terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nada de Anormal, Exceto Tudo

Pequenos desvios sem relevância estatística




 1º andar quase sem ocorrências, a escada rolante não engoliu ninguém, talvez não queira regurgitar incoerências, humanos complicam o que poderia ser simples, talvez almeje transformar arte em matéria digerível, talvez confunda fruição com ingestão e, nesse impulso de consumir tudo, perde-se a pausa necessária ao sentido. O olhar apressa o que deveria demorar, a passagem substitui a permanência, e o mecanismo segue indiferente, lembrando que nem tudo foi feito para ser atravessado sem resistência. Há coisas que exigem estagnação, um atraso voluntário, um corpo que não avance enquanto ainda não compreendeu. Os seguranças mencionam possível falta de obras; a hipótese permanece em aberto. O fluxo mecânico repete-se com indiferença, enquanto corpos confiam seus pesos à engrenagem como quem aceita um pacto silencioso. Tudo funciona, e é justamente essa normalidade que inquieta. Um detector de metais apita apenas diante de pessoas emocionalmente carregadas, como se a densidade afetiva tivesse peso específico, como se a angústia, o desejo ou a culpa fossem ligas detectáveis. Não há alarme geral, apenas um ruído breve, educado, rapidamente ignorado. Os corpos seguem adiante, aliviados por não precisar interpretar o sinal. Aqui, sentir demais é apenas um pequeno inconveniente logístico, algo a atravessar com pressa antes que ganhe significado.
O guarda-volumes mantém sua ordem exemplar, indiferente à natureza do que recebe. Entre mochilas e casacos, alguém deixou um pensamento impróprio, abandonado para evitar constrangimento no percurso. O compartimento se fechou com o mesmo clique neutro de sempre, como se estivesse habituado a acolher aquilo que não pode circular à vista. Ninguém retornou para buscá-lo. O sistema registrou apenas a ocupação prolongada, nunca o conteúdo. Com o tempo, o pensamento perdeu a urgência, acomodou-se ao escuro e passou a existir ali como tudo o mais que foi guardado não para ser protegido, mas para ser esquecido. Em outro compartimento, um visitante esqueceu uma sombra dobrada, ainda morna, que continuou ocupando o fundo do armário mesmo sem corpo correspondente. A arquitetura cumpre o que promete, mas lembra, em cada subida, que o equilíbrio é sempre provisório e que o espaço, quando falha, não pede desculpas. Um guarda jura ter visto uma obra pedir licença para ocupar mais espaço.




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2º andar praticamente inalterado, apesar do pequeno desvio estatístico de uma pessoa que foi lentamente incorporada por uma obra, como se o corpo tivesse sido apenas mais um material compatível. O acontecimento não gerou alarme nem curiosidade prolongada, foi anotado com a mesma indiferença dedicada a uma lâmpada queimada ou a um corrimão gasto. O fluxo seguiu, os olhares passaram adiante, e a arte permaneceu no lugar, silenciosa e satisfeita, enquanto a ausência recém-criada não chegou a configurar falta. Aqui, desaparecer não é ruptura, é apenas continuidade mal percebida.
Curiosamente, quando alguém se aproxima para tirar uma selfie, a obra sorri, um sorriso discreto, quase educado, suficiente para caber no enquadramento. O gesto é registrado, compartilhado, curtido, enquanto ninguém se pergunta de onde vem esse contentamento súbito. A arte permanece inteira, o espaço continua funcional, e a perda, sem nome e sem urgência, dissolve-se na normalidade cotidiana. Aqui, o mais perturbador não é o desaparecimento, mas a cordialidade com que ele posa para a câmera. Um extintor de incêndio dispara apenas diante de entusiasmo excessivo. Um banco de descanso recusa certos corpos, permanecendo inexplicavelmente inclinado apenas para alguns visitantes, expulsando-os com delicadeza mecânica.




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3º andar intacto por desatenção, ninguém desafiou a lei da gravidade porque desafiar exige consciência, e ali prevalece o automatismo. Os corpos aceitam o peso que lhes cabe, as ideias não ensaiam fuga, e o espaço se organiza em torno dessa obediência sem atrito. A gravidade não é apenas força física, é pacto silencioso entre matéria e desistência. Nada cai porque nada tenta se elevar, e a integridade do andar nasce menos da estabilidade do que da renúncia. O que permanece inteiro não é o que foi preservado, mas o que nunca foi posto à prova. Ninguém precisa ver o priapismo da pilastra, preserve sua intimidade arquitetônica, nem tudo precisa ficar à mostra, o espaço é compartilhado por famílias, local inadequado para exibição imprópria. Crianças atravessam salas inteiras sem serem percebidas, como se estivessem fora do campo institucional do olhar. Há, contudo, uma presença que não se submete a essas regras. Uma entidade protege o local sem vigilância ostensiva, suspensa no vazio central: um corpo têxtil orgânico, translúcido, de tom rosado ou alaranjado, pendendo verticalmente. Não é rígido; cede à gravidade apenas para contrariá-la, dobra-se em camadas que evocam carne e véu, matéria viva e reserva ao mesmo tempo. A luz interna, quente e quase pulsante, sugere um núcleo vital que não pesa. Só ela desafia a lei da gravidade, permanecendo onde não deveria permanecer, sustentada por uma lógica que o prédio aceita sem questionar. Enquanto tudo se ajusta, corrige e recua, essa presença vigia em silêncio, lembrando que há exceções que mantêm o equilíbrio justamente por não obedecerem.