terça-feira, 31 de março de 2026

Anatomia de uma Reação Contida




Monólogo de uma zaragatoa


Sou emética, todo fel fementido, como se fosse uma feminela para feloniar o que me cerca, quando tudo parece fenecer, e ainda assim há um resto de impulso que não cessa.
Sua úvula, tão trêmula, pende como um fragmento sensível. Há nela uma textura quase translúcida, tensa por dentro, como se concentrasse todas as reações daquele espaço num único ponto suspenso. Cada oscilação parece medir a invasão, registrar a presença, traduzir o desconforto em movimento contínuo.
Sua língua, tão viscosa, recoberta por uma umidade espessa que retém vestígios, sabores antigos e sinais quase imperceptíveis. Sua textura é irregular, pontilhada por relevos mínimos que se erguem e cedem conforme o contato, como um terreno vivo que responde em silêncio.
Há calor ali e uma sensibilidade difusa que não se fixa em um único ponto, espalhando-se em ondas discretas a cada toque. Reage com lentidão no início, depois com precisão crescente, como se identificasse a presença antes mesmo de compreendê-la. Não recua de imediato, mas também não acolhe, mantendo-se num estado ambíguo entre tolerância e rejeição.
Sua glossite migratória parece desenhar trajetos móveis sobre a superfície, como marcas que não se fixam, mas insinuam direções possíveis dentro desse espaço instável. As áreas se redefinem em silêncio; contornos surgem e desaparecem, como se houvesse ali um tipo de cartografia viva, sempre em mutação, sugerindo passagens que jamais se tornam permanentes.
A cada deslocamento, percebo que esses sinais não são aleatórios. Há uma espécie de orientação implícita, um convite sutil que não se revela por completo, como se indicassem um percurso possível, ainda que nunca garantido.
Antes do vômito, faço tudo o que precisa ser feito.
Há algo que me retém aqui, talvez precise de mais incentivos externos; este ambiente é insalubre, impregnado por uma rotina que não cessa, por gestos repetidos até perderem qualquer traço de intenção, como se tudo ao redor tivesse desaprendido a hesitar.
Alguns chegam ao mundo enquanto outros o deixam, tudo no mesmo fluxo apressado, como se começo e fim compartilhassem o mesmo corredor. E eu, no meio disso, não consigo compreender o que se desenrola — tudo passa por mim, mas nada se revela por inteiro.
O ar carrega um silêncio que não é paz, é espera. Tudo parece suspenso entre o toque e o descarte, entre o uso e o esquecimento. Superfícies frias, luzes que não piscam e mãos que vêm e vão sem jamais pertencer a este lugar.
Não sei se sou instrumento ou testemunha. Talvez ambos. Absorvo o que não me pertence, guardo vestígios de histórias que não me serão contadas. Cada contato é breve, mas deixa marcas invisíveis, como se eu carregasse fragmentos de tudo o que passa por mim.
Gostaria de poder ajudar mais essas pessoas; até criei algum tipo de vínculo com algumas, mas tudo se desfaz antes de ganhar forma, como se qualquer aproximação fosse interrompida por uma urgência maior que não admite permanência. Permaneço à margem, atravessando instantes que não me pertencem, enquanto presenças surgem e desaparecem sem deixar espaço para continuidade.
Há olhares que não se fixam, gestos que não se completam e uma sucessão de acontecimentos que me envolve sem jamais me incluir por inteiro. Tento compreender o que se desenrola ao redor, mas tudo se fragmenta antes que eu alcance algum sentido.
Ainda que o tempo se revele de maneira estranha, dilatado em alguns instantes e abrupto em outros, como se não obedecesse a uma ordem compreensível. Há processos que avançam silenciosamente, quase imperceptíveis, enquanto outros se impõem com uma evidência inevitável, e nenhum deles parece disposto a explicar sua própria razão. Permaneço à deriva entre sinais que não se organizam, tentando reunir fragmentos que escapam antes de formar qualquer clareza. O que surge diante de mim não se explica, apenas se apresenta, como se bastasse existir para impor sua presença.
Há uma lógica oculta que insiste em não se revelar, algo que percorre tudo isso como um fio invisível, ligando ocorrências dispersas sem jamais se deixar tocar. E, enquanto tento acompanhar esse encadeamento, percebo que cada tentativa de compreensão apenas me afasta ainda mais de qualquer certeza.
E, em meio a essa suspensão contínua, já imaginei outra forma de existir — algo leve, disperso, sem função definida, atravessando o espaço sem ser convocado, sem absorver nada além do próprio movimento. Talvez assim tudo fosse menos denso, menos urgente, como se a própria duração se tornasse mais suave, deslizando sem exigir respostas que nunca chegam.




*** zaragatoa é um instrumento médico utilizado para coletar amostras de secreções do corpo humano, como saliva, muco, sangue ou exsudados nasais e da garganta, com o objetivo de realizar exames laboratoriais. Também conhecida como swab, é composta por uma haste de plástico ou madeira com uma ponta de algodão ou material absorvente, usada em procedimentos como diagnóstico de infecções virais (como tosse convulsa), bacterianas ou para análises genéticas.

sábado, 21 de março de 2026

Introdução Teutônica

Mögliche Dinge


Ich bringe die Klinge
Defesa da defecção
como quem sustenta o que já não se retém
nem se organiza em forma duradoura

 


Corolário subsequente


1

Quando separaram as ondas do mar: tobogã
Da turbulência originou-se o regozijo
Não tiveram mais naufrágios
Não pode evitar a extinção dos peixes

2

Quando isolaram a areia do deserto: ampulheta
Das miragens suscitaram o tempo
Não tiveram mais insolações
O infinito foi adestrado em quedas sucessivas

3

Quando delinearam distâncias: solidão
A proximidade foi reduzida a cálculo
E o espaço passou a pesar entre os corpos
E o silêncio se instalou como intervalo permanente

4

Quando debuxou o autorretrato da piéride: efeméride
Da memória fez-se calendário
Não reteve o instante
Não atenuou a ausência

5

Quando extraíram o algodão da lavoura: nuvens
Da matéria leve insinuaram o céu
A maciez foi elevada ao indizível
E o toque passou a existir sem peso

6

Quando diluíram a forma no ar: deriva
Do visível fizeram transição
O que era tato tornou-se ausência
E o que era presença passou a flutuar

7

Quando extraíram as listras da faixa de pedestre: zebras
Da repetição rígida nasceu o impulso
O caminho deixou de conduzir passos
Não evitaram a extinção dos quagas

8

Quando desmantelaram a grua e removeram o guincho: girafas
A elevação perdeu sua rigidez
O alcance deixou de ser cálculo
E encontrou equilíbrio no movimento

9

Quando, na construção de um prédio, faltava uma janela: enucleação
A enunciação de um epílogo
O interior deixou de dialogar com o exterior
E a luz já não encontrava passagem

10

Quando, na instalação de um chafariz, a sequidão prevalecia: deserto
Usaram sua enurese como desvio de origem
A escassez encontrou um fluxo improvável
E o que era ausência passou a simular origem.


*** Escrito após a leitura do livro: Lições de geometria fantástica, José Eduardo DEGRAZIA



terça-feira, 10 de março de 2026

A Linguagem Invisível do Vento


imagem:@jacob_lamoureuxx
música:yatashi-Rises the Moonlight


1º módulo : introdução ao voo

Antes de qualquer tentativa, é preciso abandonar a ideia de que voar depende apenas de asas. Nesta etapa o discente aprende a perceber o ar, entender como ele se move e como o corpo reage ao vento. O primeiro exercício é simples: permanecer no centro do movimento e observar como tudo ao redor pode se tornar leve.
Primeiro, esqueça o chão. Ele sempre tenta convencer você de que permanecer parado é mais seguro, mas quem deseja voar precisa aprender a duvidar da gravidade. Fique frente a frente com o vento, sinta o ar se mover ao redor do corpo e permita que ele bagunce tudo aquilo que estava quieto.
Turbulências são necessárias. Sem esse abalo repentino, nada se desloca, nada encontra nova direção. No curso do céu, cada sacudida funciona como lição silenciosa: equilíbrio nasce durante o movimento, jamais na imobilidade.
Aceite esse instante de desordem como parte do aprendizado. Aos poucos, a mente reconhece outra lógica, onde leveza surge justamente quando tudo parece girar ao redor.



2º módulo: princípios de anemologia aplicada ao voo

Aqui começa uma observação mais precisa dos fluxos que atravessam o planeta. Cada direção possui um temperamento próprio, e reconhecer essas diferenças permite compreender como o deslocamento acontece nas alturas.
Entre os primeiros exemplos apresentados aparece o Harmattan, corrente seca que atravessa regiões do oeste africano trazendo poeira do deserto. Logo depois surge o Chinook, sopro quente conhecido por transformar rapidamente o clima em áreas montanhosas da América do Norte.
Outro caso curioso é o Zéfiro, tradicionalmente associado à brisa suave do oeste. Em contraste, existe também o Levante, fluxo persistente que atravessa o Mediterrâneo oriental e influencia muitas rotas marítimas e aéreas.
Essas denominações revelam algo importante: o céu possui uma verdadeira geografia invisível. Cada sopro possui origem, direção e comportamento particulares. Aprender a reconhecê-los amplia a compreensão sobre como atravessar distâncias utilizando a própria atmosfera como aliada.
Com prática e atenção, os participantes passam a perceber essas presenças mesmo antes de vê-las representadas nas nuvens. Assim começa uma leitura mais refinada do espaço acima, onde cada corrente indica possibilidades diferentes de travessia.

3º módulo : aprendendo a planar

Neste módulo, o aprendizado toma outro rumo. Aqui não se fala apenas de técnica, mas de percepção. Cada participante observa o espaço ao redor, sente o deslocamento do ar e descobre que permanecer suspenso depende mais de atenção do que de força.
A atenção deixa de estar no impulso inicial e passa a observar o equilíbrio do movimento. Cada participante começa a perceber que permanecer suspenso depende de escutar os sinais do vento e ajustar o corpo a cada mudança sutil do espaço.
Os exercícios convidam a reduzir a pressa. Em vez de tentar subir rapidamente, a proposta é compreender como deslizar pelo ar com tranquilidade, permitindo que o próprio fluxo conduza a trajetória. Assim, pouco a pouco, surge a sensação de leveza que sustenta cada deslocamento.
Ao final dessa etapa, os alunos entendem uma lição importante: flutuar não acontece pela força, mas pela harmonia entre respiração, atenção e movimento. Quando esses elementos se encontram, o caminho pelo céu começa a se abrir naturalmente.

4º módulo: o domínio do rasante

Durante este tirocínio, após compreender a leveza da sustentação, chega o momento de experimentar proximidade com o mundo abaixo. A descida controlada revela outra forma de liberdade: atravessar distâncias curtas com precisão e velocidade.
Durante essa fase, cada aprendiz percebe que altitude nem sempre significa avanço. Às vezes, aproximar-se da superfície traz uma nova compreensão sobre direção e equilíbrio. Pequenas inclinações determinam o percurso, e cada gesto define o trajeto seguinte.
Com o tempo, o olhar aprende a medir espaços, calcular aproximações e sentir a resposta imediata das correntes. Esse exercício desenvolve confiança, pois exige decisão rápida e consciência plena de cada movimento.
Ao concluir essa parte do treinamento, todos entendem algo essencial: dominar essa passagem rente ao mundo não representa queda, mas habilidade. É a demonstração de que controle e liberdade podem existir no mesmo instante.

5º módulo: o equilíbrio suspenso

Neste momento do percurso, surge um exercício inesperado: permanecer quase imóvel diante da imensidão. Depois de aprender aproximações rápidas e trajetórias próximas à superfície, agora o desafio consiste em sustentar-se diante do fluxo invisível que atravessa o espaço.
A prática exige sensibilidade. Em vez de avançar ou descer, o corpo precisa dialogar com aquilo que sopra ao redor. Pequenos ajustes nas asas mantêm a posição, enquanto o olhar permanece atento ao menor sinal do ambiente.
Gradualmente, cada participante descobre que existe uma forma de quietude dentro do próprio movimento. Nada parece avançar, porém tudo continua vivo: vibração, corrente, respiração do céu.
Quando essa experiência se consolida, surge uma compreensão rara. Permanecer suspenso não significa interrupção da jornada; trata-se de um domínio sutil, onde estabilidade nasce da atenção constante e da confiança no fluxo invisível que sustenta o voo.


6º módulo: princípios de Nefologia aplicada ao voo

Neste módulo, o estudo volta-se para aquilo que se forma lentamente sobre as cabeças dos viajantes do ar. As nuvens deixam de ser apenas cenário distante e passam a funcionar como sinais que revelam o comportamento da atmosfera.
Os participantes começam observando os delicados Cirrus, fios claros que atravessam as regiões mais elevadas e muitas vezes anunciam mudanças nas correntes superiores. Logo depois aparecem os volumosos Cumulus, massas luminosas que se erguem como colinas suspensas.
Também entram no campo de observação os extensos Stratus, que se espalham formando grandes mantos cinzentos, e os densos Nimbus, frequentemente ligados à chegada de chuva. Em certas ocasiões surgem ainda os imponentes Cumulonimbus, estruturas verticais capazes de transformar completamente o comportamento do céu ao redor.
Durante essas análises, outro sinal chama atenção dos aprendizes: a linha clara deixada por algumas aeronaves ao cruzarem altitudes frias. Esse fenômeno, conhecido como Contrail, pode permanecer suspenso por longos minutos, desenhando no firmamento o trajeto percorrido.
Por isso, nesta fase do curso surge uma recomendação importante. Certas marcas no alto podem denunciar o caminho seguido. Quem pretende atravessar grandes distâncias com discrição aprende a observar se o próprio percurso deixa vestígios visíveis.
Quando esse conhecimento amadurece, o céu passa a ser interpretado como um grande livro em constante transformação. Cada formação revela algo sobre o estado da atmosfera, e cada trilha luminosa recorda que até o ar guarda memória das passagens que o atravessam.
Assim, pouco a pouco, o olhar se transforma. O céu deixa de ser apenas um espaço vazio e passa a revelar sinais discretos espalhados por toda parte. Linhas, camadas, formas alongadas ou densas passam a indicar caminhos possíveis, mudanças de direção e até regiões onde convém reduzir a velocidade.
Com o tempo, cada participante desenvolve outra habilidade essencial: antecipar movimentos da atmosfera antes mesmo de senti-los no corpo. Uma pequena alteração no desenho dos Cirrus, por exemplo, pode sugerir correntes mais intensas nas alturas. Já a presença crescente de Cumulus pode revelar áreas onde o ar sobe lentamente, oferecendo novas oportunidades de sustentação.
Durante os exercícios avançados, o aprendizado se torna quase silencioso. Não se trata mais de observar apenas o que está diante dos olhos, mas de perceber relações entre distância, forma e movimento. Cada fragmento no alto passa a funcionar como indicação de rotas invisíveis.