sexta-feira, 7 de novembro de 2014

113 aniversário de Cecilia Meireles



Motivo
Cecilia Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.




O Enigma da Transparência 
Ednei Pereira Rodrigues


Na ausência do Febo
Sem Febre
Podemos sair no horário do almoço
Sem se amoldar às mudanças
Sem amolgar o asfáltico
E esse ato de amontoar as coisas
Deixa tudo amorfo
Amortecer o impacto da desaceleração
Aquilo que retém, penetra: pôr freio aos desejos
Não almejar um idílio
Algum vínculo com o visto
Relação com o Relâmpago
O Convívio com a Solidão
Conversar com o Silêncio
Desabafar antes que tudo Desabe
Você Sabe dos desatinos
Outro Desastre
Asteróide provoca sua Austeridade
Aluir para fazer alusão ao que zurzi
Ruminar as Ruínas sem objetivo
Se não fosse a Inércia estaríamos juntos.

PANORAMA ALÉM
Cecilia Meireles

Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tanta Viscosidade...


se no tranco do vento a lesma treme
o que sou de parede a mesma prega
se no fundo da concha a lesma freme
aos refolhos da carne ela se agrega
se nas abas da noite a lesma treva
no que em mim jaz de escuro ela se trava
se no meio da náusea a lesma gosma
no que sofro de musgo a cuja lasma
se no vinco da folha a lesma escuma
nas calçadas do poema a vaca empluma! 


Manoel de barros

Tenaz

Ednei Pereira Rodrigues

Era Noite ou Piche?
Chispa do Acrômico
Laser da Lesma Acrônica 
O Futuro da Fuligem
Fundura Fungiforme
Ostracismo para as Ostras
Só um dente dissidente
Dentadura no copo de água
Regozijo Aquífero
Tudo regulamentado
Regredir com a Regra
Reincorporar para reincidir
Oportuna  Oposição
Operário sem opinião
Oprimido sem Optar
A régua não consegue medir a distância que nos separa
Talvez seja vinte mil léguas submarinas
Verídico Júlio Verne
Vernal dos Vermes.



Elegia à Lesma
Carlos Saldanha Legendre.

NASCIMENTO

No começo
um só ponto
luminoso
no quintal.

Mal e mal
se percebe
o que gera
sobre a argila.

O olhar
busca o grão
que cintila
sobre o chão.

Tênue gota
vacilante
desse orvalho
que se anima

e desdobra
fecundado
como um óvulo
sideral

e veloz
multiplica-se
como espiga
sob o sol.

Do conúbio
dessas bolhas
eriçadas
em espasmos,

- doce orgasmo
das estrelas!,
brota a vida
em espuma.

Um vagido
já se escuta
como canto
dentre a bruma.

Não há sangue
não há ossos
nem fraturas
nem destroços.

Por ser lesma
é nascida
de si mesma,
com origem

primordial.
É tão virgem
como a cal
se expandindo

em bandeja
mineral.
Fogo-fátuo,
luz real

que rasteja
vida afora,
repelida.
Mas é vida!



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Nudez Abstrata


Numa concha
Olavo Bilac

Pudesse eu ser a concha nacarada,
Que, entre os corais e as algas, a infinita
Mansão do oceano habita,
E dorme reclinada
No fofo leito das areias de ouro...
Fosse eu a concha e, ó pérola marinha!
Tu fosses o meu único tesouro,
Minha, somente minha!

Ah! com que amor, no ondeante
Regaço da água transparente e clara,
Com que volúpia, filha, com que anseio
Eu as valvas de nácar apertara,
Para guardar-te toda palpitante
No fundo de meu seio!



Falofórias
Ednei Pereira Rodrigues

Valsa no Mar
Valva Egéria
Vulva para a Pérola
Búzio contra as buzinas da urbe
Talássico para vogar
No Balanço do Insano Bálano
Toba como Tobogã
Tanger a Tamatiá
Dissonâncias para o Silêncio
Quietar a Quirica
Calida Calipígia
Arrefece o Gêiser
A Ebulição da Libido
Samádi no Sambaqui
Algas na Nalga
Liquens para o Lirismo
Talófitos para Talonear
O esguicho é esguio
O Gameta na Gaveta
Aderência para a distância
Adoça a Adoba
Período de Perversão
Perigo no Períneo
Cautela para Causticar.


A CONCHA

Escondi-me numa concha, no fundo do mar,

mas esqueci-me em qual.

Cotidianamente desço às profundezas
e côo o mar por entre os dedos
a ver se dou por mim.

Às vezes penso
que fui comido por um peixe gigante
e eu procuro por toda a parte
para o ajudar a engolir-me por completo.

O fundo do mar me atrai e espanta,
com os seus milhões de conchas
semelhantes.

ah, eu estou numa delas
mas não sei em qual.

Quantas vezes fui diretamente a uma conha
dizendo : " Este sou eu".
Quando abria a concha
Estava vazia.

Marin Sorescu
tradução de Luciano Maia
(Romênia 1936-1995)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Poesia de Protesto









Ambição

Ednei Pereira Rodrigues

Depois do sufrágio o naufrágio
A arenga não convenceu ninguém
Gualdripar o erário
Peculiar ao peculato
Pleito desfeito
Corja forja promessas
Endrômina para denominar o falso
Escrutínio sem escrúpulos
Aviltoso avião que conduz a súcia para Suíça
A escória tem escolta é esconderijo
Tributo astuto ao Instituto
A propina é propicia
Subordinado ao suborno
Subsídio para o homicídio
Julgamento iníquo ao oblíquo
Impugnar o impune
Mútua falcatrua
O falido na falésia.

sábado, 2 de agosto de 2014

Trágica Notícia Poética



Míssil abate avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas na Ucrânia
http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/07/17/inteligencia-dos-eua-confirma-que-missil-abateu-aviao-na-ucrania.htm


Confissão (Mário Quintana)

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!


Armistício

Ednei Pereira Rodrigues

Pós Míssil
I miss you
O obus e obtuso
Induzir Indúcias
Dúvida da Indúvia
A derme inerme
Sem égide para a efígie
A esfinge já está sem nariz
A bailarina renga
O maestro maneta indaga o silêncio
A cadência dos cadáveres
Nada manente
Idem o malabarista
Dentro da mala,virou contorcionista
Renegar a contenda
Contemplar o Templo profligado
O litígio é lívido
A aridez do aríete.



Esfinge
Florbela Espanca

Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.

E ansiosa desejo – ó vã miragem –
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca, e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço da paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade,
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da Saudade...

E, à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando, na planície enorme...


Glossário
Indúcias:trégua
Indúvia:Órgão de disseminação do fruto, proveniente do perianto da flor, como os papilos dos aquênios das compostas.
Inerme:desarmado
égide:escudo
efígie:imagem
renga:sem uma perna
aríete:máquina de guerra

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Desordem e regresso





Entre o Bater Rasgado dos Pendões

Entre o bater rasgado dos pendões
E o cessar dos clarins na tarde alheia,
A derrota ficou: como uma cheia
Do mal cobriu os vagos batalhões.

Foi em vão que o Rei louco os seus varões
Trouxe ao prolixo prélio, sem idéia.
Água que mão infiel verteu na areia —
Tudo morreu, sem rastro e sem razões.

A noite cobre o campo, que o Destino
Com a morte tornou abandonado.
Cessou, com cessar tudo, o desatino.

Só no luar que nasce os pendões rotos
’Strelam no absurdo campo desolado
Uma derrota heráldica de ignotos. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



Nocaute

Ednei Pereira Rodrigues

No fim da tarde a tareia
Tunda até no Túnel
Sumanta em suma
Sunfa no sundo
Todo suor supérfluo enalteceu o esforço
Fubeca para fulgir a fuligem
Mútua muxinga
Aos vencidos o venefício
Nação sem Noção
Acorda que á realidade é outra
Toda entropia desse entrudo sem fim
Todo esse entulho não cabe no alcatruz
Política de avestruz
Corrupção que corrói
Fato corriqueiro que não se corrige
Suborno de um substantivo para subterfúgio do concreto
Desbarato como ornato.


Glossário:

São sinônimos de derrota todas as palavras:tareia,Tunda,Sumanta, Sunfa,muxinga

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Girafas em meu sonho Lilás


poesia para o ônibus que faz o itinerário santana /jabaquara

Insônia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos

Ônibus Onírico

Ednei Pereira Rodrigues

Ruminar a perruma
Antes do empurra-empurra
Boléu no tatame
Enxame para o certame
Ababelar as abelhas
Dormir em pé e para as girafas
O cansaço vai de canoa
Baque no batel
No flúmen eivado sou fluido
Girando sobre o próprio eixo
Machuco o queixo
Acoimar a acromia da insônia
Quando o matutino é matuto
A madrugada machuca
Talvez o vespertino seja verso
Conserta a vértebra
Antes dos vermes
Estarei no vértice
Sanfona que só buzina
Toda sandice será contestada.


Glossário

Perruma:Pão grosseiro, fabricado com farelo, que se dá aos cães.
Boléu:queda
certame:combate
ababelar:confundir
batel:tipo de barco pequeno
flúmen:rio
eivado: poluido
Acoimar:punir



A abelha atarefada não tem tempo para a tristeza.
William Blake


Nada se assemelha à alma como a abelha. Esta voa de flor para flor, aquela de estrela para estrela. A abelha traz o mel, como a alma traz a luz. Victor Hugo