terça-feira, 20 de maio de 2025

O Abismo que Lê

imagem:@visionaryaiimagination




A biblioteca era submersa, e um certo desagrado pairava sobre alguém: utilizar vestimenta adequada para imersão prolongada, toda vez que queria ler algo, era um incômodo constante. O traje colava à pele como uma segunda camada fria, e o processo de equipar-se tomava preciosos minutos de preparação. Ainda assim, o verdadeiro desconforto vinha depois, ao adentrar as salas inundadas de silêncio líquido, onde os livros flutuavam presos por correntes finas ou repousavam em estantes seladas, acessíveis apenas com o visor correto e gestos precisos.
O escafandro era aflitivo: apertava a cabeça e abafava os sons do próprio pensamento. A cada descida, a pressão ao redor parecia comprimir não apenas o corpo, mas também a vontade. O ambiente subaquático exigia concentração constante: uma piscada mais longa podia comprometer a leitura, um movimento em falso fazia as páginas se afastarem, vagando lentamente até o teto translúcido do recinto. As palavras, ampliadas pelas lentes, emergiam diante dos olhos como espectros, difíceis de fixar.
Ela era uma arqueóloga subaquática, e isso não era problema para ela, pelo menos não no início. Havia algo quase ritualístico no ato de se preparar, como se cada camada de roupa e equipamento representasse uma transição para outra realidade. Contudo, o que antes era fascínio agora tornava-se desgaste. A biblioteca parecia viva, não em um sentido biológico, mas como uma entidade que reagia à presença humana. A sensação de estar sendo observada crescia a cada visita, embora nenhum sensor ou monitor indicasse anomalias.
Foi depois de um maremoto que tudo começou a se alterar de maneira mais evidente. A estrutura da biblioteca, antes estável apesar da profundidade, apresentava fissuras sutis que não constavam nos registros anteriores. As colunas de contenção, cobertas por corais e sedimentos ao longo de décadas, agora expunham partes metálicas reluzentes, como se tivessem sido recentemente raspadas por uma força invisível. E agora as folhas dos livros estavam espalhadas por todo o espaço, flutuando lentamente pelas águas escuras. O impacto parecia ter rasgado a essência do lugar, fazendo com que volumes antes cuidadosamente organizados se desintegrassem em pedaços dispersos.
As páginas se soltavam das capas, girando suavemente, como se levadas por uma corrente invisível. O silêncio, antes denso e abafado, agora parecia carregado de um peso novo, algo entre o caos e o mistério. As adjacências estavam cobertas por fragmentos de texto, palavras que, antes enredadas na ordem rígida das prateleiras, agora se viam livres, porém dispersas. O lugar parecia um labirinto de letras e pensamentos. Uma poesia encharcada sobre uma rocha seca, com o Sol refletindo na água calma — tudo parecia efêmero, irreparável.
Os pensamentos que antes estavam restritos a páginas perfeitamente alinhadas agora flutuavam sem direção, livres em um mar de incertezas. O cenário que se desenhava diante dos olhos era, ao mesmo tempo, desolador e fascinante. Os fragmentos que antes formavam relatos, teorias e ideias agora se misturavam como uma aquarela desfeita pela correnteza. Ficou mais difícil para ela. Teria mais trabalho agora, para organizar tudo aquilo.
Ela tentou recolher os fragmentos, mas os gestos precisos de antes já não produziam o mesmo efeito. As páginas escapavam das mãos como se possuíssem vontade própria, unindo-se a outras que contradiziam suas origens. Um tratado filosófico fundia-se a uma poesia; uma lista de códigos, com fragmentos de cartas esquecidas. Tudo parecia testar os limites da compreensão, como se aquele espaço tivesse deixado de armazenar conhecimento e passado a criar novas formas de pensamento por si mesmo.
Essa fusão inesperada sugere que o lugar não apenas armazenava memória, mas reconfigurava significados. Talvez estivesse reagindo a uma necessidade não dita, talvez estivesse respondendo a quem ousava mergulhar em suas profundezas. Era como se o conhecimento não quisesse mais ser consultado, mas vivido, intuído, sentido por aproximação, um pensamento líquido, em constante recomposição.

sábado, 10 de maio de 2025

Inspiração hierática


imagem: O navio dos loucos- Hieronymus Bosch

Da Tília provém vitualhas, o legorne empalado no fronde, tudo exige esforço para ser alcançado. Na alheta, um ébrio exige costeleta, cospe penas no pargo ainda vivo, preso por crinas de cavalo em um galho, e grita: AGORA VAI APRENDER A VOAR! O tamborilador de crânios marca o compasso dos que dançam sem sombra, enquanto uma sóror endemoniada entoa ladainhas satânicas em seu alaúde. A ossatura na amura, para roerem depois, serve de troféu ao pierrô cego que calcula estrelas com um garfo.

Estavam desrespeitando o alimento sagrado, ultrajavam aquilo que deveria ser reverenciado: o maná para o manaça, a ambrosia para o ambroso, o sangue para o sedento, a seiva para o espasmo. A quilha regurgita caroços de fruta mastigada por bocas inexistentes. Os que se refestelam sobre um tapete de vísceras confundem-se em risos histéricos. A língua bifurcada da sibila lambe o cálice de fel, e seus olhos ausentes piscam em descompasso com o relinchar da besta disfarçada de anjo.

Tudo é oferenda, mas ninguém agradece. Enquanto o fole do anacoreta estufa e murcha como pulmão em suplício, deixaram aquela anaconda humana à própria sorte. Cada balanço da embarcação é um julgamento, cada ranger da madeira, confissão arrancada da língua por mastigações de silêncio. Não incomode o trasgo. Se tem um vigia, por que deixaram a pândega sair do controle? Talvez para testar os limites, medir até onde a estrutura suportaria a carga da desordem. Há quem invoque o tumulto apenas para observar, e quem se atreve a contê-lo?

Tolerar o desvario pode ser também um modo de reconhecer os que ainda preservam discernimento, os que não se rendem à cadência do exagero. Dos galhos retorcidos surgem murmúrios esquecidos, ancestrais ocultos zelam por segredos entre musgos e raízes. Evite passos ruidosos, pois há pactos selados no convés. A decídua não serve como um mastro, porque sua estrutura natural, com ramificações irregulares e densidade variável, compromete a resistência mecânica e dificulta a fixação de velas ou outros componentes náuticos.

O desvario começou com um sussurro, e agora cresce como hera sobre pedra antiga. Quem ousará restaurar a ordem antes que o breu engula o que restou do juízo?

Vai ter que parar de comer se quiser cantar, engasgo iminente. Depois, não culpe a gluma quando a bruma que você glugluta escurecer as ilhotas de Langerhans.

Lamentamos pelos inconvenientes causados. Desculpe-nos por não oferecer um conforto que seja realmente reparador. Quando o corpo se torna um campo de batalhas internas, sobrecarregado de desejos insaciáveis, não sabe mais distinguir entre necessidade e exagero. Não há retorno quando se perde o caminho entre o prazer e a dor. Nada pode ser desperdiçado, estamos enfrentando escassez de recursos.

Colocamos coletores de alimento. Não se assustem com eles, apesar de suas feições. São irmãos nossos, escolhidos para a tarefa ingrata de recolher o que sobra, vasculhar migalhas entre os dentes, lamber os pratos secos, remexer nas entranhas das frutas podres. Alguns já esqueceram que foram homens, agacham-se nos cantos, farejando o chão como cães famintos, disputando com as ratazanas a última partícula de carne.

Quando o alimento acabar, sobreviverá a fome ou a razão? Vão virar canibais, não por crueldade, mas por desespero, arrancando a humanidade dos ossos uns dos outros, na tentativa de prolongar o inevitável. A ética será esquecida como um livro molhado num naufrágio, e os olhos, outrora cheios de compaixão, buscarão carne, não companhia.

A árvore, no lugar do mastro, compromete a estabilidade. O mar, impiedoso, não perdoa improvisos. O vento castiga, e nós, frágeis, resistimos como podemos. O orgulho se despedaça no convés, junto com os estalos secos da madeira velha. Já não há espaço para vaidades. O que resta é sobreviver.

Continuam a navegar, sem se  preocupar com regras, deixando o vento e as estrelas guiarem nosso destino. A cada onda que quebrava contra o casco, mais se entregavam à liberdade que o mar nos oferecia. Não havia um rumo certo, apenas o desejo de explorar o desconhecido, de estar perdido para, talvez, nos encontrar em algum lugar melhor.

Quando paravam em algum píer, a piêmese da piela era evidente, e tudo isso nos deixava imunes à pieguice da piesimetria. Mas alguém sempre gritava: BLASFÊMIA! E ninguém parecia se importar, quando a sensação é de que já estavam afundando lentamente dentro deles mesmos.


Glossário:
Legorne, palavra derivada do inglês Leghorn, designa a raça de galinha poedeira de ovos brancos, oriunda da região de Livorno, Itália.
alheta: Prolongamento externo da popa do navio.
anacoreta:religioso que vive na solidão.
ilhotas de Langerhans.Ilhotas pancreáticas (ou Ilhotas de Langerhans) são um grupo especial de células do pâncreas que produzem  insulina.
Manaça: homem indolente.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Inspiração pueril




Monólogo de uma gangorra


Gango para sua incoerência, quando a inflamação de um gânglio limita, e o corpo silencia onde a alma ainda grita, mas ainda assim sorrio com a ternura de quem entende o caos. Gangarreão e sua peculiar idiossincrasia, mesmo assim ainda tem a gangarilha, quando que de gângaras para um mundo que se arrasta em lentidão, como se cada passo fosse dado com a resistência de um corpo cansado de lutar contra si mesmo. Toda essa ledice efêmera me incomoda. Quando estou no ápice, sinto poder apalpar Aldebaran, quase pego a maçã da macieira e sinto toda a maciez das folhas que dançam no vento, sem se preocupar com nada. É nesse instante que tudo parece fazer sentido, mesmo que por breves segundos. As maçãs reluzem como se carregassem dentro de si a sabedoria do início. Nunca vou comê-las, não por falta de desejo, mas por saber que certas coisas existem apenas para serem contempladas, e eu quase escuto o estalo das suas cascas se abrindo para revelar o suco da memória. O mundo se curva em pequenas ondas de nostalgia, compreendo que a leveza é, na verdade, o disfarce da dor.
Quando estou na gleba, sinto o ínfimo vil se dissolver no murmúrio das raízes, como se o chão sussurrasse segredos enterrados sob o peso do tempo. A poeira se ergue em espirais suaves, desenhando no ar a memória de passos antigos que já não sei se são meus. Tudo se move em lentidão, mas há uma precisão nisso, uma cadência quase sagrada que escapa à lógica e repousa apenas na intuição. A terra exala lembranças esquecidas, como se cada grão soubesse mais sobre mim do que minha própria memória ousa admitir. Os pés afundam, aceitando o peso que não se vê, e cada passo é como uma conversa com o telúrico, a qual me leva a perguntar aos vermes: O que é ser poeira, senão matéria que se reinventa ao se fundir com a terra? Sinto o petrichor da bátega que caiu sobre mim a noite inteira. Pelo menos vai lavar o vômito em mim, limpar as marcas invisíveis que carrego. A chuva parece não só apagar a sujeira, mas também suavizar a dureza do ser que se acostuma a suportar sem questionar. Cada gota que cai carrega um peso alheio, como se, ao entrar em contato com meu corpo, absorvesse o que me afasta de tudo o que é puro. A terra, agora saturada, me abraça com uma suavidade inesperada, e sinto o calor de suas raízes se infiltrando sob minha pele, fazendo-me lembrar que pertenço a algo maior que meus próprios dilemas. O chão, com suas infinitas camadas de histórias, fala sem palavras, em uma língua ancestral que não precisa de tradução. Eu a entendo, porque sempre soube que, no fundo, as respostas estão todas aqui, sob o peso do silêncio.
Sinto o prurido do gadanho afiado do pássaro que em mim pousou. Às vezes queria voar, sair um pouco de mim, escapar da rotina, do peso dos dias que se repetem. Imagino como seria deixar tudo para trás por um instante, só para ver o mundo de outro lugar, de cima, com mais clareza. Talvez não fosse uma fuga, mas um jeito de entender melhor o que sinto aqui embaixo. Não sei se o pássaro veio me ensinar ou apenas lembrar que ainda tenho esse desejo de movimento dentro de mim. Mas ele está aqui, firme, como se dissesse que voar é mais uma questão de coragem do que de asas.
O dia está calmo hoje, nenhuma criança por perto. Sinto folhas caindo sobre mim. São leves, não conseguem me mover. Apenas se acumulam, uma a uma, formando uma camada fina de silêncio e tempo. O ar está morno, quase parado, como se o mundo estivesse esperando alguma coisa que não chega. Apenas um cachorro veio urinar sobre mim, e o cheiro me invade, desagradável, como se a tranquilidade do momento tivesse sido rompida de maneira inesperada. Esse animal podia, ao menos, escolher outro lugar. Por que justamente eu? Com tanta árvore por aí, acho que o perro ficou obcecado comigo. Agora ele cava ao meu lado como se quisesse me exumar. Cada movimento dele é uma martelada nos meus pensamentos, uma lembrança de que até na quietude algo sempre vai interromper. Eu observo, impotente, o animal fazer sua escavação, como se estivesse determinado a desenterrar algum segredo que nem eu sabia que guardava. O barulho das patas contra o solo me incomoda, uma espécie de insistência sem sentido. Se ao menos ele soubesse o quão desconfortável é ser o alvo de sua curiosidade, talvez procurasse outro lugar para aliviar suas necessidades. A cada escavação, sinto a base embaixo de mim afrouxar, como se estivesse prestes a ceder. Eu já estava firme, mas agora a pressão do solo se desfaz, e a sensação de que estou prestes a cair cresce. Não queria provocar quedas ou acidentes, mas agora a sensação de que estou prestes a sucumbir é inevitável. Não é culpa minha que ele tenha escolhido este lugar, mas, de alguma forma, agora sou eu quem arca com as consequências. Eu só queria que ele parasse, que encontrasse outro lugar para se distrair, que sua insistência não interferisse mais em minha paciência.



Glossário:gango-substantivo masculino[Portugal] O mesmo que mimo, meiguice.
Gangarreão-substantivo masculino.Desordem mais ou menos profunda na saúde de alguém.
gangarilha-substantivo feminino[Teatro] Companhia itinerante, com poucos atores, no teatro espanhol. 
Gângaras-De gângaras, indolentemente; de má vontade.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Inspiração frugal




Imagem:filme A cor da Romã(The Color of Pomegranates)1968
Sergei Parajanov




Manual para um Caos Deliberado


A arte de empilhar é pura organização. Depois, você pode colocar os títulos em ordem alfabética para facilitar na hora da busca por um autor específico. Cuidado com o especilho, você ainda está se recuperando, e esses calhamaços não são leves, principalmente as enciclopédias. Uma especiosidade espectável quando se especula sobre o caos, o espedaçamento e o espeitamento do que se sente. O vento às vezes tenta derrubar tudo, como se testasse sua fé na gravidade e na literatura. As cores também contam histórias. Tente agrupá-las, cores lado a lado criam uma nova narrativa, estilo arco-íris. Sempre funciona. Vai que o cérebro lembra melhor pela cor da capa, mas se o leitor for daltônico, isto será um problema. Nesse caso, experimente sinalizar com símbolos discretos na capa, pequenos traços, pontos ou figuras geométricas.
Estrelas para poesia, quadrados para ciências exatas, triângulos indicando ficção, círculos sugerindo filosofia.
Assim, mesmo que os tons se confundam aos olhos, a lógica permanece acessível. O conteúdo continua mapeado, não pelas aparências, mas pela intenção.Uma linguagem secreta entre o leitor e o acervo,um código silencioso que respeita cada limitação como se fosse estilo. Melhor não deixar a métrica perto de estatísticas demográficas. Ela se assusta fácil. As metáforas dançam, os números marcham, mantenha uma distância elegante. Iletrados virão. Não vai precisar se preocupar com o ilegítimo e o ilenível será subestimado. Seria melhor utilizar o ileísmo até que as margens deixem de ser fronteiras e passem a ser espelhos. O ileísmo protege, não como armadura, mas como disfarce. Ao falar de si na terceira pessoa, desloca-se o centro da dor, distribui-se o peso, dá-se tempo ao entendimento. O afastamento cria frestas por onde o sentido escorre sem ser coagido. É nessa dissociação que algo nasce, algo que não depende do verbo nem da norma, mas do gesto de se colocar diante do mundo com olhos desalinhados. Quadrúpedes virão, guiados pelos quasares, e a aproximação se dará em passos baixos e firmes. Chegarão arrastando séculos de silêncio sob as patas. Serão criaturas que não pedem licença ao vocabulário. Você terá que fazer algo que interrompa o avanço sem violência, algo que desfaça o chamado sem negar a presença.Talvez dispor espelhos voltados para o solo. Ruídos agudos em frequência quase inaudível, nada agressivo, apenas inóspito. Eles entenderão. Não se trata de hostilidade, mas de delimitação. O espaço precisa manter sua arquitetura simbólica, e nem todo visitante se alinha ao pacto da leitura. O silêncio, aqui, tem outra densidade. Melhor evitar que patas cruzem a soleira onde olhos ainda tropeçam em sílabas. Sapientes virão e vão dizer que já sabem tudo. E, claro, virão com suas teorias prontas, fórmulas que juram universais. Dirão que está desorganizado, que falta método, ignorando que o caos aqui é deliberado, milimetricamente caótico, feito para testar a percepção, não para agradar a norma. Vão rir dos símbolos nas capas, achar “poético demais”, “infantil talvez”, sem saber que cada sinal é uma senha, uma chave pequena demais para mãos tão ocupadas com teorias. Falarão com a segurança dos que acreditam ter encerrado o diálogo com o mundo, como se o tempo já lhes tivesse contado todos os segredos e nada mais restasse senão repetir conclusões. Ignorarão os silêncios entre as linhas, os desvios que o olhar faz quando tropeça numa ideia ainda sem nome. Não notarão que o que permanece quieto não está inerte, mas à espera.Porque há formas de saber que não se impõem, se insinuam. E aquilo que realmente transforma não grita, apenas respira. Afirmando que os conceitos são reciclados, que o pensamento ali contido gira em círculos antigos. Não enxergarão as dobras da memória que se alojam em cada parágrafo, nem os desvios sutis que uma frase pode operar dentro de quem lê com presença. Lepismas virão, atraídas pela quietude e pelo sabor antigo das folhas esquecidas. Serão notadas primeiro pelos rastros tênues, pelas bordas gastas, pelos vestígios quase invisíveis entre capítulos. A resposta será silenciosa, meticulosa. Frascos de cravo escondidos entre volumes, pequenos sacos de lavanda costurados à mão, repousando junto aos diários. A brisa será medida, as janelas abertas apenas nas horas certas, jamais sob o sol direto. Alguns textos serão envolvidos em tecido de algodão cru, outros, revezados em posição para que o repouso não seja abrigo.


Glossário:
Especilho
substantivo masculino[Medicina] Tenta cirúrgica.
Tenta
substantivo feminino[Medicina] Espécie de estilete para sondar fendas.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Inspiração vítrea


Monólogo de uma ampulheta



Barchan escorrendo em meu âmago, cada grão revela um sussurro do tempo que se esvai em silêncio. Cada instante desvanecido se transforma em um eco que se dispersa pelo infinito, carregando consigo as marcas de momentos que jamais retornarão.
Enquanto as sombras do passado tentam reavivar memórias há muito adormecidas, sinto o peso suave dos instantes esquecidos. Não estou sendo saudosista, mas eles eram mais felizes e não sabiam. Mesmo com a pouca tecnologia, o encanto da simplicidade fazia com que cada encontro e cada gesto tivessem um brilho próprio. Pode me chamar de ludita: encontro refúgio na ternura de uma época em que o toque e o olhar diziam mais do que palavras digitais.
Havia magia na demora dos acasos e na riqueza dos silêncios compartilhados, onde cada riso e cada lágrima formavam a tessitura de uma existência plena. Talvez seja tolice, mas prefiro abraçar a memória dos instantes que se estendiam, longos e intensos, onde a alma se revelava sem artifícios. Tento abafar a barafunda externa. Preciso de silêncio para escutar o que se perdeu entre os excessos.
O tempo ressoa em ritmos esquecidos, sussurra verdades que poucos querem ouvir. Há algo essencial na espera, na contemplação do imperceptível, no intervalo entre o que foi e o que será. Sigo resistindo à vertigem dos dias rápidos, aos sentidos anestesiados, às conexões que não tocam.
Caminho sobre lembranças que se desfazem como espuma ao toque, mas que ainda guardam o peso de tudo o que já foi vivido. Contudo, esta baragnose predominante infiltra-se em meus pensamentos vítreos, refletindo distorções de uma aridez íntima. A rispidez implacável corrói convicções e esculpe labirintos de dúvidas.
Meus olhos translúcidos jamais contemplaram o mar, só conhecem miragens, ecos de águas que nunca tocaram. A torneira pingando na pia marca o compasso de um tempo implacável, cada gota, um lembrete de ciclos intermináveis. Sinto sede, mas não de água, é um anseio que escapa à compreensão, um vazio profundo que nem o fluxo incessante preenche.
O som ritmado ecoa como uma memória persistente, desenhando círculos na superfície imóvel, enquanto a secura invade, convertendo pensamentos em poeira. Mudei desde ontem, hoje pareço o Atacama. O bafo no vidro não é respiração, é a mudança brusca de temperatura. Hoje vai ser um daqueles dias. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com coisas fúteis, e as inquietações se multiplicam, sufocadas por ruídos sem substância.
Olhares vazios percorrem telas brilhantes, buscando um sentido que se dissolve antes mesmo de ser compreendido. O que antes era encontro, agora é dispersão. O que antes era troca, agora é consumo. Cada gesto automatizado alimenta um ciclo que não cessa, um redemoinho de urgências que nada significam.
Observo a pressa, a ânsia por algo que nunca chega. Palavras ditas sem serem sentidas. Risos que não encontram eco no peito. Promessas feitas apenas para preencher o silêncio. Agradeço à criança que me quebrou, agora sou uma campânula. Tudo se esvai antes de ser sentido, como se houvesse medo daquilo que permanece.
Mas eu, na minha transparência imperfeita, me mantenho imóvel, escutando as vibrações do que persiste, do que ainda pulsa sob a superfície.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Descrição de imagem


 imagem: Filme Amer 2009( Hélene Cattet)



A essência do caos


A saliva é salgada, magma no catagma do tagma. Não espere de mim as mais doces palavras; o óbvio não me atrai, e o trivial me entedia, talvez um sintagma: a essência do caos. Ela sinalizou, em silêncio, que tudo estava bem, com a suavidade do sinalagma entre nossas sombras e vícios.
O buraco negro está prestes a te engolir. Até quando você vai persistir nisso? É muita ousadia de sua parte querer afrontar toda essa singularidade gravitacional. Se você está procurando por distorções, há opções mais viáveis. Em vez de se lançar no abismo do desconhecido, sei que tudo é acirrante, toda essa aciesia de um acismo não vai te trazer paz.
Posso te mostrar meu universo particular, onde as leis da física são apenas sugestões e a matéria se dissolve em pura percepção. Lá, não há necessidade de explicações ou preceitos, apenas a imersão na fluidez da existência. Aqui, onde o tempo e o espaço se entrelaçam, você poderá ver que a linearidade é uma ilusão confortável para mentes que buscam segurança. Onde você vê escuridão, eu enxergo luz em seu estado mais puro, uma luz que não brilha de fora, mas em cada átomo que compõe sua essência.
Aqui, não há espaço para dualidades; o que você chama de vazio é apenas o campo fértil onde novas formas podem nascer. Em meu universo, as distâncias não são medidas em unidades fixas, mas em sentimentos, em pulsações, em momentos de pura conexão. A parestesia sentida não era má circulação, mas algo que transcende as limitações da carne e alcança a alma. Cada sensação, cada vibração, não é mais um simples reflexo do mundo físico, mas uma expressão do que está além, algo profundo e inefável, que não pode ser tocado, apenas sentido.
Agora que o vazio foi preenchido pela imensidão do possível, você começa a perceber que não há separação entre o que é e o que poderia ser. As estruturas rígidas que você conhecia, as certezas que formavam as bases da sua percepção, começam a se desintegrar diante de você, dissolvidas pela maré do entendimento expandido. A matéria, que você acreditava ser sólida, se desfaz em ondas de energia e intenção, onde a forma é apenas um reflexo temporário da verdadeira essência.
A realidade, como você a conhece, se desfaz e se mistura, tomando novas configurações, agora maleáveis, sem uma definição absoluta.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Do caos à adaptação:caminhos dilacerados



Resgatar a borboleta do balastro


Abrastol não vai ajudar, talvez bromalina, quando tudo é labrosta. Aguenta o brogue? Não haverá descarrilamento por sua causa. O ambiente é áspero e indiferente, onde até o mais frágil ser pode desaparecer sem deixar vestígios. A bromélia teria sido uma escolha mais apropriada para a desova. Nada é mais deslumbrante à vista. A sensação é de que você já alcançou o ponto mais distante. Lembra quando éramos nômades? E tínhamos maior flexibilidade para nos mover? Agora, a sensação é de que tudo se desfez, e o único remanescente é esse trem fantasma, vagando sem rumo, ecoando em silêncio, como uma lembrança distante do que já fomos. Cada parada, uma despedida não dita; cada trilho, uma memória que se esvai. O trem leva com ele não só o que já fomos, mas as esperanças que deixamos para trás, as almas perdidas no vazio de um caminho que não existe mais, enquanto o horizonte se dissolve no nevoeiro do que poderia ter sido.

Acho que o que você está fazendo é uma forma de autodestruição. Não te repreendo, já tive essa ideia em mais de uma ocasião, mas parece que algo me impede de tomar essa decisão. Talvez seja a lembrança do que éramos ou o medo do que restaria quando o trem parasse de vez. O vazio parece imenso, mas, ao mesmo tempo, o movimento é a única coisa que ainda nos mantém vivos. Somos, de alguma forma, prisioneiros das escolhas que fizemos. Ah, o livre-arbítrio talvez seja o culpado de tudo isso que está acontecendo, essa ilusão de poder escolher, de controlar, quando, na verdade, estamos apenas seguindo um destino traçado por nossas próprias mãos, sem perceber. As opções que um dia pareceram tantas agora se reduzem a um único caminho, estreito e sem luz, onde cada passo parece nos levar mais para longe daquilo que pensávamos ser o nosso lugar.

Dizem que a gente acaba se moldando ao que nos é imposto. Agora que te salvamos do basilisco fumegante, o básico, temos as vicissitudes, o mistral, talvez com uma Guanandi, toda basiofobia controlada. Mas ainda há o calor do siroco, que nos enfraquece aos poucos, como se nos consumisse de dentro para fora, até que não reste mais nada além de uma sombra. E há a neblina, que pode esconder até os piores perigos, aqueles que surgem nas margens de nossos pensamentos, minha basite, sua Beauveria bassiana. Não há beleza sem dor, não há vida sem luta. Somos como ela, buscando o néctar da existência, mas cada toque do vento é um risco, cada escolha pode ser fatal. A borboleta, assim como nós, se adapta aos ventos e às tempestades, mas, no fim, a fragilidade da sua alma é tão evidente quanto a nossa. Vulnerável, sempre à mercê de predadores que a observam com olhos famintos, como as aves que a caçam no ar ou as aranhas que aguardam em suas teias silenciosas.