quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MITOLOGIA GREGA




A medusa de fogo
Cassiano Ricardo 1895 - 1974

A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.

A simples caída da bolha
D'água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque — de tão rubra —
Poderá te acordar.

E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?

Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.

E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!




A Vingança da Pedra
Ednei Pereira Rodrigues

Perônio Persente o Perverso Perseu
Perpétuo perpianho estranho
Micela Micante de Micenas
Meu Niilismo para o seu Materialismo
Apetece pela planície de Cistene
Ofereço-lhe uma Cisterna
Não aceita uma eclusa como escusa
Nem minha Urolitíase por sua litolatria
Réprobo de noma por sua nolição de nonadas
Precito a ser puteal de pústula pusilânime
Sem alforria da alforreca
Ofensa aos Ofídios,meu cafuné fúnebre de ofito
Carícia de Carrara incomoda quando queria o orgasmo 
Estrênuo quartzo enfrenta o estrepe da Urutu
Ingênuo gabro contra a sisudez da sistruro
Franja de Naja feri como navalha
Naga nagaica como nagalho não te sufoca 
Trunfa de ibioca adorna sua alopecia
Mucronado Topete de Muçurana contunde
Sucuri como se fosse um bisturi machuca
Arcara ao carcará a responsabilidade de seus atos.

Glossário:

Perseu algumas vezes grafado como Perseus (em grego moderno: Περσέας), é um dos mais célebres personagens da mitologia grega, heróisemideus conhecido por ser fundador da míticacidade-estado de Micenas, irmão de Hércules e patrono tanto da Casa Real de Perseu como da Dinastia Persênica, tendo sido ancestral, segunda a mitologia, dos imperadores da Pérsia. Famoso por ter decapitado a górgona Medusa, monstro que transformava em pedra qualquer um que olhasse em seus olhos.[Nota 1] Como um semideus, Perseu era filho de Zeus, que sob a forma de uma chuva de ouro, introduziu-se na torre de bronze e engravidou sua mãe, a mortal Dânae[Nota 2] , filha de Acrísio, rei de Argos. https://pt.wikipedia.org/wiki/Perseu
perpianho,gabro:pedra
Micela:Cada uma das partículas que se encontram em suspensão nas soluções coloidais, vivas ou inertes, formadas por agregados de moléculas.
eclusa:Obra de alvenaria que, munida de comportas, forma uma câmara destinada a tornar navegável um curso de água.
Urolitíase:pedra no rim
litolaria:culto a pedra
Réprobo,precito:condenado
noma: gangrena na boca
nolição:negação
nonadas:bagatelas
puteal:muro de pedra
alforreca:medusa
ofito: mármore verde com manchas amarelas, que tem aspecto de pele de cobra.
carrara:mármore branco
urutu,sistruru,naga,ibioca,muçurana:cobras
nagaica :chicote
nagalho:lenço de pescoço
trunfa: Cabelo abundante e desgrenhado.
mucronado:tudo aquilo que termina em ponta aguda e afiada.
  
"Perseus Turning Phineus and his followers to Stone" por Luca Giordano - http://www.uwm.edu/Course/mythology/0800/1429.jpg. Licenciado sob Domínio público, via Wikimedia Commons - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Perseus_Turning_Phineus_and_his_followers_to_Stone.jpg#/media/File:Perseus_Turning_Phineus_and_his_followers_to_Stone.jpg


MEDUSA

SYLVIA PLATH
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo (do livro Ariel, a sair pela Verus Editora)


Longe dessa península de bocais pétreos,
Olhos revirados por varetas brancas,
Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,
Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,
Lente de piedades,
Seus parasitas
Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,
Empurrando como corações,
Estigmas vermelhos bem no centro,
Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.
Arrastando seus cabelos de Jesus.
Escapei, me pergunto?
Minha mente sopra até você
Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,
Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.
Em todo caso, você está sempre ali,
Respiração trêmula no fim da minha linha,
Curva d’água pulando
Em meu caniço, ofuscante e agradecida,
Tocando e sugando.
Não chamei você.
Não chamei você mesmo.
No entanto, no entanto
Você veio a vapor em minha direção,
Obesa e vermelha, uma placenta
Paralisando amantes impetuososos.
Luz de naja
Espremendo o hálito das rubras campânulas
Da fúcsia. Sem poder respirar,
Morta e sem dinheiro,
Superexposta, como num raio-x.
Quem você pensa que é?
Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?
Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,
Garrafa aonde vivo,
Vaticano espectral.
O sal quente me mata de enjôo.
Imaturos como eunucos, seus desejos
Sibilam para meus pecados.
Fora, fora, coleante tentáculo!
Não há mais nada entre nós.


O silêncio da Medusa 
Renata Bomfim

A pedra retribui o carinho

do olhar.
Os lábios fixos ocultam
um jogo erótico.
Medusa sorri.


A dureza dissimulada
do homem de carrara,
denuncia o gozo contido,
de um coração que pulsa
apenas na intenção.


O organismo complexo e fértil
torna-se acessível:
heras brotam de suas narinas.


O jardim da caluniada Medusa
guarda
exemplares singulares:
seu tesouro!
seu orgulho!


Machos exemplares,
rijos como o amor
que lhe dedicam.


Incompreendida, só,
mal vista e mal dita,
Medusa guarda silêncio,
já não necessita das palavras:


A pedra é consolo e guarita.

sábado, 15 de agosto de 2015

Protesto Surreal

                                                                              
                                                                              

ARENGA

Affonso Romano

félix fúria foice e martelo
cidadão como um cão
danado da vida
porque a vida
está custando
os olhos da cara
porque a vida está cara
como uma joia
porque a vida está
pela hora da morte
repito (eu: vocês)
félix fúria foice e martelo
farto até os bagos
de barriga vazia
promessa não enche barriga
félix feixe de vida
farto da fúria do lucro
feito foice
martela
teu ouvido
chegou a hora
chegou a hora
agora

 Ganância desmedida
Ednei Pereira Rodrigues

Adianta a adiafa considerável do larápio para apiloar o parálio
A propina quita o propileu de seu alcácer
Corrupto corruscuba tem imunidade em Cuba
A cafurna do cafunje é proeminente
Onde se prolifera meliantes do progresso
Cobiçável cobocó do gabiru janota
Que o caboclo apiança em seu prândio
Esmola de sêmola não sustenta sua família
Urumbeva vendível à endívia, ao endível
Caburé comuta o voto por comua
Cabrobó alborca o pleito por alborque
Bacharel oferece a albrecha para preencher uma brecha do estômago
O sufrágio em rágios aumenta o contágio
Impor Imposto ao Impulso
Tributo ao tripúdio moderado
Escrutínio sem escrúpulos com escruncho
O escroto do escroque serve de escudo
Desgoverno da Górgone
Estupidez que estua
 Bruaca para Brunir a Bruma
Gornope como Gorjeta 
Gólgota sem uma Gota. 
Glossário: 
adiafa:gorjeta
apiloar:amassar
Parálio:próximo ao Mar
propileu: Pórtico monumental na entrada de um templo grego
alcácer:palácio
corruscuba:esperto,hábil
cafurna:esconderijo
cafunje:ladrão
cobocó: tipo de queijo
gabiru:rato
janota:bem vestido
apinça:desejar
prândio:refeição 
sêmola:arroz
urumbeva,caburé&cabrobo:caipira
endívia:verdura
endível:tudo o que se pode comer
alborca:alborcar,trocar
alborque:refeição
albrecha:pêssego
rágios:moscas
escruncho:roubo
Górgone,medusa:
gornope:trago de bebida alcoolica
Mulher horrenda, perversa, repulsiva, por alusão às três fúrias mitológicas Esteno, Euríale e Medusa, mulheres que tinham serpentes por cabelos e que transformavam em pedra aqueles que as encaravam.
Golgota: Lugar onde se sofre implacavelmente.


Protesto

 Walmir Ayala, 'O Edifício e o Verbo'

Não é no teu corpo que se imola
para a ceia dos meus sentidos
a vítima núbil, a áurea mola
que cinge o amor recente aos idos.

         Mas é também no teu corpo que corre
         o sangue que o meu sangue socorre.

Não é no teu corpo que se ergue
a guerra fria dos meus nervos.

nem nasceram tuas transparências
para a cegueira dos meus dedos.

         Mas é também no teu corpo insano
         que perscruto meu desconforto humano.

Não é no teu corpo, nos teus olhos
de fauno, que colho as minhas ditas,
nem o jasmim de tua boca flore
para a visão que me solicita.

         Mas é também no teu corpo único
         que o amor à forma do Amor reúno.

Não é no teu corpo que concentro
minha sede (esta sede ferina
que morre de seu farto alimento
e vive de quanto se elimina)

         Mas é também teu corpo a medida
         destas águas sobre a minha ferida.

Não é no teu corpo, mas é tanto
no teu corpo meu último refúgio,
que amoroso e em pânico me insurjo
contra a fonte que és: júbilo e pranto.

         Mas é também no teu corpo o tudo
         da solidão em que me aclaro e escudo.

         Em teu corpo, canal que brande e acalma
         minha alma, este pássaro árduo e mudo
         na estranha migração da tua alma.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Aliteração Inspiradora



Sonho de um monista
Augusto dos Anjos

 Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo
Viajávamos, com uma ânsia sibarita,
Por toda a pró-dinâmica infinita,
Na consciência de um zoófito tranqüilo.

A verdade espantosa de Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus - essa mônada esquisita -
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,

Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!




Anatomia para principiantes
Ednei Pereira Rodrigues



Esquálido Esqueleto Esquecido na Esquina da Saudade

Esquivoso à claridade

Disfarçava o banzo

Ombrear-se com o breu

Pousa uma fênix na espádua

Perpétua Tábua

Grabato para o gracejo das gralhas

Costela Labirintiforme

Armadilha para pássaros

Dedilho seu dédalo para deduzir o vazio

Falta uma vértebra para a Verve

Espôndilo como Espólio

Esplêndido Esplênico

Sua decomposição que debela

Putrefação na Puberdade

Quebrar o jejum com o austro

Anormal Anorexia

Faltou as grades para deter a grafia

Catre para atrelar

A extração do cateter revelou o infinito

Aliviar o fardo à farelo.



Inexorável 
Cruz e Souza

Ó meu Amor,que já morreste,

Ó meu Amor,que morta estás!

Lá nessa cova a que desceste,

Ó meu Amor,que já morreste,

Ah! nunca mais florescerás?!

Ao teu esquálido esqueleto,

Que tinha outrora de uma flor

A graça e o encanto do amuleto;

Ao teu esquálido esqueleto

Não voltará novo esplendor?!

E ah!o teu crânio sem cabelos

Sinistro,seco,estéril,nu...(Belas madeixas dos teus zelos!)

E ah! o teu crânio sem cabelos

Há de ficar como estás tu?!

O teu nariz de asa redonda,

De linhas límpidas,sutis

Oh!há de ser na lama hedionda

O teu nariz de asa redonda

Comido pelos vermes vis?!

Dos teus dois olhos-dois encantos

-De tudo,enfim,maravilhar,

Sacrário augsto dos teus prantos,

Os teus dois olhos-dois encantos

Em dois buracos vão ficar?!

A tua boca perfumosa,

O céu do néctar sensual,

Tão casta,fresca e luminosa,

A tua boca perfumosa

Vai ter o cancro sepulcral?!

As tuas mãos de nívea seda,

De veias cândidas e azuis

Vão se estinguir na noite treda

As tuas mãos de nívea seda,

Lá nesses lúgubres pauis?!

As tuas tentadoras pomas

Cheias de um magníficoelixir,

De quentes,cálidos aromas,

As tuas tentadoras pomas

Ah!nunca mais hão de florir?!

A essência virgem da beleza,

O gesto,o andar,o sol da voz

Que iluminava de pureza,

A essência virgem da beleza,

Tudo acabou no horror atroz?!

Na funda treva dessa cova,

Na inexorável podridão

Já te apagaste,Estrela nova,

Na funda treva dessa cova,

Na negra transfiguração!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Onde estão os vagalumes?



Máquina breve
 Cecília Meireles
 
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.


Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

  


O voo da esmeralda
Ednei Pereira Rodrigues

Líbero o berilo da falange
Anilha cintila no pálamo
Cara de cariáster para cariátide
Cadência da essência
Flora perdeu seu Farol
Por isso aumentaram os naufrágios
Aspecto patesco da maresia para esmaiar
Viver sob a ilusão sintética do neon
Um escuro impuro que revela o reverso
Faço reverência para o revérbero
Quando a pupila se acostuma com o escuro
Disfarço o garço da garça,muito branco
Tons para Tonsar a Ovelha
A Tonsura de Saturno
Badana contra o níveo
O façalvo fareja o obscuro
Tingir o que tine da afrasia da frase
Brilho intenso do áscio
A cisão em qualquer coisa que não vejo
Procuro o rútilo dentro do Fifó
Quebro o holofote como protesto.


  Glossário:
berilo:esmeralda
pálamo:Membrana existente entre os dedos de algumas aves.
cariáster:estrela
cariátide:estátua feminina
patesco:marinheiro inexperiente
badana:ovelha negra
façalvo:nariz branco
Fifó:lampião 


 
Estrela perigosa
  Clarice Lispector

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar. 



 A Noite É Muito Escura
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa 

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

quinta-feira, 9 de julho de 2015

DECERTO DESERTOS



Tempo
Miguel Torga

 Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!



Ampulheta Quebrada
Ednei Pereira Rodrigues

Serve como relicário
Guarda o banzo
Tudo é reciclável
Até o ausente recíproco
Não é mais oco,repleto de ideias
Atacama atado em meu tálamo
Esse paramo sem ramo
Como um bálsamo
Saara iátrico
Onde não singra o iate
Sangra o disparete
Asclépio do Asco
Galeno tens o antídoto desse veneno
Que entra goela abaixo
Gobi como óbice
Namibe que me anime
Toda aniquilação do anil
Só com uma rajada do Rajastão
Minha tara por Thar
Tapeia essa tapera como tapete
Tardígrado para acolitar a cáfila
Na colina a acolia
Toda argila que me acolhe .


Glossário:

banzo:tristeza
tálamo: leito
iátrico:curar
Asclépio:médico
Gobi:O Deserto de Gobi é um extenso deserto situado na região norte da República Popular da China e região sul da Mongólia. A palavra Gobi significa deserto, em mongol. Wikipédia
Namibe:O Deserto do Namibe é um vasto deserto que vai da costa sul da Namíbia até a costa sudoeste de Angola e faz parte do Namib-Naukluft National Park, a maior reserva de caça de África. Wikipédia
Rajastão: O deserto de Rajastão, no noroeste da Índia.
Thar:O deserto do Thar ou Grande Deserto Indiano é uma extensa região de deserto arenoso situada na região noroeste da Índia e região oriental do Paquistão. Wikipédia



ELOGIO DA MEMÓRIA
José Paulo Paes

O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem. 

sábado, 27 de junho de 2015

Mais do Mesmo



Notícia Poética:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/06/1639604-cemiterio-no-jardim-angela-recebe-esculturas-e-vira-espaco-de-lazer.shtml




 Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde
sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa

 Niilismo
Ednei Pereira Rodrigues
 
Deixa a eixa ser sua madeixa
Peruca de eruca até a nuca
Não se queixa por não ter o eixe
Recuso os recuos do escuro
O peixe também não viu o feixe
Ainda tem o queixo
Quando tudo está fora do eixo
Seu cabedal cabe no cabide
O crepe envolto da prece
Sobre a estrepe
O arbim no jardim se enrola entre as flores
Riqueza com a queza que viceja
O pluto do plural de tudo que se multiplica
O potosi do sopito são os sonhos
Divícia vicia sem ciar
Recuar por causa da cruera
O curare não cura a curva
A culpa do cuíra alípede
Descansa a ansa da ânsia
O repouso para repor o perro.
 
   Glossário:
Eixa&eruca:ervas
eixe:interj Exclamação usada pelos boiadeiros para estimular animais tocados.
cabedal: Acumulação de coisas de valor; capital; bens; riqueza; dinheiro.
crepe&arbim:Fita ou tecido negro que se usa em sinal de luto.
Queza:arbusto
Pluto,potosi&Divícia:riqueza
ciar:remar em sentido contrário
cruera:doença
curare:veneno
cuíra:Impaciência
perro:teimosia


Morte é só vida de trás pra frente

Lou Albergaria, poeta, autora de O Cogumelo que nasceu na bosta profana, que trago aqui todas terças-feiras e que escreve, diariamente no StriPalavras

 Se pensas ver a morte
Como te enganas.
Os olhos nos enganam
Ainda mais
Quando só sabemos olhar
Com razão.
O real muitas vezes é apenas ficção
Uma realidade criada
Por algum espelho
Côncavo ou convexo
Na retina da alma
A imagem se faz trocada
Invertida,
Por isso, transfigura e assombra.
Tantas cores vivas
Não ornamentam a morte.
É só a vida que pulsa
Vibra, agita
Nutre de seiva
Flores, insetos
Beijos…
Um jardim de delícias!
Cismaram, entretanto, colocar um espelho
Bem à nossa frente
E estamos vendo ao contrário.
Só isso.
Não te exasperes, amável amigo,
vou retirar o espelho
Para que possas me ver melhor.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Insultos Poéticos

Burca
Raquel Naveira

Há uma mulher por dentro da burca,
Estranha veste que envolve o corpo
Como um capuz,
Um casulo,
Um enorme grão.

A mulher por dentro da burca
Espia o mundo
Por uma janela quadriculada,
Vê sem ser vista,
Boca calada.

A mulher por dentro da burca
Busca a estrada,
A repisada trilha dos camelos
Rumo ao oásis,
Mas seu caminho se bifurca
Entre o amor e a morte.

A mulher por dentro da burca
É vulcão,
Em suas mãos,
Em sua nuca,
Escorre larva quente;
Gota de fogo é o seu coração.

A mulher por dentro da burca
Tem algo de verme,
De serpente,
De pássaro,
É feita de neblina
A sua face triste.

Por dentro da burca
O medo sufoca,
A mulher segue a procissão
Com passos lentos,
Não permaneceria imóvel
Assistindo a procissão passar.

Por dentro da burca
A opressão enforca,
A mulher,
De costas viradas ao sol,
Enxerga sua sombra.

Por dentro da burca
A louca caminha pela praia,
A maré alta apagará suas pegadas.

A burca azulada como o céu
Torna a mulher
Invisível.


Pintura Abstrata Mulher Na Praia Pintor Picasso

Topless
Ednei Pereira Rodrigues

Muxiba de fuampa nutre a sarjeta
Tibira espargi o quefir quente
O lamento materno do armento para montear
O garraio rogaria o roído?
Tapichi chia chibante
Pirera do ástomo silente
A telite aboral do sórdido
Veste está Burca para ser Huri
O Xador como adorno do abjeto
O Nicabe mirra seu padrão de xibimba
Rorqual Roreja a Ronha
Rongó Ronda o Rossio
O Hijab oculta a sua Hibridez
O Véu Veda sua Vetustez
O saporé áspero do decrépito
Queba Quebra o Quebro
Máscara com a pogoníase de cébida
Ursídeo resíduo do liso
Appalousa sem apalpos relincha
A estética do estigma na face.

Glossário:

Muxiba&Pirera:Carne magra, que se dá aos cães.
Pop. Pele magra; pelanca, carne mole e caída.
Seios flácidos.
Fuampa&Rongó:Prostituta, meretriz.
 Tibira:Vaca, que dá pouco leite.
Quefir : Leite fermentado com sementes e que apresenta a mesma consistência da nata. (É originário da Tartária e do Cáucaso e usado como alimento e digestivo.)
Armento: Rebanho de gado vacum. 
Garraio&tapichi: Bezerro.
chibante:valente
ástomo:sem boca
Telite:Inflamação do bico do seio.
aboral;longe da boca.
Huri: Mulher belíssima que o Corão promete ao fiel muçulmano na vida futura.
Mulher muito formosa.
Xador: Tipo de veste feminina usada no Irã e que cobre da cabeça até os tornozelos, deixando descobertos apenas os olhos.
Nicabe: véu que cobre o rosto e só revela os olhos.
xibimba:pessoa obesa.
rorqual:baleia
Rorejar:v.t. Orvalhar.Banhar em gotas como o orvalho
Ronha:sarna.
Róssio:praça
saporé:bolor
queba:velho
Pogoníase:Desenvolvimento de barba em uma mulher.Crescimento excessivo da barba.
Appalousa:raça de cavalo





O torso arcaico de Apolo
Rainer Maria Rilke
(Tradução: Paulo Quintela)

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.