Glossário:Pompeiano
adjetivo relativo a Pompéia, antiga cidade do Sul da Itália, sepultada em 79 pelas cinzas do Vesúvio
Anteneasmia (substantivo feminino)
Impulso ou tendência persistente ao suicídio; inclinação mórbida para tirar a própria vida.
Compáscuo- substantivo masculino Pastagem comum.
Acoprose-Falta de fezes nos intestinos. 
Antauge-substantivo masculino O mesmo que perigeu(substantivo masculino-Ponto da órbita, real ou aparente, de um astro, quando mais se aproxima da Terra)

sexta-feira, 6 de junho de 2025

O que escapa da sombra



imagem do filme:The Rainbow Thief- Alejandro Jodorowsky- 1990


Associações impertinentes: A bolha, a mácula e o cacto


Não precisa me olhar desse jeito, eu não roubei o arco-íris, e eu não tenho culpa de ser iridescente. Jamais tive qualquer inclinação cleptomaníaca. Brilhar não é crime, pelo menos não da última vez que conferi as leis da física. Se a luz resolve se despedaçar em mim, talvez seja só porque encontrou superfície. Não pedi pra refletir cor nenhuma, só estou aqui, existindo, do meu jeito translúcido demais pro conforto de uns. E sinceramente, não conheço nenhum código, nenhuma corte, nenhum veredito que declare isso um delito. Não lembro de ninguém ter escrito uma regra que proíba beleza acidental. Se incomoda, talvez seja porque revela demais, mesmo sem dizer uma palavra. E não estou sozinha nisso. Já viu as asas de uma Morpho azul? As penas de um pavão? O dorso metálico de um besouro, ou o interior de uma concha de nácar? Nenhum de nós roubou nada, apenas nascemos com esse dom inquietante de dobrar luz até ela confessar todas as cores. Se isso incomoda, talvez o problema não seja o reflexo, mas quem insiste em não querer ver.
Eu só flutuo, até encontrar com a rebutia. Meu túmulo é sarçoso, sua sarcose não é nada perto disso. E mesmo assim você se ofende com o que mal toca. Vive tentando podar o que cresce fora do seu vaso, como se espinho fosse ameaça, quando tudo o que faço é existir em silêncio, entre camadas de ar e tempo. Você esquece que não há pacto entre mim e a terra, apenas uma dança suspensa, leve demais para o seu peso.
Não sou sua ameaça. Sou sua lembrança. De quando tudo ainda era tênue e luminoso. De quando olhar não era julgar, e cor não era afronta. Eu reflito o que você esconde. E isso te fere mais do que qualquer espinho meu jamais poderia.
Não me tornei assim pra irritar. Me tornei assim porque fui deixada em paz por tempo suficiente. Cresci iridescente porque ninguém tentou me cobrir de opacidade. E agora você vem, com sua sarçose domesticada, reclama da intensidade alheia. Se sua estrutura não aguenta um reflexo, quem delimitou a forma e chamou o resto de falha? Você só reconhece o que cabe na sombra, mas esquece que até ela precisa de luz pra existir, por isso resiste ao que transgride seus limites.
Não tenho culpa se você ainda se sente sujo por dentro. Cada um lida com suas cicatrizes como pode. Eu lido com a minha efemeridade como se fosse um fogo delicado que precisa ser alimentado com cuidado, uma chama que sabe que pode se apagar a qualquer momento, mas que escolhe arder com intensidade enquanto dura.




Glossário:rebutia-espécie de cacto

sábado, 31 de maio de 2025

Inspiração urbana




Monólogo de um semáforo



Apesar do vermelho, não há raiva envolvida, estética inflamável. Não confunda intensidade com descontrole. Já quis explodir só pra deixar de conter. Aqui, a repressão veste máscara de calma. Sou o limite entre a pressa e a urgência que ninguém admite, como se o mundo pedisse contenção com a falsa gentileza de quem segura a mão só pra impedir o soco. Sim, eu oscilo, sou instável com propósito. Já fui constância, hoje sou risco calculado com gosto de caos. O verde causa todo esse azáfama como uma azagaia que me fere, ainda me pega desprevenido, como se fosse a primeira vez. Já devia ter virado hábito, mas ainda dói como se cada passagem fosse um abandono. Permitir o fluxo é rasgar um pedaço do que tentei conter, e, mesmo cercado de rotina, há algo de profundamente solitário em ser a pausa entre dois mundos que nunca olham pra trás. Já quis ser pespego, mas este pespeneiro continua a me lacerar, fixando-se no âmago do meu ser. A cidade te mastiga em silêncio e regurgita teus ossos na calçada. Antes, repetia padrões; agora, sou cálculo à beira do colapso, equilíbrio à beira da vertigem. O impulso adiante me atravessa como lâmina, sempre súbito, sempre fundo. Nunca virou costume: cada rompimento ainda me esvazia como se partisse algo que lutei pra manter inteiro. Deixar passar é abrir ferida. Há rotina, sim, mas nenhuma que cure a solidão de ser o instante que separa dois tempos que nunca se pertencem. Já ansiei repouso, mas este movimento sem fim me arranha por dentro, fincando sua permanência onde mais arde. Já quis reverenciar o poeta que fez de mim sua segunda pele, me moldei pra caber no contorno do seu silêncio, se cobriu de mim pra não encarar a própria nudez, me assumiu no corpo, mas nunca na alma. Carrego o rastro do que você esqueceu em mim. Sinto o que deixou em mim, cravado na espinha do que somos, costurado no fio da existência. Está escrito: “O fluxo e o perluxo do suxo se dispersam na imensidão”, ficou como um epitáfio que ninguém lê, invisível ao olhar apressado que só busca atravessar. Quando verdejo, na verdade é um protesto por mais árvores nesta cidade tão cinza, e finjo consentimento enquanto sou corroído por dentro. Observo os corpos se apressando como se corressem para longe de si mesmos, cada passo uma tentativa de fuga, cada olhar um reflexo do medo de parar, porque parar significaria encarar o vazio que habita por trás das buzinas, que gritam mais alto que qualquer pensamento. Sou parte de uma coreografia forçada onde ninguém sabe a música, apenas obedecem ao compasso surdo da pressa. Às vezes queria me dissolver no asfalto, escorrer para os bueiros e sumir com toda essa urgência fabricada, mas permaneço, porque sei que, sem mim, tudo desabaria. Talvez por isso me detestem em silêncio, como se minha existência fosse um lembrete constante de que há algo fora do controle, algo que exige espera, e esperar virou sinônimo de derrota num tempo em que vencer é chegar primeiro, nem que seja ao nada. Quando estou fúlvido, é como se o mundo prendesse a respiração por um segundo que ninguém respeita. Sou o intervalo dourado entre o ímpeto e o impacto, o brilho que antecede o erro, o clarão que avisa mas não convence. Cintilo como um presságio que ninguém deseja ouvir. Sou ignorado com a mesma facilidade com que se ignora a própria intuição. Meu dourado não é luz, é prenúncio, é fratura em forma de cor, e mesmo assim continuo a existir, como se ainda houvesse chance de ser compreendido. Mas já entendi que aqui não há espaço para nuances, só extremos.

terça-feira, 20 de maio de 2025

O Abismo que Lê

imagem:@visionaryaiimagination




A biblioteca era submersa, e um certo desagrado pairava sobre alguém: utilizar vestimenta adequada para imersão prolongada, toda vez que queria ler algo, era um incômodo constante. O traje colava à pele como uma segunda camada fria, e o processo de equipar-se tomava preciosos minutos de preparação. Ainda assim, o verdadeiro desconforto vinha depois, ao adentrar as salas inundadas de silêncio líquido, onde os livros flutuavam presos por correntes finas ou repousavam em estantes seladas, acessíveis apenas com o visor correto e gestos precisos.
O escafandro era aflitivo: apertava a cabeça e abafava os sons do próprio pensamento. A cada descida, a pressão ao redor parecia comprimir não apenas o corpo, mas também a vontade. O ambiente subaquático exigia concentração constante: uma piscada mais longa podia comprometer a leitura, um movimento em falso fazia as páginas se afastarem, vagando lentamente até o teto translúcido do recinto. As palavras, ampliadas pelas lentes, emergiam diante dos olhos como espectros, difíceis de fixar.
Ela era uma arqueóloga subaquática, e isso não era problema para ela, pelo menos não no início. Havia algo quase ritualístico no ato de se preparar, como se cada camada de roupa e equipamento representasse uma transição para outra realidade. Contudo, o que antes era fascínio agora tornava-se desgaste. A biblioteca parecia viva, não em um sentido biológico, mas como uma entidade que reagia à presença humana. A sensação de estar sendo observada crescia a cada visita, embora nenhum sensor ou monitor indicasse anomalias.
Foi depois de um maremoto que tudo começou a se alterar de maneira mais evidente. A estrutura da biblioteca, antes estável apesar da profundidade, apresentava fissuras sutis que não constavam nos registros anteriores. As colunas de contenção, cobertas por corais e sedimentos ao longo de décadas, agora expunham partes metálicas reluzentes, como se tivessem sido recentemente raspadas por uma força invisível. E agora as folhas dos livros estavam espalhadas por todo o espaço, flutuando lentamente pelas águas escuras. O impacto parecia ter rasgado a essência do lugar, fazendo com que volumes antes cuidadosamente organizados se desintegrassem em pedaços dispersos.
As páginas se soltavam das capas, girando suavemente, como se levadas por uma corrente invisível. O silêncio, antes denso e abafado, agora parecia carregado de um peso novo, algo entre o caos e o mistério. As adjacências estavam cobertas por fragmentos de texto, palavras que, antes enredadas na ordem rígida das prateleiras, agora se viam livres, porém dispersas. O lugar parecia um labirinto de letras e pensamentos. Uma poesia encharcada sobre uma rocha seca, com o Sol refletindo na água calma — tudo parecia efêmero, irreparável.
Os pensamentos que antes estavam restritos a páginas perfeitamente alinhadas agora flutuavam sem direção, livres em um mar de incertezas. O cenário que se desenhava diante dos olhos era, ao mesmo tempo, desolador e fascinante. Os fragmentos que antes formavam relatos, teorias e ideias agora se misturavam como uma aquarela desfeita pela correnteza. Ficou mais difícil para ela. Teria mais trabalho agora, para organizar tudo aquilo.
Ela tentou recolher os fragmentos, mas os gestos precisos de antes já não produziam o mesmo efeito. As páginas escapavam das mãos como se possuíssem vontade própria, unindo-se a outras que contradiziam suas origens. Um tratado filosófico fundia-se a uma poesia; uma lista de códigos, com fragmentos de cartas esquecidas. Tudo parecia testar os limites da compreensão, como se aquele espaço tivesse deixado de armazenar conhecimento e passado a criar novas formas de pensamento por si mesmo.
Essa fusão inesperada sugere que o lugar não apenas armazenava memória, mas reconfigurava significados. Talvez estivesse reagindo a uma necessidade não dita, talvez estivesse respondendo a quem ousava mergulhar em suas profundezas. Era como se o conhecimento não quisesse mais ser consultado, mas vivido, intuído, sentido por aproximação, um pensamento líquido, em constante recomposição.

sábado, 10 de maio de 2025

Inspiração hierática


imagem: O navio dos loucos- Hieronymus Bosch

Da Tília provém vitualhas, o legorne empalado no fronde, tudo exige esforço para ser alcançado. Na alheta, um ébrio exige costeleta, cospe penas no pargo ainda vivo, preso por crinas de cavalo em um galho, e grita: AGORA VAI APRENDER A VOAR! O tamborilador de crânios marca o compasso dos que dançam sem sombra, enquanto uma sóror endemoniada entoa ladainhas satânicas em seu alaúde. A ossatura na amura, para roerem depois, serve de troféu ao pierrô cego que calcula estrelas com um garfo.

Estavam desrespeitando o alimento sagrado, ultrajavam aquilo que deveria ser reverenciado: o maná para o manaça, a ambrosia para o ambroso, o sangue para o sedento, a seiva para o espasmo. A quilha regurgita caroços de fruta mastigada por bocas inexistentes. Os que se refestelam sobre um tapete de vísceras confundem-se em risos histéricos. A língua bifurcada da sibila lambe o cálice de fel, e seus olhos ausentes piscam em descompasso com o relinchar da besta disfarçada de anjo.

Tudo é oferenda, mas ninguém agradece. Enquanto o fole do anacoreta estufa e murcha como pulmão em suplício, deixaram aquela anaconda humana à própria sorte. Cada balanço da embarcação é um julgamento, cada ranger da madeira, confissão arrancada da língua por mastigações de silêncio. Não incomode o trasgo. Se tem um vigia, por que deixaram a pândega sair do controle? Talvez para testar os limites, medir até onde a estrutura suportaria a carga da desordem. Há quem invoque o tumulto apenas para observar, e quem se atreve a contê-lo?

Tolerar o desvario pode ser também um modo de reconhecer os que ainda preservam discernimento, os que não se rendem à cadência do exagero. Dos galhos retorcidos surgem murmúrios esquecidos, ancestrais ocultos zelam por segredos entre musgos e raízes. Evite passos ruidosos, pois há pactos selados no convés. A decídua não serve como um mastro, porque sua estrutura natural, com ramificações irregulares e densidade variável, compromete a resistência mecânica e dificulta a fixação de velas ou outros componentes náuticos.

O desvario começou com um sussurro, e agora cresce como hera sobre pedra antiga. Quem ousará restaurar a ordem antes que o breu engula o que restou do juízo?

Vai ter que parar de comer se quiser cantar, engasgo iminente. Depois, não culpe a gluma quando a bruma que você glugluta escurecer as ilhotas de Langerhans.

Lamentamos pelos inconvenientes causados. Desculpe-nos por não oferecer um conforto que seja realmente reparador. Quando o corpo se torna um campo de batalhas internas, sobrecarregado de desejos insaciáveis, não sabe mais distinguir entre necessidade e exagero. Não há retorno quando se perde o caminho entre o prazer e a dor. Nada pode ser desperdiçado, estamos enfrentando escassez de recursos.

Colocamos coletores de alimento. Não se assustem com eles, apesar de suas feições. São irmãos nossos, escolhidos para a tarefa ingrata de recolher o que sobra, vasculhar migalhas entre os dentes, lamber os pratos secos, remexer nas entranhas das frutas podres. Alguns já esqueceram que foram homens, agacham-se nos cantos, farejando o chão como cães famintos, disputando com as ratazanas a última partícula de carne.

Quando o alimento acabar, sobreviverá a fome ou a razão? Vão virar canibais, não por crueldade, mas por desespero, arrancando a humanidade dos ossos uns dos outros, na tentativa de prolongar o inevitável. A ética será esquecida como um livro molhado num naufrágio, e os olhos, outrora cheios de compaixão, buscarão carne, não companhia.

A árvore, no lugar do mastro, compromete a estabilidade. O mar, impiedoso, não perdoa improvisos. O vento castiga, e nós, frágeis, resistimos como podemos. O orgulho se despedaça no convés, junto com os estalos secos da madeira velha. Já não há espaço para vaidades. O que resta é sobreviver.

Continuam a navegar, sem se  preocupar com regras, deixando o vento e as estrelas guiarem nosso destino. A cada onda que quebrava contra o casco, mais se entregavam à liberdade que o mar nos oferecia. Não havia um rumo certo, apenas o desejo de explorar o desconhecido, de estar perdido para, talvez, nos encontrar em algum lugar melhor.

Quando paravam em algum píer, a piêmese da piela era evidente, e tudo isso nos deixava imunes à pieguice da piesimetria. Mas alguém sempre gritava: BLASFÊMIA! E ninguém parecia se importar, quando a sensação é de que já estavam afundando lentamente dentro deles mesmos.


Glossário:
Legorne, palavra derivada do inglês Leghorn, designa a raça de galinha poedeira de ovos brancos, oriunda da região de Livorno, Itália.
alheta: Prolongamento externo da popa do navio.
anacoreta:religioso que vive na solidão.
ilhotas de Langerhans.Ilhotas pancreáticas (ou Ilhotas de Langerhans) são um grupo especial de células do pâncreas que produzem  insulina.
Manaça: homem indolente.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Inspiração pueril




Monólogo de uma gangorra


Gango para sua incoerência, quando a inflamação de um gânglio limita, e o corpo silencia onde a alma ainda grita, mas ainda assim sorrio com a ternura de quem entende o caos. Gangarreão e sua peculiar idiossincrasia, mesmo assim ainda tem a gangarilha, quando que de gângaras para um mundo que se arrasta em lentidão, como se cada passo fosse dado com a resistência de um corpo cansado de lutar contra si mesmo. Toda essa ledice efêmera me incomoda. Quando estou no ápice, sinto poder apalpar Aldebaran, quase pego a maçã da macieira e sinto toda a maciez das folhas que dançam no vento, sem se preocupar com nada. É nesse instante que tudo parece fazer sentido, mesmo que por breves segundos. As maçãs reluzem como se carregassem dentro de si a sabedoria do início. Nunca vou comê-las, não por falta de desejo, mas por saber que certas coisas existem apenas para serem contempladas, e eu quase escuto o estalo das suas cascas se abrindo para revelar o suco da memória. O mundo se curva em pequenas ondas de nostalgia, compreendo que a leveza é, na verdade, o disfarce da dor.
Quando estou na gleba, sinto o ínfimo vil se dissolver no murmúrio das raízes, como se o chão sussurrasse segredos enterrados sob o peso do tempo. A poeira se ergue em espirais suaves, desenhando no ar a memória de passos antigos que já não sei se são meus. Tudo se move em lentidão, mas há uma precisão nisso, uma cadência quase sagrada que escapa à lógica e repousa apenas na intuição. A terra exala lembranças esquecidas, como se cada grão soubesse mais sobre mim do que minha própria memória ousa admitir. Os pés afundam, aceitando o peso que não se vê, e cada passo é como uma conversa com o telúrico, a qual me leva a perguntar aos vermes: O que é ser poeira, senão matéria que se reinventa ao se fundir com a terra? Sinto o petrichor da bátega que caiu sobre mim a noite inteira. Pelo menos vai lavar o vômito em mim, limpar as marcas invisíveis que carrego. A chuva parece não só apagar a sujeira, mas também suavizar a dureza do ser que se acostuma a suportar sem questionar. Cada gota que cai carrega um peso alheio, como se, ao entrar em contato com meu corpo, absorvesse o que me afasta de tudo o que é puro. A terra, agora saturada, me abraça com uma suavidade inesperada, e sinto o calor de suas raízes se infiltrando sob minha pele, fazendo-me lembrar que pertenço a algo maior que meus próprios dilemas. O chão, com suas infinitas camadas de histórias, fala sem palavras, em uma língua ancestral que não precisa de tradução. Eu a entendo, porque sempre soube que, no fundo, as respostas estão todas aqui, sob o peso do silêncio.
Sinto o prurido do gadanho afiado do pássaro que em mim pousou. Às vezes queria voar, sair um pouco de mim, escapar da rotina, do peso dos dias que se repetem. Imagino como seria deixar tudo para trás por um instante, só para ver o mundo de outro lugar, de cima, com mais clareza. Talvez não fosse uma fuga, mas um jeito de entender melhor o que sinto aqui embaixo. Não sei se o pássaro veio me ensinar ou apenas lembrar que ainda tenho esse desejo de movimento dentro de mim. Mas ele está aqui, firme, como se dissesse que voar é mais uma questão de coragem do que de asas.
O dia está calmo hoje, nenhuma criança por perto. Sinto folhas caindo sobre mim. São leves, não conseguem me mover. Apenas se acumulam, uma a uma, formando uma camada fina de silêncio e tempo. O ar está morno, quase parado, como se o mundo estivesse esperando alguma coisa que não chega. Apenas um cachorro veio urinar sobre mim, e o cheiro me invade, desagradável, como se a tranquilidade do momento tivesse sido rompida de maneira inesperada. Esse animal podia, ao menos, escolher outro lugar. Por que justamente eu? Com tanta árvore por aí, acho que o perro ficou obcecado comigo. Agora ele cava ao meu lado como se quisesse me exumar. Cada movimento dele é uma martelada nos meus pensamentos, uma lembrança de que até na quietude algo sempre vai interromper. Eu observo, impotente, o animal fazer sua escavação, como se estivesse determinado a desenterrar algum segredo que nem eu sabia que guardava. O barulho das patas contra o solo me incomoda, uma espécie de insistência sem sentido. Se ao menos ele soubesse o quão desconfortável é ser o alvo de sua curiosidade, talvez procurasse outro lugar para aliviar suas necessidades. A cada escavação, sinto a base embaixo de mim afrouxar, como se estivesse prestes a ceder. Eu já estava firme, mas agora a pressão do solo se desfaz, e a sensação de que estou prestes a cair cresce. Não queria provocar quedas ou acidentes, mas agora a sensação de que estou prestes a sucumbir é inevitável. Não é culpa minha que ele tenha escolhido este lugar, mas, de alguma forma, agora sou eu quem arca com as consequências. Eu só queria que ele parasse, que encontrasse outro lugar para se distrair, que sua insistência não interferisse mais em minha paciência.



Glossário:gango-substantivo masculino[Portugal] O mesmo que mimo, meiguice.
Gangarreão-substantivo masculino.Desordem mais ou menos profunda na saúde de alguém.
gangarilha-substantivo feminino[Teatro] Companhia itinerante, com poucos atores, no teatro espanhol. 
Gângaras-De gângaras, indolentemente; de má vontade.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Inspiração frugal




Imagem:filme A cor da Romã(The Color of Pomegranates)1968
Sergei Parajanov




Manual para um Caos Deliberado


A arte de empilhar é pura organização. Depois, você pode colocar os títulos em ordem alfabética para facilitar na hora da busca por um autor específico. Cuidado com o especilho, você ainda está se recuperando, e esses calhamaços não são leves, principalmente as enciclopédias. Uma especiosidade espectável quando se especula sobre o caos, o espedaçamento e o espeitamento do que se sente. O vento às vezes tenta derrubar tudo, como se testasse sua fé na gravidade e na literatura. As cores também contam histórias. Tente agrupá-las, cores lado a lado criam uma nova narrativa, estilo arco-íris. Sempre funciona. Vai que o cérebro lembra melhor pela cor da capa, mas se o leitor for daltônico, isto será um problema. Nesse caso, experimente sinalizar com símbolos discretos na capa, pequenos traços, pontos ou figuras geométricas.
Estrelas para poesia, quadrados para ciências exatas, triângulos indicando ficção, círculos sugerindo filosofia.
Assim, mesmo que os tons se confundam aos olhos, a lógica permanece acessível. O conteúdo continua mapeado, não pelas aparências, mas pela intenção.Uma linguagem secreta entre o leitor e o acervo,um código silencioso que respeita cada limitação como se fosse estilo. Melhor não deixar a métrica perto de estatísticas demográficas. Ela se assusta fácil. As metáforas dançam, os números marcham, mantenha uma distância elegante. Iletrados virão. Não vai precisar se preocupar com o ilegítimo e o ilenível será subestimado. Seria melhor utilizar o ileísmo até que as margens deixem de ser fronteiras e passem a ser espelhos. O ileísmo protege, não como armadura, mas como disfarce. Ao falar de si na terceira pessoa, desloca-se o centro da dor, distribui-se o peso, dá-se tempo ao entendimento. O afastamento cria frestas por onde o sentido escorre sem ser coagido. É nessa dissociação que algo nasce, algo que não depende do verbo nem da norma, mas do gesto de se colocar diante do mundo com olhos desalinhados. Quadrúpedes virão, guiados pelos quasares, e a aproximação se dará em passos baixos e firmes. Chegarão arrastando séculos de silêncio sob as patas. Serão criaturas que não pedem licença ao vocabulário. Você terá que fazer algo que interrompa o avanço sem violência, algo que desfaça o chamado sem negar a presença.Talvez dispor espelhos voltados para o solo. Ruídos agudos em frequência quase inaudível, nada agressivo, apenas inóspito. Eles entenderão. Não se trata de hostilidade, mas de delimitação. O espaço precisa manter sua arquitetura simbólica, e nem todo visitante se alinha ao pacto da leitura. O silêncio, aqui, tem outra densidade. Melhor evitar que patas cruzem a soleira onde olhos ainda tropeçam em sílabas. Sapientes virão e vão dizer que já sabem tudo. E, claro, virão com suas teorias prontas, fórmulas que juram universais. Dirão que está desorganizado, que falta método, ignorando que o caos aqui é deliberado, milimetricamente caótico, feito para testar a percepção, não para agradar a norma. Vão rir dos símbolos nas capas, achar “poético demais”, “infantil talvez”, sem saber que cada sinal é uma senha, uma chave pequena demais para mãos tão ocupadas com teorias. Falarão com a segurança dos que acreditam ter encerrado o diálogo com o mundo, como se o tempo já lhes tivesse contado todos os segredos e nada mais restasse senão repetir conclusões. Ignorarão os silêncios entre as linhas, os desvios que o olhar faz quando tropeça numa ideia ainda sem nome. Não notarão que o que permanece quieto não está inerte, mas à espera.Porque há formas de saber que não se impõem, se insinuam. E aquilo que realmente transforma não grita, apenas respira. Afirmando que os conceitos são reciclados, que o pensamento ali contido gira em círculos antigos. Não enxergarão as dobras da memória que se alojam em cada parágrafo, nem os desvios sutis que uma frase pode operar dentro de quem lê com presença. Lepismas virão, atraídas pela quietude e pelo sabor antigo das folhas esquecidas. Serão notadas primeiro pelos rastros tênues, pelas bordas gastas, pelos vestígios quase invisíveis entre capítulos. A resposta será silenciosa, meticulosa. Frascos de cravo escondidos entre volumes, pequenos sacos de lavanda costurados à mão, repousando junto aos diários. A brisa será medida, as janelas abertas apenas nas horas certas, jamais sob o sol direto. Alguns textos serão envolvidos em tecido de algodão cru, outros, revezados em posição para que o repouso não seja abrigo.


Glossário:
Especilho
substantivo masculino[Medicina] Tenta cirúrgica.
Tenta
substantivo feminino[Medicina] Espécie de estilete para sondar fendas.