http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/no-rio-beija-flor-vence-com-carnaval-do-ditador
Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Ledice Efêmera
Ednei Pereira Rodrigues
Reboliço do rebo
Reboa a gargalhada do gárgula
Tanta garoa faz o reboco cair
O rebojo precisa de bojo
A musa está com Musgo
É a música não move o músculo
Distorção para Distração
Achavascar o Achaque
O avesso na avenida
Para avigorar o aviltante
Enredo Tredo
Ariramba atiçado pela Liamba
Cuitelo pávido com a cuíca
Guanambi instruído para gualdripar
Guinumbi guia o Sátrapa
O sibilar do sibarita
Atroa o desejo da Alforria
A matriz da matulagem
A Histeria de Hitler desfila na avenida
A Hispidez de um Histrião.
Gárgula.
herberto helder
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Entrudo Lúdrico
A UM MASCARADO
Augusto dos Anjos
Rasga essa máscara ótima de seda
E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos...
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo...
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
Botox
Ednei Pereira Rodrigues
Espelho não aceita o disforme
Quebra-se quando refleti o refolho
Cacos se entendem com os cactos
Espenica o meu adejo
O rútilo da ruga
O decrépito que decorre
A carquilha da carniça
Diagnóstico do ego egro
O cipreste rompeu o lacre do álacre
O esmalte esmarrido da esmeralda
Tapera como Tapete
Seu advento adverso
Urde um deslumbre
Silicone para as dunas
Um Oásis,sózia do guapo
Em meio ao torpe
O camaleão no camarote observa tudo
A face da facécia
O ângulo da angústia.
Ânforas
Edson Bueno de Camargo
toco teu ventre liso
de oceanos azuis elétricos
e rosas brancas tocadas pela gravidade
em tudo busco serenidade
mas tua pele é tempestade e febre
senhora da maré cheia
tão completa de luas
como meu dedo de contar estrelas
(contudo
não posso tocá-las)
véus de terra
cobrem teus cabelos
de raízes fundas
a beber o sumo da terra
mulher de tronco vegetal
e ancas robustas de madeira ígnea
dá-me tuas ânforas de água fresca
de desatar o gelo das profundezas
eu
abandonado do deserto
a partir em busca de mim
em teus olhos de planície
em teus seios de montanha
respirando as dunas de imensidão
(contudo
sufoco)
A Beleza
Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor' de Carrara
Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.
O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..
Tenho, p'ra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes!
domingo, 25 de janeiro de 2015
São Paulo 461 anos
SEGUNDO PAPEL
Tarso de Melo
(Planos de fuga e outros poemas. São Paulo: Cosac Naify;
Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005. p.70)
a cidade é o óbvio,
o que salta aos olhos
ulula, o que brilha
e fede
a cidade é o cais
caos sob controle
outro dia de luto,
de luta, de luxo
a cidade é perder
outro sol que agride
outra lua (a cidade comporta),
mesma via
e é sempre tarde
e o lugar que falta
e o que nos prende,
perene, perece
Tamanduá no Martinelli
Ednei Pereira Rodrigues
No ápice o ínfimo
Somos todos formigas
Toda lascívia da língua
Envolvente acepipe
Aceita a aceleração
O tênue aceno
Toda sinuosidade será castigada
Evocam o mafarrico na encruzilhada
A mácula da macumba
O laico é laido
Desvio que desvirginiza a distância
A vereda da verba
A vergonha do político corrupto
A corrosão do abandonado
Um atalho que ata
Um meandro ataráxico
Alternativa para essa Altitude
Para tanto Escarcéu
Tanto escárnio que mais um escarro é dádiva saliva saliente
Esteroide detecta um Asteroide
Metrô atingido por um Meteoro
Suas portas automaticas guilhotinadas
Não decapitaram o célere
Apocalipse Apócrifo
Escancha para a última cópula
Rascoa coa o gozo Rascante
O bagaço satisfaz a bagaxa
Marafona como fona causa marasmo
Tudo com contrastes de escarlate
Antologia do disparate
Seu catamênio análogo a uma catástrofe.
ÀS MINHAS COSTAS
Sérgio Alcides
(O ar das cidades: poemas (1996-2000). São Paulo: Nankin, 2000. p.33
As portas do metrô mastigam
o ar condicionado.
Estou em trânsito, com os demais.
Percorremos a rede incorpórea
que há de permanecer.
Não se ultrapassa a linha amarela.
Nada cheira. E a escada rolante
- áspera via - até se alegoriza
ao conduzir-nos de volta ao simulacro
passageiro das avenidas.
Na saída, ponho os óculos escuros.
sábado, 20 de dezembro de 2014
Última de 2014:Vídeos Poéticos
Todo mundo precisa de um empurrãozinho
As lentas nuvens fazem sono
Fernando Pessoa
As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.
E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.
Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo...
E só em sono eu vou primeiro.
E só em sonho eu vou seguindo.
Turbulências
Ednei Pereira Rodrigues
Estranha Estratosfera
A Estrela Estreita como estrepe
Nefelibata para Espairecer
Tudo Multiforme
Aquela como mufla
Para respirar o Azoto
Lembrar do Esgoto
Outra como coxim
Para a sota do coxêndico
Para o descanso da fuselagem
Trôpego na Troposfera
Tropeço no Trópico
A indecisão me fez arremeter
Prestes a despressurizar
Dilacerar outro dilema
Irromper o Cirro
Nimbar este ambiente denso
De volta à estaca zero
Retomar o controle
A decomposição na decolagem
Sugado pela Turbina
Helianto contra a Hélice.
SONETO COM PÁSSARO E AVIÃO
Rio de Janeiro , 2004
De "O grande desastre do six-motor francês
Leonel de Marmier, tal como foi visto e vivido pelo poeta
Vinicius de Moraes, passageiro a bordo"
Uma coisa é um pássaro que voa
Outra um avião. Assim, quem o prefere
Não sabe às vezes como o espaço fere
Aquele. Um vi morrer, voando à toa
Um dia em Christ Church Meadows, numa antiga
Tarde, reminiscente de Wordsworth...
E tudo o que ficou daquela morte
Foi um baque de plumas, e a cantiga
Interrompida a meio: espasmo? espanto?
Não sei. Tomei-o leve em minha mão
Tão pequeno, tão cálido, tão lasso
Em minha mão... Não tinha o peito de amianto.
Não voaria mais, como o avião
Nos longos túneis de cristal do espaço...
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Triedro Poético:Outro Manuel_Beatles_DRUMMOND
Os sapos
Manuel Bandeira
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os delumbra.
—
Em ronco que a terra,
Berra o sapo-boi:
– “Meu pai foi à guerra!”
– “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”
–
O sapo-tanoeiro
Parnasiano aguado,
Diz: — ” Meu cancioneiro
É bem martelado.
–
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
–
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
—
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
–
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”
–
Urra o sapo-boi:
– “Meu pai foi rei” — “Foi!”
– “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”
–
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
– “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
–
Ou bem de estatutário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.”
–
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
–“Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”
–
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
–
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
–
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…
–
1918
The Beatles I am the warlus: https://www.youtube.com/watch?v=5Vv_xyNjMC0#t=10
Silêncio Ensurdecedor
Ednei Pereira Rodrigues
Código Morse
para se comunicar com a morsa
Um sotaque para
soterrar
Ninguém
entendi o que enternece
Tudo em prol de meu Laconismo
Começo a
coaxar para o sangue coagular
O prolapso
do Átrio
O Atrito do
Atril com o corpo
Através do
Atravessado
Atraio a
Atrabílis
O Lacre
Lacerante
Um rugido
para as Ruínas
O Rumor é
Rúptil
Ruptura no
vazio
Fazer rusga
para o rude.
Suspendei um momento vossos jogos
na fímbria azul do mar, peitos morenos.
Pescadores, voltai. Silêncio, coros
de rua, no vaivém, que um movimento
diverso, uma outra forma se insinua
por entre as rochas lisas, e um mugido
se faz ouvir, soturno e diurno, em pura
exalação opressa de carinho.
É o louco leão-marinho, que pervaga,
em busca, sem saber, como da terra
(quando a vida nos dói, de tão exata)
nos lançamos a um mar que não existe.
A doçura do monstro, oclusa, à espera...
Um leão-marinho brinca em nós, e é triste.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
A vida passada a limpo, 1959
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Inspiração Sazonal
Notícia Poética: http://bandnewsfmcuritiba.com/2014/11/21/papai-noel-que-cobriu-rosto-de-crianca-em-foto-para-obrigar-pagamento-e-afastado-em-shopping-de-curitiba/
EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Capitalismo
Ednei Pereira Rodrigues
Peculiar ao Peculato
Cabedal Edaz
Bagarote como Baganha
Barganha outra Barbárie
Bagatelas para enaltecer
A barestesia
Permuta a mutação
Mutila o vazio
O mutanje mútico
Multa para a multidão
Coima para a coita
Níquel nivela meu niilismo
Riqueza Ríspida não rítmica
Qual o valor do vão?
Mercenários à mercê do sobejo
Sobrou apenas uma sombra
Nesta Penúria de estro
Devaneios na Penhora
Fragmentos do Frágil
Só uma frase
Uma fração do fracasso
Não vou esclarecer o escasso
Está tudo tão óbvio
O obumbrado para obtundir
Todo esse obstrucionismo
Vestígios de Vestuário
Alguém esteve aqui
Indivíduo Indizível
Indícios da indiferença.
Peculiar ao Peculato
Cabedal Edaz
Bagarote como Baganha
Barganha outra Barbárie
Bagatelas para enaltecer
A barestesia
Permuta a mutação
Mutila o vazio
O mutanje mútico
Multa para a multidão
Coima para a coita
Níquel nivela meu niilismo
Riqueza Ríspida não rítmica
Qual o valor do vão?
Mercenários à mercê do sobejo
Sobrou apenas uma sombra
Nesta Penúria de estro
Devaneios na Penhora
Fragmentos do Frágil
Só uma frase
Uma fração do fracasso
Não vou esclarecer o escasso
Está tudo tão óbvio
O obumbrado para obtundir
Todo esse obstrucionismo
Vestígios de Vestuário
Alguém esteve aqui
Indivíduo Indizível
Indícios da indiferença.
sábado, 15 de novembro de 2014
Singela Homenagem ao poeta Manoel de Barros
Em tempos de racionamento de água...
O menino que carregava água na peneira
Manoel de Barros
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Insônia
Ednei Pereira Rodrigues
Outro dia me
disseram para sair do Lúgubre
A crítica em
meio a crise
Cretino
noveleiro indagou o porque de eu não
terminar tudo com Tálamo
Meu enlace é
para enlaivar
Persisti no
lobrego
Mesmo que
tenha que lobrigar a Luz
Localizar um
local fora desse lodo
Melhora do
Habitat
Peneiro a
Penumbra em busca do insight
Tamisar o
mais crasso
Crivar o
Cris
Layout na lápide
Ridículo o logotipo
Publicidade
Pútrida
Nunca me
influenciou a comprar nada
O que me
motiva e o âmago
Que
geralmente é soturno
Mas o mote
foi a morte do inseto isento de responsabilidades
O motejo do
mouco
Naquela
noite tudo girava na lâmpada arapuca
A lagartixa
fez um bom trabalho
Foi ai então
que eclipsei.
O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Manoel de Barros
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.
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