sábado, 25 de janeiro de 2020

São Paulo 466 anos



Inclemente inclinação


Talvez seja excesso de tadalafila
A cidade é cruel com o oblíquo
Magoei o magote
Enaltecendo o deserto
Confesso que ficou algo em mim
Impregnado os aldeídos
A inhaca do rio poluído
Que deságua no ralo do banheiro
Pós-ablução a asseidade
Catarse do cartaz
Preconício do exício
Assegurar que tudo está bem
Janelas e portas fechadas
Já tive o assédio da urbe
Para toda fumaça que inalei
Ambroxol ou algo expectorante
Talvez acabe com as expectativas
Não está na bula
A cura para todos os males.


                                   Ednei P.Rodrigues

sábado, 11 de janeiro de 2020

Descrição de imagem

 
O dorso do rei


Postigo para outra dimensão
Abrigo para o impetigo
Postimária de tudo
Menos da postura
Aguenta o fardo
O manto de cetim impõe respeito
Acetinar a metáfora
Reverência ao que reverdece
Seu trono de alfombra
Acomoda o troncho
O corpo não é mais o mesmo
O vitiligo camaleônico
Leucopatia ao léu
Paradoxo do mocho
Mociço cediço mostra o viço
Submisso ao postiço
Prostração do prótalo
Sem protamina
Condição para se desenvolver uma trombose
Sem proteção da inércia
Vulneráveis as vicissitudes
A prótea tem permissão para florescer.


                                    Ednei P.Rodrigues

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Ficou por isso mesmo

  

Arte do chá    


   ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

                        Paulo Leminski 

 Medidas concretas para suavizar as chagas

Colher: mero adorno
Não vou te afogar na bancha
Unirreme pra fugir do naufrágio
Xícara com vontade de ser chalana
Difícil tomar chá na chafeira
Chabouco que serve para a proliferação de insetos
Foi tudo um chabu
Chabuco que dilacera o corpo
Queriam o chagrém de tanta inépcia
Cháçara que chafurda uma reputação inteira
Era o chamariz para o enredo
Chanquear a metáfora
Teve sua chance de impressionar
Apelou para a chantagem emocional
O chanto foi comovente
Vertente para esparzir o espasmo
Charamelar tribulações numa tribuna
Buna para apagar os erros

Começar da estaca zero.

                                          Ednei P. Rodrigues                  

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Piéride no Píer


O POETA ASSASSINA A MUSA

Há dez dias que Clotilde
— Uma das musas queridas —
Anda aborrecendo o poeta.
Aparece carinhosa;
De repente vira as costas,
Diz várias coisas amargas,
Bate impaciente com o pé.
Então o poeta aporrinhado
Joga álcool e ateia fogo
Nas vestes da musa.
A musa descabelada
Sai cantando pela rua.
Súbito o corpo grande se estende no chão.

Diversas musas sobressalentes
Desandam a entoar meus cânticos de dor.
Clotilde ressuscitará no terceiro dia,
Clotilde e o poeta farão as pazes.
Música! Bebidas! Venham todos à função. 

                                   Murilo Mendes


      De O Visionário (1941) 



Redução Expressiva

Arvorei seu nome
Larice agora tem galhos
Galhofa para quem perturbava o poeta
Estorvo do estro
Sem estroçar a estrofe
Mas Clarice não desistia
Queria ser musa de qualquer jeito
Usou até estrofantina na aurícula pusilânime
Na surdina injeta estrogênio no verso
Injeriza o bardo
Que num ímpeto de fúria
Ataganha o atalante
Em vão, Clarice é imortal
Sua alma se disfarça na lama
Na mala junto com as roupas
Na alínea é Eliana
Usa anagramas para o escamoteio
Imperceptível na perversão
Como um anjo granjo
Desarranjo do que eu penso.

                                          Ednei P.Rodrigues

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Sincretismo poético



Sincretismo Sincopado

Precisava disso
Depois de tanta negação
Um título aliterado, quase afirmativo
Seria melhor tútulo
Possível musa
Sem titubeios de um disparate
Pode ficar tranquilo
Vou fazer de tudo
Para não deixar o mistral apagar a vela
Talvez alguém precise de parafina
Conluio com algum surfista
Coloco um cartapácio
Para distraí-lo
Para ele mudar de página
Seria um desacato cessar o lume
Única luz para alumiar está lamúria
Vontade de ser lâmpada
Todos precisam de uma redoma
O descalabro do candelabro
Tudo que candeia.

                        Ednei P.Rodrigues

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Descrição de imagem

Manifestante toca flauta entre nuvem de gás lacrimogêneo em meio aos protestos contra o presidente da Colômbia


Música para o Caos

O gás lacrimogêneo não é prejudicial a metáfora
Vontade de ser bruma
Única ameaça: a inércia
Depois de 1 mês, apenas 1 frase
Empaca a poesia
Campeã de insensatez
Anagramático venceu algo
A quenga toca quena
A queda da metáfora
Ostinato obstinado
Chacota de chacona ao chacinador
Ricercear com Ricina
Vamos sobreviver
Talvez se deixarmos o galubé sobre a lápide
O mistral toque uma elegia aos mortos
O samiel é dístomo
Antes do silêncio preponderar
Sátrapa que executa opositores
Tambor feito com pele humana

Adufe para aducir. 

                                   Ednei P. Rodrigues
                   

sábado, 23 de novembro de 2019

Anagramas empedernidos

Em pé, não é mais inércia
Pedestal  para o lapso
Vertente vertical do vértice.

                                Ednei P. Rodrigues



A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor


-Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.




                         Zbigniew Herbert



Resiliência

Admire a pedra como algo sublime
Sublevar o Subjuntivo
Mediar as conversações para conciliar os dois grupos
O abstrato com o real
Na Ermida rezar pelo penedo
Politeísmo cético
Penego confortável
Nego o desapego
Negociação com os desafetos
Fale com as falésias
Código dógico
Algo sobre Veneza
Lugares onde nunca estive
Gobo como o globo
A tonalidade do tonalito
O diorito faz a diortose
O seixo quer sexo
A sensação de impotência
O disparo da dispareunia

Por abranger um universo tão díspar.



                                    Ednei P. Rodrigues