sábado, 9 de janeiro de 2021

Anagramas frugais



AS PALAVRAS

Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num retângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exatidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras?Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas
As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana
As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado
Que enfrentam as palavras?O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas.

António Ramos Rosa

de Gravitações(1984)


A sombra da árvore na parede do quarto


Galhos adentro

A metáfora vai aprender a fazer a fotossíntese

Terei frutos na jaça?

Pilé na pildra

Tomara que não seja jaca

Talvez Ababone

Abone devaneios incautos

Amotar o âmbito

Orgulho desse cadabulho

Bito na inópia

Pinoia de um ramerrame

Ramos do Pinoguaçu

Eu lia António Ramos Rosa

O livro fez de minhas mãos um pedestal

Púlpito pulsante

Supedâneo percutâneo

Eu era a inércia

A cadência do cadáver.


                    Ednei Pereira Rodrigues

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ruminante Absconso





PASSOS E ACENOS

Nada tens de ave. Fera lúcida, olho
felino (pantera de Rilke entre grades)
nunca indefesa, à espreita. Além dos olhos,
bebo teu corpo, teu cabelo (franja
dos dias) — o mais dardeja. Também és
elástica e macia: braços, pernas
de roliça cogitação. Vais, vens.
De pé, agitas os vaporosos membros,
ao calor da voz que atordoa o vento.
Sentada, as formas se acomodam, urdem
rútilo desenho. É quando, pasmo, ouço
o marulho do sexo, ávido. Bem
que mereço essa onda, ronda de garras
que me acenam, me buscam pela tarde.

 Florisvaldo Mattos





Cálice


Faltou aliche para ser Mar 
Faltou pouco para ser alicerce 
A origem do aluimento 
Aliciar a metáfora com o alceamento 
Como se fosse uma deidade 
Nume implume contra o estrume 
Mais um aporte áptero 
Realce o lapso 
Provisões para o opressivo 
Reservas para revessar 
Vitualhas para o vitupério 
Vai vir como um refrigério 
Toda minha refringência 
Sem precisar refrondar o trâmite 
O prefixo era cândido 
Unidade de medida de calor 
Quando o álgido era preponderante 
Poesia feita por um alvanel 
No alvanhal como cafua 
Sem cadoz nunca será Arafura 
O alvo era a metáfora. 


                                 Ednei Pereira Rodrigues

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Animais do Anideísmo




Resolução 

Mear o título 
Em busca da ablação 
Quando o lúrido era hegemônico 
A lúria no pescoço fez complô com o sufixo 
O arrecabe fez conluio com o arrebol 
Suscitou soluços 
O Sol era cáustico 
A insolação prejudicou a metáfora 
O prefixo era um animal quadrúpede 
Usou o corte rés 
Haraquiri da metáfora 
Arrebunhar o arredado 
O arrebol tentou reparar o semáforo 
Quando tudo era monobáfico 
Traços de luz divergentes 
Continuo sendo diáfano. 

                            Ednei Pereira Rodrigues

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Anagramas fragorosos


Avarias

Não se preocupe
É só crupe 
O rupe vai parar com o purê
Era pra ser algo rupestre
Avangar com o fardo
Avacalhar a metáfora com o óbvio 
O prefixo muge contra o silêncio
A vacuidade da existência
Fingir o findar no isagoge
O prefixo pierídeo sucumbiu
Pucela tem o seu sufixo de cárcere
Precisava de liberdade para o estro
Precisava de um impulso
Catapulta com seu prefixo de busca
É quase uma rascoa
Talvez num alcoice
Encontre o lirismo que faltava.

                           Ednei Pereira Rodrigues

sábado, 12 de dezembro de 2020

Prefixo de busca




Catástrofe 

O deslinde do inconsciente 
Alinde para o flagelo 
O silêncio deslinguado 
Averiguado seu prefixo volátil 
Catarto para o acatarto 
Foi rápido para contextualizar o deslize verbal 
Tudo se deslocava intensamente 
Não queria ficar aqui 
O texto não era o limite
Depois da tempestade, eles devem deslodarem-se 
Deslodou a metáfora com o auxílio de um trator 
Ninguém estava preparado para a lama 
Eram jovens ainda 
Ainda dava para ficar deslumbrado com o abstrato 
Precisavam de pretensões 
Epopeizar o ínfimo.

                                 Ednei Pereira Rodrigues

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Prefixo Hierático Frugal

imagem:Tentação de Santo Antônio feita por Salvador Dalí

Amêndoas 

Não vai ser excomungado por isso 
Amornar o marrano 
Anatematizar a metáfora 
Estava tão ameno 
Que toda amência não vai atarantar 
Terá a bênção do benario 
Aquiescência do Aquilão 
O Prior persignou o pior 
E o cético acreditou no tético 
O cetáceo teve sua extrema-unção 
Introduzir o introito na introflexão 
Hieratizar o profano 
Prefixo abreviado do que instrui 
A heterodoxia da estratégia se justifica 
A gangrena da gangarina 
Acroase para o sacro 
Prece precedente ao precipício 
Sem previsão de precipitação. 

                                   Ednei Pereira Rodrigues

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Mais do Mesmo

O silêncio 


O silêncio é lacônico 
Lacra espaço de convivência 
Acral ao que se pensa 
O crawl afoga a metáfora 

O silêncio é conciso 
Sem siso 
Toda agelia da rânula 
Anular qualquer tipo de regozijo 

O silêncio do rególito é constrangedor 
Consta o constante nos autos 
A palestra teve que ser cancelada 
Por causa do lóquio 

Colóquio sem coloquialismo 
Sem colofão 
O prefixo grudento 
É resina de uma floresta devastada 

A metáfora não se aderiu a poesia 
Adermia de adrede 
Um corpo tentando se formar 
O silêncio é ensurdecedor.

                  Ednei Pereira Rodrigues