sábado, 29 de setembro de 2018

Essência floral


As flores que eu colho
não são essas, frementes
na iluminação da manhã;
são, se as colho, as dum jardim contrário,
nascido desses, vossos, de sua terrosa
raiz, mas crescido inverso
como a imagem na água;
onde não chegam os pássaros
com o seu roubo, no exasperado coração da terra,
floresce, tigre, isento de odor.
 
Ferreira Gullar





Sarçoso

A epiderme da metáfora se presta ao epicurismo
Não se importa com a epidemia verborrágica que se espalha
Emanando de cada poro
O pronome prônefro o traduz como um axioma
Para deixar de ser hermético
O espinho espigaitado é uma bravata
Metade pinho
A flor notívaga tenta desabrochar mas não consegue
Ipoméias é uma hipótese mais provável
Não me satisfaço com meias verdades
Metade adéfago
Ainda diz que é afago
Devorar o pistilo como postre
Ainda é révora sem pólvora
De onde vem está luz?
Quase poste
A ptose da essência.

                                                  EPR

sábado, 8 de setembro de 2018

Insultos poéticos


cardume:
sombra imprecisa
cárdea
negra
ou azul
movimento unânime
sobressalto sob a água
espessa
esquiva
densa

cardume:
feixe de peixes
corso de dorsos
duros e lisos
deslizando em bando
 esquivas escamas
leve
breve
branca

                              Marco Catalão


Mondrongo


Moon para inspirar
Vontade de ser Neologismo
Drongo no armistício
Rongó nua,parecia Lua
Rotunda tunda 
Biscate com ascite
Ninguém se importava com suas crateras
Langanho de Langrenus
Meu único ganho
O esquecimento de tudo
Não preciso de muito
Bagatelas na tela
Biscato do que eu penso 
Isca para o cardume
Aba do Aba-aba 
ABBA contra o silêncio
Ictiografia para se afogar
A metáfora precisa de guelras
Batiscafo para os detalhes
Anichar animais no anideísmo.

                                           Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Langrenus-Langrenus é o nome de uma cratera de impacto lunar, situada no lado visível da Lua. Ela fica localizada no lado Leste da borda do Mare Fecunditatis, no lado Leste da Lua.
Aba-aba (Gymnarchus niloticus) é o único peixe da família Gymnarchidae  é descrito como tendo um corpo longo, sem as barbatanas caudal.

 

Ao Luar

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

                                            Augusto dos Anjos         


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Plágio de mim mesmo



escândalo

o que há numa palavra
para causar escândalo?
um cacófato esdrúxulo?
um acento que clama?


quem reputa meu léxico
desaforado ou cândido?
a palavra escandida
não nos revela nada


há sílabas lascivas?
vocábulos imáculos?
há verbos pervertidos?
palavras pudibundas?


ou o móbil do escândalo
não está no vocábulo
mas na língua que o liba
nos olhos que o devassam?

                       Marco Catalão


Falésias (monólogos)

Fale,mesmo que o silêncio de falecias
Seja ubíquo
O umbigo ainda é sinônimo de vida
Mesmo que seja efêmera:falena
Onde as lágrimas do olho com catarata desembocam
O olho com vontade de ser cachoeira 
Lábil Label
O asseio do lábeu
A libélula desconfiada da rasantes
Vontade de ser helicóptero
O assunto não é assumpto 
Assunar se preciso 
Assumo os assomos de ímpeto
Depois eu sumo, é fica por isso mesmo 
Sem explicação do expletivo
Capaz de explanar o óbvio
Obvolvido entre anseios
O pudor não permitiu a grafia do úbere
Censura prévia.

                                        Ednei P.Rodrigues

Glossário:
Cachoeira do Label :São João d'Aliança,  Goiás A cachoeira, cuja altura foi aferida recentemente, está localizada na Serra Geral do Paranã e é formada pelo córrego Extrema. Um pouco antes da Cachoeira do Label está situada a Cachoeira da Andorinha, formada por dois degraus, com cerca de 100 metros de queda.





Gato escondido

O til parece com a cauda
Não falar com o conhecimento de causa
Provoca dúvidas, a pausa
Disfarce, a claque que aplauda
Em seguida o ponto de interrogação
Parece com uma bengala
Ou adaga, melhor que bala
Corta o adágio que interrompe a ação
Os acentos circunflexos
Parecem com suas orelhas
Aconselha as abelhas
A não construírem sua colmeia no complexo
Atiraram o cajado no gato
Esquecida por um gagá leviano
Gago ao dizer eu te amo
Tartamudeio como as tartarugas no hiato
Irá a Paris pelo retrato
Só para ver o Luar
Acentua antes que eu conclua
Quando o hífen separa o abstrato
Separar o joio do trigo no tato
E o gado
E o agrado
Para dar a impressão de olfato
De algo bucólico
Bufa o búfalo
E o burundum no resvalo
O brumbrum idílico
Sem armas no intuito
Só com seu buquê
Um buque no estuque
Também não ia ajudar muito
Quando a ignorância
E igual a de um iguana
Mostra-se atelépode na gana
Em atenção a arrogância
Chique e o chiqueiro da elite
Cliente de clichês
Cita o descortês
Pararam para ouvir a cítara sem limite.

                                          Ednei P. Rodrigues

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Batologia

   
carapaça

impossível penetrar
na palavra carapaça:
cerrada
espessa
murada
com sua fila de as
ela permanece intacta


não tem abertura esconsa
da palavra carapuça
nem tampouco o oblíquo sol
da palavra caracol
ou sequer o brilho ambíguo
da palavra carabina


nenhuma luz 
nenhum brilho
na sua cara fechada:

impossível penetrar
na palavra carapaça.


                                               Marco Catalão



Utopia

Metade pássaro
O gorjeio estridente 
Percebi uma matiz de Fênix
Matriz do adejo
Empena a inércia
Remição de Rêmiges  
O piáculo foi o pialo 
Piamba acerta o alvo 
Há piedade para a picardia
A pia côncova cincava
Não limpa a grimpa 
Às vezes o ralo entope 
Entorpece o são
A torneira imbrífera 
Vontade de ser nuvem 
O peso da metáfora
Altera o andor
A dor continua a mesma 
Intacta.


                                          Ednei P.Rodrigues





A Intacta Ferida

Não tenho lágrimas
estou mais baixo
junto à cal

Vejo o solo extinto
Não oiço ninguém
e não regresso

Adormecer talvez
junto a uma estaca
com uma pequena pedra
sobre as pálpebras


                                    Antonio Ramos Rosa 

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Mais do Mesmo


cônjuge

jugo conjunto
tédios enjaulados
enjoo ungido


concha sem pérolas
algemas gêmeas
arranjo incôngruo
cangas engajadas


conchavo acochambrado
mútuo amuo
jejum jungido
termo inconjugável


beijo sem gosto
gozo sem desejo
dislate tácito
que se desata


não com um barraco
mas com um bocejo


                            Marco Catalão



Concatenar

Não adianta procurar com o tenar
Conca sem pérola
Onça sem mata
Cona sem prazer
Cota de regozijo para a solidão
Otalgia do silêncio ensurdecedor  
O tal sabia da talaca
O talado da solidão 
Separa a sépala da flor 
Lascívia Lacínia
Decerto o lacerto foi descorberto
Anatomia que mia 
Vontade de ser felino
Angorá agora é âncora
Sem amplexo
Agrado atigrado
Nenhuma forma de afeto.

                                    Ednei P.Rodrigues

terça-feira, 31 de julho de 2018

Sob a face neutra


Amora 

a palavra amora
seria talvez menos doce
e um pouco menos vermelha
se não trouxesse em seu corpo
(como um velado esplendor)
a memória da palavra amor

a palavra amargo 
seria talvez mais doce
e um pouco menos acerba
se não trouxesse em seu corpo
(como sombra a espreitar)
a memória da palavra amar

                            Marco Catalão


***poesia escrita após a leitura do livro:Sob a Face neutra do poeta Marco Catalão 


Angústia

Não é angu
Ouvindo Angus Young
Não me sinto mais jovem 
Não é edível
A fubana quase fuba
Espera com sabor de pera
Sob a sombra do frugal
Vai se formando a árvore
Sem diploma
Sem poma por causa do plomo
Plota sua imagem na retina
Lota de lágrimas,não é tina
Ouvindo Tina Turner
Transborda na borda do precipício
Obra que se dobra 
Vontade de ser origâmi
Tsuru no Tsunami
Dorna que orna a dor 
Uma cuba de argila
Para todo comunismo 
Teria mais savana em Havana 
Uma consoante que se pode consirar
Tudo é perfeitamente conciliável.

                                     Ednei P.Rodrigues

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Surrealismo erótico

Da Condição Humana


Todos sofremos. 
O mesmo ferro oculto 
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta 
O mesmo sal nos queima os olhos vivos. 
Em todos dorme 
A humanidade que nos foi imposta. 
Onde nos encontramos, divergimos. 
É por sermos iguais que nos esquecemos 
Que foi do mesmo sangue, 
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
Ary dos Santos, "liturgia do Sangue"





Merchandising erótico abstruso


Não existe amor 
A solidão interrompeu o pajero
A polução polui o ambiente
Conspurca a prunela
Prudência no que está por vir 
O pruído do puído é a urtiga
A intriga que abriga o âmago
A mágoa profunda
O magnum faz adoxografia a inércia
E o tiro que saiu pela culatra 
Não acerta as magnólias
E o epidídimo orna o corpo egro
O que eu ergo é estéril
O dídimo é impossível
Nada é mais lídimo
Preciso de um dínamo
Para terminar esta poesia
Vão mesmo dinamitar tudo ao redor?
Um pouco de áscua na ascona.

                                                                                Ednei P.Rodrigues


Glossário:
Pajero:palavra em espanhol que significa masturbação
prunela:planta medicinal também conhecida como auto-cura
magnum:osso grande do crânio,marca de arma
Adoxografia:Arte de escrever muito bem sobre assuntos banais.Enaltecimento desmerecido sobre algo ou alguém; elogio imerecido.
epidídimo:pequeno ducto que coleta e armazena os espermatozóides produzidos pelo testículo; localiza-se atrás do testículo, no saco escrotal, e desemboca na base do ducto deferente
dídimo:Que cresce aos pares. Que se divide em dois lados.
lídimo:légitimo
Áscua:Brasa, carvão ardente.
ascona:O Ascona foi um modelo de automóvel porte médio da Opel. Em Portugal era vendido como 1604 devido à semelhança entre Ascona e um palavrão.