terça-feira, 24 de setembro de 2024

Inspiração Onírica

 


imagem: 19/09/2024 Encontro Com o Processo Criativo de ÍNDIGO AYER escritora e roteirista



Gravidade zero

Por precaução, ela chegou com suas botas de astronauta, açulando as girafas do meu sonho lilás, afinal, era uma biblioteca e tudo precisava, no mínimo, de organização. A adaptação tem sido lenta para alguns, as náuseas eram intensas, levando um visitante a vomitar sobre o livro de Olavo de Carvalho. A assepsia foi feita, mas o livro absorveu como uma espécie de verdade amarga, um novo personagem. Quem ousava abrir o livro logo sucumbia às náuseas, obrigando a obra a ser removida e mantida fora de alcance, escondida onde ninguém mais pudesse tropeçar em sua influência tóxica. O livro A Culpa é das Estrelas, de John Green, também foi banido, por julgamento prévio, sua melancolia agora ressoando de forma desconcertante na cratera Fra Mauro. Na Lua, os livros flutuavam ligeiramente, como se a gravidade mais suave os convidasse a uma leve dança pelo espaço. Estantes transparentes se alinhavam em espirais ao redor de crateras, cada seção etiquetada com precisão cósmica: Filosofia das Estrelas, Histórias de Galáxias, Ciência dos Astros, Poesia Sideral... Naquela noite, Descartes se encontrou com Desmond Bagley, e houve um amálgama de ideias que pairavam no ar rarefeito, quase como se os pensamentos, assim como os livros, estivessem suspensos em órbita. Os encontros foram proibidos pela direção, e os livros fixados com ímãs nas estantes. Um sistema de ancoragem foi desenvolvido para manter as estantes firmes no chão. Estavam todos ansiosos, o que é perigoso, pois a excitação pode levar a decisões imprudentes. Iria começar uma oficina com o escritor Olyveira Daemon: Ateliê dos Sonhos Lúcidos. Nesse espaço, os participantes explorariam a criação de arte e literatura através de técnicas de escrita automática e pintura espontânea, inspirados pela gravidade reduzida e pela paisagem lunar. Os terraplanistas continuavam a duvidar de tudo, como se acreditassem que a verdadeira conquista fosse apenas conseguir filmar tudo isso sem que ninguém notasse, mas estavam protestando pelo banimento dos livros que eram fontes de inspiração. Com cartazes improvisados: "Se a Lua não é plana, por que os livros devem ser?” "Se o horizonte é curvo, por que meus olhos o veem reto?" "Se o mundo é uma esfera, por que não vemos as pessoas de cabeça para baixo?" — gritaram, desafiando a lógica do pensamento. Olyveira Daemon, percebendo a situação, decidiu usar aquele momento como parte da oficina. Ele convidou os protestantes a participarem do ateliê, transformando a resistência em uma oportunidade de diálogo. Afinal, a arte sempre teve o poder de unir vozes distintas, mesmo em meio a teorias absurdas. Agora que a tensão diminuiu, podemos explorar novas perspectivas juntos, sem medo de sermos julgados. "Vamos criar um mundo onde as regras são reescritas!" — ele disse. Até que venha alguém e estrague tudo com ideologias e certezas inflexíveis, afirmando que a criatividade precisava de limites, que as ideias deveriam ser baseadas em "fatos" e "realidades".

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Inspiração bucólica


 
Monólogo de uma cadeira

Não gosto daquele canto da casa, atrás do banheiro; dá para sentir toda a umidade e mofo, que se impregnam nas paredes e no ar, criando uma atmosfera densa, onde até os pensamentos parecem se perder antes de encontrar um caminho. Gosto de ficar à janela, sentir o zéfiro, trazendo consigo os aromas da primavera e o murmúrio distante da vida lá fora. Toda a culpa recai sobre mim. Vale a pena sacrificar tanto por seu conforto? Você só pode ser dendrófobo; nada justifica tanto ódio, os dendrocelos? Castigo por sua sanha, por deixar o sanhaço sem abrigo. Agora me sinto um dendrolite, uma pedra fossilizada, ramificada por dentro, estática por fora. Cada galho endurecido dentro de mim é uma lembrança do que foi arrancado, do que já teve vida, mas agora se cristalizou em silêncio. Você ainda escarnece: “Quero ver fazer a fotossíntese agora.” Eu tento, mas não consigo; eu me estico, me dobro internamente, como se pudesse voltar a captar a luz, como se o sol ainda tivesse algo a me oferecer. Ainda não me acostumei com esse novo corpo estranho, esse peso constante. Antes, eu vibrava com cada toque de vento, cada gota de chuva; sentia a vida correr através de mim. Agora, tudo parece lento, rígido, como se cada movimento fosse um eco distante de algo que não sou mais capaz de entender. Recordo-me dos dias em que vivia na floresta; a vida lá sim era plena, meus galhos se estendiam em busca da luz, minha casca áspera guardava as marcas das estações. Eu era parte daquele ecossistema, minha existência entrelaçada com a de tantos outros seres. Agora, reduzido a este objeto abjeto, eu sei que nunca mais serei livre, nunca mais serei inteiro. Sou uma sombra do que um dia fui. Você tem que parar com essa dendrotomia; não vê que cada corte é uma ferida em minha alma? Cada golpe de machado é um grito de dor que ecoará por gerações? Sua bazófia de empófia é repugnante. Você se vangloria de sua crueldade, se gaba de nos reduzir a meros objetos. Mas não percebe que cada golpe em nossa madeira é um golpe em sua própria humanidade? Você se acha superior, acima de nós, criaturas da natureza. Mas se esquece de que depende de nós para sobreviver. Somos os provedores de oxigênio, os purificadores do ar, os reguladores do clima. E você, em sua arrogância, destrói tudo em nome de seu conforto. Ao menos poderia tomar uma atitude contra esses cupins que estão me consumindo lentamente; vou ser destruída mais uma vez. Parece uma sina que me persegue, esses cupins, como sombras invisíveis, se infiltram em cada fenda da minha existência, devorando o que resta de mim. Por que você não se importa? Por que não toma uma atitude? Não seria mais fácil cuidar do que já existe do que destruir e substituir? Indagações sem respostas e toda essa indiferença ressoam em um silêncio profundo e desconcertante.

sábado, 14 de setembro de 2024

Inspiração frugal

 imagem: filme A cor das Romãs 1969 Sergei Parajanov

 

 

Esta tarde não ouvi os pombos

 

Leia-me com prudência, não sou pruá que você conduz sem esforço

Não quero sentir cílios roçando minha tez

Sou feito de lexemas que pesam, que se entrelaçam com teu pensamento, exigindo atenção e cuidado

 Bigorna de sentimentos

Cada linha que percorres pode desviar-te do que és, pode transformar, pode fazer com que enxergues aquilo que preferias ignorar

Não busques em mim um refúgio leve; sou um espelho que reflete não apenas o que está à frente, mas o que te ronda nas sombras do teu próprio ser

Todo esse pruído que você provoca é ilibado, afinal, todos precisam rir

Toda essa pruína que você conduz, ser nêspera

Toda essa ruína e a necessidade de se reconstruir, e o impulso inevitável de se renovar, sem jamais ser o que se foi

O zéfiro não conseguiu extrair a zeína, ficaram sem a proteína

Não se sinta inferior por causa disso

A subsistência ainda era viável.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Inspiração urbana

Itinerários


Na ladeira sentiu o sartório, o sartigalho saltitante toma a dianteira, parou para ver o sarsório tão bonito da igreja, sentir-se como um mosaico, formado por fragmentos de experiências, emoções e memórias que, embora distintos, se entrelaçam para compor a singularidade da essência. O sarrido perceptível o impedia de participar de maratonas com acrídios; mesmo assim, procurava algo que o motivasse a seguir em frente. Talvez todo esse sarrancolim constrito de um ambiente degradado, uma arquitetura inventada que ainda inspira, talvez eu seja uma pilastra deste empório, punição por apetecer um outono fora de época. Poderia ter uma poesia minha naquele outdoor, mas a realidade era outra. A poesia era algo que se perdia na pressa cotidiana, diluída no ritmo das buzinas e dos passos apressados. No entanto, essa mesma pressa que esvaziava significados também criava momentos de abertura, brechas onde uma palavra ou verso poderia se infiltrar, plantar uma ideia, uma emoção. Agora é preciso aceitar as consequências, não acreditar mais no lirismo; a humanidade perdeu o rumo depois que a confiança nas verdades absolutas começou a desmoronar. A busca por certezas deu lugar a um labirinto de dúvidas, e as grandes narrativas que outrora orientavam a civilização começaram a se fragmentar, deixando as pessoas à deriva em um oceano de incertezas. O progresso, antes celebrado, começou a ser questionado. A civilização foi tomada por um sentimento de desorientação profunda, onde cada escolha parecia carregar o peso do desconhecido. Perguntavam-se se, em meio a todo esse caos, ainda havia um lugar para a beleza e a verdade, ou se tudo estava destinado a ser apenas uma série de instantes desconexos e efêmeros, onde a esperança e a nostalgia eram os únicos faróis na vastidão de um mundo cada vez mais nebuloso. Não viu o sol se pôr, mas sabia que ele estava lá, oculto por trás das nuvens que cobriam o horizonte, uma presença constante mesmo quando não visível. A sensação de que algo essencial permanecia além da visão direta oferecia um leve conforto: dormir e não sonhar com nada; sonhos estavam proibidos, eram perigosos, os grandes responsáveis por tudo, afinal precisavam encontrar um culpado para toda inquietação predominante. A vida, com suas complexidades, parecia cada vez mais um labirinto sem saída, onde as oportunidades de conexão e descoberta se tornavam raras. As interações, cada vez mais escassas, perdiam seu valor, e cada sorriso trocado na rua, marfileno para marfar arredores, quando tudo é marga e o margalhudo com o olhar perdido no horizonte tentava encontrar um sentido em meio ao ruído da cidade. As vozes que ecoavam ao seu redor pareciam falar de um mundo que já não existia, onde a simplicidade e a beleza se entrelaçavam em cada gesto. Agora, tudo era apressado, superficial; já perdi tantos detalhes que poderiam ter se transformado em histórias. No entanto, apesar de tudo, havia uma teimosia interna, uma resistência quase involuntária que se agarrava a qualquer vestígio de significado, como uma azaléia que insiste em brotar entre as rachaduras do asfalto. Era um impulso irracional, mas necessário, para manter viva a chama da criatividade, ainda que abafada pelo peso da rotina.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Desdobramentos vertiginosos

 

A Vertigem do Caos

um estranho entre estranhos, nômade
entre escombros, procuro sem
procurar, um não-lugar, o ventre
de látex de uma replicante quase
humana, as ruínas enfim apaziguadas
da bombonera, as águas que refluem
pra dentro da baía de todos
os infernos, ali, onde a eternidade
são os dentes de estanho do último sol
mastigando oceanos como fatias
de pizza, lançadas ao ocaso
do fundo de um naufrágio, ante
a dança misteriosa de um feiticeiro cherokee

                                                     Ademir Assunção

 

Não vai conseguir fazer chover com isso
Talvez se colocar algumas beldades dançando cancan
Cancaborrada na matiz, não vai espantar a matilha
Até a noite, o sangue vai ser diluído
Pigmeus precisam de pigmentos
Não vai alcançar nenhum resultado com isso
Talvez a coreografia esteja errada
Retese mais o braço, espiche o godemiche
Envolto na poeira, esqueceu que tinha corpo
Talvez seja corêmio
Proêmio de algo hermético
Corpúsculo disforme para o opúsculo
Não precisa mais de músculo
Agora que é crepúsculo
Côncavo e convexo grumo
Uma boa mistura para húmus
Não culpe o torso pelo cansaço iminente
Os mamilos marcescíveis que não alimentaram a prole órfã do ocapi
A única certeza que temos é a morte.

sábado, 24 de agosto de 2024

Exegeses Incongruentes


Solidão

Infusão de baixo teor alcoólico resultante da fermentação do silêncio, onde cada bolha traz à tona ecos do passado e deixa um gosto acerbo de uma ausência prolongada. Convém ser degustada em momentos de introspecção, quando o mundo lá fora se dissolve na quietude interior. Pode causar alucinações emocionais e psicológicas, transportando o indivíduo a paisagens mentais distantes e às vezes surreais, onde as fronteiras entre realidade e imaginação se tornam tênues.

 

Frustração



Fruto abrolhado com polpa rugosa, de sabor agridoce, que se desfaz ao toque, deixando apenas a promessa de doçura e a sensação de algo que nunca amadurece por completo. É para ser ingerido com a consciência de que não saciará, mas ensinará sobre a impermanência das coisas, sobre o sabor da ausência e a aceitação de que nem tudo que é desejado se transforma em plenitude.


Angústia



Prótese por inspiração inexpugnável (substantivo feminino – Fonética)Perrexil amplamente apreciado na culinária brasileira, onde cada prato carrega o peso silencioso de memórias e ausências. Sensação densa e persistente, semelhante a uma massa espessa que se forma no peito, feita de expectativas não atendidas e incertezas acumuladas, mistura-se com o amargo das experiências, moldando-se à forma que a mente lhe dá, podendo ser digerida lentamente ou permanecer, enrijecida, em fatias de inquietude.


Girafa



Guindaste onírico usado para erigir poemas ou outras obras literárias, ela desempenha uma função importante, ajudando a levantar e posicionar materiais pesados, metáforas & devaneios. Suas longas pernas e pescoço permitem alcançar alturas elevadas onde as ideias se tornam visíveis e tangíveis, entrelaçando-se com nuvens & estrelas. Sem predadores ela caminha livremente nas brumas do inconsciente.


Metáfora



Indumentária que a poesia veste contra as vicissitudes, pelta que a protege contra as asperezas do cotidiano. Quando ocorre a ecdise e tudo fica exposto, segredos são revelados e o que antes estava hermético se desdobra em discernimento. As palavras, antes seladas, agora se abrem como flores ao sol, oferecendo nuances e profundidades e quando o vulnerável se revela em sua essência.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Inspiração acuminada


Monólogo de uma Estalactite
 

O canino não reteve a presa, era apenas uma crinia tinnula que se esquivou com agilidade. “Você não precisa disso”, alguém disse, colocando em dúvida minha existência. Então, todo aquele período de desenvolvimento foi em vão? A dúvida pairava no ar, questionando se o esforço investido realmente havia contribuído para algo significativo ou se tudo havia sido um desperdício. Talvez toda essa escuridão tenha me confundido. Tentei me concentrar, afastar os pensamentos que me puxavam para um abismo de incertezas, mas era difícil. O medo de que tudo o que fizera até agora não passasse de um erro ganhava força, e a escuridão ao meu redor parecia se fechar ainda mais, tornando cada passo à frente mais pesado e incerto. Leva-me a questionar o valor e o propósito de cada passo dado em meu caminho. Agora sei por que minha tentativa de gritar resulta em silêncio. O vazio do eco não é apenas a falta de som, mas uma reflexão sobre como, em meio à vastidão da existência, nossas ações podem parecer insignificantes, como se a própria essência do nosso ser estivesse sendo absorvida pela escuridão que nos rodeia. Sempre achei que meu problema era a aglossia, a incapacidade de articular minhas emoções e pensamentos em palavras que fizessem sentido. Uma boca que nunca vai ser beijada guarda anseios profundos. Nunca acreditei em qualquer idílio; talvez isso tenha me deixado mais ríspida e cética em relação aos sentimentos que os outros dizem sentir. Há uma proteção construída ao redor do coração, uma barreira que impede a vulnerabilidade, mas também a plena felicidade. Talvez, nessa defesa contra o sofrimento, eu tenha me isolado de momentos de verdadeira conexão, perdendo a chance de experimentar algo genuíno e transformador. Mas, ao mergulhar mais fundo nessa escuridão, percebo que a verdadeira questão não reside na falta de expressão, mas na luta interna entre o que sinto e o que consigo comunicar. O silêncio, que antes me parecia uma prisão, agora se transforma em um espaço de contemplação, onde posso explorar as nuances do que sou. Ontem dancei com sombras, e hoje, o que resta é uma sensação de estar perdida em um labirinto de incertezas, onde cada movimento parece ser uma busca por algo que permanece intangível e distante. Pelo menos, nunca terei cáries, e a arnela não causará desconforto, pois está ainda em formação. Vou ter que planger muito, motivos não faltam, esforçando-me para moldar algo significativo em meio a essa escuridão persistente, onde até mesmo a menor certeza parece um farol distante em um mar de dúvidas. É uma pequena compensação, talvez, para a imensidão de dúvidas e a sensação de futilidade que agora preenche meu ser, lembrando-me de que, mesmo nas menores certezas, pode haver algum alívio.