sexta-feira, 21 de março de 2014

OUTONO SURREALISTA




Crepúsculo de Outono
Manoel Bandeira

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.


O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.


Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.


Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.


O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.


A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.




Êxtase Estático
Ednei Pereira Rodrigues

Sensação de ascensão com o boléu
O Bolor que adorna
A folha como folho
Aqui está a estaquia
Estatelar é inevitável
Presença de clorofila na pupila
Desfolhar o Desfiladeiro
Desfeito o Desejo
Buganvília na bula
Buquê no bucho
Para o dendrófobo
Tudo está tão bucólico
Museu de Dentrites
Progne Provecto
Vicinal Inverno visceral
Invento o Inverso
Valido até o invasor Febo surgir.


Glossário

Boléu:queda
folho:adorno pregueado com que se guarnecem vestidos.
Estaquia:Processo de multiplicação vegetativa das plantas
Estatelar:cair
Buganvilia:planta,sinônimo para primavera
Dendrofobo:aquele que não gosta de árvores
Dentrites:fóssil de árvore
Vicinal:vizinho
Progne:Primavera
Provecto:antigo
Febo:Sol

quinta-feira, 13 de março de 2014

Do pó vieste e ao pó voltarás






Horário do Fim
Mia Couto,"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento



Elegia 
Ednei Pereira Rodrigues


Greda como grade
Sebe para quem tem sede
Aquele que contorna a sede
Falta sebo
É ebó
Uma emboscada para o embrião


Greda como moeda
Compra o Éden?
Cura o Edema?
Cunha como testemunha
Só sobrou uma unha
Para arranhar o ébano do meu féretro


Ganância com a gândara
Inútil granada para a gangrena
O pueril brinca na gangorra
Substituir minha esquife por pruca
Ninguém se importa
Quando o concreto é concupiscível


Gleba que geba
Pode gear que não sinto frio
Sou caudino
É todo esse caulim
Lodo com dolo
Bátega para o batismo do batráquio.

GLOSSÁRIO

Greda:Barro ou calcário muito macio e friável, de um amarelo esverdeado, que geralmente contém sílica e argila.
cunha:moeda
caudino:feito de um tronco
caulim:argila
Sebe:Cerca de varas ou ripas entrelaçadas.Sebe viva, cerca feita com arbustos; o mesmo que cerca viva.
Sebo:Produto de secreção das glândulas sebáceas.
ebó:Macumba
ébano:Madeira preta e dura que adquire um lindo brilho metálico quando polida.
féretro:caixão
gândara:areia
gangrena:morte
esquife:caixão
pruca:assento
concupiscível:ganância
bátega:chuva
batraquio relacionado às rãs ou aos sapos

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Choque Térmico


Esfinge
Florbela Espanca

Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,
Desta minh'alma ardente são a imagem.

Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...

E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando a planície enorme...

A Ginge da Esfinge

Ednei Rodrigues

Árduo Vácuo
Argumenta com o ar
Sua aréola areniforme
O saibro que broma
Argueiro no olho
Falso Plangor
Leão manso não ruge
O auge da presa
Gerir o circo
Domável Dólmen
Pode ser um dom
Esse de controlar a dor
Mas quando a duna e minha duana
Preciso de uma ducha
O Duende está próximo
Provável duelo
Abandono do abantesma
Abanto anuncia o óbito
Quando só preciso de um abano.

Glossário
areniforme:Semelhante a areia
saibro:areia
broma:bromar(corroer,estragar)
Argueiro:cisco
Plangor:choro
Dolmen:Monumento druídico, pré-histórico, formado por uma grande pedra achatada, colocada sobre outras em posição vertical.
duana:roupa
abantesma:fantasma
abanto:O mesmo que abutre-do-egito

sábado, 25 de janeiro de 2014

São Paulo:460 anos



São Paulo, teu nome
Fernando Paixão

Urbinácia máxima imperfeita
lençol de eus e meus em multidão
plantada em hastes, a planalticeia:
cidade inventada a cada pessoa.

Teus homens, mulheres e moribundos
vestem a roupa rústica das manhãs
à noite desapertam os calçados da tarde
ora com nuvens, ora sem elas.

Levam às ruas o coração fechado
enquanto os olhares usurpam cores
das feias esquinas à quimera das vitrines
atados estamos ao preço das coisas.

E a matéria vivida coexiste calada
nos cômodos das mesmas casas
soma de tantos gestos e sentenças
manchas úmidas nas paredes gastas.

Quantos insones atravessam a tua noite
acionam os remos largos da madrugada
e no amanhecer fecham os olhos cansados
indiferentes à altivez dos arranha-céus.

Na praça do bairro aparecem as primeiras
crianças -as que se interessam pela terra
acreditam na sombra das árvores
e acolhem faceiras a luz deste dia.

Aos poucos -avenidas, viadutos, prédios
despertam os músculos, os ossos e o rosto.
Novamente o corpo se levanta por inteiro
novelo de artérias sem fim nem começo.

Teu nome, São Paulo, induz ao engano,
tão pouco de ti lembra a santidade.


Cidade Turriforme
Ednei Pereira Rodrigues


Baile no bailéu
Valsa no andaime para Andrômeda
Um ândito sem andirobas
Âmbito Ambíguo
Relativo aos Andes
Estrutura que estua
Manguari quando era para aminguar
Amodernar o vetusto
Véu em Vênus
Verniz para a Cicatriz
Alivia o alicerce com a aliteração
Tudo dendróide
Toda seiva se esvai
Desmatar Amsterdã
Mondar como Moda
Armo o ramo com rancor
O ronco que sai do tronco
Fazer galhofa com o galho
Prédio Caulescente
O térreo e o meu tergo.


Glossário

Turriforme:Que tem aspecto de torre
Bailéu:andaime
ândito:caminho estreito,espaço para andar em volta de um edifício.
Andiroba(s):árvore
manguari:coisa muito grande
vetusto:antigo
mondar :podar
galhofa:piada
tergo:coluna





terça-feira, 7 de janeiro de 2014

1 anagrama de 2014




Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.
Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua...

 Manuel Alegre


Ansiedade

A degola antes do degelo
A coragem sem roçagem
Verão que revoa
O suor do urso polar
A polaroid não capturou o níveo
Envio o vazio
Um adjetivo que adeja
Deve pairar acima do que se pode proferir
Insolação Ocasional
O furto do fruto
A polêmica do pleno pólen
Nomeado pêssego a amêndoa
Quase um anagrama
Quase um Quasar
Se não fosse o lustre
O onusto escuro
É ônus do rútilo
Tantos foram os recuos
À deriva para evadir-se do inteiro
Ficou nítido em Niterói
Enquanto tudo soçobra
Eles lêem o leme.

Ednei Pereira Rodrigues

sábado, 14 de dezembro de 2013

ÚLTIMO MÚTILO ANAGRAMÁTICO:LIMÃO-DOCE PARA DEMOLIÇÃO estarei de volta em 2014!



Estiagem

Madeficar a madeira
Contra o incêndio
Só uma fagulha em sua madeixa
Meus devaneios áridos
Sugados por um Geiser
Minha urina origina a ruína
Chafariz embioca a cicatriz
A embocadura do Danúbio
A emboscada áquea
O induto minuto
O emboço do pescoço
O fundo do poço é apenas uma opção
Quando o opaco é ácopo  
Torna-se atroz a foz
Tejo como brejo
Limão-doce para a demolição
O verbo já é acerbo
Saporífero quando tudo é insípido
Irrorar como se fosse irrelevante
Irregular o que você escreve em um guardanapo
Coar o coaxar
Como um sapo
Um anuro em Urano
Fui oscitar e engoli um inseto
Isento de limites. 


"A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos."
Scott Fitzgerald

LÉXICO:
embioca:disfarce,esconderijo
acopo:alivia a dor
saporífero:relativo aos sapos




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A evolução dos números


O polvo 


Tenta com os tentáculos
O Amplexifloro sem despetalar
A Pua Crua não feri
O acúleo ao léo não dilacera
Só o leopardo caça
Sua presa e o êxtase
Horizontal ao Horizonte
Araneiforme existência
Para urdir um cachecol
Para um sete
Que tem forma de girafa
Espera o laço lacônico
Para a forca
Enquanto lia Garcia lorca
Para a Orca
Subtrai um submarino do aquário
Aquecer aquela aquelia
Última era glacial
A metamorfose é a meta
A metade da metáfora
O oito aguarda o coito


"Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”.
Frederico Garcia lorca


léxico
Amplexifloro: Que abraça a flôr
Amplexo:abraço
Pua:ponta aguçada,espinho
acúleo:espinho
aquelia:falta congênita de um ou ambos os lábios.