quarta-feira, 1 de março de 2017

Anagramas Alados



   Esta esperança vã, doce tormento, 
Com que amor lisonjeiro determina 
Acumular estragos à ruína 
Por levantar padrões ao escarmento, 

Foi crepúsculo breve de um momento, 
Delicado jasmim, frágil bonina, 
Rosa, que se murchou duma aura fina, 
Vidro, que se quebrou de um leve vento. 

Morreu minha esperança às mãos de um rogo 
E nas cinzas se alenta o meu cuidado, 
Que amor nos impossíveis mais se inflama: 

Mas se a esperança é ar, e amor é fogo, 
Justo é que nela cresça o meu agrado, 
Pois ao sopro do vento cresce a chama. 


Francisco de Vasconcelos Coutinho"Fénix Renascida'"




Cleistes  (flor que dura só um dia)

Efemérides

Só mais um dia, e tudo se acaba 
                   Efêmero como Cleistes                  
Quis ser Fênix com vestido de albene
Quiçá quiçoçoria
Para fazer a operação rescaldo 
Tafetá afeta a inércia perene
Especulo séculos
O tempo é sicário
Detalhes ignorados
Falta alguma coisa
Minutos sem minúcias
Deixa tudo oneroso
Céu aberto sem minuano
Mesmo que você concorda 
Com o concorde
Turbina na tribuna
Sem intubar o intruso
O antevoar avarento
Norteava shamal no leque
Pavão se esconde no arco-íris.

                            Ednei P.Rodrigues


Glossário:
Albene é um tecido misto confeccionado com 73% Acetato e 27% Poliéster, é um tecido bem liso que não tem aderência para insetos, tem também uma grande vantagem é que não queima com o fogo.
Tafetá é um tecido de seda trançado.
quiçoçoria avê da África
shamal:vento



   Faísca luminar da etérea chama 
Que acendes nossa máquina vivente,
Que fazes nossa vista refulgente
Com eléctrico gás, com subtil flama:

A nossa construção por ti se inflama;
Por ti, o nosso sangue gira quente;
Por ti, as fibras tem vigor potente,
Teu vivo ardor por elas se derrama.

Tu, Fogo animador, nos vigorizas,
E à maneira de um voltejante rio,
Por todo o nosso corpo te deslizas.

O homem, só por ti tem força e brio
Mas, se tu o teu giro finalizas,
Quando a chama se apaga, ele cai frio


Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Anagramas Lúgubres



À PARTIR DA TOPOGRAFIA

Aprende-se muito
com a ausência. Cito a arte
da cartografia, do
paciente desenho
feito olhos a dentro
sem régua ou compasso,
com o qual catálogo, a
posteriori, pintas,
sinais de nascença, e as
(não sem ser expert no
teodolito) marcas
de uma catapora.

Paulo Ferraz





Parosmia

Ninguém instrui a solidão
Contra a súcia 
Sua única defesa:cuias
Talvez algum instrumento:cuicas
O silêncio era ensurdecedor
E sua voz na foz
Contra a Xerostomia
Um oboé submerso
Para a reconciliação com o mar
No auge do estro a solidão é táctil
E a distância não se acostuma com o adjacente
Bússola quebrada
E o fato já foi consumado
Em dezessete sílabas
Seus alamirés ainda me afligem
Aunar seu olor com a aurécia
Talvez  em Caueira 
Acuarei a solidão
Amareis a maresia
Miscar com almíscar
São só eflúvios.

Ednei P. Rodrigues




   Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!... 

Manuel da Fonseca, "Poemas Dispersos"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Anagramas Mitológicos



ÉBANO

componho
como uma cega como
alguém que sobreviveu
ao bombardeio da casa - estranhas
as crianças em piques gangorras
amarelinhas terríveis
no seu autocontrole
os homens andando
em trajes completos
sob o sol

se rezas não fossem palavras, mas
cores, pintaria algumas para aqueles
que têm as pálpebras estampadas de chão

Andréa Catrópa




Labirintos

O escopro era o escopo 
A copose do corpo
Copos vazios sobre a mesa 
Podem significar algo
A carreação com a carraspana
Um gemmail para sua gemursa 
Escoimar a escoda do erro
Bisel à anediar Ariadne
E a pedra não pesa o poema 
Faz a polinização amenófila
Arilho como uma ária
O veto do vento na área do triângulo
Adorna o vazio 
Aderna com Andréa Catrópa
Aditiva como adita
Ela se aproximou do abismo e parou
O destino do síndeto sem sentido
Talvez seja Satrapia à direita
E não estamos perdidos
Desambiguação de tudo
Até o próximo poema
Apartais o parasita do óbvio
Aquele que incomoda. 

Ednei P.Rodrigues



DISCURSO

tecer o fio de Ariadne
sem ao menos a intenção
de um dia retornar

tecer pelo exercício
narcísico
de se conhecer e doar

ir, perscrutar
para além do verde
opaco da próxima curva

sabendo cada passo
apenas eco
do anterior

ir
pelo puro prazer
da paisagem

ao estrangeiro

é permitido
o esplendor 

Sergio Cohn

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

São Paulo 463 anos

 
URBE

hoje na minha boca
não cabem girassóis

cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe

um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril

um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem

hoje na minha boca
cabe apenas o poema

o poema hóspede da agonia

Cida Pedrosa


Anagramas urbanos

Virga na Viga
A ferrugem nos Gerânios
Carepa na pêra
Difundo o ferro fundido maléavel
Abono o carbono 
Adarga para a fuligem
Não quero quermes
Mais queratina,como baratas
Diafragma indiferente ao magma
Abortam Tambora
Ver Vesúvio de um outro ponto de vista
Sob o garrote,respiro
Decote mostra outra pleura puelar 
Turba que turva minha solidão
Ianques na esquina
Exijo guelras,e a evolução
Para singrar nesse esgoto
Poluição em Pólux
Clama com o camal 
Notei à noite sem estrelas
O legado de Algedi foi o algedo
Solicitei à degola.

Ednei P.Rodrigues


Glossário:

virga:Em meteorologia, Virga, também conhecida por "Chuva Invisível" ou "Chuva Fantasma"é um tipo de precipitação que cai de uma nuvem mas evapora-se antes de atingir o solo enquanto está ainda a cair, num fenômeno que acontece principalmente em períodos/locais de ar seco.
carepa:fuligem
Tambora;vulcão na ilha de Sumbawa, Indonésia, com 2850 m de altitude
Pólux;estrela
camal:proteção que perfazia parte da armadura de guerreiros durante o período medieval; sua função era proteger a cabeça do indivíduo




Vulcões 


Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal 
Não tem a lividez sinistra da montanha 
Quando a noite a inunda dum manto sem igual 
De neve branca e fria onde o luar se banha. 

No entanto que fogo, que lavas, a montanha 
Oculta no seu seio de lividez fatal! 
Tudo é quente lá dentro… e que paixão tamanha 
A fria neve envolve em seu vestido ideal! 

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões 
Como no gelo frio do cume da montanha 
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… 

Assim quando eu te falo alegre, friamente, 
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha 
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!





terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Anagramas eróticos

                                                                                                                                                     

Languidez


Tardes da minha terra, doce encanto, 
Tardes duma pureza de açucenas, 
Tardes de sonho, as tardes de novenas, 
Tardes de Portugal, as tardes de Anto, 


Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto! 

Horas benditas, leves como penas, 

Horas de fumo e cinza, horas serenas, 
Minhas horas de dor em que eu sou santo! 



Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, 

Que poisam sobre duas violetas, 

Asas leves cansadas de voar ... 



E a minha boca tem uns beijos mudos ... 

E as minhas mãos, uns pálidos veludos, 

Traçam gestos de sonho pelo ar ... 


Florbela Espanca,"Livro de Mágoas"        


Drósera(planta carnívora)


Anagramas eróticos

Será Drósera irascível ?

Lucarna para a Lacuna
Nu da nucela
Talvez lucena
Maçã como maça
Macabro labro
Grande lande para a gula
Lavrada para ser fértil
Gleba da glande
Pórtico aórtico pulsante
Quando o priapo é o gorje
Seu pronau sensual
Fiz um cântico para seu ântico
Prodomo do protomo que domo
Umbral brumal não range
O eco dos teus gemidos rompe o silêncio
Ah!não confundir com Há
Há sentimentos no olhar?
Não era açucena 
Nem habena da fáscia do tórax dos insetos
Chicote para flagelo.

Ednei Pereira Rodrigues



É cálida flor
e trópica mansamente
de leite entreaberta às tuas
mãos

feltro das pétalas que por dentro
tem o felpo das pálpebras
da língua a lentidão

Guelra do corpo
pulmão que não respira

dobada em muco
tecida em sua água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
no ventre entorpecida
nas pernas sequestrada

Maria Teresa Horta



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Anagramas Suicidas



Rasgo o melancólico interior dos insetos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico das cidades
por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite noutros corpos
mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém
ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objetos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal
partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo
pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade.

Al Berto 
"'O Medo"'



Defenestração

Voará com o Voorara
Rara percepção do epílogo
A cura com o curare
Aluir com o Urali
Rocurónio feromônio de uma volúpia inerente
Inserção de escárnios de arsênico
O tabun é Tabu  
Mescla Mescalina com o vazio
Afonia com o anfião
Papo com as papoulas
Entorpece o entorno aparente
Rente ao chão
Toque o coque
Troque por choque
Eterno e o Tereno adstringente
Se você sentir insegurança
Arraste a janela contigo
O contraste entre a sombra e a luz
Adquira um guindaste
Ou adestre um elefante
Dois pesos,duas medidas
Frases feitas em fractais
Ainda púbere,não em lápide
Apenas um brônquio obstruído
Ainda respiro
É o bloqueio criativo. 


Ednei Pereira Rodrigues




   Que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

Al Berto,"'A Noite Progride Puxada à Sirga'" 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Anagramas Alados



A um Livro


No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minha alma!
O livro que me deste é meu, e alma
As orações que choro e rio e canto! ...

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! ...


Florbela Espanca "Livro de Mágoas" 




Janela Aberta

Às vezes um pássaro entra na biblioteca
Defeca na capa do livro de Amelie Poulain
Desarma a arapuca de letras de Baudelaire
Seu rasante provoca o estático
Plana na plataforma de Platão
Pousa na platibanda
Descansa sobre Descartes que descentraliza
Seu descendente 
Faz plágio de Sylvia Plath
Faz do fólio seu sólio
Estala a estante arfante
Não estanca o êxtase
Altera a áspera espera
Relata o que alteia
Alerta do que atrela
Modificá módicos desejos
Módulo moente do movimento
Frígida pinça da alopecia leminskiana
Trevelô revelado no escuro
Abranja o laranja com o latente
Abaçanar a ababaia de Abacur
Cariciar a carica com o rêmige 
Manete amente do descontrole
Albatroz escapa no albarrã.

Ednei Pereira Rodrigues





Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!

O Albatroz
Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães