domingo, 31 de maio de 2009

Big Ben 150 anos



Intencional

Ouvia quase tudo
Não estou em Londres
Mas ouço um Big Ben descortês
Paracusia com conteúdo
Anuncia um outro Big Bang
Depois do bangue-bangue
Aumenta o serviço do bangüê
Que conduz miçangas
Um bangalafumenga
Banguela com banga
Fazia tudo à bangu
Como seu capanga capenga
Via quase tudo
Via vias
Via veias
O sangue mudo
Um piano
Incidi do último pavimento do edifício
Incidi o vazio
Ao se incindir do minuano
A transmissão da via-láctea
Por via Embratel
Embarga o tropel
A via-sacra na gleba
Chove
Pombas e outros pássaros
Nos fios elétricos
Sem choque
Guarda-chuvas abrem-se contra os ventos
E os alados
Erram os vertebrados
Com seus excrementos
Preparados para o imprevisto da cidade
O lado humano da dúvida
As qualidades intrínsecas da avenida
Circunstâncias alheias à minha vontade.

sábado, 30 de maio de 2009

Victor Hugo



O Sepulcro e a Rosa

O sepulcro diz à rosa
Que fazes tu flor mimosa
Do orvalho da alva manhã?
Diz a rosa à sepultura:
Que fazes feia negrura
de tanta forma louça?
Negra tumba, segue a rosa
Eu, dessa água preciosa
Faço aroma que é só meu.
Diz-lhe a tumba com afago
De cada corpo que trago
Ressurge um anjo no céu.

Victor Hugo

Tulipáceo

A morte procura analogia
Entre uma tulipa
Que floresce entre um túmulo
Não encontra
Apenas faz tundas
Com sua túnica negra
Encobria suas pétalas
Depois com sua foice
A ceifa
A tulipa reagiu contra
Com suas folhas lanceoladas
Baldo respaldo
Apétala combina
Para a morte só interessava
O convulso
Seu bulbo
Com alcalóides termoestáveis
E cristais de oxalato de cálcio
Manipulados liberam um pó
Que pode provocar
Conjuntivite coniviente
Rinite que rima com o rijo
Fantasmas com asma.

sábado, 16 de maio de 2009

Van Gogh




Monobafia

Vápida glosa crisálida
Durante o breu
Perdeu cefeu
Até palêmon pálida
Agonizante algólida
Luzida para lúcifer
Obliterada para o recife
Fúlgida para o lupanar da avenida
Fugida para o fulvo
O jalne que entra pela janela
Deixa-me xantóptero até a canela
Flavípede sem andar no febo avulso
Icterocéfalo
Não conseguia pensar em mais nada
Além da alvorada
Aquém ao crisalho
Absorto no campo de heliantos
Podia ver-se nas amarelas
Heliose e outras balelas
O valor do vão dos cantos
Luctíssonos de uma elegia
Mais caros que ouro
Pechisbeque fosco
Provocam a ototomia
No betesga
Pura xantopsia ao plácido
Sem meu beneplácito
Belida bege.

"Após a experiência dos ataques repetidos, convém-me a humildade. Assim pois: paciência. Sofrer sem se queixar é a única lição que se deve aprender nesta vida."

Vincent van Gogh

terça-feira, 5 de maio de 2009

Música Inspiradora


Chão de Giz
Zé Ramalho

Eu desço dessa solidão
Espalho coisas sobre
Um Chão de Giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes...

Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...

Agora pego
Um caminhão na lona
Vou a nocaute outra vez
Prá sempre fui acorrentada
No seu calcanhar
Meus vinte anos de "boy"
That's over, baby!
Freud explica...

Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular...

No mais estou indo embora!
No mais estou indo embora!
No mais estou indo embora!
No mais!...

Pleonasmos de palavras inúteis

Para que humilhar-se por nada
Embaixo esse embaraço
Embebido em seu suor
Não evito o envolvente
Quando há no solo
Um coeficiente variável de folhas caídas
É sua fonética que humifica o solo
Aritmética não são só números
Nesta aridez sou arigó contra distâncias
Onde a gramática nasce da grama
Vi com estes olhos
Um pleorama que se desfaz
Desço para baixo
Apenas pleonasmos
Talvez venham a ser
Algo mais que verbos
Algo mais que vírgulas em sua virilha
Não se usa pausa
Entre o sujeito e o desejo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Espaço Esparso





Quase uma miragem no Espaço

Suas últimas palavras ecoam no silêncio da madrugada
E as estrelas não recitam mais poesias em aramaico
Desde a semana passada
Quando impudico
Na ausência completa de ruídos
Tento ouvir mais você
Para traduzir os hieróglifos
Que as estrelas deixaram entre as nuvens agridoce
E não vai ser mais impossível
Atravessar os obstáculos dessa meada de difícil desenredo
Desse seu dédalo ultra-sensível
Que você me deixou com ciúmes e medo
Da solidão invisível
Que me arremata por bagatelas
Em uma hasta
Me permuta por estrelas
Depois me arrasta
Para fora de sua cela
Me deixa mais perdido ainda
E com dor de canela
Quando brinda por estar na berlinda
Talvez seguindo sem seus ósculos
As sombras dos espíritos aflitos que você amou
Eu encontre você em algum lugar sem ululos
Quando sou
Dias sem crepúsculos
Noites sem estrelas
Separados por essa apatia de abafar por dentro
Os próprios sentimentos e devaneios
Quando me concentro em paralelas
Para ficarmos presos a órbita da Lua com enleios
Quando esquenta por dentro em aquarelas
Acalma com chá de coentro
Antes de tentar comê-las
No alarido de um epicentro
Desprotegidas estrelas
Seriamos então astronautas
Perdidos no Espaço Sideral
Sem metas ou pautas
Sem noção alguma de como voltar para casa habitual
Antes das estrelas e planetas hipotéticos
Invadirem nossa casa pelo telhado crivado
Por cupins impudicos
Assumir indevidamente pelas portas e janelas que por descuidado
Nós esquecemos de fechar
E espalharem nossas poesias abstratas quando aclarado
Não vamos mais estar
Insensivelmente afastados com enfado.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Persistência da Memória - Salvador Dali




Ampulheta

As horas se esvaem
Até o vestido tem rugas
Desbotado o bordado de tartarugas
Estuga a viagem
E ao mesmo tempo
Que sentia um certo receio pelo futuro
Sentia falta do segundo anterior que apuro
Inseguro comtemplo
Os detalhes da paisagem
Tudo nunca seria o mesmo
Amanhã tudo alternado à esmo
Alterno momentos de estiagem
Com instantes de entusiasmo
É hipocondria
Ao trazer à memória
Quase todo o passado em um espasmo
Eu não era o mesmo que ontem
O ano não era igual
Algumas coisas sumiram no quintal
Sem mais nem menos este desdém
Outras desapareceram por algum motivo
Nem tudo fica guardado na lembrança
E o culpado e o tempo que avança
Não descansa no infinitivo
Lúcia ainda lúcida
Não lembra mais do seu nome
Escolheu um codinome
Para sua alma perdida
É quando eu faço alusão aos relógios
Sempre calculando
Sempre multiplicando
Sem elogios
Um segundo atrás do outro
Não se confundem
Nessa lassitude
Que usufruto
Não se enganam com os zeros
Nem quando ficamos dizendo
Ao seu lado adendo
Diferentes números
Tudo passa
Algumas coisas passam rápido demais
O paquete não para mais no cais
Tudo assa
Outras ficam por fazer
Poesias pela metade
Empresta está sua complexidade?
Resta vir a ser
As árvores demoram para crescer
Algumas nem chegam a dar frutos em nossa época
Não importa a boca
Alguém os comerá com prazer
Alguém irá lembrar de mim
Sempre haverá histórias
Alegrias vazias
Sempre restará um pouco de gim
De bebida nas garrafas
De cinzas no meu esquife
Nos cinzeiros e nos recifes
Escolho esse escolho que me abafa
Quando não está mais na moda
Sentir está dor que acomoda
E safa.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Descrição de Imagem 3



Súbita Subida
Mera meralgia
Mesmo dolicópode
Degringolei do último degrau
Chispas dos chispes
Derradeiro mas derrogador
A degola da derme
O nada me atrai
Seu descaso é outro caso
Há derrisão do nocivo
Normal na próxima curva
Ao norte
Um nódulo górdio
Enrolam-se os fatos
Esféricas miúdas
Como as de Van Gogh
Dobro como um dom
Domável ao dolorífico
Domínio de uma variável
Pode ser um dólmen
O âmbito do ambívio
Deixa tudo ambíguo.

Ednei Pereira Rodrigues