sábado, 15 de fevereiro de 2014

Choque Térmico


Esfinge
Florbela Espanca

Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,
Desta minh'alma ardente são a imagem.

Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...

E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando a planície enorme...

A Ginge da Esfinge

Ednei Rodrigues

Árduo Vácuo
Argumenta com o ar
Sua aréola areniforme
O saibro que broma
Argueiro no olho
Falso Plangor
Leão manso não ruge
O auge da presa
Gerir o circo
Domável Dólmen
Pode ser um dom
Esse de controlar a dor
Mas quando a duna e minha duana
Preciso de uma ducha
O Duende está próximo
Provável duelo
Abandono do abantesma
Abanto anuncia o óbito
Quando só preciso de um abano.

Glossário
areniforme:Semelhante a areia
saibro:areia
broma:bromar(corroer,estragar)
Argueiro:cisco
Plangor:choro
Dolmen:Monumento druídico, pré-histórico, formado por uma grande pedra achatada, colocada sobre outras em posição vertical.
duana:roupa
abantesma:fantasma
abanto:O mesmo que abutre-do-egito

sábado, 25 de janeiro de 2014

São Paulo:460 anos



São Paulo, teu nome
Fernando Paixão

Urbinácia máxima imperfeita
lençol de eus e meus em multidão
plantada em hastes, a planalticeia:
cidade inventada a cada pessoa.

Teus homens, mulheres e moribundos
vestem a roupa rústica das manhãs
à noite desapertam os calçados da tarde
ora com nuvens, ora sem elas.

Levam às ruas o coração fechado
enquanto os olhares usurpam cores
das feias esquinas à quimera das vitrines
atados estamos ao preço das coisas.

E a matéria vivida coexiste calada
nos cômodos das mesmas casas
soma de tantos gestos e sentenças
manchas úmidas nas paredes gastas.

Quantos insones atravessam a tua noite
acionam os remos largos da madrugada
e no amanhecer fecham os olhos cansados
indiferentes à altivez dos arranha-céus.

Na praça do bairro aparecem as primeiras
crianças -as que se interessam pela terra
acreditam na sombra das árvores
e acolhem faceiras a luz deste dia.

Aos poucos -avenidas, viadutos, prédios
despertam os músculos, os ossos e o rosto.
Novamente o corpo se levanta por inteiro
novelo de artérias sem fim nem começo.

Teu nome, São Paulo, induz ao engano,
tão pouco de ti lembra a santidade.


Cidade Turriforme
Ednei Pereira Rodrigues


Baile no bailéu
Valsa no andaime para Andrômeda
Um ândito sem andirobas
Âmbito Ambíguo
Relativo aos Andes
Estrutura que estua
Manguari quando era para aminguar
Amodernar o vetusto
Véu em Vênus
Verniz para a Cicatriz
Alivia o alicerce com a aliteração
Tudo dendróide
Toda seiva se esvai
Desmatar Amsterdã
Mondar como Moda
Armo o ramo com rancor
O ronco que sai do tronco
Fazer galhofa com o galho
Prédio Caulescente
O térreo e o meu tergo.


Glossário

Turriforme:Que tem aspecto de torre
Bailéu:andaime
ândito:caminho estreito,espaço para andar em volta de um edifício.
Andiroba(s):árvore
manguari:coisa muito grande
vetusto:antigo
mondar :podar
galhofa:piada
tergo:coluna





terça-feira, 7 de janeiro de 2014

1 anagrama de 2014




Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.
Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua...

 Manuel Alegre


Ansiedade

A degola antes do degelo
A coragem sem roçagem
Verão que revoa
O suor do urso polar
A polaroid não capturou o níveo
Envio o vazio
Um adjetivo que adeja
Deve pairar acima do que se pode proferir
Insolação Ocasional
O furto do fruto
A polêmica do pleno pólen
Nomeado pêssego a amêndoa
Quase um anagrama
Quase um Quasar
Se não fosse o lustre
O onusto escuro
É ônus do rútilo
Tantos foram os recuos
À deriva para evadir-se do inteiro
Ficou nítido em Niterói
Enquanto tudo soçobra
Eles lêem o leme.

Ednei Pereira Rodrigues

sábado, 14 de dezembro de 2013

ÚLTIMO MÚTILO ANAGRAMÁTICO:LIMÃO-DOCE PARA DEMOLIÇÃO estarei de volta em 2014!



Estiagem

Madeficar a madeira
Contra o incêndio
Só uma fagulha em sua madeixa
Meus devaneios áridos
Sugados por um Geiser
Minha urina origina a ruína
Chafariz embioca a cicatriz
A embocadura do Danúbio
A emboscada áquea
O induto minuto
O emboço do pescoço
O fundo do poço é apenas uma opção
Quando o opaco é ácopo  
Torna-se atroz a foz
Tejo como brejo
Limão-doce para a demolição
O verbo já é acerbo
Saporífero quando tudo é insípido
Irrorar como se fosse irrelevante
Irregular o que você escreve em um guardanapo
Coar o coaxar
Como um sapo
Um anuro em Urano
Fui oscitar e engoli um inseto
Isento de limites. 


"A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos."
Scott Fitzgerald

LÉXICO:
embioca:disfarce,esconderijo
acopo:alivia a dor
saporífero:relativo aos sapos




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A evolução dos números


O polvo 


Tenta com os tentáculos
O Amplexifloro sem despetalar
A Pua Crua não feri
O acúleo ao léo não dilacera
Só o leopardo caça
Sua presa e o êxtase
Horizontal ao Horizonte
Araneiforme existência
Para urdir um cachecol
Para um sete
Que tem forma de girafa
Espera o laço lacônico
Para a forca
Enquanto lia Garcia lorca
Para a Orca
Subtrai um submarino do aquário
Aquecer aquela aquelia
Última era glacial
A metamorfose é a meta
A metade da metáfora
O oito aguarda o coito


"Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”.
Frederico Garcia lorca


léxico
Amplexifloro: Que abraça a flôr
Amplexo:abraço
Pua:ponta aguçada,espinho
acúleo:espinho
aquelia:falta congênita de um ou ambos os lábios.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Poluição Sonora



Há algo no sushi
mais sutil que
a alga: a alma.
Rogério Viana



Maré Vermelha

Maré traz algas
A valva como vulva
O refúgio da volúpia
Amplifica meu sussurro
Em um sustenido
O cicio é eco do cio
Escuta a batuta
E o maestro no mastro
Rege um Sambaqui não
Tamborim adunco
Sem adular o adufe
Uma toada empírica
Bisar um estribilho
Ária fora da Área
Incerto cetrino
Pargo longe do cardume
Enquanto o sangue coagula
O cárdice não pulsa
Acústica Cáustica
Tímpano como Panóplia.


Léxico

Valva:concha
cicio:Rumor brando
sambaqui:depósito de conchas
adunco:torto
adufe:pandeiro
empírica:adj. Que está relacionado ao empirismo.Que se fundamenta na observação e na experiência, seguindo métodos ou não.
Bisar:repetir
estribilho:verso
Ária:melodia
cetrino:vermelho
Pargo:peixe vermelho
cardice: Espécie de camafeu com um coração figurado em relevo.
camafeu:Pedra dura formada por duas camadas de cores diferentes, numa das quais se grava uma figura em relevo.
Panóplia:Armadura completa de um cavaleiro na Idade Média.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mote:Cadeira de balanço



Efeito bumerangue


Quando impera o silêncio
Mixórdia de analogias
Por lapso faltou a Onomatopeia
À beira do colapso
Cedível ao declive
Quadrúpede isócrono
Suscitou o susto
A explosão do petardo
Contra o tempo
Não plágiou o pêndulo
Caos dos tique-taques
Claudica sem clavícula
E a clave de Sol
E a chave do escuro
Quando o vazio  é Mobilável
Utensílio sem cílio
Acepipe para cupins.


Eludir com a elucidação:
petardo:bomba
Mixórdia:Mistura de coisas variadas
Onomatopeia:Vocábulo que procura imitar determinados sons ou ruídos naturais.
isócrono:De duração igual: as pequenas oscilações de um pêndulo são isócronas.
Claudica:Claudicar,Coxear, mancar, andar com dificuldades e puxando de uma perna
Acepipe:guloseima