terça-feira, 30 de agosto de 2016

Olimpoesia


Fui na padaria Sabor de mel
outro dia de manhã
reparei que as pessoas
assistiam o jornal na televisão
todos atentos as notícias
embora soubessem que sempre é a 
mesma coisa.Crimes, corrupção e acidentes
entendo que as medalhas nas olimpíadas não
resolvem os problemas dos brasileiros.

CarlosAssis





Variações da Vara

Percha escarcha no Empíreo
Ou mastro de nave, navio
Selenitas jogam golfe na Lua
O fadejar do fade
Muligan em Maginus
O verbo gerbo desponta
Sapo com apo no apófige
Intanha façanha conquistada
Todo escarcéu adjunto
Coendu adendo crescendo
Fiambre no escalambre
Ou mufla de tomada elétrica
Aguarda o curto-circuito
Elétron ao relento
Recordo do recorde atingido
Ouro ousado que outrega
A áurea da araué
A prata para aptar a barata 
O bronze que brotoeja no peito
Vitória do Torilo
Derrota necessária para o autoconhecimento
Remisga de esgrima como espólio.


                                                         Ednei Rodrigues

Glossário:

Percha:Vara, acessório de ginastas, equilibristas etc.
escarcha:congelar
fadejar:Cumprir o fado ou o destino.
Fade (golfe): efeito de vôo da bola, finalizando a sua trajetória com pequeno desvio para a direita.
Muligan:(golfe)nome que se dá à segunda bola quando se falha a primeira tacada.
Maginus:cratera da Lua 
gerbo:Mamífero miomorfo roedor da família dos dipodídeos, de patas traseiras muito compridas, com três dedos, que são bons saltadores
apo:Haste de ferro ou madeira
 intanha:espécie grande de sapo
coendo:Grunhido do porco
escalambre:de escalambrar.
Ação de escambrar, de haver uma fresta, abertura num céu enevoado.
mufla:Ornato em forma de focinho de animal.
Araué:espécie de barata
Torilo:Ponto de onde nasce a flor, no pedúnculo.
Resmiga:vestígios,restos de alguma coisa.



Independência


Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Jorge de Sena"'Coroa da Terra"'



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Anatomia da flor


Ponta de Lança


Seria preciso não dizer

E isto fosse o mais fundo 

Orgasmo que pranteia.




Subir,espocar,descer 

E no furor da alegria

Abrir-se também como flor

A velha úlcera encarniçada,

Uma luz que deliquescesse.




Ainda sem dizer,

Adorar o azinhavre,a ferrugem,

A maçã resplandecente no esterco,




Isto fosse a paz,e seria

A mais tácita das guerras.




De uma audácia tão franca 

(Ponta de lança)

E tão áspero espanto,

Despir a cartilagem

Para chegar à cor do crepúsculo. 


Mariana Ianelli
 


Golpe inexistente

Punhos cerrados
Soco no osco
Incute a pancárpia
Seu androceu abrangeu Andrômeda
Arilo como airol para imperfeições
Tegme que geme
Algum gluma
Nenhuma puma 
Não ruge com o Hadaka jime
Plastron plausível de asfixia 
Afrouxa o nó górdio
É mostra sua frigidez de frigana rasteira
Irrigar seu garrigue
Bodega sem bondage
Godemiche para todo fetiche
Desmatamento necessário para o êxtase
Existe uma gota de paz na ponta que desponta 
Afronta com o abstrato
No front de dentro
Sarissa à risca do inerante
Sacia os reféns do frenesi     
Inferes inferiormente o ínfero 
Inerme sou mais atroz.

                                                            Ednei Rodrigues
Glossário:

osco é sinônimo de: embuçado,disfarçado 
pancárpia:coroa de flores
androceu:órgãos masculinos de uma flor
arilo:tegumento de certas sementes
airol:antiséptico
tegme:Membrana interna da semente
gluma:sinônimo de tegme
Hadaka jime:mata-leão
plastron:gravata larga
frigana:Frigana designa uma formação vegetal típica das zonas rochosas costeiras do 
Mediterrâneo Oriental.
garrigue:Garrigue refere-se a uma zona com vegetação densa, constituída por arbustos,



Quási 

Um pouco mais de sol - eu era brasa, 
Um pouco mais de azul - eu era além. 
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído 
Num baixo mar enganador de espuma; 
E o grande sonho despertado em bruma, 
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido... 

Quási o amor, quási o triunfo e a chama, 
Quási o princípio e o fim - quási a expansão... 
Mas na minh'alma tudo se derrama... 
Entanto nada foi só ilusão! 

De tudo houve um começo... e tudo errou... 
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... - 
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, 
Asa que se elançou mas não voou... 

Momentos d'alma que desbaratei... 
Templos aonde nunca pus um altar... 
Rios que perdi sem os levar ao mar... 
Ansias que foram mas que não fixei... 

Se me vagueio, encontro só indicios... 
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; 
E mãos de herói, sem fé, acobardadas, 
Puseram grades sôbre os precipícios... 

Num impeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

. . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . 

Um pouco mais de sol - e fôra brasa, 
Um pouco mais de azul - e fôra além. 
Para atingir, faltou-me um golpe de aza... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Mário de Sá-Carneiro"Dispersão"

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Insultos poéticos


Sinto na angústia o quem me lembrasse
e do lembrar a mim como uma ponte
onde de noite já ninguém passasse
viesse a notícia desse outro horizonte

em que o meu grito preso na garganta
dissesse à voz que não ouvi e veio
quanto cansaço inverosímil, quanta
fadiga me enternece como um seio.

Vibrátil voga vaga pela tarde
que em cigarros distrai o eu estar só
a chama obscura que visível arde
quando arde ao sol o pó.

Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente 1"
Luta em vão

Párvulos Pascácios sem controle sobre seus esfíncteres
Maculo maluco do chulo
Pagaste o pasguate com saguate
Delinear os delinquentes no delíquio de tudo
Aquela donzela arcela
Destila o crime da crila
Aceimar os acéfalos com o acerbo
Ecoam o rangido da gironda
Mangar os Mangalitsas
O retardo do lardo como petardo
A variação da vara
Estúpido estupor inútil
Protesto doesto de protidra
Imundo munido de ignorância
Amuar o marau no ergástulo
Todo ardor do bardoto
Relima o relinche do réliquio.
                                      
Ednei Pereira Rodrigues

Glossário:
Párvulo:criança
 Pascácio:bobo
Pasguate:imbecil
Maculo:diárreia
saguate:presente
arcela:ameba
crila:criança 
gironda:fêmea do javali
Mangalitsas:espécie de porco
vara:coletivo de porco
protidra:
Organismo primordial de que, segundo os naturalistas transformistas, se originou a maior parte dos celenterados.
bardoto:Cruzamento Entre Cavalo x Jumenta




Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca "Livro de Mágoas"

sábado, 4 de junho de 2016

Mirmecologia


Todas as Noites me Sinto

Orlando Neves, "Trovas da Infância na Aldeia"


Todas as noites me sinto

igual aos desconhecidos.

Sou a criança que sou,

só quando o tempo pára.




Fico em mim,

fora dos músculos.




Por que se movem os deuses

quando o sol cresta as formigas?

Lendas da luz da noite

secam todo o movimento.




Seguro a vida

por desespero.


http://www.opopular.com.br/editorias/magazine/%C3%B3culos-%C3%A9-deixado-no-ch%C3%A3o-de-museu-e-todos-acharam-que-se-tratava-de-uma-obra-de-arte-1.1092733

Visão do ínfimo 
Ednei Pereira Rodrigues   
          
Pequeno pleno piógeno
Epígono abandono da imagem
Quando as letras são mais importantes
Alfabeto inquieto no ímpeto
A afabulação afábil da afacia
O estranho estrabismo que estrangula o estrado
Sem chão,caio no abismo
Criado por mim mesmo
Todos precisam de um báratro
Formigas carregam minha córnea
Talvez a tenham confundido com um guapuru
E a defunta marabunta
E a  maniuara o mani
Aniqui responsável por toda aniquilação 
Urubu no uru como trápola  
Espera o tábido
Degluti o charque como charpa
Manduca a manduça que aguça o acerbo verbo
Antes soberbo desejo
Fuça a carapuça
Antropofagia inventada para saciar a fome.

Glossário:
piógeno:Piogênico; capaz de produzir pus; diz-se do que tem a capacidade de gerar pus: tumor piógeno.
afacia:Ausência do cristalino no olho.
guapuru:Jabuticaba
marabunta,maniuara,aniqui=formigas
uru:cesto
mani:bambu
trápola:armadilha
tábido:podre
charque:Carne de vaca, salgada e cortada
charpa:faixa de pano
Tisana:chá
manduca:comer
manduça:rapadura



ESTRABISMO
Júlio Machado


Chega à beira do poço;
mede nele o intervalo
que vai de um olho a outro.

Mede nesse intervalo
o eixo torto que faz
do esquerdo, o direito.

Vê como esse esquerdo
reconhece sem medo
o que em Narciso é feio.

Repara no direito
a lágrima em coalho,
véu de leite tão velho.

Faz do suco da lágrima
a beleza que turva,
ledo, o engano da água.

Esquece então que és caolho:
Faz do intervalo um elo,
da água turva, um espelho.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Frugal Monocrômico



A cicatriz coroada
Rita medusa

minha docilidade dependia dos teus abusos
você era eleito no meu deserto
olho de shiva na piscina
quando gotas e joelhos me amaram
em restos amargos
do teu calor alarmante
acordando de um sono infinito
adoecia como quem devora lucros
e vai calada pelo inevitável
fui cama dos teus delírios
métricas no teu pecado

eu te devolvo estes faróis bêbados
como quem nunca quis sinais.


Exílio Surreal
Ednei Pereira Rodrigues

Minha gleba tem belga
Armênios,e outras etnias
Só falta ética
Aljube rotundo para toda gula
No cárcere de carcérula
O estouro do tesouro frugal
Com a baláustia cáustica
Rajaratna como morcela para o morcego
Toda sandice endossara sandareso em devaneios
Abraço de abrália dirigente
Abrange tudo ao redor 
Hirudina doutrina do hirto
Inocular o inárculo deste desgoverno
Monarquia inventada de uma doença contagiosa
Aureóla para a rubéola
Sarampo no sentido mais amplo
Joia de joiça do escatológico
Para o seu valioso laivoso caráter.

Glossário:

Aljube:prisão
carcérula:Nome dado às cavidades de alguns frutos indeiscentes, como a romã.
baláustia:Romã agreste
Rajaratna:maior rubi do mundo
morcela:sangue sólido 
sandareso:Certa pedra preciosa do Oriente, cor de fogo. 
abrália:espécie de lula
Hirudina:Extrato de cabeça de sanguessuga que, injetado nos vasos sanguíneos, torna o sangue incoagulável.
inárculo:ramo de romãzeira, disposto em forma de coroa.
joiça:bosta


A INVISÍVEL CICATRIZ
Ruy Proença

nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos.
  


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Parônimos Mitológicos



Ilusão

Fagundes Varella

Sinistro como um fúnebre segredo
Passa o vento do Norte murmurando
Nos densos pinheirais;
A noite é fria e triste; solitário
Atravesso a cavalo a selva escura
Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos
Borbulham-me no cérebro, ferventes,
Como as ondas do mar,
E me arrastam consigo, alucinado,
À casa da formosa criatura
De meu doido cismar.

Latem os cães; as portas se franqueiam
Rangendo sobre os quícios; os criados
Acordem pressurosos;
Subo ligeiro a longa escadaria,
Fazendo retinir minhas esporas
Sobre os degraus lustrosos.

No seu vasto salão iluminado,
Suavemente repousando o seio
Entre sedas e flores,
Toda de branco, engrinaldada a fronte,
Ela me espera, a linda soberana
De meus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido
De febre e de paixão... A noite é negra,
Ruge o vento no mato;
Os pinheiros se inclinam, murmurando:
- Onde vai este pobre cavaleiro
Com seu sonho insensato?...





Dom quixote

Ednei Pereira Rodrigues

Animal de lâmina cortante
Córtex faz do cortelho sua corte
O coletor de cloreto vital
Greip era só uma gripe
Ou panásio de panapaná
Sinais de Isnashi  
Eu ri sem medo de Eurimedon
Seria o salvador dali?
Tudo depende do ponto de vista
Belida beligerante na paz interior
Imbele a pele da catafracta
O coice de foice equina
Pontapés de Argos Panoptes
Ilusão que confunde a mente
E a mesma que contunde o dorso
Não confunda liberdade com libertinagem 
A discrição na descrição foi necessária
Para manter as aparências
Descriminar sem discriminar é inépcia. 

Glossário:

cortelho:curral,pocilga
Greip, Isnashi,Eurimedon,Argos Panoptes:gigantes
belida:mancha no olho
beligerante;referente a guerra
catafracta:armadura que protege o cavalo também



SONETO DA LOUCURA

Carlos Drummond de Andrade


A minha casa pobre é rica de quimera
e se vou sem destino a trovejar espantos,
meu nome há de romper as mais nevoentas eras
tal qual Pentapolim, o rei dos Garamantas.

Rola em minha cabeça o tropel de batalhas
jamais vistas no chão ou no mar ou no inferno.
Se da escura cozinha escapa o cheiro de alho,
o que nele recolho é o olor da glória eterna.

Donzelas a salvar, há milhares na Terra
e eu parto em meu rocim, corisco, espada, grito,
o torto endireitando, herói de seda e ferro,

e não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens,
na férvida obsessão de que enfim a bendita
Idade de Ouro e Sol baixe lá das alturas.

sábado, 16 de abril de 2016

Surrealismo erótico


Soneto Inascido
 Artur da Távola

O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.
O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.
O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.
O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.


Alambique
Ednei Pereira Rodrigues

Máxima vindima íntima
A farsa da safra para a canzana
A uva na vulva
Preciosa Precisão da cariopse
Uma sinapse em tempos de sanha
Almeja o túrnepo priapo
Napalm napáceo na palma da mão
Distinto arinto no labirinto
Obstina o absinto alucinógeno
Sintro na introrsão 
Função do Funcho e o êxtase
Incumbe do cumbe e a cura
Maniva e a manivela da Tiquira
A saliva ávida como dádiva
Destila antes que dilates
Não sei como lidaste com isso
Indiferente à tudo 
Coobo o lobo réprobo do seu lóbulo
Exsudo o afobo dos relógios
Nessa pressa confessa o pecado
Agudo estudo sobre o veludo.


Glossário:
cariopse-Fruto seco
túrnepo&napáceo-nabo
sintro-absinto
funcho-erva-doce usada na fabricação do absinto
Tiquira-aguardente de mandioca
maniva-mandioca




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Carlos de Oliveira "Micropaisagem"

O poema
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente.