terça-feira, 20 de maio de 2025
O Abismo que Lê
sábado, 10 de maio de 2025
Inspiração hierática
Da Tília provém vitualhas, o legorne empalado no fronde, tudo exige esforço para ser alcançado. Na alheta, um ébrio exige costeleta, cospe penas no pargo ainda vivo, preso por crinas de cavalo em um galho, e grita: AGORA VAI APRENDER A VOAR! O tamborilador de crânios marca o compasso dos que dançam sem sombra, enquanto uma sóror endemoniada entoa ladainhas satânicas em seu alaúde. A ossatura na amura, para roerem depois, serve de troféu ao pierrô cego que calcula estrelas com um garfo.
Estavam desrespeitando o alimento sagrado, ultrajavam aquilo que deveria ser reverenciado: o maná para o manaça, a ambrosia para o ambroso, o sangue para o sedento, a seiva para o espasmo. A quilha regurgita caroços de fruta mastigada por bocas inexistentes. Os que se refestelam sobre um tapete de vísceras confundem-se em risos histéricos. A língua bifurcada da sibila lambe o cálice de fel, e seus olhos ausentes piscam em descompasso com o relinchar da besta disfarçada de anjo.
Tudo é oferenda, mas ninguém agradece. Enquanto o fole do anacoreta estufa e murcha como pulmão em suplício, deixaram aquela anaconda humana à própria sorte. Cada balanço da embarcação é um julgamento, cada ranger da madeira, confissão arrancada da língua por mastigações de silêncio. Não incomode o trasgo. Se tem um vigia, por que deixaram a pândega sair do controle? Talvez para testar os limites, medir até onde a estrutura suportaria a carga da desordem. Há quem invoque o tumulto apenas para observar, e quem se atreve a contê-lo?
Tolerar o desvario pode ser também um modo de reconhecer os que ainda preservam discernimento, os que não se rendem à cadência do exagero. Dos galhos retorcidos surgem murmúrios esquecidos, ancestrais ocultos zelam por segredos entre musgos e raízes. Evite passos ruidosos, pois há pactos selados no convés. A decídua não serve como um mastro, porque sua estrutura natural, com ramificações irregulares e densidade variável, compromete a resistência mecânica e dificulta a fixação de velas ou outros componentes náuticos.
O desvario começou com um sussurro, e agora cresce como hera sobre pedra antiga. Quem ousará restaurar a ordem antes que o breu engula o que restou do juízo?
Vai ter que parar de comer se quiser cantar, engasgo iminente. Depois, não culpe a gluma quando a bruma que você glugluta escurecer as ilhotas de Langerhans.
Lamentamos pelos inconvenientes causados. Desculpe-nos por não oferecer um conforto que seja realmente reparador. Quando o corpo se torna um campo de batalhas internas, sobrecarregado de desejos insaciáveis, não sabe mais distinguir entre necessidade e exagero. Não há retorno quando se perde o caminho entre o prazer e a dor. Nada pode ser desperdiçado, estamos enfrentando escassez de recursos.
Colocamos coletores de alimento. Não se assustem com eles, apesar de suas feições. São irmãos nossos, escolhidos para a tarefa ingrata de recolher o que sobra, vasculhar migalhas entre os dentes, lamber os pratos secos, remexer nas entranhas das frutas podres. Alguns já esqueceram que foram homens, agacham-se nos cantos, farejando o chão como cães famintos, disputando com as ratazanas a última partícula de carne.
Quando o alimento acabar, sobreviverá a fome ou a razão? Vão virar canibais, não por crueldade, mas por desespero, arrancando a humanidade dos ossos uns dos outros, na tentativa de prolongar o inevitável. A ética será esquecida como um livro molhado num naufrágio, e os olhos, outrora cheios de compaixão, buscarão carne, não companhia.
A árvore, no lugar do mastro, compromete a estabilidade. O mar, impiedoso, não perdoa improvisos. O vento castiga, e nós, frágeis, resistimos como podemos. O orgulho se despedaça no convés, junto com os estalos secos da madeira velha. Já não há espaço para vaidades. O que resta é sobreviver.
Continuam a navegar, sem se preocupar com regras, deixando o vento e as estrelas guiarem nosso destino. A cada onda que quebrava contra o casco, mais se entregavam à liberdade que o mar nos oferecia. Não havia um rumo certo, apenas o desejo de explorar o desconhecido, de estar perdido para, talvez, nos encontrar em algum lugar melhor.
Quando paravam em algum píer, a piêmese da piela era evidente, e tudo isso nos deixava imunes à pieguice da piesimetria. Mas alguém sempre gritava: BLASFÊMIA! E ninguém parecia se importar, quando a sensação é de que já estavam afundando lentamente dentro deles mesmos.
quarta-feira, 30 de abril de 2025
Inspiração pueril
Gangarreão-substantivo masculino.Desordem mais ou menos profunda na saúde de alguém.
Gângaras-De gângaras, indolentemente; de má vontade.
segunda-feira, 21 de abril de 2025
Inspiração frugal
terça-feira, 15 de abril de 2025
Inspiração vítrea
Monólogo de uma ampulheta
terça-feira, 1 de abril de 2025
Descrição de imagem
quinta-feira, 6 de março de 2025
Do caos à adaptação:caminhos dilacerados
Resgatar a borboleta do balastro
Abrastol não vai ajudar, talvez bromalina, quando tudo é labrosta. Aguenta o brogue? Não haverá descarrilamento por sua causa. O ambiente é áspero e indiferente, onde até o mais frágil ser pode desaparecer sem deixar vestígios. A bromélia teria sido uma escolha mais apropriada para a desova. Nada é mais deslumbrante à vista. A sensação é de que você já alcançou o ponto mais distante. Lembra quando éramos nômades? E tínhamos maior flexibilidade para nos mover? Agora, a sensação é de que tudo se desfez, e o único remanescente é esse trem fantasma, vagando sem rumo, ecoando em silêncio, como uma lembrança distante do que já fomos. Cada parada, uma despedida não dita; cada trilho, uma memória que se esvai. O trem leva com ele não só o que já fomos, mas as esperanças que deixamos para trás, as almas perdidas no vazio de um caminho que não existe mais, enquanto o horizonte se dissolve no nevoeiro do que poderia ter sido.
Acho que o que você está fazendo é uma forma de autodestruição. Não te repreendo, já tive essa ideia em mais de uma ocasião, mas parece que algo me impede de tomar essa decisão. Talvez seja a lembrança do que éramos ou o medo do que restaria quando o trem parasse de vez. O vazio parece imenso, mas, ao mesmo tempo, o movimento é a única coisa que ainda nos mantém vivos. Somos, de alguma forma, prisioneiros das escolhas que fizemos. Ah, o livre-arbítrio talvez seja o culpado de tudo isso que está acontecendo, essa ilusão de poder escolher, de controlar, quando, na verdade, estamos apenas seguindo um destino traçado por nossas próprias mãos, sem perceber. As opções que um dia pareceram tantas agora se reduzem a um único caminho, estreito e sem luz, onde cada passo parece nos levar mais para longe daquilo que pensávamos ser o nosso lugar.
Dizem que a gente acaba se moldando ao que nos é imposto. Agora que te salvamos do basilisco fumegante, o básico, temos as vicissitudes, o mistral, talvez com uma Guanandi, toda basiofobia controlada. Mas ainda há o calor do siroco, que nos enfraquece aos poucos, como se nos consumisse de dentro para fora, até que não reste mais nada além de uma sombra. E há a neblina, que pode esconder até os piores perigos, aqueles que surgem nas margens de nossos pensamentos, minha basite, sua Beauveria bassiana. Não há beleza sem dor, não há vida sem luta. Somos como ela, buscando o néctar da existência, mas cada toque do vento é um risco, cada escolha pode ser fatal. A borboleta, assim como nós, se adapta aos ventos e às tempestades, mas, no fim, a fragilidade da sua alma é tão evidente quanto a nossa. Vulnerável, sempre à mercê de predadores que a observam com olhos famintos, como as aves que a caçam no ar ou as aranhas que aguardam em suas teias silenciosas.
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