imagem: 19/09/2024 Encontro Com o Processo Criativo de ÍNDIGO AYER escritora e roteirista
imagem: filme A cor das Romãs 1969 Sergei Parajanov
Esta tarde não ouvi os pombos
Leia-me com prudência, não sou pruá que você conduz sem esforço
Não quero sentir cílios roçando minha tez
Sou feito de lexemas que pesam, que se entrelaçam com teu pensamento, exigindo atenção e cuidado
Bigorna de sentimentos
Cada linha que percorres pode desviar-te do que és, pode transformar, pode fazer com que enxergues aquilo que preferias ignorar
Não busques em mim um refúgio leve; sou um espelho que reflete não apenas o que está à frente, mas o que te ronda nas sombras do teu próprio ser
Todo esse pruído que você provoca é ilibado, afinal, todos precisam rir
Toda essa pruína que você conduz, ser nêspera
Toda essa ruína e a necessidade de se reconstruir, e o impulso inevitável de se renovar, sem jamais ser o que se foi
O zéfiro não conseguiu extrair a zeína, ficaram sem a proteína
Não se sinta inferior por causa disso
A
subsistência ainda era viável.
Itinerários
Na ladeira sentiu o sartório, o sartigalho saltitante toma a dianteira, parou para ver o sarsório tão bonito da igreja, sentir-se como um mosaico, formado por fragmentos de experiências, emoções e memórias que, embora distintos, se entrelaçam para compor a singularidade da essência. O sarrido perceptível o impedia de participar de maratonas com acrídios; mesmo assim, procurava algo que o motivasse a seguir em frente. Talvez todo esse sarrancolim constrito de um ambiente degradado, uma arquitetura inventada que ainda inspira, talvez eu seja uma pilastra deste empório, punição por apetecer um outono fora de época. Poderia ter uma poesia minha naquele outdoor, mas a realidade era outra. A poesia era algo que se perdia na pressa cotidiana, diluída no ritmo das buzinas e dos passos apressados. No entanto, essa mesma pressa que esvaziava significados também criava momentos de abertura, brechas onde uma palavra ou verso poderia se infiltrar, plantar uma ideia, uma emoção. Agora é preciso aceitar as consequências, não acreditar mais no lirismo; a humanidade perdeu o rumo depois que a confiança nas verdades absolutas começou a desmoronar. A busca por certezas deu lugar a um labirinto de dúvidas, e as grandes narrativas que outrora orientavam a civilização começaram a se fragmentar, deixando as pessoas à deriva em um oceano de incertezas. O progresso, antes celebrado, começou a ser questionado. A civilização foi tomada por um sentimento de desorientação profunda, onde cada escolha parecia carregar o peso do desconhecido. Perguntavam-se se, em meio a todo esse caos, ainda havia um lugar para a beleza e a verdade, ou se tudo estava destinado a ser apenas uma série de instantes desconexos e efêmeros, onde a esperança e a nostalgia eram os únicos faróis na vastidão de um mundo cada vez mais nebuloso. Não viu o sol se pôr, mas sabia que ele estava lá, oculto por trás das nuvens que cobriam o horizonte, uma presença constante mesmo quando não visível. A sensação de que algo essencial permanecia além da visão direta oferecia um leve conforto: dormir e não sonhar com nada; sonhos estavam proibidos, eram perigosos, os grandes responsáveis por tudo, afinal precisavam encontrar um culpado para toda inquietação predominante. A vida, com suas complexidades, parecia cada vez mais um labirinto sem saída, onde as oportunidades de conexão e descoberta se tornavam raras. As interações, cada vez mais escassas, perdiam seu valor, e cada sorriso trocado na rua, marfileno para marfar arredores, quando tudo é marga e o margalhudo com o olhar perdido no horizonte tentava encontrar um sentido em meio ao ruído da cidade. As vozes que ecoavam ao seu redor pareciam falar de um mundo que já não existia, onde a simplicidade e a beleza se entrelaçavam em cada gesto. Agora, tudo era apressado, superficial; já perdi tantos detalhes que poderiam ter se transformado em histórias. No entanto, apesar de tudo, havia uma teimosia interna, uma resistência quase involuntária que se agarrava a qualquer vestígio de significado, como uma azaléia que insiste em brotar entre as rachaduras do asfalto. Era um impulso irracional, mas necessário, para manter viva a chama da criatividade, ainda que abafada pelo peso da rotina.
A Vertigem do Caos
um estranho entre
estranhos, nômade
entre escombros, procuro sem
procurar,
um não-lugar, o ventre
de látex de uma replicante
quase
humana, as ruínas enfim apaziguadas
da bombonera, as
águas que refluem
pra dentro da baía de todos
os
infernos, ali, onde a eternidade
são os dentes de estanho do
último sol
mastigando oceanos como fatias
de pizza,
lançadas ao ocaso
do fundo de um naufrágio, ante
a dança
misteriosa de um feiticeiro cherokee
Ademir Assunção
Não vai conseguir fazer chover com isso
Talvez se colocar algumas beldades dançando cancan
Cancaborrada na matiz, não vai espantar a matilha
Até a noite, o sangue vai ser diluído
Pigmeus precisam de pigmentos
Não vai alcançar nenhum resultado com isso
Talvez a coreografia esteja errada
Retese mais o braço, espiche o godemiche
Envolto na poeira, esqueceu que tinha corpo
Talvez seja corêmio
Proêmio de algo hermético
Corpúsculo disforme para o opúsculo
Não precisa mais de músculo
Agora que é crepúsculo
Côncavo e convexo grumo
Uma boa mistura para húmus
Não culpe o torso pelo cansaço iminente
Os mamilos marcescíveis que não alimentaram a prole órfã do ocapi
A única certeza que temos é a morte.
Solidão
Infusão de baixo teor alcoólico resultante da fermentação do silêncio, onde cada bolha traz à tona ecos do passado e deixa um gosto acerbo de uma ausência prolongada. Convém ser degustada em momentos de introspecção, quando o mundo lá fora se dissolve na quietude interior. Pode causar alucinações emocionais e psicológicas, transportando o indivíduo a paisagens mentais distantes e às vezes surreais, onde as fronteiras entre realidade e imaginação se tornam tênues.
Frustração
Fruto abrolhado com polpa rugosa, de sabor agridoce, que se desfaz ao toque, deixando apenas a promessa de doçura e a sensação de algo que nunca amadurece por completo. É para ser ingerido com a consciência de que não saciará, mas ensinará sobre a impermanência das coisas, sobre o sabor da ausência e a aceitação de que nem tudo que é desejado se transforma em plenitude.
Angústia
Prótese por inspiração inexpugnável (substantivo feminino – Fonética)Perrexil amplamente apreciado na culinária brasileira, onde cada prato carrega o peso silencioso de memórias e ausências. Sensação densa e persistente, semelhante a uma massa espessa que se forma no peito, feita de expectativas não atendidas e incertezas acumuladas, mistura-se com o amargo das experiências, moldando-se à forma que a mente lhe dá, podendo ser digerida lentamente ou permanecer, enrijecida, em fatias de inquietude.
Girafa
Guindaste onírico usado para erigir poemas ou outras obras literárias, ela desempenha uma função importante, ajudando a levantar e posicionar materiais pesados, metáforas & devaneios. Suas longas pernas e pescoço permitem alcançar alturas elevadas onde as ideias se tornam visíveis e tangíveis, entrelaçando-se com nuvens & estrelas. Sem predadores ela caminha livremente nas brumas do inconsciente.
Metáfora
Indumentária que a poesia veste contra as vicissitudes, pelta que a protege contra as asperezas do cotidiano. Quando ocorre a ecdise e tudo fica exposto, segredos são revelados e o que antes estava hermético se desdobra em discernimento. As palavras, antes seladas, agora se abrem como flores ao sol, oferecendo nuances e profundidades e quando o vulnerável se revela em sua essência.