sábado, 4 de junho de 2016

Mirmecologia


Todas as Noites me Sinto

Orlando Neves, "Trovas da Infância na Aldeia"


Todas as noites me sinto

igual aos desconhecidos.

Sou a criança que sou,

só quando o tempo pára.




Fico em mim,

fora dos músculos.




Por que se movem os deuses

quando o sol cresta as formigas?

Lendas da luz da noite

secam todo o movimento.




Seguro a vida

por desespero.


http://www.opopular.com.br/editorias/magazine/%C3%B3culos-%C3%A9-deixado-no-ch%C3%A3o-de-museu-e-todos-acharam-que-se-tratava-de-uma-obra-de-arte-1.1092733

Visão do ínfimo 
Ednei Pereira Rodrigues   
          
Pequeno pleno piógeno
Epígono abandono da imagem
Quando as letras são mais importantes
Alfabeto inquieto no ímpeto
A afabulação afábil da afacia
O estranho estrabismo que estrangula o estrado
Sem chão,caio no abismo
Criado por mim mesmo
Todos precisam de um báratro
Formigas carregam minha córnea
Talvez a tenham confundido com um guapuru
E a defunta marabunta
E a  maniuara o mani
Aniqui responsável por toda aniquilação 
Urubu no uru como trápola  
Espera o tábido
Degluti o charque como charpa
Manduca a manduça que aguça o acerbo verbo
Antes soberbo desejo
Fuça a carapuça
Antropofagia inventada para saciar a fome.

Glossário:
piógeno:Piogênico; capaz de produzir pus; diz-se do que tem a capacidade de gerar pus: tumor piógeno.
afacia:Ausência do cristalino no olho.
guapuru:Jabuticaba
marabunta,maniuara,aniqui=formigas
uru:cesto
mani:bambu
trápola:armadilha
tábido:podre
charque:Carne de vaca, salgada e cortada
charpa:faixa de pano
Tisana:chá
manduca:comer
manduça:rapadura



ESTRABISMO
Júlio Machado


Chega à beira do poço;
mede nele o intervalo
que vai de um olho a outro.

Mede nesse intervalo
o eixo torto que faz
do esquerdo, o direito.

Vê como esse esquerdo
reconhece sem medo
o que em Narciso é feio.

Repara no direito
a lágrima em coalho,
véu de leite tão velho.

Faz do suco da lágrima
a beleza que turva,
ledo, o engano da água.

Esquece então que és caolho:
Faz do intervalo um elo,
da água turva, um espelho.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Frugal Monocrômico



A cicatriz coroada
Rita medusa

minha docilidade dependia dos teus abusos
você era eleito no meu deserto
olho de shiva na piscina
quando gotas e joelhos me amaram
em restos amargos
do teu calor alarmante
acordando de um sono infinito
adoecia como quem devora lucros
e vai calada pelo inevitável
fui cama dos teus delírios
métricas no teu pecado

eu te devolvo estes faróis bêbados
como quem nunca quis sinais.


Exílio Surreal
Ednei Pereira Rodrigues

Minha gleba tem belga
Armênios,e outras etnias
Só falta ética
Aljube rotundo para toda gula
No cárcere de carcérula
O estouro do tesouro frugal
Com a baláustia cáustica
Rajaratna como morcela para o morcego
Toda sandice endossara sandareso em devaneios
Abraço de abrália dirigente
Abrange tudo ao redor 
Hirudina doutrina do hirto
Inocular o inárculo deste desgoverno
Monarquia inventada de uma doença contagiosa
Aureóla para a rubéola
Sarampo no sentido mais amplo
Joia de joiça do escatológico
Para o seu valioso laivoso caráter.

Glossário:

Aljube:prisão
carcérula:Nome dado às cavidades de alguns frutos indeiscentes, como a romã.
baláustia:Romã agreste
Rajaratna:maior rubi do mundo
morcela:sangue sólido 
sandareso:Certa pedra preciosa do Oriente, cor de fogo. 
abrália:espécie de lula
Hirudina:Extrato de cabeça de sanguessuga que, injetado nos vasos sanguíneos, torna o sangue incoagulável.
inárculo:ramo de romãzeira, disposto em forma de coroa.
joiça:bosta


A INVISÍVEL CICATRIZ
Ruy Proença

nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos.
  


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Parônimos Mitológicos



Ilusão

Fagundes Varella

Sinistro como um fúnebre segredo
Passa o vento do Norte murmurando
Nos densos pinheirais;
A noite é fria e triste; solitário
Atravesso a cavalo a selva escura
Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos
Borbulham-me no cérebro, ferventes,
Como as ondas do mar,
E me arrastam consigo, alucinado,
À casa da formosa criatura
De meu doido cismar.

Latem os cães; as portas se franqueiam
Rangendo sobre os quícios; os criados
Acordem pressurosos;
Subo ligeiro a longa escadaria,
Fazendo retinir minhas esporas
Sobre os degraus lustrosos.

No seu vasto salão iluminado,
Suavemente repousando o seio
Entre sedas e flores,
Toda de branco, engrinaldada a fronte,
Ela me espera, a linda soberana
De meus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido
De febre e de paixão... A noite é negra,
Ruge o vento no mato;
Os pinheiros se inclinam, murmurando:
- Onde vai este pobre cavaleiro
Com seu sonho insensato?...





Dom quixote

Ednei Pereira Rodrigues

Animal de lâmina cortante
Córtex faz do cortelho sua corte
O coletor de cloreto vital
Greip era só uma gripe
Ou panásio de panapaná
Sinais de Isnashi  
Eu ri sem medo de Eurimedon
Seria o salvador dali?
Tudo depende do ponto de vista
Belida beligerante na paz interior
Imbele a pele da catafracta
O coice de foice equina
Pontapés de Argos Panoptes
Ilusão que confunde a mente
E a mesma que contunde o dorso
Não confunda liberdade com libertinagem 
A discrição na descrição foi necessária
Para manter as aparências
Descriminar sem discriminar é inépcia. 

Glossário:

cortelho:curral,pocilga
Greip, Isnashi,Eurimedon,Argos Panoptes:gigantes
belida:mancha no olho
beligerante;referente a guerra
catafracta:armadura que protege o cavalo também



SONETO DA LOUCURA

Carlos Drummond de Andrade


A minha casa pobre é rica de quimera
e se vou sem destino a trovejar espantos,
meu nome há de romper as mais nevoentas eras
tal qual Pentapolim, o rei dos Garamantas.

Rola em minha cabeça o tropel de batalhas
jamais vistas no chão ou no mar ou no inferno.
Se da escura cozinha escapa o cheiro de alho,
o que nele recolho é o olor da glória eterna.

Donzelas a salvar, há milhares na Terra
e eu parto em meu rocim, corisco, espada, grito,
o torto endireitando, herói de seda e ferro,

e não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens,
na férvida obsessão de que enfim a bendita
Idade de Ouro e Sol baixe lá das alturas.

sábado, 16 de abril de 2016

Surrealismo erótico


Soneto Inascido
 Artur da Távola

O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.
O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.
O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.
O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.


Alambique
Ednei Pereira Rodrigues

Máxima vindima íntima
A farsa da safra para a canzana
A uva na vulva
Preciosa Precisão da cariopse
Uma sinapse em tempos de sanha
Almeja o túrnepo priapo
Napalm napáceo na palma da mão
Distinto arinto no labirinto
Obstina o absinto alucinógeno
Sintro na introrsão 
Função do Funcho e o êxtase
Incumbe do cumbe e a cura
Maniva e a manivela da Tiquira
A saliva ávida como dádiva
Destila antes que dilates
Não sei como lidaste com isso
Indiferente à tudo 
Coobo o lobo réprobo do seu lóbulo
Exsudo o afobo dos relógios
Nessa pressa confessa o pecado
Agudo estudo sobre o veludo.


Glossário:
cariopse-Fruto seco
túrnepo&napáceo-nabo
sintro-absinto
funcho-erva-doce usada na fabricação do absinto
Tiquira-aguardente de mandioca
maniva-mandioca




Filtro

Carlos de Oliveira "Micropaisagem"

O poema
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Outono Surreal



Árvore

Fernando Guimarães"Limites para uma Árvore" 


Conheço as suas raízes. É tudo o que vejo.

Há um movimento que a percorre devagar. Não sei

se ela existe. Imagino apenas como são os ramos,

este odor mais secreto, as primeiras folhas

aquecidas. Mas eu existo para ela. Sou

a sua própria sombra, o espaço que fica à volta

para que se torne maior. É assim que chega

o que não passa de um pressentimento. Ela compreende

este segredo. Estremece. Comigo procuro trazer

só um pouco de terra. É a terra de que ela precisa. 




OUTONO SURREAL

Ednei Pereira Rodrigues 

Chega com todo o charme indolente 
Faz a poda e dopa o opaco
Ruma de caruma como lura
Castelo amarelo sem atalaia
Ontem era monte inescalável
Comovente cômoro seco
Outeiro de um Outono
Outorgado pelo áspero desespero
Pele de Alpe intransponível
Servem para forrar algo
Texto revestido de revesso
Reveste de Everest o singelo
Levadas pelo Cierzo
O inverso disperso no verso  
O estro que vem do estróbilo
Gálbulo vocábulo trémulo
Adianta o inverno do inverossímil
Há um certo descontrole em tudo:Efeito Estufa 
Quando tudo é efêmero.




Paisagem
David Mourão-Ferreira"A Secreta Viagem"  

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exato.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)

domingo, 13 de março de 2016

Protesto Surreal







A Palavra
António Ramos Rosa, in "Volante Verde"
 
  Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.





Condução Coercitiva
Ednei Pereira Rodrigues

Se a meta e a metáfora não tema o metal
Se insistir ele pode ser dúctil
O vínculo do ósculo com o bismuto
Céu sécio pelo césio
Estranho estanho com o cobre
O bronze do vazio,não era o bastante
A auricídia o deixou aurigastro
Apenas uma frase,depois de horas
Haicai sem forma fixa,cai no cais
A utopia faz a entalpia em tal pia
Devem os devaneios do devasso
Assumir real impotância
Controle da controvérsia costumaz
Pode ser de ajuda
Pra quem está à beira do precipício 
Apenas com um simples click
Eliminara clichês
Leve-me deste lugar-comum
Longe parece distante de tudo.

 


Conserto a Palavra

Daniel Faria, in "Homens que São como Lugares Mal Situados"
 
 Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Descrição de imagem

 
Viagem
Aíla Sampaio


Vida: vagão de um trem

a qualquer hora

a soltar-se pelos trilhos.

Se fendem as trancas

na ferrugem das peças,

nenhuma alavanca detém a carga.



Sigo. Passageira sem estação de rota.

Quando vou, estou indo de volta

como se por mim tudo fosse outra vez

sem ter sido nunca a primeira.



Meu corpo é minha bagagem

arma atenta à cicatriz

que não fecha

e a que se cava

em tua ausência

materializada na cadeira vazia.



Ao meu lado, o passado:

sentença do efêmero,

algema sem trancas.

Sigo como um vagão

desgarrado do comboio,

querendo ainda obedecer

ao freio das alavancas.


 Vontade férrea
Ednei Pereira Rodrigues

Insossa Insônia vertical que me aflige
Não consigo pensar no horizontal
O deitado já foi editado várias vezes
Teoria de uma conspiração abstrata
Já fez a inspeção do insólito?
Então já pode se retirar insolente!
Insisto no ínsito que insinuei insípido
Determinado de minhas convicções
Estabeleço residência por ausência de reciprocidade
Não me importo com os sismos
Carinho do carril em minha nuca
Nunca tive quando estava com voçê
Adestro este estrado sem destoar o destino
Sem destronar a rainha tebaida de minha razão
Soberana do sobejo sobre este vazio
Monarca do momento moído
Não me importo se me destroncar
Vou sobreviver ao soberano engano
Vou resistir sem existir de fato
Como resíduo de algo bom
Na resma memória do que penso.
 

A sintaxe do ferro
Ricardo Rizzo

    Mencionar o ferro é expô-lo
    à dura nudez de palavra

    no registro encerrada, sílabas
    articulando matéria, antimatéria.

    Em que categoria confinar o ferro
    todo o ferro que há no mundo,
                                         insuspeito?

    Se em uma só palavra, e curta,
    traz a geografia de mundos, estrelas?

    O ferro do despeito
    vaza a sintaxe,
                      fere e desnorteia.

    Não é o ferro palatável, o ferro
    que a todos resume, paroxítono.

    Dizer o ferro é lambê-lo,
    comê-lo, fruta escura,

    é atividade carnal, antes
    tenso combate subterrâneo

    que se trava, ou melhor, se turva
    entre noite e sombra nos edifícios.

    Mas já um sal do ferro convida
    a dobrar o ferro utilitário

    a romper o ferro posto
    vingar-lhe o porte mortuário

    mencionar o ferro é mudá-lo
    em terrena dor de gente;

    é fecundar-lhe o ventre
    divergente e proletário.