segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Descrição de imagem


Veronica Stigger - Colesterol



Agora que você faz parte da própria estrutura desse pilar, como se fosse a alma que sustenta a matéria, arrancar você daí não seria simples remoção — seria abalar o equilíbrio inteiro. Se tentassem separar sua presença da coluna, não cairia só o concreto: ruiria também o sentido que a mantém de pé.
Talvez, se colocarem outro texto de sua autoria no lugar, ainda assim não será igual. Podem trocar as palavras, alterar o tamanho das letras claras gravadas no concreto, ajustar a iluminação que atravessa a janela ao lado, mas o que já está inscrito nesse pilar não se apaga com facilidade.
Não são apenas frases alinhadas na superfície; são letras que parecem fazer parte da própria coluna, como se tivessem nascido junto com o cimento. E quando as letras se confundem com a estrutura, retirar uma não é simples substituição, é mexer no equilíbrio do que sustenta tudo ao redor.


Atendendo a pedidos



Por que você não escreve um conto sobre os benefícios do plástico-bolha, mas não apenas como curiosidade doméstica, e sim como sintoma de uma época inteira; um conto em que se fale dessa dependência crescente de soluções mínimas para dores imensas, em que as pessoas troquem conversas profundas por estalos rápidos e precisos, substituindo diálogos demorados por pequenas explosões controladas; um conto em que os consultórios fiquem vazios, as cadeiras permaneçam intactas, os relógios continuem marcando horas que ninguém mais ocupa, e em que terapeutas saiam às ruas envoltos em plástico-bolha, como se fossem eles próprios frágeis demais para o mundo que tentaram curar?


Sim, eu estava triste, mas não era uma tristeza aparente; era algo intrínseco, entranhado de forma quase orgânica, difícil de separar daquilo que eu entendia como sendo eu mesmo; e já se tornava árduo disfarçar, sendo justo dizer que o silêncio imposto acabou escorrendo para a calha do praxe, transformando-se, na práxis, em escolha consciente, exposta ao tempo e ao conflito, deixando de ser mera ausência de palavras para tornar-se posicionamento — não omissão, mas contenção deliberada, um gesto interno sustentado mesmo quando tudo ao redor exigia explicações imediatas.
Houve tentativas de reorganizar o que parecia desalinhado: conversas atentas, métodos estruturados, rotinas novas, comprimidos pequenos com promessas grandes; busquei respostas em vozes externas, em fórmulas já testadas, em protocolos que asseguravam alguma estabilidade, mas nada alcançava o núcleo do que me atravessava. Não por resistência ao cuidado, nem por recusa de ajuda, mas porque a soturnidade parecia ter raízes mais profundas do que qualquer intervenção conseguia tocar.
Então a solução surgiu onde ninguém procurava — não em tratados densos nem em discursos elaborados, mas em algo banal e transparente esquecido sobre uma mesa: o plástico-bolha. No início foi apenas distração, dedos pressionando pequenas esferas de ar cujo estalo seco produzia resposta imediata, quase física, como se cada ruptura deslocasse um pouco da pressão acumulada por dentro. Não era milagre nem cura, mas era efeito — e o efeito, por simples que fosse, era concreto. Cada bolha absorvia impacto antes de ceder; não negava a pressão, suportava-a por um instante e então se rompia, ensinando talvez que não era preciso eliminar a tristeza de uma vez, mas amortecê-la em pequenas porções suportáveis.
A experiência deixou de ser hábito discreto e tornou-se relato compartilhado; espalhou-se primeiro como confidência, depois como recomendação e por fim como tendência. Mesas de escritório passaram a guardar folhas translúcidas ao lado do teclado, gavetas esconderam rolos inteiros, mochilas carregaram tiras recortadas para emergências emocionais. Falava-se de um tratamento mais acessível, mais econômico, mais imediato — menos oneroso que sessões semanais, menos custoso que medicamentos contínuos, menos exigente que retiros distantes em busca de silêncio. Uma alternativa prática, um recurso complementar, uma estratégia doméstica de autorregulação.
O fenômeno ultrapassou o âmbito privado. Relatórios registraram redução na procura por atendimentos especializados; indicadores apontaram queda em determinadas demandas clínicas; autoridades, entre planilhas e discursos administrativos, perceberam ali uma oportunidade conveniente. Incentivaram campanhas de bem-estar simplificado, distribuíram kits em repartições públicas, incluíram o plástico-bolha em programas corporativos. Orçamentos destinados a certas áreas da saúde mental foram sendo discretamente enxugados sob argumentos de eficiência e modernização, enquanto, em auditórios formais, falava-se em inovação social e, nas ruas, o som das bolhas estourando tornava-se trilha involuntária de uma política de contenção emocional — pequenas explosões substituindo grandes debates.
Mas a eficiência aparente não atravessou incólume o tecido social; terapeutas organizaram manifestações silenciosas, ocupando praças e avenidas com a mesma gravidade com que antes ocupavam consultórios, vestindo camadas de plástico-bolha numa ironia quase didática, erguendo placas onde se lia:

“Também sabemos amortecer impactos”
“Escutar é mais profundo que estourar”
“Nem todo vazio se resolve com pressão”
“Sentimentos não são descartáveis”
“Cuidar exige tempo”
“Nem todo alívio é cura”

As frases, isoladas no ar como pequenas declarações de resistência, pediam leitura lenta, quase respeitosa. Não gritavam palavras de ordem; sustentavam cartazes e olhares firmes, enquanto alguns passantes diminuíam o passo, tocados pela nitidez daquelas sentenças, e outros continuavam pressionando distraidamente as pequenas bolhas trazidas no bolso, como se o som breve do estouro pudesse abafar a pergunta que crescia em silêncio.
O protesto não era contra o objeto em si, mas contra a ideia de que ele pudesse substituir o encontro humano. Porque talvez o que estivesse em jogo não fosse apenas o modo de aliviar a dor, mas a disposição de permanecer diante dela tempo suficiente para compreendê-la — sem pressionar até que estoure, sem reduzir a complexidade do sentir ao conforto breve de um som que logo se dissipa no ar.
E o contraste tornava-se inevitável, pois de um lado estava a promessa do alívio instantâneo e de outro a defesa do processo lento, da escuta que atravessa camadas, do cuidado que não se mede por economia orçamentária, de modo que a pergunta suspensa no ar deixava de ser qual método era mais eficiente e passava a ser que tipo de sociedade desejávamos nos tornar: uma que aprende a pressionar até que o som do estouro distraia da dor, ou uma que aceita permanecer diante dela até que finalmente faça sentido.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nada de Anormal, Exceto Tudo

Pequenos desvios sem relevância estatística




 1º andar quase sem ocorrências, a escada rolante não engoliu ninguém, talvez não queira regurgitar incoerências, humanos complicam o que poderia ser simples, talvez almeje transformar arte em matéria digerível, talvez confunda fruição com ingestão e, nesse impulso de consumir tudo, perde-se a pausa necessária ao sentido. O olhar apressa o que deveria demorar, a passagem substitui a permanência, e o mecanismo segue indiferente, lembrando que nem tudo foi feito para ser atravessado sem resistência. Há coisas que exigem estagnação, um atraso voluntário, um corpo que não avance enquanto ainda não compreendeu. Os seguranças mencionam possível falta de obras; a hipótese permanece em aberto. O fluxo mecânico repete-se com indiferença, enquanto corpos confiam seus pesos à engrenagem como quem aceita um pacto silencioso. Tudo funciona, e é justamente essa normalidade que inquieta. Um detector de metais apita apenas diante de pessoas emocionalmente carregadas, como se a densidade afetiva tivesse peso específico, como se a angústia, o desejo ou a culpa fossem ligas detectáveis. Não há alarme geral, apenas um ruído breve, educado, rapidamente ignorado. Os corpos seguem adiante, aliviados por não precisar interpretar o sinal. Aqui, sentir demais é apenas um pequeno inconveniente logístico, algo a atravessar com pressa antes que ganhe significado.
O guarda-volumes mantém sua ordem exemplar, indiferente à natureza do que recebe. Entre mochilas e casacos, alguém deixou um pensamento impróprio, abandonado para evitar constrangimento no percurso. O compartimento se fechou com o mesmo clique neutro de sempre, como se estivesse habituado a acolher aquilo que não pode circular à vista. Ninguém retornou para buscá-lo. O sistema registrou apenas a ocupação prolongada, nunca o conteúdo. Com o tempo, o pensamento perdeu a urgência, acomodou-se ao escuro e passou a existir ali como tudo o mais que foi guardado não para ser protegido, mas para ser esquecido. Em outro compartimento, um visitante esqueceu uma sombra dobrada, ainda morna, que continuou ocupando o fundo do armário mesmo sem corpo correspondente. A arquitetura cumpre o que promete, mas lembra, em cada subida, que o equilíbrio é sempre provisório e que o espaço, quando falha, não pede desculpas. Um guarda jura ter visto uma obra pedir licença para ocupar mais espaço.




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2º andar praticamente inalterado, apesar do pequeno desvio estatístico de uma pessoa que foi lentamente incorporada por uma obra, como se o corpo tivesse sido apenas mais um material compatível. O acontecimento não gerou alarme nem curiosidade prolongada, foi anotado com a mesma indiferença dedicada a uma lâmpada queimada ou a um corrimão gasto. O fluxo seguiu, os olhares passaram adiante, e a arte permaneceu no lugar, silenciosa e satisfeita, enquanto a ausência recém-criada não chegou a configurar falta. Aqui, desaparecer não é ruptura, é apenas continuidade mal percebida.
Curiosamente, quando alguém se aproxima para tirar uma selfie, a obra sorri, um sorriso discreto, quase educado, suficiente para caber no enquadramento. O gesto é registrado, compartilhado, curtido, enquanto ninguém se pergunta de onde vem esse contentamento súbito. A arte permanece inteira, o espaço continua funcional, e a perda, sem nome e sem urgência, dissolve-se na normalidade cotidiana. Aqui, o mais perturbador não é o desaparecimento, mas a cordialidade com que ele posa para a câmera. Um extintor de incêndio dispara apenas diante de entusiasmo excessivo. Um banco de descanso recusa certos corpos, permanecendo inexplicavelmente inclinado apenas para alguns visitantes, expulsando-os com delicadeza mecânica.




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3º andar intacto por desatenção, ninguém desafiou a lei da gravidade porque desafiar exige consciência, e ali prevalece o automatismo. Os corpos aceitam o peso que lhes cabe, as ideias não ensaiam fuga, e o espaço se organiza em torno dessa obediência sem atrito. A gravidade não é apenas força física, é pacto silencioso entre matéria e desistência. Nada cai porque nada tenta se elevar, e a integridade do andar nasce menos da estabilidade do que da renúncia. O que permanece inteiro não é o que foi preservado, mas o que nunca foi posto à prova. Ninguém precisa ver o priapismo da pilastra, preserve sua intimidade arquitetônica, nem tudo precisa ficar à mostra, o espaço é compartilhado por famílias, local inadequado para exibição imprópria. Crianças atravessam salas inteiras sem serem percebidas, como se estivessem fora do campo institucional do olhar. Há, contudo, uma presença que não se submete a essas regras. Uma entidade protege o local sem vigilância ostensiva, suspensa no vazio central: um corpo têxtil orgânico, translúcido, de tom rosado ou alaranjado, pendendo verticalmente. Não é rígido; cede à gravidade apenas para contrariá-la, dobra-se em camadas que evocam carne e véu, matéria viva e reserva ao mesmo tempo. A luz interna, quente e quase pulsante, sugere um núcleo vital que não pesa. Só ela desafia a lei da gravidade, permanecendo onde não deveria permanecer, sustentada por uma lógica que o prédio aceita sem questionar. Enquanto tudo se ajusta, corrige e recua, essa presença vigia em silêncio, lembrando que há exceções que mantêm o equilíbrio justamente por não obedecerem.