sábado, 3 de agosto de 2013

Monocromático



ICEBERG (Paulo Leminski)

Uma poesia ártica,
claro, é isso que desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma,
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos.



Nivelar o níveo


Tudo é lepra

Qualquer matiz lépida

Contém caligem

E o verniz que escorre do nariz

Para brunir a bruma

Flocos de neve para florir mogorim(rosa branca)

Todo remorso no dorso

Avalanche para avaliar o grau da chaga

Isopor para iceberg falso

Alude para ludibriar o lúgubre

Eclipsar a cretina retina

Encanecer é necessário

Extrair o látex que corre por minhas veias

Borracha que não extingue achaques

Madeira para o ádito dentígero que range

Hipotermia como hipótese

Para convalescer da cirurgia total de prótese.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Natureza Morta



Primeiro tudo que me inspira:

Solitário

Como um fantasma que se refugia

Na solidão da natureza morta,

Por trás dos ermos túmulos, um dia,

Eu fui refugiar-me à tua porta!


Fazia frio, e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos conforta...

Cortava assim como em carniçaria

O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!

E eu saí, como quem tudo repele,

- Velho caixão a carregar destroços -




Levando apenas na tumbal carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos!
Augusto dos Anjos





Inscrição para uma Lareira


“A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida…”

Mario Quintana





A solidão mostra o original,a beleza ousada e surpreendente,a poesia.Mas a solidão também mostra o avesso,o desproporcionado,o absurdo o ilícito.
Thomas Mann


Agora de minha autoria:




Verde Escuro

Acesso o avesso espesso
Regresso ao espiral
O Conserto da concha
Simples silêncio
Isolamento acústico
Quando tudo é cáustico
Não foi a fênix
Escorre látex no lençol freático
O fragor da franja
Tudo que freia
A síndrome da sirene
Ninguém buzina para os búzios
Por esta freima
Cautela no caule
Pois os troncos estão retorcidos
Para um ângulo oblíquo.






sábado, 22 de junho de 2013

Para Dilma Roussef


Dilma seja diligente
Saia desse dilema
Estandarte prestes a se dilacerar
Sua pupila vai se dilatar
O lema da lesma
Paulatino progresso
Meu protesto contra esta profusão
Propenso a propelir um burgau à burguesia
Oprimo o opimo
Vândalo com ideias de vanguarda
Contra seu vaníloquo
Insurreição  para insuflar um vento insurgente
Inspiração que vem desse instinto de mudança
Não seja mundana
Tenho munição para essa metamorfose
Um método menálio
Eficaz ao seu mendaz meneio
A metade do meteoro.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Anagramas


Ódio desse iodo cicatrizante
Sentir o caos, caso o asco te adornar
Seu ocaso narrado pelo breu
Quando a urbe virar várzea
Para evazar  o recíproco sufoco  
Seria melhor o mar
Para  a memória RAM
Se remoíam dentro de mim
Ensaio para o anseio
Acerbar ao bracear a verga
A náusea foi o motivo do vômito navígero
Perto do torpe
Longe do terso
Tenha sorte em outro setor
Remo para algum lugar ermo
Em outra dimensão menos desânimo
Mais alegria do que alergia.

sábado, 8 de junho de 2013

Guerra Química

poesia inspirada na música de RadioHead No surpises
 


Abraço o enxofre
Antes da catástrofe
Guardado no cofre
Súlfur no abajur
A despeito do abandono
Césio faz cessar toda algia das algas
Algemas no algodão
Silenciador  de escapamento
Escândalo do Escândio
Para escandir o verso
Cloroformização do ambiente
Escaramuça de camurça
Relax com o Antrax
Quieto Cianeto
Cúmplice da poluição
Plissar a pluma
Em suma, flutuar com a espuma.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Silêncio


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago



Aceno Ácido 


Embatucado com o embaçado
Para embair o meneio
Receio de mengar
No embalo do estalo
O embaraço do gesto
Em gesso espesso
Níveo nivelável
Para aferir sem ferir
Pôr em paralelo
Um castelo no cotovelo
Quando o avesso é egrégrio
Faltou um aceno para o acéfalo
Mãos que vêem
Na palma a alma
Dedo macio saiu pela tangente
Tudo que abrange
Quando range a falange
A polidez do pólice
Durma com a mudra.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

América Latrina




Esmola em troca de sufrágios
A cúpula da espórtula
Esparge necedade
Impugnável impulso implume
Aos impunes sátrapas
Não me tirem Saturno
Este governo gorjeta
Já dá sinais de saturação
Delírio Demagogo de um pretérito emérito
O suborno é seu adorno
Quebra de decoro
Brasília breca o brado
E a censura é moldura para a tortura
Toda essa desídia designa a desigualdade.