sábado, 19 de setembro de 2009

Estação Escrita 2


Primavera Suicida

Uma tulipa brota
No túmulo do brado
Seu barco
Singra entre uma ilhota
Sangra na popa
Popa que não poupou-me
De um sofrimento implume
Solidão algoz galopa
Entre mortos e feridos
Entre agiotas
Entre gaivotas
À procura da carniça dos sentidos
Ela invoca
Com um kyrie antagônico
O antártico agônico
Seu Deus abjeto adoça
Percebeu a hipocrisia
A tulipa ressuscitou o aedo
Átimo aéreo
Que só dormia
Com ajuda de um tsé-tsé
Que agora oscila
No ocaso de sua pupila
Sem sandice.

sábado, 22 de agosto de 2009

VIAGEM POÉTICA


Por ausência de reciprocidade
Por causa de uma válvula
O trem descarrilou
Nem uma vária
Sequer um suelto
Por causa do sueto
Cessou o sudoeste
A sueca
Tirou o suéter
O maquinista dorme em um Vapuã
O marasmo domina os instintos
Adiou a viagem
Para Valáquia
Imóvel no Vale
Sem o vapular férreo
Ouvia-se o vagido
Tudo agora é vaporável
Tudo agora é vápido
Antes rápido
A paisagem não muda.

domingo, 16 de agosto de 2009

Descrição de Imagem 4




Vouyerismo

Primeiro a blusa
Depois a calça
A alça do sutiã
Sútil se não fosse o sutache
Nunca acertava o cabide
Derradeira peruca
Após a dentadura
Noite áquea
Sonhos de náufraga
Exíguo Aquerôntico
Regozijo imerjo
Obscuro sorriso de Mona Lisa
O olho de vidro
Agora sei
Porque não pisca para mim
Tirou tudo mesmo
Pleno strip-tease.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Medicina Alternativa



O Paciente

Frases franzinas
No frasco o asco
Declaração na bula
Bulha de sentimentos
Confundo meu mouse óptico com um Ovni
Aturo a fratura
Ruptura na leitura
Rasura do raso
Sem sutura
Sem anestesia
Negar a anemia
Em anexo o sem nexo
Sinto e nem sofro
Soturna soror que não sorria
Preparava a extrema-unção
Enquanto o soro caia
Tênue teoria
Para o boçal não entender
Para a boca não proferir
Ferir o boato
Sua ternura
Para brunir buril
Palavras sãs
A cura.

domingo, 2 de agosto de 2009

Plágio de mim mesmo



Paradoxal

Difícil parar a dor com sal
Ou com parche
O praxe atual é disfarce
Para uma situação paradoxal
Esqualo esquálido
Engoli surfista paranóico na neblina
Que brunia os paralelepípedos com parafina
Sub-rotina que consolido
Pare de tentar me persuadir com sua paramimia
Já tenho parábola formada sobre o parálico
Estou parálio
Onde exacerba minha paralisia
Já me acostumei com seus paráclases
Quando parasito
Na sua paranóia que sinto
Gravito nas preliminares
Quando o paralelo
Se eleva na altura do torso
Remoto remorso
Parável duelo.

sábado, 11 de julho de 2009

Manifesto Surrealista


Neres de neres
Estou de greve
Por causa da Gestapo poética
Tapo Apo
Estou ápode
No apogeu
Sem apoio
Caio a ponto de cair a qualquer hora
Geento
Confundiram-me com geladeira
Gemo como a porta que se abriu
A gema
Não sustenta
Quando eu estava doente
Deram-me gelatina
Rangia os dentes
A porta rangia
Objeto inanimado
Inapto mas cheio de grima
Por inânias
A inácia inalterável.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Manuel Bandeira


Minha Homenagem a Manuel Bandeira
Paraty não e aqui

CONFISSÃO

Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim...tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo.

Manuel Bandeira


Isso e nada e a mesma coisa

Derrepente derretido
Derrepente como se fosse um repente
Desapareço sem seu apreço
Em um eco seu
Um já vai tarde
Que você disse com os olhos
Agora na minha ausência
Decifra-me enquanto ainda te fustigo
Resquícios do brilho de ódio do meu olhar
Luz viva e cintilante de um fogo maligno
Rancor profundo e duradouro
De um vulcão vulpino
Em erupção quase estouro
Lava que lava minha alma
Que cai sob a forma de gotas
Mágoa que te acalma
Pálidas lágrimas incandensentes
Feridas escondidas em rimas
Incógnitas incolores te incomodam?
Quando não existe qualquer tipo de reciprocidade
O que eu sinto não te interessa
Por isso minto com seriedade
Como se fosse uma verdade que confessa
Que olvidei você ouvindo Jazz
Escusa neste vazio sensorial
Entre devaneios insanos
Ressurjo das cinzas como uma fênix
E para sua tristeza
Infelizmente ainda estou vivo
Felizmente eu sinto tudo
Amor eu não sinto.